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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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Quem conta um conto aumenta um ponto

Eu Android, você iPhone

Te conheci numa dessas festas em que eu não deveria estar.
Conversando com gente desinteressante e bebendo um drink cujo nome jamais saberei pronunciar, mas que tinha um sabor meio assim, de amora, que me fez repensar todo álcool de pouca ou nenhuma qualidade que passara por meu sistema digestivo nos últimos 24 anos.
Fingi gostar de bandas que não conhecia, mas que não eram, de todo, desagradáveis aos ouvidos.
Lembrei dos amigos que gostaria que estivessem ali e até pensei em me juntar a eles depois das 12 iminentes badaladas do relógio. Porém, me apetecia mais voltar para o conforto do meu lar e, finalmente, terminar a quarta temporada daquela série chata, mas que me sinto na obrigação de assistir. E repensei minha ideia de vida social.
Quando foi que me tornara aquela pessoa?
Acendia o terceiro cigarro seguido, daquele que eu prometi parar de fumar cinco horas antes, mas recusei o enroladinho de salmão gourmet, mantendo-me fiel à dieta restrita que havia sido quebrada no passear da bandeja de bolinhas de queijo, enquanto resolvia parar de tentar fazer-me atraente de algum modo.
Os cinco dedos de raiz escura de um cabelo que deveria ter cor de cenoura, mas a genética não quis, passavam uma impressão de desleixo que cinta redutora de medidas nenhuma seria capaz de amenizar.
Quando você chegou, de uma das taças de vinho estampadas em minha saia de cetim azul saía uma leve fumaça, resultado do descuido bêbado de drink impronunciável de amora na hora de bater as cinzas do meu vício, agora descontrolado. Eu tentava, sem sucesso, disfarçar o desespero de ter engasgado com o palito irresponsavelmente colocado na terceira mini coxa-creme que degustava quando disse “sim, claro, te empresto o isqueiro” – provavelmente com palavras menos inteligíveis – e nem reparei que seu rosto parecia o céu.
Olhei para as estrelas sem esperança nenhuma de salvar aquela noite e me encantei tanto com o rastro que a lua levava ao seu redor que respondi de qualquer jeito a qualquer pergunta que me fizera sobre o clima e sobre como levamos conversas de elevador para nosso cotidiano sem nos envergonhar disso.
Quase não entendi que era uma piada, mas ri pela força do hábito mesmo assim. Foi aí que vi o teu escancarar de dentes feitos de nuvem e lábios macios como algodão. Pensei na saia pegando fogo, no  cabelo cor de água de salsicha em um fundo preto, estilo Romero Britto. Tentei botar a cinta no lugar me arrependi pelas decisões tomadas resultantes em bafo de cigarro com resquícios das mais variadas frituras consumidas e tive a certeza de ser tarde demais.
Mas você, com seus muitos centímetros a mais que eu, cabelos bagunçados de uma forma misteriosamente ordenada e uma camisa que, despretensiosamente, mostrava braços naturalmente definidos pela mesma genética que me apunhalara pelas costas, parecia não ligar para nada daquilo.
O cheiro mentolado que saía de sua bituca me fizera entender tudo: gay. Mas falou de como a ex gostava dessas festas chatas e como isso tinha sido crucial para o término do relacionamento e aí eu já não entendia mais nada.
Quando revelou sua facilidade com números já me imaginei impressionando meus amigos de humanas com um acompanhante que dividiria as contas do bar sem irritar o garçom, de cujo trabalho também faz parte – infelizmente, para ele – esperar pacientemente enquanto mais de dez jovens com dificuldades numéricas tentam entender quem tem que pagar quanto, para quem, por que, onde, como…
Enquanto divagava em vírgulas e zeros à esquerda, que representavam com exatidão o triste retrato de minha conta bancária, você me chamou para sair. E eu demorei para compreender. “tá quente aqui, né? me cairia bem um ar-condicionado agora” não é bem um convite. Está mais para mais uma daquela conversa de elevador típica de quem segura o riso  de larica da boa enquanto o vizinho carrega, um pouco constrangido, duas cheirosas caixas de papelão que levam em seu interior toda a felicidade do mundo sabor marguerita.
Considerando a irremediável oleosidade de minha pele, até pensei que o comentário sobre um lugar mais fresco pudesse estar se referindo à luminosidade não-intencionada que se assenta bem no meio da minha testa, quase como um foco de luz indiano, remetendo ao chakra frontal, terceiro olho de suma importância se eu praticasse kriya yoga às três da tarde de sol enquanto pego o ônibus lotado para chegar ao trabalho que não amo, mas também não odeio.
Aquele drink meio de amora misturado com Sprite, que me fez questionar meus hábitos alimentares, realmente fazia efeito, porque, quando vi, poucos passos faltavam para chegar à porta de saída daquela festa chata, cheia de gente metida na qual me meti acho que só para conhecer você.
Não sei dizer onde estava, mas o hambúrguer era bom para cacete e, sem me perguntar, você pediu uma porção de fritas com muito cheddar e bacon. Não tive tempo, nem coragem de dizer que eu, na verdade, era um tipo de espécie boêmia esquisita que não liga muito para batata frita, preferindo mil vezes porções de pastel, bolinhos de todos os tipos e até mandioca, se mandioca tiver. Meu petisco favorito, na verdade, é coração de galinha. Mas me dói saber a quantidade de galinhas que tiveram que morrer para eu poder aproveitar uma porção farta – talvez umas 20?
Quando criança, frequentava churrascarias e me emocionava ao ver chegar, quentinho, aquele espeto recheado de pequenos pedaços de felicidade. Quando descobri do que se tratava, fiquei anos sem consumir aquele alimento, mas algo em mim não estava completo. Hoje, com o coração na mão e muita parcimônia, me deixo degustar a iguaria em eventos especiais, sempre com muito respeito aos sentimentos aviários.
Mas o cheddar e o bacon estavam bons para cacete e eu comi batata frita como se fosse coração de galinha, mas sem ter que matar nenhuma galinha sequer para aproveitar uma farta porção.
Lembro-me de rir muito e de acreditar em deus, coisa que há muito não acontecia. É possível que alguém tenha colocado um pingo de substância ilícita em minha bebida quase roxa de amora que devorei com canudinhos verdes na festa chata. Porque a enormidade de respostas que obtive da vida aquela noite não me parece ser normal para um organismo, mesmo que cósmico, sóbrio. Se alguém souber o nome de tal substância, por favor, me diga, porque, só para deixar claro, não estou reclamando dos efeitos.
Em algum momento tive que fazer xixi. O espelho não me mostrava uma imagem agradável e tive a certeza de que conversara com restos alimentícios nos dentes por pelo menos quarenta minutos, sem perceber. Mas nem isso seria capaz de me parar, não àquela altura do campeonato.
Voltei à mesa onde estava você, sorrindo meio sem graça, eu juro que não sei de quê, sem nem ligar para cinta ou saia ou cabelo de Romero Britto desgrenhado. A conta já estava paga – será que falei de meu extrato bancário em voz alta? – e você me estendeu a mão como se eu já soubesse exatamente o que ia acontecer.
Fazia tempo que homem nenhum me abria a porta do carro. Não que eu sinta falta desse tipo de gesto. Acho que fico até meio sem saber o que fazer, se posso aceitar, se é feminista de minha parte, se tudo bem ou tudo mal, se devo me esconder, bater o pé, fazer discurso igualitário ou se posso só agradecer, sorrir e seguir.
Para ser bem sincera, não me lembro ao certo por qual dessas saídas optei, mas foi a correta para aquele momento, porque quando dei por mim já não vestia minhas roupas, mas não de uma maneira constrangedora. Me sentia livre e empolgada por livrar-me de tanto pano em um dia tão quente e de tanta novidade maravilhosamente regada a bebida roxa e cheddar e bacon e bolinha de queijo e um moço bonito de dentes de nuvem e lábios macios como algodão.
A fusão de meus cabelos desgrenhados com sua barba proposital e perfeitamente por fazer resultou em horas de montanha-russa norte-americana, daquelas aproveitadas por crianças e pré-adolescentes de classe média alta que não têm ainda noção do privilégio que têm em relação a mais de três quartos da população que jamais terá a oportunidade de se divertir de tal maneira.
Não que as brincadeiras de rua, pipa, bola, pega-pega, esconde-esconde não tenham sua graça. Mas só quem já sentiu o cheiro gringo do aeroporto de Orlando e esperou por horas na fila cheia de distrações de uma atração da Disneylândia sabe o frio na barriga que dá quando o funcionário que não fala seu idioma dá dicas de segurança e você não sabe muito bem se a trava da sua cadeira está suficientemente presa e se você corre o risco de cair de lá de cima como um saco de batatas pesado, sem cheddar nem bacon, para acabar sua vida como fumaça de uma cinza mal batida de um cigarro fumado por pura falta de força de vontade, mas aproveita o passeio mesmo assim, porque o desespero agoniante da adrenalina que corre nas veias vale a pena, como nunca antes.
E eu fiquei com medo de engravidar. Não me lembro se tinha camisinha. Mas imaginei o rosto daquele fruto que nasceria de meu ventre com suas covinhas sutis e nome chique. Chamaria Theodoro, talvez, se menino. Se menina, Antonella ou Antonieta. Antonieta Bertram, esses nomes de gente que já nasce fadada ao sucesso, à fama, à riqueza. Que Antonella nenhuma se vê jogada às traças, vestindo roupas sem marca ou preocupada com a cinta modeladora, com a raiz escura do cabelo ou  com o fato de comer mais bolinho de queijo do que o recomendado pela nutricionista holística.
Deitei ao seu lado e o teto que, graças ao bom deus, não tinha espelho, transformou-se em miragem de conto de fadas. A cor creme meio bege, meio cor de burro quando foge, meio abajur cor de carne, meio sem graça, era pradaria verde-limão em que lindos veados, raposas e búfalos corriam sem se preocupar com extinção ou predadores ou alimento. Um mundo novo feito do zero em que todas as espécies eram amigas e todos os amigos eram leais, diferentemente daquela vaca, que traiu minha confiança quando eu menos esperava. E por conta dela fui parar naquela festa chata de drink de amora cheio de substância ilícita e onde conheci o amor da minha vida. No caso, você.
Vestir-se, depois de despir-se, não é, exatamente, a situação mais confortável que quem não ama em absoluto seu próprio corpo pode passar. Aqueles três pulinhos que tem que dar para fazer a meia-calça entrar não devem ser bonitos nem quando reproduzidos pela modelo mais linda do mundo das modelos. Mas sair pelada me pareceu um pouco mais estranho, então me joguei na ideia de fingir que não ligava e agi com a naturalidade que tenho, a mesma de quando disfarcei, sem sucesso, não estar engasgada com o palito da coxa-creme.
Quando você me pediu para anotar meu número em seu celular, não contive a alegria, mas também não pude deixar de notar que usava um sistema iOS do qual eu, em minha ignorância Android, não sabia muito bem manejar.
Já tive iPhone, quando começou a ser moda. E confesso que não tinha problemas ou sugestões a acrescentar, mas a bateria que passou a durar pouco, a memória pior que a minha, que não me deixava nada registrar, começou a me tirar do sério. Na hora de comprar outro aparelho, o dinheiro para uma nova obra de Jobs poderia servir para pagar muitas parcelas do meu cartão de crédito estourado de luxos como sobreviver, então parti para outro mundo, um universo sofredor de muito preconceito, mas que aceita cartão de memória e que fica ligado o dia inteiro.
Minha vida mudou. Comecei um movimento militante de esquerda, defensor dos direitos dos oprimidos. É claro que as minhas fotos ficam tão boas quanto às suas, vítima do consumismo desenfreado. Olha só quantas curtidas tive no Instagram!
Meu touch é tão bom quanto o seu e… ai, deus, como faz para mexer nisso mesmo? Será que o sistema iOS é tipo a roupa do rei? Só os escolhidos por Steve conseguem lidar. Entrei na sua agenda de contatos ou isso é sua conta corrente? Quanto número, meu deus.
Não sei se foi o drink roxo ou as voltas na montanha-russa, mas acho que me deu um leve enjoo. Apertei mil botões como quem está preso no elevador com vizinhos que não gostam de falar sobre amenidades, como o tempo. Acho que modifiquei o contato da sua mãe. Os primeiros quatro números são meus, os últimos cinco são dela. No complexo de édipo, é sempre o progenitor que ganha mesmo.
Me embananei toda e o frágil aparelho escorregou da minha mão. Enquanto a tela rodopiava com a palavra “mamy” estampada de brilho intenso, meus desengonçados dedos tentavam, em vão, salvar o dia. Berrei por dentro, rasguei a saia, vomitei bolinhas de queijo com gosto de amora, baguncei o cabelo e perdi, janela abaixo, os poucos cigarros que me restavam. Enrolei a cinta bege, enfiei o resto da dignidade na bolsa e, saída de minha bolha de ilusão e fantasia, encarei o ponto de ônibus lotado de gente desinteressante que toma bebidas de má qualidade e conversa sobre amenidades fora do elevador.
Terminei a quarta e a quinta temporada da série chata, sobre a qual não serei capaz de comentar em minha vida social inexistente, busquei na internet do meu Android receitas roxas de bebidas ilícitas, mas ainda não consegui atingir a perfeição daquela combinação de ingredientes eximiamente selecionados pelas pessoas metidas daquela festa chata na qual te conheci e te ganhei.
Passei por diversas vezes na frente do ponto de ônibus lotado de gente desinteressante e busquei desesperadamente por um pedaço de iPhone no meio da rua, onde passavam carros, dirigidos por homens que já não abrem portas a moça nenhuma, mesmo quando de cinta modeladora e cabelo moldado pela genética e não pintado de quadro brega, como o meu estava naquele dia em que te perdi.
A vida seguiu correndo como uma gazela em pradarias verde-limão, enquanto eu lamentava minha falta de sorte, mesmo na sorte, no caminho para o trabalho que não amo, mas também não odeio.
Steve Jobs morreu, mas o produto de design incrível e tecnologia revolucionária seguiu atraindo malucos vítimas do consumismo desenfreado que lotam fachadas de lojas brancas, enfeitadas com uma maçã mordida às cinco horas da manhã de uma segunda-feira gelada para serem os primeiros a ter acesso às novidades de lançamentos que em pouquíssimo tempo se tornarão obsoletos.
Pensei em você e em como, por uma bobagem, jamais voltarei a ver dentes tão de nuvem e lábios tão de algodão. Procurei-te em muitas barbas não tão perfeitamente por fazer, mas me contentei com uma nova dieta, que não exclui bolinhas de queijo quando em fumódromos de festas que eu não deveria frequentar, juntando moedas para engordar o triste retrato de minha conta bancária. Assim, quem sabe, um dia, de novo, terei a oportunidade de sentir o frio na barriga enquanto espero minha vez no brinquedo da Disney e aí sim compreendo o privilégio que tenho em relação a mais de três quartos da população que brinca de bater bola no quintal e nunca sentirá a adrenalina de rodopiar com um cinto do qual não se tem certeza da segurança em outro idioma, mas que valerá a pena como nunca antes.

Feriado

Meu deus, tô bêba. Mas num é um bêba bão, gracioso.
Acho que vô vomitá.
Seu moço, manera aí nas curva, que tô sentindo uma coisa aqui na garganta. E não tem gosto bom não.
Bebi o quê, jesus?
Uma paloma para lembra os tiempos mexicanos; uma jarra de batida de coco pelas memórias marítimas e uns copos de cerveja, porque era o que me estavam oferecendo. De graça.
Elas eram todas muito legais, mas não lembro o nome de nenhuma. É  difícil fazer novos amigos nos quase 30.
Fui porque aniversário de amigo a gente não pode ignorar.
À direita na Iperoig, moço! – será que eu falo Iperoig direito? Tem gente que fala com acento no ó, tem gente que jura que o acento é no í. Mas não tem acento em lugar nenhum e se a gente não chegar logo é no de couro que vai voltar aquela cachaça double que eu acabei de lembrar que pedi.
Nunca gostei de balada. Será que vou deixar de gostar de bar?
Mas teve uma hora que eu não queria ir embora. Eu queria era dançar.
A música até ajudava, mas o sono não me deixou sair do lugar.
Quantos anos eu tenho?
É  culpa do “rise, pee, meditate”, logo às  sete da matina.
Pelo menos eu parei de fumar.
Moço, tem troco para 50? – abre essa porta! Tô sendo simpática mas só quero na minha cama me jogar.
Não são nem duas, cara! Tô velha, ficando para trás.
Cadê a chave? Hugooo hugoooo. Pelo menos deu tempo de no banheiro chegar.
Dorme muito. Capota na sala. E recupera, que amanhã tem mais.

A história de Maria: quem disse que um versinho não daria?

Maria morreu aos 86 anos.
Uma veia entupida fez seu coração parar de bater.
Maria fazia check-up a cada seis meses, usando o convênio de idosos que um médico também idoso recomendou.
Morava na mesma casa há 50 anos. Foi lá que seus pais morreram. E seus três cachorros também
Maria nunca teve sua própria casa. Nunca morou sozinha. Nunca viajou.
Maria nunca transou.
Não acreditava em casamento e não deixou-se abrir o coração.
É provável que fosse lésbica. Mas como lidar com a religião?
Com sua aposentadoria, Maria guardava um pouco de dinheiro e o resto gastava na padaria.
Bolos, pães. Mas tudo sem glútem, recomendação de revista.
Era saudável, comia cenoura para cuidar bem da vista.
Seu sonho era conhecer a Disney. Mas tinha medo de avião.
Maria passou a vida na janela, vendo sua juventude desfilar lá embaixo, lá no chão.
Cuidar de samambaias era sua diversão.
Maria tinha uma enorme compaixão e com porteiros e vizinhos dividia sua refeição.
Cozinhava como ninguém.
Frequentava a quermesse e para o padre dizia amém.
No banco pagava a fatura de sua televisão.
Tinha mais de 500 canais, mas passava o dia vendo Datena.
Só tragédia, só desilusão.
Café da manhã. Almoço. Janta. Dormir e o ciclo repetir.
Saía para ir ao mercado.
Sua casa estava sempre em perfeito estado.
Pensou em adotar gatos, mas concluiu que muito trabalho daria.
Era pacata, afinal, a vida de Maria.
Guardava recortes de destinos nunca explorados.
Tão pesados que um dia a gaveta cedeu.
Cansada, pegou no sono. Só três dias depois a vizinha na porta bateu.
Maria não respondia. Maria, então, morreu.
Cinco vasos de samambaias, um padeiro e dois porteiros.
Foi esse grupo que ao velório compareceu.

De mentirinha

Sento para fazer xixi e finjo ser entrevistada por Marília Gabriela (a versão do GNT). Uso tailler estilo Sandra Bullock em “A Proposta”, estou gata. Cabelos soltos e cacheados. Morena. Bem maquiada, porém suave. Iluminada. Linda.
Falo com graciosidade e de maneira extremamente natural. Divago sobre meus grandes feitos, documentários, matérias, prêmios e sobre o quão incrível sou.
A entrevista é maravilhosa. Acredite ou não, Gabi (como a chamo) escutou belíssimas coisas sobre minha pessoa.
Levanto e entro no banho. O entrevistador agora é Jô Soares. E eu sou demais. Viajei o mundo e relatei tudo aquilo de mais maravilhoso em vídeo, em livro, em blog. em tudo. Porque eu sou Incrível. Jô ri de todas as minhas piadas, resolve me entrevistar por dois blocos seguidos e a plateia toda grita em coro quando é anunciado meu momento de partir. Prometo voltar e nos abraçamos.
Me enxugo enquanto disponho um pouco do meu tempo para conversar com Ellen (essa mesmo, a DeGeneres). Em inglês. Sou roteirista de seriados americanos. E tenho uma ONG, claro. Meu último namorado foi Leonardo DiCaprio, mas no momento estou dando um tempo, fechada para balanço, casada com meu magnífico e super bem feito trabalho. Não será difícil, porém, voltar à vida amorosa. Todos me querem.
Oprah, mesmo aposentada, me entrevista e se espanta ao ver que apesar de ter sido considerada a mulher mais bonita do ano sou muito inteligente e de verdade me preocupo com a paz mundial.
Não preciso nem comentar o quão galanteador foi David Letterman, não?
Termino de me vestir agradecendo a Jimmy Fallon pelo excelente programa que gravamos juntos. Aceno para a plateia, mando beijos, distribuo autógrafos, tiro fotos.
Fecho a porta do banheiro.
Deito na cama, de pijama, quentinha, e durmo feliz.

Fundidos

*texto baseado em lembranças sonadas de uma vida inventada e no romance Febre, de Renato Essenfelder – cuidado, leitores: pode conter spoilers

……..

Talvez ele tenha se matado, pensei.
Talvez fosse eu, naqueles tempos, tivesse me matado também.
Senti vergonha, porém.
Confesso que também cheguei aos mais de quarenta graus, que perambulei cabisbaixa, moribunda.
Também repassei, como fosse um filme, todos os detalhes, pequenos diálogos, grandes mentiras.
Homem suporta menos a dor.
Não fosse fêmea, provável também implorasse.
Implorei, talvez.
Tentei, tentei.
Marquei encontros em lugares nossos. Praças.
Usei de um tudo de desculpa.
Fui embora chutando pedrinhas. Descalça.
Tentei odiar também, assim como ele, igualzinho.
A profissão. A arrogância. O sabe tudo. Porque sabia mesmo. A inteligência.
Mesmo usando eu palavras difíceis também. Também soberba.
Maldisse com todo desdém que cabe apenas àqueles profundamente apaixonados.
Amar é isso. É odiar até as melhores qualidades.
Por saudade.
E foi isso que fez.
Que quase fiz. Que fazemos todos, oras bolas.
Porque o amor não é apenas bom quando correspondido, não, veja bem.
A dor de amor é um cutuco na alma, é febre que pulsa sem motivo algum. São veias que queimam a qualquer indício de passo, pensamento ou respirar.
Sofrimento são palavras bonitas descritas com raiva de afeto. Desilusão é vida. São sentidos aguçados, agudos, momento único paradoxal aos pequenos e raros segundos de plena felicidade, quando nunca se é mais intenso.
Não deslizar aos prantos no box do banheiro, não debulhar-se em posição fetal, não sujar de rímel o travesseiro, meu amigo, é apenas sobreviver à mediocridade do cotidiano.
As pílulas, então, pequenas bolinhas de salvação, seriam talvez a maneira de seguir remoendo, revivendo, delirando. A única maneira de seguir filosofando. Com maestria.
O jeito de continuar escrevendo.
Sofrer por amor é dominar um tema.
Mas entregar-se pode ser loucura.
Loucura é comprar anel, é optar por ficar.
Nunca seja a que ama mais, aconselha minha avó.
Mas somos teimosos. E buscamos a dor.
Sabíamos que o não seria não.
Perguntamos pelos motivos errados, preocupados com a ínfima possibilidade de um sim.
Errôneo.
E caímos porque é só assim que funcionamos.
Perdidos. Metades. Feridos. Dramáticos.
Em busca de cura que leve nome próprio, que mascare a ressaca com mais um porre.
Que é para levantar do fundo do poço. E começar tudo de novo.

 

La primera vez que María vio el mar

Nota: texto feito durante minha estadia no México. Não reparem em erros ortográficos espanhóis. Eu tava aprendendo, gente. 😉

Hacía dos años que yo estaba trabajando en el periódico. Como era el comienzo de mi vida profesional, no podía elegir el horario de trabajo o salir de vacaciones en fechas importantes como navidad o año nuevo.

Así, mis colegas de trabajo eran como mi segunda familia. Yo no convivía siempre con las mismas personas, porque en nuestro trabajo debemos salir mucho, para hablar con personas en diferentes lugares y horarios.

Había solamente una persona que yo encontraba todos los días, sin excepción. A veces yo llegaba después de las tres de la mañana solamente para entregar un artículo a mi jefe. A veces llevaba mis pijamas abajo de la ropa formal porque estaba durmiendo cuando me avisaban que debería ir al periódico por motivos como la muerte de alguien importante o algún accidente grave que yo tenía que cubrir.

A veces yo estaba enojada, cansada o tenía mucho sueño y ella podía sentir que necesitaba un café, unas galletas o solamente un abrazo y una sonrisa.

María tenía más de 60 años, nació en Bahia – estado de Brasil conocido por su alegría y bellas playas – y heredó el buen humor de su pueblo, pero, desafortunadamente, fue a la ciudad de São Paulo cuando era muy niña y todavía no había tenido la oportunidad de poner los piés en la arena.

Yo siempre pensaba en deseos y sueños como algo que no podría alcanzar. Soñaba en pisar en la luna, casarme con Brad Pitt, vivir en un castillo o ganar mucho dinero durmiendo. Creo que estuve atormentada por días cuando supe que el gran sueño de María no era viajar por el mundo, comer sin engordar o vivir para siempre. María soñaba conocer el mar.

Hacía 20 años que ella trabajaba limpiando el piso del periódico. Hacía dos años que María me alegraba con su buen café y gentileza.

La playa estaba muy cerca de nuestra ciudad, no más que dos horas en coche. “El sueño más sencillo de realizar”, dijo mi amigo y también periodista, Caetano.

No tuvimos duda, el próximo miércoles, a las seis de la mañana, María y yo esperábamos Caetano en frente del periódico para irnos a la playa.

El camino fue muy divertido con María contando sus historias de cuando era niña. Cantamos, nos reímos y estuvimos muy contentos por todo el tiempo.

Pero todo cambió cuando empezamos a ver el mar por las ventanas. Ella estaba inquieta, nerviosa y parecía que tenía mucho miedo. Cerró sus ojos y dijo que no quería ver hasta que hubiéramos llegado.

Caetano y yo estábamos confundidos y un poco preocupados. No sabíamos lo que pasaba con María. Seguimos el camino y al estacionar el coche al borde de la playa, la señora salió como una niña, corriendo más rápido que sus piernas podrían aguantar.

De sus ojos escurría tanto agua como lo que había en el mar. No le importaba la bolsa o la ropa mojada. No le importaba las personas que la miraban sin entender.

Era una niña de 60 años que jugaba con el juguete más lindo que pudiera tener. Yo no podía moverme, la imagen de María brincando las olas era demasiada emoción para una simple mañana de miércoles.

Era más impresionante que el azul brillante que llevaba el cielo.

Estuve parada por muchos minutos cerca del coche, mirando a María. Creo que vi algunas lágrimas en los ojos de Caetano, pero él dice (hasta hoy) que sus ojos son muy sensibles a la sal y a la humedad del mar.

No me gusta la arena, pero en ese día me encantó construir castillos con María.

En la tarde, íbamos a regresar para empezar a trabajar a las siete de la noche, pero María nos dijo “ahora ya puedo morir”, nos abrazó y nos dio las gracias.

No pudimos salir de allá. Decidimos inventar una enfermedad y nos quedamos en la playa para comer mariscos frescos. El jueves fuimos a trabajar sanos, contentos y más morenos.

El jefe no nos dijo nada, solamente sonrió y asentó la cabeza, contento por recibir galletas y café de María, que no pudo quitar la gran sonrisa de la cara por todo el día.

Minha pauta, minha vida

Jornalista vai ao supermercado com caderninho e credencial. Interroga o moço das frutas, relata na mente o preço do feijão e tem ideia de pauta enquanto checa a quantidade de gordura saturada na tabela nutricional do miojo. Jornalista vai à loja da Oi e implora por um plano em que vai pagar as calças, mas que promete um 3G que funcione. “Moço, eu trabalho com isso”, explica, justificando a grosseria. Jornalista se sente mal ao escutar música na rádio em vez de acompanhar o jornal da noite. Mas jornalista também precisa estar a par das músicas da moda, não é mesmo? Jornalista encontra outro jornalista e reclama. Mas jornalista fica orgulhoso quando vai preencher a qualquer ficha que inclui a profissão como item obrigatório. “Jornalista” – fala e levanta o queixo, meio metido. Afinal, jornalista é bicho que se acha. Acha que sabe de tudo e sabe mesmo. Porque pergunta. É curioso. Homem jornalista é o único que pede informação no trânsito. Pode até fingir que não é que está perdido, só precisa investigar uma pauta. Jornalista sonha com emprego que inclua viagens. Jornalista quer liberdade de horário. Mas nunca desliga. O celular. A TV. A mente. Jornalista que é jornalista sabe de tudo um pouco e não se especializa em quase nada. Sabe falar sobre assuntos diversos e usa exemplos que começam com “uma vez eu fiz uma matéria” para comprovar sua maestria no tema, deixando no chinelo qualquer não-jornalista presente. Jornalista pode ser burro de pedra, mas sempre é considerado inteligente pelos amigos. “sou jornalista”, diz. Sem ninguém nem perguntar. Jornalista fala com gente diferente todo dia. Descobre novos temas toda semana. Tem orgulho de sair da redação às cinco da manhã em dia de fechamento. Posta nas redes sociais, afirma todo orgulhoso “de quinta, não posso, é fechamento” e chega em casa e reclama. Vida de jornalista é a perfeita versão do “entre tapas e beijos” profissional. E lendo este texto, todo jornalista se sentiu feliz e fracassado. Orgulhoso e confuso. Inteligente e tapado. Todo jornalista, lendo este texto, se sentiu jornalista. E amou.

Escena

Agarrou afoita e cuidadosamente as mãos enrugadas pela velhice.

Envolveu as costas curvadas como quem ajeita o travesseiro antes de dormir: tarefa simples, porém essencial para o descansar pleno.

Apertou um lábio contra o outro como quem segura a fala, controlando a emoção. Amor, dor, saudade e solidão.

Fez tudo sem desgrudar da mão.

No soltar do abraço, o olhar de compreensão, compaixão e desespero. Perdão. Pelo sofrimento que a vida lhe causou. Mesmo a culpa não sendo sua.

Um sinto muito que, se falado, não seria do coração.

Pensou em ficar, mas e o caminho?

No adeus sentiria dor, mas mesmo assim partiria.

A serenidade que transmitia, nem deus entendia.

Aceitou. Balançou a cabeça. Concedeu. E seguiu.

Seja o que Deus quiser

Esta cidade mexeu comigo. As pessoas também. Mas, a esta altura do campeonato, já tinha experiência suficiente para saber que não posso me deixar levar pela emoção. Não outra vez.
Nunca fui muito religiosa, para desgosto de minha avó, tampouco pensava que religião poderia me trazer alguma razão. Mas dizem que a fé é a solução para qualquer desesperado.
Para ser bem sincera, de uma maneira bem estranha, aquela igreja também tinha mexido comigo. Talvez por suas cores, suas luzes, suas imagens ou a ausência de padres Marcelo ou Zezinho – nada contra, veja bem, mas é que, de verdade, acredito no poder das canções cantadas de maneira serena e em latim.
Deus, precisava de ajuda. Aonde mais poderia buscá-la?
Entrei. Não me importei com as pombas que voavam sobre minha cabeça, nem reparei se estava vazia ou cheia, mal escutei os sinos que anunciavam a próxima missa.
Pedi. Mais do que já havia pedido em cartas para o papai Noel. Acreditei. Muito mais que em coelhinho da Páscoa.
Implorei por uma luz, um sonho, uma conversa. Qualquer sinal que me ajudasse a reconhecer o melhor caminho a tomar.
Te juro que fui invadida por uma paz descomunal. Saí com uma certeza absurda de que havia sido escutada.
Satisfeita, desci a imponente escadaria. No décimo degrau torci o pé.
Entendi o recado.

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