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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

Aqui vamos nós outra vez

Achei que o coração tava quebrado.
Até batia, mas nada sentia.
Apanhou, apanhou, apanhou.
Atacar ele até tentou.
Mas caiu. Desajeitado.
Pobre, pobre coitado.
Num potinho feito de gelo ele descansa sem demora.
Não tá nem aí pra vida lá de fora.
E, assim, os dias foram todos se passando.
Tranquilamente, monotonamente, solamente caminhando.
Sem muita emoção, focando na concentração.
Sem dizer muitos sim, só tacando a mão no não.
Mas um tiro meio torto o atingiu bem em cheio.
Devagarinho remendou o buraquinho lá do meio.
De repente ele ri, ele dança, ele chora.
Mesmo com medo do crescer do sentimento que aflora.
Ignora os sinais, pensa bem antes de falar.
O receio bate forte de de novo machucar.
As músicas voltaram a fazer muito sentido.
A grama tá mais verde, o mundo tá mais lindo.
O sorriso, mega bobo, invadiu o guarda-roupa.
Vai com calma, coração, tô ficando muito louca.
É difícil, no escuro, tantos passos ter que dar.
Dado os riscos que se corre se de novo se entregar.
Fecha os olhos, dê-me a mão, corajoso coração.
Se o cair é inevitável, só saberemos ao tentar.
O importante, sempre sempre, é saber se levantar.
Vem comigo, vem sem medo. Vem a vida aproveitar.
Tá na hora de viver. Tá na hora de amar.
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Amigos, amigos… Facadas à parte.

comecei a chamar a menina de traíra, veja bem, sem que ela me tenha feito nada. absolutamente nada. bem, nada diretamente, né? porque magoar amigo é magoar-me duas vezes. traição, então, nem se fala. que a gente passa uma vida inteira de confiança, respeito, admiração. segura a cabeça do outro enquanto o outro vomita, não deixa engasgar, pega água gelada, protege o cabelo e até leva pro hospital, se necessário. tudo sem contar pros pais do dito cujo, que além de pisar, espirra a merda pros amigo tudo. que a gente faz voz de quem sabe muito bem do que está falando quando recebe a ligação às quatro da manhã de uma mãe desesperada e responde “aham, aham, tá aqui sim, mas não pode falar, porque tá no banheiro”. e aí é a gente que desespera, ligando para todos os conhecidos em comum, hospitais, iml, suando frio até aparecer, tão vivo que dá vontade de matar. a gente pega carro emprestado para acudir quando foi preso, quando foi pego, quando tá triste. a gente deixa de dormir para servir de terapeuta. gasta o crédito que não tem para acalmar ânsias noturnas. deixa de lado família, trabalho, animal de estimação. que a vida do outro é tipo continuidade da nossa. que se o outro morre, grande parte da gente vai junto. que quando machuca, a gente fica meio manco também. e se estamos numa canoa, eu remo e você descansa. você descansa e eu remo. e aí eu falo mesmo. que na hora de ser amigo na festa e na farra, ah, aí é mara! mas na crise e no problema, aí não dá para aguentar? que pode me ofender, difamar, xingar e até berrar. nada disso me indigna. mas apunhalar pelas costas a amiga? cê me desculpa, que aí não vai dar.

Lar

Quando eu era pequena, era batata: todo carnaval, ano novo, feriados, aniversários e fins de semana eram lá. Minha mãe preparava as malas, meu pai fazia mágica para fazer caber todos os apetrechos em um porta-malas apertado e logo a gente seguia viagem.
No caminho, a pequena eu já ia entrando no clima. À medida em que saíamos da cidade, as janelas eram todas abertas, o rádio era substituído pelo som do vento e os prédios davam lugar a tons de verde que se misturavam e confundiam, em uma pintura impossível de explicar.
Quando passávamos pela estrada de terra, eu já tirava logo o cinto e me preparava para matar as saudades da vizinhança. Começava pelos cachorros, que nos reconheciam de longe, fazendo papai tirar o pé do acelerador.
Eu sacudia os bracinhos ao cumprimentar o Meloso, sentia um afago no peito ao rever dona Maria e seus muitos filhos na barra da saia e me sentia completa ao avistar o velho amigo Azulão.
Ao estacionar, vovô já estava posicionado, todo pomposo, com uma das mãos apoiada no ponto mais alto do portão e a outra descansando na cintura. O chapéu, vezes de palha, vezes de pano, escondia a abundância de cabelos volumosos e bem pouco grisalhos. Ele nos recebia com um abraço caloroso e uma gargalhada sincera. A melhor energia que senti na vida.
O tempo foi passando. Mais crianças chegaram à família e a pequena casa com um imenso jardim sempre tinha espaço para mais um e mais um e mais um…
Todo mundo passou por essa casa, que agora é de vocês.
Tanta coisa aconteceu nessa varanda. Foi atrás da casa, espiando pelos tijolos vazados, que fumei meu primeiro cigarro escondida. Era sentada na mureta que eu ouvia as melhores músicas observando o ir e vir da rede que abrigava o sono de alguma tia no fim da tarde.
No jardim, sempre verde e bem aparado, aconteceram as mais horrendas peladas de homens de meia-idade contra garotos gordinhos que sempre acabava em um pé quebrado ou joelho torcido.
Foi nas ruelas de terra que aprendi a dirigir. Foi, bem ali, do lado esquerdo da cerca, que tive a primeira conversa sobre amor com a minha avó, enquanto coletávamos mamonas para fazer de munição da guerrinha de mais tarde.
Minha avó também foi a primeira pessoa que vi matar uma cobra e acho que foi ali que entendi o que era girl power. Aprendi o nome das flores, comi muita coisa do pé e observei o movimentar das nuvens, deitada na grama ainda úmida do orvalho da manhã.
Em dias de sol, regávamos as árvores com guerra de bexiga e a horta, sempre farta do fundo do terreno, me deixou com um problema sério: não consigo mais comer verduras em nenhum outro lugar. O verdadeiro gosto da alface nada tem a ver com essa que a gente encontra no mercado.
Foi na casa de árvore construída pelo vovô que meu irmão pegou berne na cabeça. Uma vez meu avô foi colher bananas do alto da mais alta bananeira, posicionou a escada, subiu e… caiu como vara verde. Esse assunto era proibido nos almoços de domingo.
Meu avô amava esse lugar. Tudo aqui, tudo mesmo, foi construído por suas mãos.
Cada árvore foi plantada em um lugar preciso, pensado para crescer com saúde. Cada flor foi escolhida a dedo para atrair os passarinhos mais lindos. Não tem um centímetro nessas terras que não tenha sido tocado por suas pesadas botas ou acariciados por suas mãos calejadas, delicadas e ásperas.
Esse era o seu paraíso. Foi onde ele despejou mais amor. E é possível ainda enxergar uns traços dele por aqui. Uma aura, uma alegria, essa beleza. E se tem uma única coisa que ele certamente pediria seria nunca deixar essa casa vazia, a mata crescendo e as frutas apodrecendo no chão.
Isso aqui precisa de gente. Precisa de criança correndo, carne assando, moda de viola na vitrola e as árvores sempre servindo de apoio para redes que servirão de abrigo do sono do fim da tarde.
Isso aqui precisa de vida. E precisa de alguém que fique empolgado no caminho, no fim de semana, ouvindo o barulho do vento, ansioso pelos reencontros, sabendo que a felicidade está logo ali, no virar da curva de barro.
Essa chácara precisa de amor, precisa de vocês.
E é por isso que é sem amarras que entrego essa chave.
Esse mundo é muito grande e a gente mora mesmo é dentro da gente.
Mas tem certos lugares que são nosso lar, mesmo sem ser a nossa casa.

RG

Demorei muito pra me encontrar. E essa não é uma música do Fábio Jr. Quem me conhece, mas, assim, conhece mesmo. Mesmo, mesmo… sabe que eu tenho uma lista de nomes imensa pros meus filhos que ainda hão de vir.
Spoiler: todos eles nascerão com 87 anos, culpa de nomes lindos e controversos nas rodas de bar como Adelaide, Carmela, Mercedes, Theodoro, Aquiles e Nicolau (e esse é só o começo). Veja bem, eu jamais registraria meus filhos com nomes esdrúxulos, que podem vir a ser sinônimo de sofrimento, mas gosto de nomes poderosos, inesquecíveis. E, sinto muito, eles vão ter que lidar com isso.
Meus pais me deram nome de cantora de MPB. E se a Ana Carolina já não fosse famosa e maravilhosa como é, eu provavelmente faria proveito desta composição que teve como inspiração uma menininha linda que minha mãe conheceu antes mesmo de engravidar.
Na escola, tinha Caio Zen, Marina Tommasi, Marcela Leal, Natália Gilia, Camila Soler. Na faculdade, Thaísa Gazelli, Cecília Leite, Mayara Castro. Até na família tem nome que pega. Tem Giovanna Vecchi. Meu deus, quem é que esquece uma Giovanna Vecchi.
E eu passei a ter um nome só. Ana, pros amigos. Carol, na família. Tem gente que me chama de Ana Carol, mas não tem nada que eu odeie mais nesse mundo.
No trabalho, virou Ana Pereira. Só porque eu acho que as pessoas, mesmo com mais de 30 anos na cara, não teriam maturidade pra encarar um e-mail ana.pinto@qualquercoisa.com. O sobrenome do papai, então, coitado, fica lá, de escanteio.
Não tenho nada contra nomes comuns, vale ressaltar, muito menos o Pereira, que, na minha família, veio pro Brasil num navio recheado de coragem e histórias tão lindas e que, por mim, fora herdado do homem mais generoso e buena onda que conheci, o vô Athayde (sim, pessoal, com “th” e “y”, fazendo o favor).
Mas alguma coisa ainda tava faltando. Um pouco de personalidade, de diferente, de mim. Tentei usar o nome da minha avó. Flore. Tão bonito. Veio lá da Itália. Vem de flores, talvez. Mas não pegou, não. Não é muito internacional e minhas ambições, meu quiridinho, são altas.
Foi aí que surgiu o limão. Não é o bairro, não é a fruta. Mas me foi entregue numa cesta, bem de bandeja, colhido nos alpes, por uma leitora: “ai, seus textos são tão ácidos. mas, ao mesmo tempo, prazerosos. é tipo chupar limão”. Juntou essa fofura de declaração com uma personagem magnífica de uma série magnífica que já se acabou e eu fui, aos poucos, virando eu.
Com o nome, veio a minha certeza. Foram-se os medos, vieram os textos, os trabalhos e milhões de oportunidades.
Do registro do nome, em cartório aqui dentro, na alma, na mente, nasceu a menina escritora. Ana Pereira fez jornalismo porque só servia pra ler e escrever. Ana Lèmon veio ao mundo para a escrita e é escrevendo que vai crescer.
Meu nome agora é Zé Pequeno, porra. E, pode esperar, 2017 tá chegando e você ainda vai ouvir falar de(sse novo) mim.
Depois de toda essa arrogância, me despeço. E se meus pequenos Fredrich, Odette, Consuelo, Loretta e Apollo quiserem mudar seus nomes pra Maria, Pedro, Joana e Lucas Silva e Silva, eu vou achar a coisa mais linda desse mundo. O que importa é se encontrar, se amar, se deixar ser o que é e viver, viver muito, que a vida é um limão azedo, delicioso e despretensioso, que vem na bandeja ou nasce no pé.

Tóxico

Tem gente que consegue extrair o pior de dentro de nós.
Funciona como veneno poderoso. Nem precisa ser ingerido. Basta chegar perto, basta exalar aquele aroma seco que machuca os pulmões no respirar mais profundo. O veneno – que, cruel, não mata – age como droga. Nocivo que é, ele muda a forma de lidarmos com o mundo. Não relaxa, como a cannabis; não estimula, como cocaína. Mas vicia, como crack.
Os olhos não ficam vermelhos e as pupilas seguem dilatadas com parcimônia, como deveriam ser, para enxergarmos melhor. Mas a cegueira está ali. Munida de uma certa raiva, de um certo bode, de uma certa maldade, essa substância ao mesmo tempo cinza e incolor, ao mesmo tempo melequenta e gasosa, inebria, distorcendo todos os valores, toda a moral construída pelos percalços do caminho. Pelo superar das adversidades.
Os atos horrendos, antes inimagináveis, são cometidos sem pudor.
O usuário, nem sempre ciente de que fora afetado – perceba aqui o perigo da droga – se transforma no monstro que sempre condenou e evitou. É ele, agora, a criatura que merece distância. Que merece temor.
As consequências são, geralmente, catastróficas e, o pior, não é só para ele. A potência dessa substância influencia todo um entorno, gerando uma reação em cadeia. Um tufão invencível, um chupacabra imortal.
E a ressaca, como é de lei natural, sempre vem. Os principais sintomas, além da óbvia dor de cabeça, é o arrependimento. O desespero, quando se percebe o que foi feito, acomete até os indivíduos mais insensíveis. Pode haver choro e é provável que sejam tentados métodos drásticos para reverter qualquer mal-estar. Mas esse esforço quase sempre é em vão.
Mesmo abatido, a chance de ser acometido pelos mesmo processos outra vez é, infelizmente, muito alta.
A quebra do ciclo vicioso requer muito autocontrole e, mais importante, força de vontade. Meditação talvez ajude. Mas é pior que dieta, que tentar parar de fumar. É impossível também denunciar às autoridades – o tóxico é legal nos termos jurídicos.
São poucos os que se tornam imunes. A recaída costuma ser recorrente. Os sobreviventes deveriam criar uma nova forma de sociedade, marginal.
O triste é saber que são poucos – muito, muito poucos – os que poderiam participar dessa paz, integrar essa elevada comunidade.
É preciso desintoxicar. Só com o bem se mata o mal. Mas esse já vive, respira, se alimenta, dorme, descansa, desperta, cresce e explode bem dentro de nós.

Sobre Elena Ferrante e a montanha-russa da vida

Me vi passando por um momento desses meio blá. Faz tempo que não escrevo. Tem muito texto na pasta de rascunhos, mas esses me parecem obsoletos, já não me representam. Com os amigos, a sensação é parecida. Não me leve a mal, os poucos e bons guardo comigo numa caixinha, sempre dentro de mim e a dois passos do whatsapp. Os novos, me empolgaram a princípio. Mas assim como vieram, se foram, meio que desapontados. Desapontada fiquei eu também. Bem mais por culpa minha do que deles. Não sei também o que estava esperando, não sei fazer amizades a essa altura do campeonato. Aqueles, da caixinha, formaram seu caráter junto comigo. Tomaram decisões erradas, com as quais aprendi. Eu também fui de muita ajuda nessa época difícil que chamamos de adolescência. Nossos passos estavam sempre em sincronia. Nossos acertos foram muito comemorados. Muitas vezes com cerveja e cigarros comprados sabe deus como, sem identidade.

Mas até para esses, não sei muito bem o que mais poderia, agora, oferecer. Não muito além de meu rosto velho conhecido, ombros e risadas como ponte para memórias deliciosas, de tempos que não voltam mais.

Sinto como se eu fosse um e.t. dentro do meu próprio corpo. Algo muito parecido com os meus dez anos, quando sangrei pela primeira vez. De maneira muito precoce, surgiram-me seios e pelos e sentimentos que eu nem sabia que existiam. E a vontade de ficar sozinha – essa nunca me abandonou. A diferença é que dessa vez não ganhei flores ou festinha, muito menos parabéns. Não há glamour em tornar-se adulto.

O sangue já escorre por entre minhas pernas há mais de dezessete anos, com uma frequência bem desregulada e acompanhado de dores que meu eu hipocondríaco sempre acha que me levarão à morte – e elas sempre desaparecem, esnobes. E eu tive que aprender a conviver com isso. Novos pontos de gordura também me apareceram, mas, dessa vez, por obra do carboidrato e não pela sabedoria infindável da misteriosa mãe natureza.

Os muitos quilos que ganhei – colocando a culpa na súbita perda de meu pai e de uma cirurgia truculenta de joelho, já em sua função quase normal – nunca mais perdi. E até isso vai ficando mais difícil.

O horizonte não é claro e empolgante, como antes fora. O próximo passo a seguir é no escuro. E dá muito medo. Dessa vez, tem muita coisa em jogo. Os boletos mensais não me deixam mentir.

Sentei no sofá, com uma gata – que era pra ser dócil, mas gosta mesmo é de tentar arrancar o dedão do meu pé – sobre minhas pernas e pensei na vida. E não foi legal.

Veja bem, eu amo estar viva. Agradeço por cada novo meme que deus me dá a oportunidade de ver, eu juro. Mas não devia ser um pouco ou muito mais do que isso?

Uma vez eu contei a uma terapeuta, que meu refúgio era nos livros. Era nesse mundo encantado, nada meu, muito do outro, que eu gostava de estar quando a realidade não me era assim, tão satisfatória.

Mas os últimos livros que li, acredite, foram péssimos. E eu li até o final só porque, diferentemente do que acontece com as dietas, não consigo abandoná-los no meio do caminho. É uma questão de respeito.

Aí, dia desses, acabei parando numa mesa de vinho – quase que por inércia – e uma gente muito interessante que cruzou meu caminho acho que por misericórdia do destino, me recomendou Elena Ferrante. E hoje, depois de um feriado meia-boca, eu senti meus olhos ganharem brilho novamente.

E se um texto bem escrito fez tão bem a mim, então por que raios não faria a você?

Esse post, então, é pra recomendar essa autora italiana meio anônima – ninguém sabe ao certo quem ela é –, cuja obra merece cada centavo de seu contado dinheirinho. Serve também para agradecer essa linda e despretensiosa indicação e, como não poderia deixar de ser, como mais um capítulo desse diário que chamo de blog – porque foi para isso que ele nasceu e foi assim, afinal, que conquistei alguns dos que me seguem.

A vida, minha gente, é essa coisa esquisita mesmo, uma montanha-russa sem freio que, dependendo da curva, faz a gente berrar de felicidade com os braços abertos ou chorar segurando bem forte na barra de segurança, pedindo pelo amor de jesus cristo, para ir um pouco mais devagar. Sem contar as inúmeras vezes que te faz vomitar, né?

Mas é isso que faz dela o bem mais precioso que o mundo poderia ter. Vai entender.

 

Família ê

Teve uma época, quando adolescente, que todos os grupinhos usavam muito a famosa “amigos são a família que a gente pode escolher”. Era legenda de foto em fotolog, frase frequente nas cartinhas trocadas na aula de física e homenagem sempre presente em cartões de aniversário.
Os amigos eram a parte fanfarrona da nossa grande família. Os escolhidos a dedo representavam os irmãos, com quem a gente troca confidências, confia nossa vida e mesmo quando briga muito, continua amando. E parece que ama cada vez mais. Os amigos do peito eram tipo os primos, com quem a gente tomou o primeiro porre e, atrás da moita, fumou o primeiro maço de cigarro. Era com eles que a gente rachava o táxi pras baladas proibidas e eram eles que nos acobertavam nas mentiras cabeludas pros pais. Não à toa, suas mães eram chamadas de tia.
O laço emocional era mais forte que qualquer ligação sanguínea. E por eles a gente daria o sangue sem pensar duas vezes.
Na vida adulta, os amigos ainda são a família que a gente escolheu. Mas o que significa família quando se tem contas pra pagar e um nariz próprio pra cuidar? Família é oferecer um colchão no chão do quarto “por quanto tempo você precisar”. É ligar pra saber como foi a entrevista de emprego e ajudar na listinha de afazeres antes da grande mudança. Falando em mudança, família é ajudar a achar apartamento, empacotar, doar umas cadeiras velhas e ajudar a pintar as paredes de um tom pêssego de gosto duvidoso, julgando sempre com muito amor. É perguntar, na boa mesmo, quão grande é a dívida. E fazer de tudo pra poder emprestar uns trocados. Família é segurar na mão na hora de abrir o resultado do exame que dá medo e ajudar a pensar nos prós e contras de se casar agora, tão cedo.
Família é exigir que avise quando chegar em casa e, só pra garantir, pedir uma foto do motorista do Uber.
Família é acordar de madrugada preocupada. É mandar mensagem de manhã só pra checar se tá tudo bem e gelar ao receber uma ligação quando se sabe que as coisas vão mal.
Família é ler o livro, ver a peça, estar presente no lançamento do filme independente, mesmo ainda tonto da anestesia de retirada do siso.
É sair de casa depois da meia-noite de uma terça-feira chuvosa, de pijamas, pra conversar um pouquinho. É dar caronas que não têm nada a ver com o seu caminho, oferecer o ombro, os braços, as pernas, os braços e até a cabeça, quando fica difícil pensar sozinho. É fazer aquilo que você mais odeia, com um sorriso enorme estampado no rosto. É ficar bravo junto, com quem nunca fez nenhum mal pra gente, é ter ciúme e passar por cima dele pra dar os melhores conselhos. É estar sempre ali, não importa se física, emocional ou virtualmente.
Família é torcer e se emocionar com o sucesso do outro. É vibrar a cada conquista. É se preocupar que nem mãe, dar sermão que nem pai, mimar que nem tia, pegar no pé que nem irmão, gargalhar que nem primo, morrer de orgulho que nem avô e amar, amar muito, que nem amigo.

De Ferro

A gente fica forte. Ri, sorri, gargalha até. A gente acha bonito o céu, o formato das nuvens, o novo corte de cabelo, o sapato que o orçamento apertou pra poder encaixar. A gente se encanta com o ronronar do gato, o novo episódio da série, as possibilidades de futuro próspero. A gente fica até sem escrever um tempão – sinal já calejado de que vai tudo bem, tudo bom. A gente chega a sentir até medo se aparece alguma dor esquisita. E sai correndo do trabalho às quatro da tarde de uma quarta-feira cheia de coisa acumulada pra fazer. É que a gente não quer morrer. Ainda tem tanto mundo, tanta coisa pra ver.

E aí tá tudo bem, tudo bom. O exame não acusa nada. A gente respira aliviado e fuma até um cigarro de novo, pra comemorar o pulmão que parece que ainda aguenta. E a gente ri, sorri e gargalha de novo. E se esforça pra ser uma pessoa melhor. A gente decora alguns mantras fofinhos e tibetanos pra poder neutralizar a mente quando encara aquele tipo de gente que não deveria, mas tira a gente do sério. Só por respirar. E a gente medita internamente, pra devolver pro mundo aquela paz e aquele amor que a gente sente quando sente o vento frio na janela aberta do carro, bem de noitezinha, cantando junto com o rádio a canção que a gente ama só porque sabe de cor.

E tem hora que a vida da gente parece um filme independente que deu certo. A gente acredita numa provável indicação ao Oscar e suspira ao perceber que, mesmo que não chegue em Hollywood, tá tudo muito bem, tá tudo muito bom.

Mas aí numa tarde ociosa de quarta-feira sem trabalho acumulado, a gente escolhe a música errada na playlist. E a gente se sente aquele nada, que não vai conseguir mudar o mundo – nem o seu próprio. E a gente só enxerga nuvem carregada onde antes tinha cor. E não chora, mas também não ri, não sorri, não gargalha. E a gente enfia a cara na barriga do gato, pra ver se um afago melhora um pouco o caminho. Mas sai de casa com um arranhão no nariz e com a certeza de que de super não temos nada. Nós somos apenas humanos e eu acho que, às vezes, isso é uma sorte danada.

Zena

Eu me lembro direitinho do dia em que te conheci. Você era tão pequeno e frágil. Eu estava tão bêbada, era quase como uma iniciação. Para mim e para você. Nós dois estávamos entrando para aquela família muito louca. Me lembro vagamente que havia morcegos e eu tinha medo, mas estava me divertindo muito. Tinha amigos, muitos amigos e a sensação de que algo muito incrível começara. Acho que já mencionei que eu estava muito, muito bêbada. Todo mundo se arrastava para chegar até os quartos e aí eu vi você. Tão pequeno, tão frágil e tão sorridente, tão brincalhão. De alguma forma, que eu jamais saberei explicar (não sem uma bebedeira) eu soube que, naquele momento, você era meu. Minha responsabilidade. Eu não sentia meus braços ou minhas pernas. Certamente tentei falar. Chamar sua mãe. Pedir alguma ajuda. Mas é claro que minha língua também não funcionava como devia. E eu tomei a decisão que hoje me faz chorar como criança. Peguei você no colo, mesmo sendo de humanas, fiz contas quase físicas – para evitar nossa fatal queda na piscina sem resgate provável, considerando o nível etílico das outras pessoas presentes – mirei e fui. Fomos. A memória é meio embaçada, sabe? Então às vezes nos vejo correndo pelo pequeno caminho de pedras entre o que parecia ser a mata e o mar e às vezes nos vejo caminhando, tranquilos e focados.
Só o que sei é que você estava acordado. E feliz. E babando. Sim, você babava muito. E quando chegamos, sãos e salvos, ao nosso destino, me lembro que você dormiu e que eu passei boa parte da noite observando seu respirar alto. Sem medo de ser feliz. Tão pequenininho. E você foi crescendo e ficando lindão e, sorte a minha, nessa época eu frequentava muito a sua casa. E te comprei presentes e roupinhas e passeei muito com você no parque. E fui acordada muitas manhãs por sua vontade de brincar e brincar e comer e ser ainda mais feliz. Meu Deus, você foi muito feliz. E tinha muita gente, acredite em mim, que visitava sua mãe só para poder te ver. Você foi muito lindo e simpático e amoroso. Mesmo quando estava doente. E eu sabia que esse dia chegaria. E eu sabia que eu choraria e que sua mãe choraria muito mais do que aquele dia em que o Corinthians perdeu, lembra? e que a gente teve que ficar consolando a garota sem saber muito bem o que falar. Mas hoje eu sei o que falar. Você teve a melhor família que esse mundo poderia te dar e a sua família teve o mais maravilhoso, caótico e fantástico cão que qualquer família poderia ter. Esse foi um encontro divino, daqueles que ficam guardados para sempre na história. Daqueles que fazem a vida valer a pena. Até o fim.
Zena2
Maizena, foi um prazer ser sua madrinha. Sua felicidade vai ficar para sempre guardada no meu coração. Vá brincar, garoto, vá brincar!
Zena1

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