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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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Rimas pobres e todo o sentimento do mundo

Embriaguez

Maria começou a sentir tudo aquilo novamente. O tremelique que dá nas pernas, a vontade de berrar e chorar ao mesmo tempo que ri. E comer ao mesmo tempo que não sente fome e dormir quando o sonho atinge a gente com os olhos bem abertos.
Quando Maria pensou em parar, o sistema nervoso já não respondia à razão, que já não comandava o cérebro, que não tinha controle nenhum sobre os pés. E correu. Dançou pelada na chuva. Caminhou lentamente até o precipício e se atirou, sabendo que do chão não passaria.
Maria perdeu o medo. Do escuro, de nadar, de altura. Maria perdeu o medo de temer, temendo ter a certeza de que aquela sensação, que a acometia fervorosamente sem margem para acordos ou um diálogo sequer, resultaria em uma grande ressaca. Catuaba misturada com jurupinga, mistura com vodka, misturada com saquê. A dor de cabeça que não passa com remédio, que não melhora com fritura, que não aceita nem água, nem limão, nem nada. Estômago seco que contrai sem relaxar, que vomita tudo que já não tem. Que derruba, quase mata.
Mas catuaba, quando misturada com jurupinga, vodka e saquê dá um barato que Maria já conhecia. E Maria aproveitou. Maria o copo inteiro virou. Ah, Maria não se preocupou com pudor. Maria se embebedou.
Piruetas, risos fácies, humor matinal. Nenhuma notícia trágica era capaz de lhe fazer mal.
Quando Maria a sobriedade retomou, foi aí que o pesadelo, de novo, começou.
Nocaute como uma remada na cabeça.
Maria um banho tomou. O rímel pelo box escorreu e Maria, sofrida, nem percebeu. Alguém perguntou se Maria se arrependeu e com a resposta esse alguém se surpreendeu. Maria não se lamentou. Maria amou, Maria viveu.

Canção de Ninar

Aquieta esse facho, menina. Acalma essa alma. Canta essa canção. Não deixa mais vir do coração. Medita nas nuvens. Encontra o equilíbrio. Desperte o chakra. Deita na cama. Chore de rir. Assista TV. Beba um copo de vinho. Talvez dois. Talvez três. Garrafas. Fique sozinha um pouco. Deixe passar. Deixe vir. Não deixe ficar. Lembra de como era bom. Pensar só em você. Só para você. Só se quisesse. Se fizesse. Acontecer. Firma bem esses pés no chão, garota. Que passarinho sem asa não sabe voar, não. Observe de cima. Afaste-se do clima. De fininho, na multidão. Passa embaixo desse cordão. Acorda a mente. A imaginação. O apego não pode mais existir. Deixe chegar, mas faça sair. Guarde memórias em potinho cheio de areia. Despeje no mar, invocando a sereia. Nade profundo, pegando seu espaço. Só grude em si mesma, não se faça de carrapato. Limpe, limpe os sapatos. Não autorize a sujeira a adentrar. O que não serve não pode ficar, só deixe sair, não deixe entrar. Berre bem alto, chame bem a atenção. Mas depois caminhe discreta, não dê nem seta, nessa contramão. Aperte o botão. Esperança jogada na esquina. Tacada de cima do ventilador. Ignore essa dor. Egoíste-se. Sem dó. Sem chance. Sem querer ouvir sermão. Não se rebaixe, não abaixe essa razão. Tenha na cabeça essa missão. Na ponta da língua. Sempre a palavra não. Solte o cinto, se jogue no chão. Não faz bem viver assim, sempre a sorrir, com os dentes na mão.

Pode beijar a noiva

Teus olhos brilhavam, sorriam teus lábios tensos. As mãos não se desgrudavam nem por um segundo, dedão com dedão fazendo movimentos circulares para ver se o ciclo começava ali mesmo ou se era só alucinação. Teus pés bailavam uma espécie de forró, derrapando sem medo pelo chão de mármore gelado incapaz de conter teu suor. Gotículas que caíam da testa e passavam pelo nariz para pousar onde desse, onde cresce sua imensa emoção. Esperou. Com enorme paciência. E desabou quando a noiva no altar pisou. Nem teu nome soube pronunciar. É que alma não tem certidão e quem mandava ali era aquele tipo de conexão, de outra dimensão. A vida só acontece para quem deixa, para quem quer, para quem se joga. E você mergulha na imensidão de alegrias que o universo, justo que é, reservou apenas para ti. Então, vá. Solte-se de toda e qualquer amarra e voe com a realização plena nesta esfera de água e terra que é pequena para o tanto que merecera.
Vi tua felicidade e tive vontade de chorar. Mas sorri. Para que em 2016 só gente de alma bonita e coração grandioso possa soltar esse riso gostoso que com gratidão percebi em ti. Te desejo neste abraço que todo o peso e todo o cansaço seja enfim recompensado num futuro cujo passado é apenas um filme mal editado a que assistimos no jardim com um balde gostoso de amendoim.

Convulsa

Pisei na bosta enquanto era apunhalada pelas costas
depois de um momento constrangedor
e um teste de caráter/camaradagem/mesmo time
meio que hétero, meio que gay
porque na hora h bem capaz que pegasse a Maria Gadú
meu gosto musical é muito lésbico
mas gosto de homem, desculpa
e obrigada por me ouvir mesmo que indo embora, mesmo que ficando
que não me deixaria sozinha chorando, esperando
e ri e chorei
e chorei enquanto ria
porque a vida é um mar de sentimentos complexos, vazia
que só quando criança é mais mágico de lidar
ainda tenho medo de palhaço e da gargalhada que com ele posso dar
e fazia tempo que a inspiração aparecia, foi só hoje, na mesa de bar
e chega de rima, que o caminho é para cima e é bem lá que a gente vai chegar
os 26 tão chegando
e eu achava que com 30 o primeiro Emmy já tava na manga
se consigo uns trocados pra breja já é felicidade, e é essa que conta?
reagi bem a uma notícia má
e mais fácil no espelho foi de me olhar
reconheci a menina que ali ainda habita
que dá dois passa para frente, mais ainda hesita
saída da fossa, inteirada na moda
mas só o que quero ser é FODA
eu sou eu e eu sou você
e se não houver mais ninguém
a gente se tem
então, só por hoje, te peço: fica bem?

Fotografa

O coração que bate. O sangue que pulsa. Sozinhos.
As fotos na parede, o banco debaixo d’árvore, o cão que passeia cabisbaixo cansado de intrometer-se em conversas alheias. Sozinhos.
O bar que espera o cliente, cheio de bebida, a faixa que se apaga no chão sem passos, em vão. Bicicleta perdeu seu guidão. Paralelepípedo adormece no chão. Porta em que ninguém nunca bate não. Nenhuma correspondência, nenhuma declaração.
A estrada tão quente no verão que sozinha fica quando passa o feriadão.
A carta que espera para ser aberta, tão certa, secando na solidão. E o mar, aquele mundão, sem alma e sem coração, sorri à espera de suas visitas, turistas que vêm de longe, de perto, de montão. Aproveitando o dia e, à noite, largando as cadeiras na mão. Sozinhas.
Num só clique, que representa a tão vazia multidão.
O outro lado da rua, nua, vagando na contramão.
Olhar sobre o mundo, sob a paixão de ser coração.
No papel a visão, sem razão.
Preto e branco para não perder nenhuma cor de detalhe, nem brilho, nem saturação.
Quarto escuro revela o desespero que vela toda a busca. Sozinha.
E não aparece, não encontra, descalça e caminha uma trilha solitária.
Só a câmera na mão. Só o dedo na contração. Que comprime, comprime, comprimido que toma num só golão.
E acalma-se e constrói-se no botão que aperta e aperta mesmo quando o foco não vem.
Vai ver está lá, do outro lado da lente, tão quente, aquele procurado outrém.

 

 

Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu

Luiz morreu aos 54 anos.
Refeições gordurosas regadas a cerveja, vinho e uísque da melhor qualidade provavelmente destruíram seu fígado.
Mesmo sabendo de sua condição genética – a mãe de Luiz morreu de cirrose sem nunca ter bebido uma gota de álcool -, comeu e bebeu nos melhores restaurantes.
Experimentou todos os sabores. Japonês, indiano, apimentado mexicano, dendê baiano, testículo de jacaré e incontáveis frutas direto do pé.
Até os 50, chegava em casa depois das 4h da manhã. Dava-se ao luxo de encontrar amigos de anos pelo menos duas vezes por semana. Era sauna, era bar, era jantar. Era qualquer desculpa para festejar, farrear, desopilar.
Luiz tinha uma legião de amigos. Uns fiéis, outros nem tanto. Emprestava dinheiro, confortáveis ombros e conselhos capazes de mudar vidas.
Luiz era filósofo. Era químico, alquimista. Era matemático e professor. Era influente, poderoso. Era funcionário dele mesmo, diretor.
Assistiu a todos os bons filmes, acompanhou todas as boas séries e leu todas as notícias que as poucas horas de seus poucos dias deram conta de absorver.
Era inteligente. Trabalhador. Ambicioso e sonhador.
Mesmo pobre, viajava de primeira classe. Conheceu o mundo. China, Emirados Árabes, Estados Unidos, Canadá. Fez nevar Paris. Saboreou todas as cervejas da Bélgica. Passou frio na Itália. Brasil. Espanha. Inglaterra. Alemanha. Cozumel. Chile. Argentina. Paraguai e Uruguai.
Luiz tinha camaradas em todos os idiomas.
Suas cinzas serão jogadas em límpidas e turvas águas em um cruzeiro pelo mar caribenho.
Luiz viveu como quem tinha nas palmas das mãos o mundo inteiro.
Quando internado, arrumou briga com as enfermeiras. Queria trabalhar. Reclamava da comida sem gosto. Queria bife com batata frita.
Mesmo assim, tirou foto com seu colega de quarto, aquele do leito ao lado. E prometeu que sairiam dessa juntos.
Luiz morreu.
Um grupo de mais de duzentas pessoas ao seu velório compareceu.

A história de Maria: quem disse que um versinho não daria?

Maria morreu aos 86 anos.
Uma veia entupida fez seu coração parar de bater.
Maria fazia check-up a cada seis meses, usando o convênio de idosos que um médico também idoso recomendou.
Morava na mesma casa há 50 anos. Foi lá que seus pais morreram. E seus três cachorros também
Maria nunca teve sua própria casa. Nunca morou sozinha. Nunca viajou.
Maria nunca transou.
Não acreditava em casamento e não deixou-se abrir o coração.
É provável que fosse lésbica. Mas como lidar com a religião?
Com sua aposentadoria, Maria guardava um pouco de dinheiro e o resto gastava na padaria.
Bolos, pães. Mas tudo sem glútem, recomendação de revista.
Era saudável, comia cenoura para cuidar bem da vista.
Seu sonho era conhecer a Disney. Mas tinha medo de avião.
Maria passou a vida na janela, vendo sua juventude desfilar lá embaixo, lá no chão.
Cuidar de samambaias era sua diversão.
Maria tinha uma enorme compaixão e com porteiros e vizinhos dividia sua refeição.
Cozinhava como ninguém.
Frequentava a quermesse e para o padre dizia amém.
No banco pagava a fatura de sua televisão.
Tinha mais de 500 canais, mas passava o dia vendo Datena.
Só tragédia, só desilusão.
Café da manhã. Almoço. Janta. Dormir e o ciclo repetir.
Saía para ir ao mercado.
Sua casa estava sempre em perfeito estado.
Pensou em adotar gatos, mas concluiu que muito trabalho daria.
Era pacata, afinal, a vida de Maria.
Guardava recortes de destinos nunca explorados.
Tão pesados que um dia a gaveta cedeu.
Cansada, pegou no sono. Só três dias depois a vizinha na porta bateu.
Maria não respondia. Maria, então, morreu.
Cinco vasos de samambaias, um padeiro e dois porteiros.
Foi esse grupo que ao velório compareceu.

Entorpece

quero sentir aquilo de novo.
dor misturada com prazer que misturada com dor vicia mais que cocaína.
adrenalina.
canabis injetada na veia. efeito purpurina.
cerveja com gosto de champagne, chuchu que parece chocolate, alface com gosto de aipim.
combinação que traz o melhor de mim.
heroína. crack. doce. bala. embala qualquer canção de letra melosa.
encoraja qualquer parte ali medrosa.
cachorro molhado correndo em meu jardim.
combinação que traz o melhor de mim.
ecstasy, ópio, metanfetamina. abomina qualquer traço de menina.
amadurece como fruta.
encaixa como luva. trava luta entre razão e emoção.
tem medo de fechar o coração.
desliza sobre lindo piso de marfim.
combinação que traz o melhor de mim.
quando acaba parece flor.
desabrocha e murcha.
arranca da terra.
deixa buraco.
bem mal me quer.
nunca mais será bela, enfim.
combinação maldita.
brinca, borda e pinta.
deixa o pior de todo o mundo padecer dentro de mim.

S.O.S.

“tô precisando de ajuda”, disse.
foi a primeira vez em muito tempo que deixou sair todo o desespero.
soou brando, doce e sincero.
mas era dolorido, veloz, fatal.
incontolável, triste, choroso, moroso, agudo, azedo, difícil.
era chato, impróprio, atrapalhava, matava, espatifava, envergonhava.
tinha medo, amor e dor. tinha história – começo, meio e fim -. e tinha queda. livre.
não tinha paraquedas, não tinha manual, não tinha instrução.
não tinha mapa, nem botas, nem água.
não tinha colchão, amortecedor, travesseiro.
não dormia. só sonhava. e acordava. acabada.
não tinha comida. mas alimentava. de raiva, de dúvidas, de lágrimas.
pegou na mão, arrancou do coração. deitou no chão.
e passou. sempre na contramão.

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