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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

Categoria

Drama Queen

eu remo, tu remas

Errei o caminho três vezes
Cheguei e já não tinha vaga
Rodei e rodei e rodei
Parei
Cabeça apoiada no volante
As pernas já não tinham forças para sair
Saí assim mesmo
Cambaleei
Não entendi uma palavra proferida a mim pelo caixa
20 30 40 129 reais
Posso ter sido roubada
Só queria sair dali
Entrei e sentei
Bebi uma cerveja quase sozinha
Não deixei esquentar. Não dessa vez
Esperei e esperei e esperei
Cada um que passava achava que era você
Um cara careca
Uma mina de dread
Um grupo de amigos nigerianos
Um brother muito doidão
O barulho me incomodava
Segurei bem forte os ouvidos. Feito concha
Acho que fui cantada. Ignorei a investida
Não sei mais se gosto de homem
Sai daqui, disse. Grossa como nunca
Como sempre
O mundo começou a girar
Não tô acostumada com cerveja gelada descendo assim, de uma vez
Quando tava a ponto de sair correndo, me recolhendo
Despontou você
Respirei
As águas rolaram tanto e muito
De alívio
De estar finalmente em casa
Às vezes só o que eu preciso é te dar um abraço
E basta.
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fênix

Todo mundo dorme lá dentro. Um amontoado de corpos etílicos, cansados de extravasar.
Aqui fora sou eu. Como só eu conheço. Peço licença pra lua, que gentilmente ilumina um pedaço de papel amassado de quem não consegue despejar o desespero em pequenas teclas de mensagens rápidas. Precisa do borrar da caneta.
Não me importo com a legibilidade das letras intrincadas, também um pouco bêbadas. Esse é o tipo de carta que não se entrega. Escreve-se pro outro, que existe em si mesmo. Confessa-se exagerado, desnecessário tão necessária e urgentemente que soa até piegas. Brega, talvez.
É pouco o sinal que chega. Mas suficiente pra cumprir com a única missão de fazer rodar o mais triste disco do chico. Dramático. Poético. Real.
A canção que faz mais sentido é tocada inúmeras vezes, tentativa frustrada de derramar mais um pouco de água do mar.
A sofrência vem lá de dentro. Âmago. Como ondas bravas. Ressacas. Contorcendo as entranhas até fazer um nó escoteiro no fundo da garganta. Solta! – Eu peço.
Mas os olhos, já secos, se recusam. Eu respeito. Vai assim mesmo.
O ponto final é libertador. Alívio.
Não há certeza, porém. Tudo ainda continua lá. Lá dentro, aqui fora.
Que não adianta correr pra longe. Não dá pra fugir do que se carrega no peito. Na alma.
Mas agora respiro.
E sorrio. Sincero.
Sofrer é viver.
Viver é bom demais.

Sobre Elena Ferrante e a montanha-russa da vida

Me vi passando por um momento desses meio blá. Faz tempo que não escrevo. Tem muito texto na pasta de rascunhos, mas esses me parecem obsoletos, já não me representam. Com os amigos, a sensação é parecida. Não me leve a mal, os poucos e bons guardo comigo numa caixinha, sempre dentro de mim e a dois passos do whatsapp. Os novos, me empolgaram a princípio. Mas assim como vieram, se foram, meio que desapontados. Desapontada fiquei eu também. Bem mais por culpa minha do que deles. Não sei também o que estava esperando, não sei fazer amizades a essa altura do campeonato. Aqueles, da caixinha, formaram seu caráter junto comigo. Tomaram decisões erradas, com as quais aprendi. Eu também fui de muita ajuda nessa época difícil que chamamos de adolescência. Nossos passos estavam sempre em sincronia. Nossos acertos foram muito comemorados. Muitas vezes com cerveja e cigarros comprados sabe deus como, sem identidade.

Mas até para esses, não sei muito bem o que mais poderia, agora, oferecer. Não muito além de meu rosto velho conhecido, ombros e risadas como ponte para memórias deliciosas, de tempos que não voltam mais.

Sinto como se eu fosse um e.t. dentro do meu próprio corpo. Algo muito parecido com os meus dez anos, quando sangrei pela primeira vez. De maneira muito precoce, surgiram-me seios e pelos e sentimentos que eu nem sabia que existiam. E a vontade de ficar sozinha – essa nunca me abandonou. A diferença é que dessa vez não ganhei flores ou festinha, muito menos parabéns. Não há glamour em tornar-se adulto.

O sangue já escorre por entre minhas pernas há mais de dezessete anos, com uma frequência bem desregulada e acompanhado de dores que meu eu hipocondríaco sempre acha que me levarão à morte – e elas sempre desaparecem, esnobes. E eu tive que aprender a conviver com isso. Novos pontos de gordura também me apareceram, mas, dessa vez, por obra do carboidrato e não pela sabedoria infindável da misteriosa mãe natureza.

Os muitos quilos que ganhei – colocando a culpa na súbita perda de meu pai e de uma cirurgia truculenta de joelho, já em sua função quase normal – nunca mais perdi. E até isso vai ficando mais difícil.

O horizonte não é claro e empolgante, como antes fora. O próximo passo a seguir é no escuro. E dá muito medo. Dessa vez, tem muita coisa em jogo. Os boletos mensais não me deixam mentir.

Sentei no sofá, com uma gata – que era pra ser dócil, mas gosta mesmo é de tentar arrancar o dedão do meu pé – sobre minhas pernas e pensei na vida. E não foi legal.

Veja bem, eu amo estar viva. Agradeço por cada novo meme que deus me dá a oportunidade de ver, eu juro. Mas não devia ser um pouco ou muito mais do que isso?

Uma vez eu contei a uma terapeuta, que meu refúgio era nos livros. Era nesse mundo encantado, nada meu, muito do outro, que eu gostava de estar quando a realidade não me era assim, tão satisfatória.

Mas os últimos livros que li, acredite, foram péssimos. E eu li até o final só porque, diferentemente do que acontece com as dietas, não consigo abandoná-los no meio do caminho. É uma questão de respeito.

Aí, dia desses, acabei parando numa mesa de vinho – quase que por inércia – e uma gente muito interessante que cruzou meu caminho acho que por misericórdia do destino, me recomendou Elena Ferrante. E hoje, depois de um feriado meia-boca, eu senti meus olhos ganharem brilho novamente.

E se um texto bem escrito fez tão bem a mim, então por que raios não faria a você?

Esse post, então, é pra recomendar essa autora italiana meio anônima – ninguém sabe ao certo quem ela é –, cuja obra merece cada centavo de seu contado dinheirinho. Serve também para agradecer essa linda e despretensiosa indicação e, como não poderia deixar de ser, como mais um capítulo desse diário que chamo de blog – porque foi para isso que ele nasceu e foi assim, afinal, que conquistei alguns dos que me seguem.

A vida, minha gente, é essa coisa esquisita mesmo, uma montanha-russa sem freio que, dependendo da curva, faz a gente berrar de felicidade com os braços abertos ou chorar segurando bem forte na barra de segurança, pedindo pelo amor de jesus cristo, para ir um pouco mais devagar. Sem contar as inúmeras vezes que te faz vomitar, né?

Mas é isso que faz dela o bem mais precioso que o mundo poderia ter. Vai entender.

 

Raiva

Realmente me deu vontade de chorar. Não fosse meu orgulho, todo o lamento preso com aperto no meio do peito rolaria, salgado, bochechas abaixo. Acho que seria daquele tipo de choro de criança cansada, que faz bico e barulho e perde até o fôlego, tamanha insatisfação.
Queria ser criança, talvez. Deixar o mar desaguar sem medo de julgamentos. Esperar a mamãe acalmar, acalentar, ninar. Queria dormir. Na mesa de trabalho mesmo. Arrumar um casulo, montar uma cabana.
Queria que a vida desse um tempo. Que desse umas férias. Coisa pouca. Que pudesse trazer apenas alegrias. Por alguns dias apenas, que fosse. Que encantasse ao fazer-me enxergar o mundo como pequenina que fui e ainda sou e sempre serei.
Talvez o problema, enfim, seja eu. Talvez seja mimada demais, talvez esteja cansada demais.
E para segurar, como é que faz?

Eu quero é botar meu bloco na rua

Em versos desprovidos de rima, banhados de rítmica melodia, me recuso a passar pelo mesmo infortúnio que me trouxe até aqui. Tantos parágrafos tingidos de sangue de duas esferas cansadas de chorar. É vomitar verde quando já não se tem nada no estômago. Arranhar-se com pequenos cacos de um relógio estraçalhado, erroneamente culpado pela espera de lhe degustar. Uma vida escondendo maços de cigarro imaginários no bolso das calças fartas de sentar em muretas de cimento solitárias para apenas se lamentar.
Hoje eu acordei com o coração na mão e o celular também. Descartei convites animados e encontros queridos. Andei de um lado pro outro, vestindo pijamas e a imensa vergonha de reconhecer-me no coque mal feito, falta de nutrientes e nicotina nos pulmões.
Esperei mais uma vez, é claro – velhos hábitos são difíceis de expelir, como doloridas pedras nos rins com alergia à buscopan na veia.
Contentei-me, porém, com tylenol. 750. Esborrifei um bocado de licor no siso nascendo e vesti minha coroa de flores. Tão mexicana quanto meu espírito que já foi livre em terras cucarachas. Tranquei a porta, deixando o vício teu descarregado em cima da cama e fui viver o melhor carnaval da minha vida. E este, my dear friend, já não vai ter mais fim.

Felicidade sim

Reconheci a tristeza no olhar baixo, sorriso pesado e caminhar lento. Reconheci-a na lerdeza do teclar, no penteado desajeitado, na falta de se arrumar. Na falta de inspiração, ah, ela estava lá. Não tinha ânsia de mudar, acordar, comemorar. Até o paladar essa maldita sabe como afetar. Então não tinha jantar, não tinha almoçar, mal comia para em pé poder parar.
Era de chorar.
Até que um dia a sorte parece ter vindo visitar. E prometeu para a morte a vida nunca deixar de aproveitar.

Desastre natural

Você foi terremoto, seguido de tsunami, seguido de furacão – que era para ter certeza que havia despedaçado toda minha cidade de vidro.
Não deu tempo de evacuar prédios, casas, artérias e corações.
Não deu tempo de nada.
Correu quem tinha esperança, mas caiu na primeira pedra, primeiro telefonema, primeiro rosto que parecesse com o seu.
Era genocídio sem fim. De todos os meus neurônios, sentimentos, de toda minha vida inventada.Com você.
Não foi fácil, meu caro.
Escutar teu nome.
Conviver com tua sombra.
Ler meus textos. Seus.
Exilei-me, experimentei, refugiei emoções. Controlei.
Chorei quando precisava. Sim.
E perdi a maior parte de mim.
Mudei. Pintei. Cortei.
Trabalhei.
Internei. UTI.
É ridículo contar o tempo que demorou para respirar sozinha novamente.
Desliguei os aparelhos.
E sobrevivi. Pisando em ovos. Catando conchinhas na areia.
Mas aliviei. O pulmão e a cabeça. E cresci.
Hoje ainda chuto pedrinhas da avalanche causada pelo nosso primeiro impulso.
Mantenho intacto o guarda-chuva que me foi emprestado nos dias de sol e tirado em dias de chuva.
Já não me importo com cabelos molhados.
Ainda teimo em colar antigos vasos quebrados.
O velho jogo de tentativa e erro. e erro. e erro. e acerto.
Só assim reconstrui meu império.
Pequeno, mas só meu.
E no caminho de tijolos dourados (acredite!), ainda encontro caquinhos.
Mas ando com vassoura e sacos de lixo sempre à mão.
Que é para jogar fora o que ainda insiste de você.
Para longe de mim.

Referências

Xeretando velhos e-mails – veja bem, o tipo de coisa que não se pode fazer depois da meia-noite, muito menos em dias propícios a procurar no youtube a cara feia do Abujamra (se é que é assim que se escreve) declamando qualquer coisa – que fosse batatinha quando nasce se esparrama (ninguém me convence do “espalha a rama”, coisa mais feia) pelo chão – daquela maneira só dele.
Procurava eu, na verdade, a versão original de um dos textos – publicados neste blog onde escrevo agora – modificados por consideração. (“eu protegi teu nome por amor”, diria cazuza) e terminei a viagem (e a manhã) em baús encontrados bem más allá do continente.
Perdeu-se a terra, o chão.
Em tempos aqueles toda palavra era feita para mim, para nós.
Cada trançar de frases, cada desdobrar de verbos, a escolha perfeita de pontuação.
E o sorriso idiota no rosto.
Aquele que ainda tanto temo e que nunca mais, nem em tempos de dor de amor aguda e (obrigada, devo dizer, ao menos) material para tanto texto drama queen, ousou esboçar-se em minha face outra vez.
Ver poesia em tudo era voar o tempo inteiro, suscetível a qualquer rajada de vento, vendaval.
Para dizer “oi” escrevia-se “O Livro do Desassossego” quase, eu te juro.
Eis o mal do relacionamento à distância. Do meu relacionamento à distância.
O meu escrever que não sabe ser conciso – que se médico fosse, receitaria apenas amor em letras legíveis, mesmo quando em estado terminal.
Era um e-mail de desculpa, que virou e-mail de promessa, que virou obra de terror. E a literatura do perdão foi que perdeu-se, e até hoje não sei quem devia o quê, a quem.

Já empurrando com a barriga, sabendo da decisão errada de caminhos tortuosos e medo do ponto final, encontrei em Marshall Berman minha resposta, minha vida. E a enviei por e-mail, inteira. Que era para ver se o alguém me salvara. E morri.
“Os acontecimentos se precipitam; o filho de Gretchen morre, ela é lançada no cárcere, julgada como assassina e condenada à morte. Em uma derradeira cena de forte comoção, Fausto vai à sua cela no meio da noite. De início, ela não o reconhece. Toma-o pelo carrasco e, num gesto insano mas terrivelmente apropriado, oferece-lhe o próprio corpo para o sacrifício derradeiro. Ele lhe jura seu amor e tenta convencê-la a fugir com ele. Tudo pode ser arranjado: ela necessita apenas caminhar até a porta e estará livre. Gretchen se comove, todavia não se moverá. Alega que o abraço de Fausto é frio, que ele em realidade não a ama. E há alguma verdade nisso: embora ele não queira que ela morra, tampouco gostaria de voltar a viver com ela.” – Tudo que é sólido desmancha no ar.

[assim mesmo, grifado]

E o passado se desfaz também assim, veja só. Ainda há coerência na luz enxergada com lentes nebulosas, tateando o chão do inferno, revestido de pedregulhos pontudos. Perigoso.
Faz-se febre no rosto novamente. Pega fogo. Queima. Alucino.
Goethe mais uma vez faz sua mágica.
Era só uma lembrança, menina, calma.
A janela abre. O corpo respira.
Fecha o computador e vai dormir.
De novo. E para sempre.
Pelo menos dessa vez.

Fundidos

*texto baseado em lembranças sonadas de uma vida inventada e no romance Febre, de Renato Essenfelder – cuidado, leitores: pode conter spoilers

……..

Talvez ele tenha se matado, pensei.
Talvez fosse eu, naqueles tempos, tivesse me matado também.
Senti vergonha, porém.
Confesso que também cheguei aos mais de quarenta graus, que perambulei cabisbaixa, moribunda.
Também repassei, como fosse um filme, todos os detalhes, pequenos diálogos, grandes mentiras.
Homem suporta menos a dor.
Não fosse fêmea, provável também implorasse.
Implorei, talvez.
Tentei, tentei.
Marquei encontros em lugares nossos. Praças.
Usei de um tudo de desculpa.
Fui embora chutando pedrinhas. Descalça.
Tentei odiar também, assim como ele, igualzinho.
A profissão. A arrogância. O sabe tudo. Porque sabia mesmo. A inteligência.
Mesmo usando eu palavras difíceis também. Também soberba.
Maldisse com todo desdém que cabe apenas àqueles profundamente apaixonados.
Amar é isso. É odiar até as melhores qualidades.
Por saudade.
E foi isso que fez.
Que quase fiz. Que fazemos todos, oras bolas.
Porque o amor não é apenas bom quando correspondido, não, veja bem.
A dor de amor é um cutuco na alma, é febre que pulsa sem motivo algum. São veias que queimam a qualquer indício de passo, pensamento ou respirar.
Sofrimento são palavras bonitas descritas com raiva de afeto. Desilusão é vida. São sentidos aguçados, agudos, momento único paradoxal aos pequenos e raros segundos de plena felicidade, quando nunca se é mais intenso.
Não deslizar aos prantos no box do banheiro, não debulhar-se em posição fetal, não sujar de rímel o travesseiro, meu amigo, é apenas sobreviver à mediocridade do cotidiano.
As pílulas, então, pequenas bolinhas de salvação, seriam talvez a maneira de seguir remoendo, revivendo, delirando. A única maneira de seguir filosofando. Com maestria.
O jeito de continuar escrevendo.
Sofrer por amor é dominar um tema.
Mas entregar-se pode ser loucura.
Loucura é comprar anel, é optar por ficar.
Nunca seja a que ama mais, aconselha minha avó.
Mas somos teimosos. E buscamos a dor.
Sabíamos que o não seria não.
Perguntamos pelos motivos errados, preocupados com a ínfima possibilidade de um sim.
Errôneo.
E caímos porque é só assim que funcionamos.
Perdidos. Metades. Feridos. Dramáticos.
Em busca de cura que leve nome próprio, que mascare a ressaca com mais um porre.
Que é para levantar do fundo do poço. E começar tudo de novo.

 

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