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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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Uma caneta um tinteiro um envelope e um cartão

Lar

Quando eu era pequena, era batata: todo carnaval, ano novo, feriados, aniversários e fins de semana eram lá. Minha mãe preparava as malas, meu pai fazia mágica para fazer caber todos os apetrechos em um porta-malas apertado e logo a gente seguia viagem.
No caminho, a pequena eu já ia entrando no clima. À medida em que saíamos da cidade, as janelas eram todas abertas, o rádio era substituído pelo som do vento e os prédios davam lugar a tons de verde que se misturavam e confundiam, em uma pintura impossível de explicar.
Quando passávamos pela estrada de terra, eu já tirava logo o cinto e me preparava para matar as saudades da vizinhança. Começava pelos cachorros, que nos reconheciam de longe, fazendo papai tirar o pé do acelerador.
Eu sacudia os bracinhos ao cumprimentar o Meloso, sentia um afago no peito ao rever dona Maria e seus muitos filhos na barra da saia e me sentia completa ao avistar o velho amigo Azulão.
Ao estacionar, vovô já estava posicionado, todo pomposo, com uma das mãos apoiada no ponto mais alto do portão e a outra descansando na cintura. O chapéu, vezes de palha, vezes de pano, escondia a abundância de cabelos volumosos e bem pouco grisalhos. Ele nos recebia com um abraço caloroso e uma gargalhada sincera. A melhor energia que senti na vida.
O tempo foi passando. Mais crianças chegaram à família e a pequena casa com um imenso jardim sempre tinha espaço para mais um e mais um e mais um…
Todo mundo passou por essa casa, que agora é de vocês.
Tanta coisa aconteceu nessa varanda. Foi atrás da casa, espiando pelos tijolos vazados, que fumei meu primeiro cigarro escondida. Era sentada na mureta que eu ouvia as melhores músicas observando o ir e vir da rede que abrigava o sono de alguma tia no fim da tarde.
No jardim, sempre verde e bem aparado, aconteceram as mais horrendas peladas de homens de meia-idade contra garotos gordinhos que sempre acabava em um pé quebrado ou joelho torcido.
Foi nas ruelas de terra que aprendi a dirigir. Foi, bem ali, do lado esquerdo da cerca, que tive a primeira conversa sobre amor com a minha avó, enquanto coletávamos mamonas para fazer de munição da guerrinha de mais tarde.
Minha avó também foi a primeira pessoa que vi matar uma cobra e acho que foi ali que entendi o que era girl power. Aprendi o nome das flores, comi muita coisa do pé e observei o movimentar das nuvens, deitada na grama ainda úmida do orvalho da manhã.
Em dias de sol, regávamos as árvores com guerra de bexiga e a horta, sempre farta do fundo do terreno, me deixou com um problema sério: não consigo mais comer verduras em nenhum outro lugar. O verdadeiro gosto da alface nada tem a ver com essa que a gente encontra no mercado.
Foi na casa de árvore construída pelo vovô que meu irmão pegou berne na cabeça. Uma vez meu avô foi colher bananas do alto da mais alta bananeira, posicionou a escada, subiu e… caiu como vara verde. Esse assunto era proibido nos almoços de domingo.
Meu avô amava esse lugar. Tudo aqui, tudo mesmo, foi construído por suas mãos.
Cada árvore foi plantada em um lugar preciso, pensado para crescer com saúde. Cada flor foi escolhida a dedo para atrair os passarinhos mais lindos. Não tem um centímetro nessas terras que não tenha sido tocado por suas pesadas botas ou acariciados por suas mãos calejadas, delicadas e ásperas.
Esse era o seu paraíso. Foi onde ele despejou mais amor. E é possível ainda enxergar uns traços dele por aqui. Uma aura, uma alegria, essa beleza. E se tem uma única coisa que ele certamente pediria seria nunca deixar essa casa vazia, a mata crescendo e as frutas apodrecendo no chão.
Isso aqui precisa de gente. Precisa de criança correndo, carne assando, moda de viola na vitrola e as árvores sempre servindo de apoio para redes que servirão de abrigo do sono do fim da tarde.
Isso aqui precisa de vida. E precisa de alguém que fique empolgado no caminho, no fim de semana, ouvindo o barulho do vento, ansioso pelos reencontros, sabendo que a felicidade está logo ali, no virar da curva de barro.
Essa chácara precisa de amor, precisa de vocês.
E é por isso que é sem amarras que entrego essa chave.
Esse mundo é muito grande e a gente mora mesmo é dentro da gente.
Mas tem certos lugares que são nosso lar, mesmo sem ser a nossa casa.

Ler é o melhor remédio

Lá fui eu para o primeiro e muito esperado dia de treinamento. É claro que eu sentia medo. No curso, demorado por demais e necessário por demais, sabiamente nos alertaram sobre tudo que poderia acontecer. Desde sorrisos que serão lembrados pelos restos de nossas vidas, passando pelo bem provável chilique de pais desesperados, chegando na morte – assunto delicado demais, principalmente para quem está dando o primeiro passo de muitos dentro de um hospital infantil.

Eu cheguei meio sem saber o que fazer, tentando ser simpática, mas não muito, mostrando que sei bem onde é meu lugar. Imaginei que quem lê histórias para crianças em hospital não tem como ser uma pessoa ruim. Então não tive muito receio quanto a conhecer minha treinadora. E eu tinha razão. Malu é uma senhora incrível. Para quem entende a referência, ela é a cópia cuspida e escarrada da Frankie, aquela mesmo, que é amiga da Grace, da Netflix. Para quem não vive nesse mundo, explico: Malu tem belos cabelos grisalhos, chegou na terceira idade com louvor e muita beleza, é meio hippie, não tem papas na língua, meio louca, meio secona e uma pessoa muito maravilhosa. Sua dupla, Vera, que trabalha a seu lado há 18 anos, é o exato oposto: a mulher mais doce que já conheci nessa vida. Queria ficar abraçada nela o tempo todo. Mas seria demasiado esquisito para um primeiro dia.

Como me foi informado, aquela experiência serviria apenas para observar. Sacar o estilo, entender como as coisas funcionam. Então lá estava eu, fazendo com perfeição o meu papel de sombra. Mas se você já teve qualquer contato com crianças, mesmo que de longe, mesmo que sem querer, sabe muito bem que elas são muito mais astutas do que todos nós, adultos, juntos. Assim sendo, é claro que mesmo contando com uma Malu doidona e descolada cheia de livros em ambas as mãos, era eu a peça daquele teatro todo que chamaria a atenção desde os bebês até os mais grandinhos e mais cruéis – um menino que estava para ter alta, portanto felizmente sem dor nenhuma e já muito entediado, perguntou se eu era muda. Eu observei um pouco, sim, mas aprendi muito mais e na marra. Minha voz engasgou, minhas mãos tremeram um pouco, derrubei alguns livros no chão e provavelmente quebrei alguma regra ao debruçar em um berço muito alto e dar conselhos para uma mãe que não estava desesperada não, mas que carregava muitas angústias em sua serenidade.

Foram só duas horas, entre chegar, colocar o avental, ouvir algumas instruções, escolher os livros, esperar os pacientes tomarem banho, tomarem café e serem examinados pelos médicos do turno da manhã e, finalmente, fazer o nosso trabalho. Poderia ter sido vinte. Vinte horas não dariam conta daquele mundo de histórias e crianças e muitos obstáculos a superar.

Mas em duas, apenas duas horas, eu aprendi a ser mais confiante, vi uma menina de seis anos melhorar a leitura em questão de três livros pequenos e cheios de gravuras, senti o amor incondicional de um pai que deixa sua vida toda de lado para morar ali, entre tubos e seringas, agulhas e lençóis que jamais serão os seus por quanto tempo for necessário, mesmo que esse tempo seja para sempre. E, em menos de duas horas, eu fui tocada, mudada, mexida. Eu conheci, na pele, o poder da história.

Quando estava ali, lendo, sendo útil, tendo um pequeno sucesso, nada mal, com meu público, Vera pegou um livro para ler. Bem ao lado da criança, onde já estava posicionada, debrucei para ouvir. Minha intenção era levar a pequena menina a fazer o mesmo, mostrar que aquilo era uma coisa legal. Minutos depois fui transportada para o mundo mágico de um menino chamado Guilherme Augusto Araújo Fernandes, e ele nem era tão velho assim. A cada página que os leves dedos viravam, quase como brisa, novas imagens e letras e novidades apareciam. E quanto mais suave a voz de Vera saía, quase como veludo, mais debruçada eu me derretia. Nem lutei contra meu ímpeto. Nem percebi o papelão. Virei a cabeça pro lado e prestei toda a minha atenção. Era como se eu estivesse em casa, no conforto da minha cama, protegida, feliz e quentinha, sendo acolhida pelos braços do universo. Quando a fatídica contra-capa chegou, precisei de uns segundos para entender onde estava, que horas eram, que eu precisava levantar dali, que tava vergonhoso e se dava tempo de mais um livro, pequenino que fosse. Eu fiquei um pouco vermelha, um pouco sem graça e muito feliz. Entendi a beleza, grandeza e importância desse tão delicado trabalho. Gelei, meu deus, que responsabilidade, mas saí de lá flutuando, distribuindo sorrisos, ansiosa pra semana que vem.

Destilado do papel

Gosto de sofrer um pouco. Tristeza que destila, destila, fermenta e vira inspiração.
Se transforma em palavras que abraçam, afagam o coração. Frases e pontos e vírgulas que se alinham sem o cérebro conseguir acompanhar. Sento no escuro, no macio do colchão. No colo, o peso da máquina de fazer expor, sair, distrair e desabafar.
Dedos que correm e percorrem o teclado cheio de erros, érres por ésses, sem concordar verbo com sujeito.
Roupa amassada, cabelo despenteado. Cada canto do quarto vira um personagem encantado, iluminado, cheio de história para contar.
Quem sabe o que se passa na cabeça e na conversa dos cachecóis que vivem na prateleira, que moram no armário cansado de ter seus braços abertos e fechados e abertos e fechados até o rangir da dobradiça, até machucar.
Quanto conhecimento tem a luminária, em cada virar de página de livro, de rasura no caderno, de filmes e série e silêncio. Observando-me cochilar.
Neste piso que passo sem nem perceber, quantos tênis, botas, chinelos, quantos caminhos a percorrer. Cada pisada com pressa ou certeira, silenciosa, medrosa, festeira. O que pensa das meias que escorregam e o cabelo que rega a madeira quando saído do banho no mesmo horário, de segunda a sexta-feira?
Três pedaços de janela, que se revezam no frio e no calor. Têm visão interna e externa. Mas o que será que ela prefere? Será que às vezes queria não ver, não saber, não conhecer? Quando chove e a vista fica tão bela, quando escurece e dá medo de nunca mais o sol nascer. Mas a escuridão também pode ser poética, quando o vizinho da frente suas velas resolve acender.
O espelho que tudo mostra e nada esconde, onde será que mantém sua alegria de viver? Quando exibe uma roupa nova, reconhece o furo no pijama velho ou revela uma ruga sem nem perceber.
São sete quadros na parede. Mais dez pendurados enfeites que ninguém perguntou se ali queriam permanecer. Pode ser que não suportem seus vizinhos de gancho e que com outros pequenos pregos sonhem a cada amanhecer.
A vida fica mais bonita quando imaginada, quando sonhada com os olhos vidrados neste clarão em que escrevo sem correria, mas sem demora. Fica aqui um pouco de mim, um pouco da minha história e quem sabe esse impulso de letras que me devora, um dia me carregue, dicionário afora, para um mundo bem melhor que esse, de agora.

Pode beijar a noiva

Teus olhos brilhavam, sorriam teus lábios tensos. As mãos não se desgrudavam nem por um segundo, dedão com dedão fazendo movimentos circulares para ver se o ciclo começava ali mesmo ou se era só alucinação. Teus pés bailavam uma espécie de forró, derrapando sem medo pelo chão de mármore gelado incapaz de conter teu suor. Gotículas que caíam da testa e passavam pelo nariz para pousar onde desse, onde cresce sua imensa emoção. Esperou. Com enorme paciência. E desabou quando a noiva no altar pisou. Nem teu nome soube pronunciar. É que alma não tem certidão e quem mandava ali era aquele tipo de conexão, de outra dimensão. A vida só acontece para quem deixa, para quem quer, para quem se joga. E você mergulha na imensidão de alegrias que o universo, justo que é, reservou apenas para ti. Então, vá. Solte-se de toda e qualquer amarra e voe com a realização plena nesta esfera de água e terra que é pequena para o tanto que merecera.
Vi tua felicidade e tive vontade de chorar. Mas sorri. Para que em 2016 só gente de alma bonita e coração grandioso possa soltar esse riso gostoso que com gratidão percebi em ti. Te desejo neste abraço que todo o peso e todo o cansaço seja enfim recompensado num futuro cujo passado é apenas um filme mal editado a que assistimos no jardim com um balde gostoso de amendoim.

Re(escrever)

a passos curtos e vagarosos
se reconheceu no olhar no outro
fresco, certeiro. mas muito conhecido
velho amigo
de nunca antes
varreu a poeira para debaixo do tapete
migalhas de projetos parados
sonhos esquecidos
talento inexplorado
tomou coragem
e um ônibus
para ver se inspirava
sem saber o destino
desceu no ponto final
agradeceu o cobrador
cumprimentou o motorista
sorriu
sentiu aquele calafrio
soube
sentou-se na sarjeta
e pôs-se a brincar com as palavras
caneta e caderno
mente aberta
e um novo começo

Mês do Desgosto

Estava vendo TV quando me contaram o que aconteceu.
Acordei e vi no celular a temida notícia.
Era madrugada e eu sonhava com vacas quando o telefone tocou.
Acabara de abundar-me na cadeira do bar quando atendi a ligação.
E, com isso, foram quatro perdas em um único mês.
Muito choro, muita tristeza, muito preto. Energia negativa. Muito desespero. Pouca fé em Deus e muito, muito Pai Nosso.
A vida é de morte e todo mundo sabe disso. A única certeza que temos é que do pó viemos e ao pó retornaremos. Mas vá falar isso para a mãe do menino de 21 anos morto na chacina e cujo corpo era velado na salinha ao lado da que abrigava o corpo, também gelado, do meu avô.
Vá consolar, te desafio, a doce menininha que clamava pelo nome da tia enquanto o caixão encontrava a terra. Os médicos haviam garantido pelo menos mais um cinco anos, ouvi dizer. E eles deveriam estar certos. Afinal, não foi a doença que a levou. Foi o acaso.
Respirei aliviada quando meu velho foi pro quarto, estável, bem. Era hora de começar a fisioterapia, ganhar movimentos e voltar a falar. Mas o coração se recusou. E parou. Duas vezes. Ele tinha mais de 80 anos. Mas carpia, corria, sorria e amava viver a vida. Tinha uma lista enorme de parentes para morrer antes dele. Injustiça (?).
A amiga já não tinha mais cura. Mas, meu deus, era tão, tão jovem. E os jalecos brancos tentaram. Insistiram. Injetaram. Calcularam. Mas a morte não é ciência. É milagre.
Pelo menos com o tio-avô o velório foi diferente. A viúva anunciou que agora vai poder cuidar dos joelhos. Houve uma quase-comemoração. E a certeza de que nem todo mundo será lembrado com tanto afeto.
E eu decidi que no meu velório quero mais riso que choro, menos vela, mais flor. Quero canto, quero amor. Quero fotos minhas penduradas nas paredes, vídeos, comes e bebes.
Mas, mais do que isso. Quero muita gente. Lotar o jardim de pessoas queridas. Que é para ter certeza que acertei nessa vida.
E espero, é claro, que esse dia esteja bem longe. Mas já entendi quão pequeninos somos. E a lição que fica destes que já se foram é que a quantidade de flores e lágrimas colhidas na partida é o resultado de pequenos grãos de gentileza, carinho, cuidado, compaixão e alegria, distribuídos ao longo da vida, que germinaram para nascer amizade, amor e a saudade, que agora habita no coração de quem ficou.
E a morte talvez não seja uma figura obscura, sem cara, de foice. Ela pode ter lindas asas brancas e sorriso acolhedor que, na hora que chega, apazigua e ilumina. Acaba com a dor.
O inferno é o habitat apenas de quem sobra, para ver se aprende que a Terra é uma passagem, cuja felicidade, paz e tranquilidade dependem pura e simplesmente de seus atos, de coragem.
Que sejamos mais gentis, então, que os que foram olhem por nós com o carinho de sempre, como anjos ou estrelinhas, e que setembro chegue mais leve e mais fresco. Que floreie nossos caminhos.
Por favor.

That’s Thata

she tells me her stories like it was a movie
she listens to mine
she lights up the room with her smile
she lives like a rockstar
always shining bright in her private sky
she rules my world and I know it’s for good
she earned my trust with no need for prove
she changes my path as she is my destiny
and I’m not afraid to hit the bottom anymore
we make it through life as we were canoeing (she paddles – while I rest -, then I paddle – while she rests -, then she paddles…non stop)
she’s the strongest one, though almost no one knows it
even if the floor is crumbling down she’s always alive
she’s a friend and a sister
and I know it’s for a lifetime
I’ll hold her heart like it was my own
she’s my person
and I love her so

Tudo que vai

Gosto de ser a pessoa que vai. Aquela cuja única tarefa dolorosa é anunciar sua partida. Que pode, sim, verter sinceras lágrimas, rapidamente enxutas pela ânsia do novo, pela magia do desconhecido.
A pessoa que vai pode até olhar para trás para acenar com o já peso da saudade prematura. Pode caminhar meio tortamente, acompanhada do medo do incerto. Mas a felicidade da conquista empurra sempre para frente, mesmo tropeçando, mesmo em zigue-zague.
A pessoa que vai, vai mesmo. E descobre que o mundo é bem maior do que aquele cotidiano gostosinho, porém comum e de já fácil manejo – por experiência – onde costumava-se viver, acomodado.
A pessoa que vai, vai descobrir-se a si mesmo também. Passará dificuldades e sofrerá novas pressões, mas erguer-se-á pegando impulso a cada pedra jogada no caminho. A pessoa que vai entende que pode ir e irá ainda mais longe a cada nova oportunidade.
A pessoa que vai leva a bagagem de toda a experiência anterior. Com ela, sente-se mais segura e mais capaz. E o é mesmo.
A pessoa que fica, fica com a sensação de vazio.
Fica meio triste, embora orgulhosa do triunfo do outro.
Fica meio perdida, porém. A cada piada interna contada, cada risada compartilhada ou aquele olhar típico de tarde de segunda-feira irritante em que saber-se não sozinho acalenta e faz acalmar. Busca-se o riso, o bufar, o olhar. E nada, não se encontra nada – é como tentar apoiar o cotovelo em uma base de mesa solta, desparafusada. Não machuca, mas não suporta, não aporta, não funciona.
A pessoa que vai sempre diz que vai sentir falta. E vai mesmo. Mas é diferente.
A pessoa que vai leva tudo com ela e ainda pode voltar vez ou outra para relembrar bons momentos.
A pessoa que fica, fica também com os móveis – vazios – e com aquele buraco no peito.
O dia a dia cessa, como é de sua responsabilidade fazê-lo, a dor mais aguda, mas o rastro do que se foi fica sempre ali, mesmo substituído – por melhor ou pior que isso seja.
Ser a pessoa que fica implica em lidar com uma perda que não é irreparável – visto que a pessoa que vai (ainda bem!) vai feliz e vai com vida, afinal -, mas que atormenta como se fosse.
Ser a pessoa que vai e saber que vai fazer muita falta é uma boa sensação, porém.
E é com essa certeza que a parte sobrevivente da mais recente parceria Superpoderosa deve ir. Levando consigo todo o conhecimento gastronômico adquirido semanalmente, além, é claro, do profissionalismo invejável e a cara de jornalista que não deixa dúvidas de sua competência.
Quando conheci Isabel pensei tratar-se da tão comum raça de comunicólogos arrogantes e sabichões. Mas toda essa pompa era apenas timidez.
Bel é a menina da risada gostosa, das piadas inteligentes e do texto leve e claro.
Bel é a organizadora do site e aquela que está sempre pronta para segurar o tranco quando a colega aqui perde as estribeiras.
Bel não é mais sisuda, mas segue sendo séria, passando credibilidade com sua pose de quem sabe muito bem o que está fazendo – porque sabe mesmo.
Bel é a pessoa que vai e vai levando junto a ela toda minha admiração, gratidão e carinho.
Eu, como pessoa que fico, fico com o exemplo de pessoa e profissional e fico feliz, com mais uma amizade que a vida me deu de presente. Fico com o coração na mão e com a certeza de que ainda escutarei seu nome em referências gastronômicas por aí.
Fico com a certeza de que vou encontrá-la em mais ainda muitas e muitas tardes, de lazer em vez de trabalho e com a mesma parceria de hoje.
Eu fico e você vai.
E vá mesmo, mas volte sempre. E não saia nunca de minha vida.

Pai. Do verbo ‘insubstituível’

a dor dói menos mesmo. como todo mundo disse que aconteceria.

todo mundo com um mínimo de sensatez, né?

o que mais me irritava quando você lá estava, já não sabendo direito que dia era (felizmente sem nunca esquecer-nos) e desmanchando-se em si mesmo, cada vez menos e menor em um caminho difícil de acompanhar por ser regado pela falta de esperança, com muito alívio do não-sofrimento e o desespero da despedida – aquela que, graças a deus (o seu, o meu, o que existe, o que não ou aquela simples e profunda fé meio descabida, porém poderosa, que usamos apenas em momentos críticos e trágicos e life changings como este) – eram as pessoas otimistas.

você sempre foi otimista para tudo que dependia de você. dava conta. e sabia que lograria qualquer resultado esperado. e mesmo que assim não fosse, as coisas se ajeitariam. era quase como mágica.

mas a vida não. a vida e suas peripécias nunca lhe foram tragadas com muita confiança. era sempre realista, duro e aproveitador do momento quando ele aparecia, porque sabia que o trajeto imposto por destino ou aquele deus de que falávamos acima ou de escolhas mesmo (vai saber…) tratava a sorte com parcimônia.

te vi partir dia após dia. após dia. após dia.

menos comida, menos força, menos reação. sempre com muita vontade de abrir os olhos e persistência para fazer a voz sair. ela nunca nunca saía. mas hei de encontrar no mundo alguém que saiba falar com o olhar tão bem como você.

aceitei de alma e coração sua passagem, encerramento, merecido descanso ou como você queira chamar. mas me parece que este foi um ato heróico ou covarde (tudo depende sempre do ponto de vista, não é mesmo?) feito por mim só e apenas.

e ninguém entendia.

lembra daqueles telefonemas que recebíamos? horas e horas de baboseira crédula pregando a palavra de misericórdia e milagre que te faria levantar da cama e correr entre brancos e limpos lençóis hospitalares que, apesar de macios, já machucavam sua sensível e cansada pele tão forte e morena e de tanto pulso em assuntos como economia e política.

sua corajosa veia empreendedora, como mágica, receberia mais energia e sangue e vida enviada talvez por anjos. teve aquela moça, lembra? (cheguei a te contar em um monólogo que, desculpa o trocadilho, deve ter-te feito querer morrer) que me contou sua experiência de quase falecimento. sei lá quantos dias na UTI, desenganada por sei lá quantos médicos, sei lá quantas e vezes e hoje aí, vivinha para me contar a história e provar que siiiim, mesmo já moribundo, você não me abandonaria.

quase acreditei nela. mas sabe qual o problema de acreditar em gente que insiste em dizer que ‘tudo vai ficar bem’ quando…bem…não vai? bom, é que, realmente….não foi. não ficou tudo bem. ficou tudo mal, péssimo, horrendo, desastroso. e ninguém me ligou para explicar o que fazer depois disso.

e quando você se foi, perdoado e amado e seguindo seu caminho que acredito ser de muita sorte (o mundo é muito cruel) e muito azar (tem tanto vídeo bom e tanta estupidez nova na internet que queria te mostrar, que te faria rir aquela risada gostosa), não sei dizer onde os imbatíveis fiéis de retórica enfiaram suas cabeças de vento. envergonhados, talvez. talvez tenham colocado a culpa em mim – que não tive assim tanta fé. eu cheguei a culpar os médicos e alguns pecados que havia cometido num passado recente (sabe como é…aqui se faz, aqui se paga).

mas de nada adianta pegar o criminoso, o ladrão de role model, pai, amigo, companheiro, confidente. a perda não se mede em vingança ou duras palavras proferidas a quem que, de fato, merecia. claro que fiz alguns telefonemas e sei que de longe você se orgulhou disso. te prometi stand up for myself e jamais deixarei proferir-se uma má palavra a seu respeito. a nosso particular respeito, você sabe.

doeu, pai. sem ou com culpado. quer quisera o destino ou deus ou você mesmo ou os médicos ou qualquer circunstância que já não importa.

um ano depois, somos apenas nós, aqui outra vez. sobrevivemos, meio tortos.

acordando ainda um após o outro, com medo de abrir os olhos e não te ver. indo dormir a base de séries engraçadas que é para não pensar demais na vida (nada mudou, veja bem).

às vezes é estranho não te extrañar demais. às vezes é estranho chorar de rir com alguma piada tipicamente sua. difícil às vezes ver que a vida anda, que o mundo gira e as coisas acontecem. sempre para frente, como você sempre recomendou.

um ano depois ainda ouço seu estalar de juntas subindo as escadas, o cheiro de perfume ainda se espalha pela casa e os conselhos sigo recebendo, não sei nem explicar como.

um ano depois ainda choro sozinha. só às vezes. mas rio muito também. de mim, de você, da vida. porque tudo isso faz parte. cruel e naturalmente.

e um ano depois nunca mais apareceram aquelas pessoas que acreditavam em milagres, ou pelo menos nunca mais me ligaram para contar experiências de quase-morte (ainda bem, não é mesmo?). elas seguiram suas quase-vidas e esqueceram-se das promessas não cumpridas de um credo por mim sempre desconfiado.

mas um ano depois, pai, tem muita gente boa também que aparece quase sempre. e dá um jeito de dizer que ‘está lá’, ‘para qualquer coisa’ (mesmo que a gente nunca saiba o que esse ‘qualquer coisa’ quer dizer). acho fofa a intenção, porém. apesar de meio sem sentido.

e tem aqueles, aqueles que você me ensinou a guardar no potinho dentro do peito, que não precisam expor sua presença com veemência, mas que pegam minha mão, me convidam para um drinque, agem naturalmente quando conto histórias suas e sorriem para dizer que estão lá – esses eu sei que estão mesmo.

tem uma toneladas de pais – avô, tios, padrinhos, conhecidos, vizinhos, pais de amigas – que já anunciaram que podem ocupar esse posto, deixado por ti.

o que eles não sabem é que você nunca foi embora de verdade. que segue em minhas orações (depois conversamos sobre para qual deus), em meus pensamento, atos, decisões. a cada respirar meu, lá está você. a cada vírgula escrita, a cada trabalho concluído. na minha vida, no meu coração. no formato das minhas mãos, no nariz de batata e até na maneira meio dura e truculenta de andar.

um ano depois e todos os muitos anos que vierem (porque eles virão, por melhor ou pior que isso possa parecer) a cadeira segue sendo sua e só sua.

o posto de ‘melhor pai do mundo’ é ocupado por todos os pais de todo o mundo. chega a ser banal, não é mesmo?

mas o título de ‘melhor MEU pai’ ninguém tira de você. se existe um deus, aquele mesmo, lá de cima, agradeço-o a cada segundo de cada dia a oportunidade de ter convivido com o personagem mais sagaz, divertido, despretencioso e pretencioso ao mesmo tempo, o mais incrível e perfeito companheiro de jornada que o cosmo poderia ter-me enviado.

não me imagino crescendo e sendo ensinada por nenhum outro modelo de pai e ditador e democrata e companheiro que você sempre foi. meu melhor professor.

o dia dos pais será sempre seu, para você e com você. mesmo longe. de mais ninguém.

hoje é dia de vinho, então. do melhor, por favor. dia de filme bom. de ouvir boas músicas e de gastar o dinheiro que não tenho em um restaurante que não conheço. dia de descobrir coisas novas. hoje é dia de gratidão, muita gratidão. sofrimento também, choro e riso.

uma sensação estranha que já faz parte de mim. um buraco imenso e vazio (para sempre impossível de preencher) no peito, que às vezes encho de flores – que é para disfarçar.
hoje é dia de saudade boa e ruim. e amor. só amor.
hoje é dia de homenagem. e essa eu fiz para você.

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