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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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Não faz sentido

Madrigal

É novo, é diferente, é azul.
Clarão no meio da nuvem preta. Espessa, horrenda.
Mas é claro que não é simples. E precisa entender sinal de fumaça.
Desvenda, descobre, confunde-se.
Funde-se. Inunde-se. Nude-se.
Meça-se. Interessa-se. Prega-se.
Convença-se. Pensa-se. Unge-te.
Questiona-se. Apaixona-se. Esqueça-se.
Finja-se. Deixe-se. Beije-se.
Fecha-se. Abra-se. Voe-se.
Ecoe-se. Sorria-se. Imagina-te.
Realiza-se. Acredita-se. Age-se.
Mexa-se. Declare-se.
Case-se. Seja. Feliz.

Convulsa

Pisei na bosta enquanto era apunhalada pelas costas
depois de um momento constrangedor
e um teste de caráter/camaradagem/mesmo time
meio que hétero, meio que gay
porque na hora h bem capaz que pegasse a Maria Gadú
meu gosto musical é muito lésbico
mas gosto de homem, desculpa
e obrigada por me ouvir mesmo que indo embora, mesmo que ficando
que não me deixaria sozinha chorando, esperando
e ri e chorei
e chorei enquanto ria
porque a vida é um mar de sentimentos complexos, vazia
que só quando criança é mais mágico de lidar
ainda tenho medo de palhaço e da gargalhada que com ele posso dar
e fazia tempo que a inspiração aparecia, foi só hoje, na mesa de bar
e chega de rima, que o caminho é para cima e é bem lá que a gente vai chegar
os 26 tão chegando
e eu achava que com 30 o primeiro Emmy já tava na manga
se consigo uns trocados pra breja já é felicidade, e é essa que conta?
reagi bem a uma notícia má
e mais fácil no espelho foi de me olhar
reconheci a menina que ali ainda habita
que dá dois passa para frente, mais ainda hesita
saída da fossa, inteirada na moda
mas só o que quero ser é FODA
eu sou eu e eu sou você
e se não houver mais ninguém
a gente se tem
então, só por hoje, te peço: fica bem?

Muda

Lições que apenas uma semana sem voz pode ensinar:

1- não adianta competir. não ganha a discussão quem tem o melhor argumento, mas quem fala mais alto.
2- não vale a pena forçar a voz por coisas pequenas ou sem importância.
3- dá para passar pela vida, tranquilamente, sem falar muita coisa. muita mesmo.
4- seria legal perder a audição parcialmente por uma semana também. sem poder falar, a gente ouve tanta merda.
5- pensar antes de falar faz, realmente, muita diferença na vida. em muitas vidas.
6- deixar de falar evita brigas.
7- a falta da fala aguça outros sentidos.
8- identifica-se a sensibilidade de quem consegue te entender pelos olhos.
9- é preciso paciência. sua e dos outros. muito mais dos outros do que sua.
10- é possível dizer ‘obrigado’ com um sorriso.
11- é possível desculpar-se com o franzir do nariz e da testa.
12- é possível dizer qualquer coisa. qualquer. por expressões faciais.
13- é possível entender também.
14- todos aqueles anos jogando Imagem e Ação realmente me foram muito úteis.
15- nem todo mundo jogou Imagem e Ação na infância. desses eu desisto.
16- amigo mesmo é aquele que oferece ser-te a voz. para qualquer assunto.
17- jornalista sem voz é maratonista manco.
18- nem tudo se resolve por e-mail.
19- a voz do Google Tradutor não serve apenas para pedir pizza. mas é engraçada em qualquer situação.
20- não poder cantar no carro faz o caminho ser mais longo.

De mentirinha

Sento para fazer xixi e finjo ser entrevistada por Marília Gabriela (a versão do GNT). Uso tailler estilo Sandra Bullock em “A Proposta”, estou gata. Cabelos soltos e cacheados. Morena. Bem maquiada, porém suave. Iluminada. Linda.
Falo com graciosidade e de maneira extremamente natural. Divago sobre meus grandes feitos, documentários, matérias, prêmios e sobre o quão incrível sou.
A entrevista é maravilhosa. Acredite ou não, Gabi (como a chamo) escutou belíssimas coisas sobre minha pessoa.
Levanto e entro no banho. O entrevistador agora é Jô Soares. E eu sou demais. Viajei o mundo e relatei tudo aquilo de mais maravilhoso em vídeo, em livro, em blog. em tudo. Porque eu sou Incrível. Jô ri de todas as minhas piadas, resolve me entrevistar por dois blocos seguidos e a plateia toda grita em coro quando é anunciado meu momento de partir. Prometo voltar e nos abraçamos.
Me enxugo enquanto disponho um pouco do meu tempo para conversar com Ellen (essa mesmo, a DeGeneres). Em inglês. Sou roteirista de seriados americanos. E tenho uma ONG, claro. Meu último namorado foi Leonardo DiCaprio, mas no momento estou dando um tempo, fechada para balanço, casada com meu magnífico e super bem feito trabalho. Não será difícil, porém, voltar à vida amorosa. Todos me querem.
Oprah, mesmo aposentada, me entrevista e se espanta ao ver que apesar de ter sido considerada a mulher mais bonita do ano sou muito inteligente e de verdade me preocupo com a paz mundial.
Não preciso nem comentar o quão galanteador foi David Letterman, não?
Termino de me vestir agradecendo a Jimmy Fallon pelo excelente programa que gravamos juntos. Aceno para a plateia, mando beijos, distribuo autógrafos, tiro fotos.
Fecho a porta do banheiro.
Deito na cama, de pijama, quentinha, e durmo feliz.

Referências

Xeretando velhos e-mails – veja bem, o tipo de coisa que não se pode fazer depois da meia-noite, muito menos em dias propícios a procurar no youtube a cara feia do Abujamra (se é que é assim que se escreve) declamando qualquer coisa – que fosse batatinha quando nasce se esparrama (ninguém me convence do “espalha a rama”, coisa mais feia) pelo chão – daquela maneira só dele.
Procurava eu, na verdade, a versão original de um dos textos – publicados neste blog onde escrevo agora – modificados por consideração. (“eu protegi teu nome por amor”, diria cazuza) e terminei a viagem (e a manhã) em baús encontrados bem más allá do continente.
Perdeu-se a terra, o chão.
Em tempos aqueles toda palavra era feita para mim, para nós.
Cada trançar de frases, cada desdobrar de verbos, a escolha perfeita de pontuação.
E o sorriso idiota no rosto.
Aquele que ainda tanto temo e que nunca mais, nem em tempos de dor de amor aguda e (obrigada, devo dizer, ao menos) material para tanto texto drama queen, ousou esboçar-se em minha face outra vez.
Ver poesia em tudo era voar o tempo inteiro, suscetível a qualquer rajada de vento, vendaval.
Para dizer “oi” escrevia-se “O Livro do Desassossego” quase, eu te juro.
Eis o mal do relacionamento à distância. Do meu relacionamento à distância.
O meu escrever que não sabe ser conciso – que se médico fosse, receitaria apenas amor em letras legíveis, mesmo quando em estado terminal.
Era um e-mail de desculpa, que virou e-mail de promessa, que virou obra de terror. E a literatura do perdão foi que perdeu-se, e até hoje não sei quem devia o quê, a quem.

Já empurrando com a barriga, sabendo da decisão errada de caminhos tortuosos e medo do ponto final, encontrei em Marshall Berman minha resposta, minha vida. E a enviei por e-mail, inteira. Que era para ver se o alguém me salvara. E morri.
“Os acontecimentos se precipitam; o filho de Gretchen morre, ela é lançada no cárcere, julgada como assassina e condenada à morte. Em uma derradeira cena de forte comoção, Fausto vai à sua cela no meio da noite. De início, ela não o reconhece. Toma-o pelo carrasco e, num gesto insano mas terrivelmente apropriado, oferece-lhe o próprio corpo para o sacrifício derradeiro. Ele lhe jura seu amor e tenta convencê-la a fugir com ele. Tudo pode ser arranjado: ela necessita apenas caminhar até a porta e estará livre. Gretchen se comove, todavia não se moverá. Alega que o abraço de Fausto é frio, que ele em realidade não a ama. E há alguma verdade nisso: embora ele não queira que ela morra, tampouco gostaria de voltar a viver com ela.” – Tudo que é sólido desmancha no ar.

[assim mesmo, grifado]

E o passado se desfaz também assim, veja só. Ainda há coerência na luz enxergada com lentes nebulosas, tateando o chão do inferno, revestido de pedregulhos pontudos. Perigoso.
Faz-se febre no rosto novamente. Pega fogo. Queima. Alucino.
Goethe mais uma vez faz sua mágica.
Era só uma lembrança, menina, calma.
A janela abre. O corpo respira.
Fecha o computador e vai dormir.
De novo. E para sempre.
Pelo menos dessa vez.

“Febre” na mão e sorriso no rosto

Quando soube que teria a possibilidade de folhear páginas e páginas daquelas belas, inteligentes, pensadas e sutis combinações de palavras, enlouqueci.
Torci muito pelo projeto, pelo autor, pelo talento que viraria sucesso.
Mas quando a espera ganhou vida, nome, cor, textura e preço, eu estava longe.
“Você pode comprar pela internet”, me diziam. Mas os correios do México são terríveis e só deixaram passar cartas de minha mãe porque o santo dela é forte e porque recado de mãe (convenhamos) é até pecado barrar.

No Brasil, tentei a livraria mais próxima. “Não tem, senhora!”
Entrei no site. Saí do site. Entrei no site. Saí do site. Entrei no site.
“Para efetuar a compra, clique aqui.” Cliquei. “Opção inválida.”
“Como assim, meu senhor?”
A máquina nunca me respondeu.
Deixei para lá. “Depois eu vejo isso”, pensei.
“Só vende na livraria tal”, me contaram. Fui.

– Ixi, senhora, não tem.
– E não dá para ver no sistema se tem em outra loja?
– Ixi, senhora, o sistema não está funcionando para ver outra loja.
– E se eu der uma volta? Você acha que ele volta a funcionar em quanto tempo?
– Ixi senhora…
– Ixi digo eu, moço.
– Mas a senhora pode verificar pela internet e efetuar a compra por lá mesmo. Chega direitinho na sua casa.

Lá vem essa tal de internet de novo. É cômodo e prático, eu sei. Mas a felicidade de comprar algo é exatamente trocar, naquele imediato momento, notas e moedas por algo palpável, tangível. Algo meu. Novo. Lindo. Escolhido a dedo.

Quer coisa mais chata que ver o saldo da conta diminuído e em vez de poder aproveitar o desejado produto, ganhar a necessidade de conferir o itinerário da encomenda? Eu, hein.

– Bom dia, moço.
– Oi, senhora. Achou o que procurava lá na internet?
– Não achei não, moço, Hoje o sistema está funcionando?
– Tá sim!
– Então checa aí pra mim!
– Olha, tá dizendo que na av. Paulista tem…
– Que horas fecha lá?
– Ixi, senhora, fecha daqui a 20 minutos. Não dá tempo de chegar lá não.
– E não dá para reservar o livro pra mim?
– Ixi…

Sábado de chuva. Avenida Paulista. Conjunto Nacional. 10h da manhã.

– Oi, moça. Bom dia. Vem cá, tem esse livro por aí?
– Diz aqui que o livro chegou em agosto e que ainda tem um exemplar, mas não sei se tem não. Vou procurar.
– Por favor!

A moça sumiu, evaporou. Mergulhou no mundo das prateleiras ordenadas com e sem sentido. Na minha prateleira particular, imaginária, seções de emprestados, presentes, comprados, favoritos, abandonados, na fila para serem lidos e aqueles que nunca mais serão folheados.
Caminhei junto a ela. Capas, fontes, letras, desenhos, fotos, grossos, finos, feios, bonitos, best sellers, dietas da moda, dor de amor, finais felizes, autoajuda, empreendedorismo, qualquer coisa for dummies, clássicos.

Na ponta dos dedos, diferentes texturas. Som de silêncio e procura por títulos. Olhos atentos. Cheiro de páginas e páginas e páginas. Velhas. Novas. Brancas. Amareladas.

Novidades em formato de sacolas, marcadores, canetas e cadernos.

No caminho, crianças entretidas com figuras. Jovens sentados em aconchegantes poltronas. Fones no ouvido. Livros nas mãos. Cheiro de café, atmosfera de leitura. Pessoas interessantes, interessadas. Felizes. Experiência que não dá para trocar por virtual nenhum. Por mais fácil que seja.

– Acabou.
– Como assim, “acabou”? Você não falou que no sistema dizia que tinha um?
– Pois é.
– Pois é o quê?
– O sistema dizia. Mas é que a internet não funciona direito às vezes…
– É mesmo? Não me diga!!! Moça, sério mesmo, eu preciso desse livro!
– Que cor é a capa?
– Vermelha!
– Ok!
– Ou azul!
– …
– Acho que é meio bege. Com azul. E vermelho. E tem meio que uma figura. Sabe, meio assim…! Ah, talvez seja meio roxa!
– Senhora…
– Quer que eu procure na internet?
– ….
– Não é esse não, moça, olha aí o título. Esse título é ruim, né?
– Acho bonitinho.
– …
– É esse?
– não!
– Ai, moça. Sinto muito.
– Não, não. Tudo bem! Acho que vou comprar pela internet mesmo.

Fiquei um tempo ainda por ali. Meio cabisbaixa. Vencida. Tentando achar algo empolgante para iniciar uma nova leitura enquanto esperaria pelos correios. Malditos correios. Presente de amigo secreto talvez. Quem sabe receitas diferentes ou até mesmo aquele volume gigante, teórico e chato, porém útil…

– Acheiii!
– …
– Moça! Moça! Achei!! Tava escondidinho lá! Mas tá aqui, pronto pra levar para casa!

Nem acreditei. Folheei. Abracei. Quase beijei a capa que, de fato, é meio bege, meio cinza, meio azul, meio verde, meio vermelha, meio roxa e que tem uma figura mesmo, meio assim…!

– É débito, moço, por favor!
– Ixi! Estamos sem sistema, não tá aceitando cartão.

A compra “foi efetuada com sucesso” da maneira mais arcaica possível. Na loja física. Com dinheiro vivo.
Agora, só falta o autógrafo.

Mesmo sem sentido

Já não encontro com amigos. Estou cansada. Dá preguiça de ir longe. Ou perto. Só preparar mesmo alguma coisinha em casa. Mas vai até que horas? Eu acordo cedo. Cedo? Eu tenho é que madrugar para dar conta de fazer exercício físico. Sabe como é…qualidade de vida. Qualidade de quê? Isso não pode ser vida.
A gente tem muito papo para colocar em dia, mas puta que pariu, você mora em São Bernardo. E eu tô sem habilitação. Poderia dormir na tua casa. Mas e a minha cama? Virei velha, preciso do meu travesseiro. Cadê a menina que dormia até em pedra? Voou. Morreu. Talvez nunca tenha existido. Às vezes eu acho que fui adolescente só por obrigação. Mas que minha vontade sempre foi ficar em casa assistindo ao Jô e comendo doce.
Aí não sabe porque ficou gorda. E reclama. E acorda às 5h da manhã para queimar a banha. E fica cansada. E não sai com os amigos. Porque tem sono. E reclama. E tudo virou longe, mesmo quando perto. É tudo muito congestionado. E perigoso. De que perigo a gente foge? Quer risco maior que não viver a porra da vida? A gente ganha dinheiro. Dorme oito horas por noite. Corta o carboidrato da dieta. Corre. E pra quê? Pra quem? Pra mim é que não é. E você? Pra quem que é? Quem é? Quem quer ser? É essa mesmo a vida que queria estar levando?
Vivos por fora e mortos por dentro. Caminhando sem querer estar. Chutando pedras no caminho. E que caminho… Cadê a paisagem? Muda então, faz alguma coisa, vai vender coco na praia. Se joga no mar. Pra limpar. Limpa a casa, sacode a poeira, varre a imensidão de desgosto, que o gosto, eu juro que vem. Come um brigadeiro de vez em quando. Pastel. Guaraná. Feijoada. Capricha na salada também. O que é que tem?
E corra sim. Mas saia. Divirta-se. Toma um energético. Que o sono a gente compensa na eternidade. E enquanto estamos vivos. Enquanto não somos mortos. Enquanto não nos matamos. Vivamos.

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