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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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Sobre Elena Ferrante e a montanha-russa da vida

Me vi passando por um momento desses meio blá. Faz tempo que não escrevo. Tem muito texto na pasta de rascunhos, mas esses me parecem obsoletos, já não me representam. Com os amigos, a sensação é parecida. Não me leve a mal, os poucos e bons guardo comigo numa caixinha, sempre dentro de mim e a dois passos do whatsapp. Os novos, me empolgaram a princípio. Mas assim como vieram, se foram, meio que desapontados. Desapontada fiquei eu também. Bem mais por culpa minha do que deles. Não sei também o que estava esperando, não sei fazer amizades a essa altura do campeonato. Aqueles, da caixinha, formaram seu caráter junto comigo. Tomaram decisões erradas, com as quais aprendi. Eu também fui de muita ajuda nessa época difícil que chamamos de adolescência. Nossos passos estavam sempre em sincronia. Nossos acertos foram muito comemorados. Muitas vezes com cerveja e cigarros comprados sabe deus como, sem identidade.

Mas até para esses, não sei muito bem o que mais poderia, agora, oferecer. Não muito além de meu rosto velho conhecido, ombros e risadas como ponte para memórias deliciosas, de tempos que não voltam mais.

Sinto como se eu fosse um e.t. dentro do meu próprio corpo. Algo muito parecido com os meus dez anos, quando sangrei pela primeira vez. De maneira muito precoce, surgiram-me seios e pelos e sentimentos que eu nem sabia que existiam. E a vontade de ficar sozinha – essa nunca me abandonou. A diferença é que dessa vez não ganhei flores ou festinha, muito menos parabéns. Não há glamour em tornar-se adulto.

O sangue já escorre por entre minhas pernas há mais de dezessete anos, com uma frequência bem desregulada e acompanhado de dores que meu eu hipocondríaco sempre acha que me levarão à morte – e elas sempre desaparecem, esnobes. E eu tive que aprender a conviver com isso. Novos pontos de gordura também me apareceram, mas, dessa vez, por obra do carboidrato e não pela sabedoria infindável da misteriosa mãe natureza.

Os muitos quilos que ganhei – colocando a culpa na súbita perda de meu pai e de uma cirurgia truculenta de joelho, já em sua função quase normal – nunca mais perdi. E até isso vai ficando mais difícil.

O horizonte não é claro e empolgante, como antes fora. O próximo passo a seguir é no escuro. E dá muito medo. Dessa vez, tem muita coisa em jogo. Os boletos mensais não me deixam mentir.

Sentei no sofá, com uma gata – que era pra ser dócil, mas gosta mesmo é de tentar arrancar o dedão do meu pé – sobre minhas pernas e pensei na vida. E não foi legal.

Veja bem, eu amo estar viva. Agradeço por cada novo meme que deus me dá a oportunidade de ver, eu juro. Mas não devia ser um pouco ou muito mais do que isso?

Uma vez eu contei a uma terapeuta, que meu refúgio era nos livros. Era nesse mundo encantado, nada meu, muito do outro, que eu gostava de estar quando a realidade não me era assim, tão satisfatória.

Mas os últimos livros que li, acredite, foram péssimos. E eu li até o final só porque, diferentemente do que acontece com as dietas, não consigo abandoná-los no meio do caminho. É uma questão de respeito.

Aí, dia desses, acabei parando numa mesa de vinho – quase que por inércia – e uma gente muito interessante que cruzou meu caminho acho que por misericórdia do destino, me recomendou Elena Ferrante. E hoje, depois de um feriado meia-boca, eu senti meus olhos ganharem brilho novamente.

E se um texto bem escrito fez tão bem a mim, então por que raios não faria a você?

Esse post, então, é pra recomendar essa autora italiana meio anônima – ninguém sabe ao certo quem ela é –, cuja obra merece cada centavo de seu contado dinheirinho. Serve também para agradecer essa linda e despretensiosa indicação e, como não poderia deixar de ser, como mais um capítulo desse diário que chamo de blog – porque foi para isso que ele nasceu e foi assim, afinal, que conquistei alguns dos que me seguem.

A vida, minha gente, é essa coisa esquisita mesmo, uma montanha-russa sem freio que, dependendo da curva, faz a gente berrar de felicidade com os braços abertos ou chorar segurando bem forte na barra de segurança, pedindo pelo amor de jesus cristo, para ir um pouco mais devagar. Sem contar as inúmeras vezes que te faz vomitar, né?

Mas é isso que faz dela o bem mais precioso que o mundo poderia ter. Vai entender.

 

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Família ê

Teve uma época, quando adolescente, que todos os grupinhos usavam muito a famosa “amigos são a família que a gente pode escolher”. Era legenda de foto em fotolog, frase frequente nas cartinhas trocadas na aula de física e homenagem sempre presente em cartões de aniversário.
Os amigos eram a parte fanfarrona da nossa grande família. Os escolhidos a dedo representavam os irmãos, com quem a gente troca confidências, confia nossa vida e mesmo quando briga muito, continua amando. E parece que ama cada vez mais. Os amigos do peito eram tipo os primos, com quem a gente tomou o primeiro porre e, atrás da moita, fumou o primeiro maço de cigarro. Era com eles que a gente rachava o táxi pras baladas proibidas e eram eles que nos acobertavam nas mentiras cabeludas pros pais. Não à toa, suas mães eram chamadas de tia.
O laço emocional era mais forte que qualquer ligação sanguínea. E por eles a gente daria o sangue sem pensar duas vezes.
Na vida adulta, os amigos ainda são a família que a gente escolheu. Mas o que significa família quando se tem contas pra pagar e um nariz próprio pra cuidar? Família é oferecer um colchão no chão do quarto “por quanto tempo você precisar”. É ligar pra saber como foi a entrevista de emprego e ajudar na listinha de afazeres antes da grande mudança. Falando em mudança, família é ajudar a achar apartamento, empacotar, doar umas cadeiras velhas e ajudar a pintar as paredes de um tom pêssego de gosto duvidoso, julgando sempre com muito amor. É perguntar, na boa mesmo, quão grande é a dívida. E fazer de tudo pra poder emprestar uns trocados. Família é segurar na mão na hora de abrir o resultado do exame que dá medo e ajudar a pensar nos prós e contras de se casar agora, tão cedo.
Família é exigir que avise quando chegar em casa e, só pra garantir, pedir uma foto do motorista do Uber.
Família é acordar de madrugada preocupada. É mandar mensagem de manhã só pra checar se tá tudo bem e gelar ao receber uma ligação quando se sabe que as coisas vão mal.
Família é ler o livro, ver a peça, estar presente no lançamento do filme independente, mesmo ainda tonto da anestesia de retirada do siso.
É sair de casa depois da meia-noite de uma terça-feira chuvosa, de pijamas, pra conversar um pouquinho. É dar caronas que não têm nada a ver com o seu caminho, oferecer o ombro, os braços, as pernas, os braços e até a cabeça, quando fica difícil pensar sozinho. É fazer aquilo que você mais odeia, com um sorriso enorme estampado no rosto. É ficar bravo junto, com quem nunca fez nenhum mal pra gente, é ter ciúme e passar por cima dele pra dar os melhores conselhos. É estar sempre ali, não importa se física, emocional ou virtualmente.
Família é torcer e se emocionar com o sucesso do outro. É vibrar a cada conquista. É se preocupar que nem mãe, dar sermão que nem pai, mimar que nem tia, pegar no pé que nem irmão, gargalhar que nem primo, morrer de orgulho que nem avô e amar, amar muito, que nem amigo.

Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu

Luiz morreu aos 54 anos.
Refeições gordurosas regadas a cerveja, vinho e uísque da melhor qualidade provavelmente destruíram seu fígado.
Mesmo sabendo de sua condição genética – a mãe de Luiz morreu de cirrose sem nunca ter bebido uma gota de álcool -, comeu e bebeu nos melhores restaurantes.
Experimentou todos os sabores. Japonês, indiano, apimentado mexicano, dendê baiano, testículo de jacaré e incontáveis frutas direto do pé.
Até os 50, chegava em casa depois das 4h da manhã. Dava-se ao luxo de encontrar amigos de anos pelo menos duas vezes por semana. Era sauna, era bar, era jantar. Era qualquer desculpa para festejar, farrear, desopilar.
Luiz tinha uma legião de amigos. Uns fiéis, outros nem tanto. Emprestava dinheiro, confortáveis ombros e conselhos capazes de mudar vidas.
Luiz era filósofo. Era químico, alquimista. Era matemático e professor. Era influente, poderoso. Era funcionário dele mesmo, diretor.
Assistiu a todos os bons filmes, acompanhou todas as boas séries e leu todas as notícias que as poucas horas de seus poucos dias deram conta de absorver.
Era inteligente. Trabalhador. Ambicioso e sonhador.
Mesmo pobre, viajava de primeira classe. Conheceu o mundo. China, Emirados Árabes, Estados Unidos, Canadá. Fez nevar Paris. Saboreou todas as cervejas da Bélgica. Passou frio na Itália. Brasil. Espanha. Inglaterra. Alemanha. Cozumel. Chile. Argentina. Paraguai e Uruguai.
Luiz tinha camaradas em todos os idiomas.
Suas cinzas serão jogadas em límpidas e turvas águas em um cruzeiro pelo mar caribenho.
Luiz viveu como quem tinha nas palmas das mãos o mundo inteiro.
Quando internado, arrumou briga com as enfermeiras. Queria trabalhar. Reclamava da comida sem gosto. Queria bife com batata frita.
Mesmo assim, tirou foto com seu colega de quarto, aquele do leito ao lado. E prometeu que sairiam dessa juntos.
Luiz morreu.
Um grupo de mais de duzentas pessoas ao seu velório compareceu.

Tudo que vai

Gosto de ser a pessoa que vai. Aquela cuja única tarefa dolorosa é anunciar sua partida. Que pode, sim, verter sinceras lágrimas, rapidamente enxutas pela ânsia do novo, pela magia do desconhecido.
A pessoa que vai pode até olhar para trás para acenar com o já peso da saudade prematura. Pode caminhar meio tortamente, acompanhada do medo do incerto. Mas a felicidade da conquista empurra sempre para frente, mesmo tropeçando, mesmo em zigue-zague.
A pessoa que vai, vai mesmo. E descobre que o mundo é bem maior do que aquele cotidiano gostosinho, porém comum e de já fácil manejo – por experiência – onde costumava-se viver, acomodado.
A pessoa que vai, vai descobrir-se a si mesmo também. Passará dificuldades e sofrerá novas pressões, mas erguer-se-á pegando impulso a cada pedra jogada no caminho. A pessoa que vai entende que pode ir e irá ainda mais longe a cada nova oportunidade.
A pessoa que vai leva a bagagem de toda a experiência anterior. Com ela, sente-se mais segura e mais capaz. E o é mesmo.
A pessoa que fica, fica com a sensação de vazio.
Fica meio triste, embora orgulhosa do triunfo do outro.
Fica meio perdida, porém. A cada piada interna contada, cada risada compartilhada ou aquele olhar típico de tarde de segunda-feira irritante em que saber-se não sozinho acalenta e faz acalmar. Busca-se o riso, o bufar, o olhar. E nada, não se encontra nada – é como tentar apoiar o cotovelo em uma base de mesa solta, desparafusada. Não machuca, mas não suporta, não aporta, não funciona.
A pessoa que vai sempre diz que vai sentir falta. E vai mesmo. Mas é diferente.
A pessoa que vai leva tudo com ela e ainda pode voltar vez ou outra para relembrar bons momentos.
A pessoa que fica, fica também com os móveis – vazios – e com aquele buraco no peito.
O dia a dia cessa, como é de sua responsabilidade fazê-lo, a dor mais aguda, mas o rastro do que se foi fica sempre ali, mesmo substituído – por melhor ou pior que isso seja.
Ser a pessoa que fica implica em lidar com uma perda que não é irreparável – visto que a pessoa que vai (ainda bem!) vai feliz e vai com vida, afinal -, mas que atormenta como se fosse.
Ser a pessoa que vai e saber que vai fazer muita falta é uma boa sensação, porém.
E é com essa certeza que a parte sobrevivente da mais recente parceria Superpoderosa deve ir. Levando consigo todo o conhecimento gastronômico adquirido semanalmente, além, é claro, do profissionalismo invejável e a cara de jornalista que não deixa dúvidas de sua competência.
Quando conheci Isabel pensei tratar-se da tão comum raça de comunicólogos arrogantes e sabichões. Mas toda essa pompa era apenas timidez.
Bel é a menina da risada gostosa, das piadas inteligentes e do texto leve e claro.
Bel é a organizadora do site e aquela que está sempre pronta para segurar o tranco quando a colega aqui perde as estribeiras.
Bel não é mais sisuda, mas segue sendo séria, passando credibilidade com sua pose de quem sabe muito bem o que está fazendo – porque sabe mesmo.
Bel é a pessoa que vai e vai levando junto a ela toda minha admiração, gratidão e carinho.
Eu, como pessoa que fico, fico com o exemplo de pessoa e profissional e fico feliz, com mais uma amizade que a vida me deu de presente. Fico com o coração na mão e com a certeza de que ainda escutarei seu nome em referências gastronômicas por aí.
Fico com a certeza de que vou encontrá-la em mais ainda muitas e muitas tardes, de lazer em vez de trabalho e com a mesma parceria de hoje.
Eu fico e você vai.
E vá mesmo, mas volte sempre. E não saia nunca de minha vida.

A vida é Bela

A vida é feita de sonhos, concluí ainda quando pequena. Mesmo depois dos dez anos de idade, ainda me imaginava professora, dando a mão a pequenos alunos imaginários no caminho do recreio; por vezes me imaginei atriz, protagonizando novelas de fantasias, com vestidos de princesa e cenários de brinquedos. Mesmo sem a voz, sempre quis ser cantora, ovacionada pela multidão e sempre com uma caneta na mão, para eventuais autógrafos. Tampouco tenho a altura, mas já me imaginei recebendo prêmio de melhor jogadora de basquete. Adivinhe só? também não tenho os pés, mas pode crer que fui bailarina convidada várias vezes em Lago dos Cisnes, apresentado com louvor no escuro do meu quarto. Discursei Oscar de melhor coadjuvante, Emmy, Grammy e Tony. Sempre agradecendo àqueles que acreditaram em mim. Até recebi elogios de traje de sabonete e penteado de shampoo importado, tudo no chuveirinho do banheiro.
Na hora do vestibular, até pensei em obstetrícia, pelo milagre do nascimento. Mas o ser jornalista veio com o tempo e a constatação da falta de talento em qualquer outra área que não fosse ler, muito mais que escrever.
Meus sonhos se fizeram impossíveis no mundo real – como tem que ser, para quase todo mundo.

Menos para ela.

Bela foi pediatra desde pequena.
Não precisava de estetoscópio para enxergar sintomas malucos. Por isso soube escolher a dedo. Amigos, ela tem os melhores. Os amores, não foram muitos, mas certeiros. Quase sempre duradouros e, agora, juro que aposto em casamento.
Bela é bela mesmo. Talvez até mais por dentro do que por fora, se isso for possível.
Pode ser por isso que São Paulo inteiro dobrava e desdobrava seus horários, acordava cedo, desmarcava compromissos e faltava no trabalho quando a menina de risada gostosa trazia todo seu sotaque de interior para um fim de semana, com ela, completo.
Os aniversários de Bela sempre foram os melhores. Os conselhos também. Foi com ela que dividi segredos de encontros e primeiros, segundos e décimos amores. Bela é do tipo médica de nascença com quem qualquer um poderia tirar dúvidas de amor e dor, principalmente de barriga, quando a risada se fazia incontrolável bem no meio da aula de química.
Foi para Bela que contei minhas melhores piadas e com ela fiz as melhores teorias de que, se tudo desse certo, o mundo certamente terminaria numa quinta-feira de beijo roubado bem embaixo da amoreira do jardim.
Bela é do tipo de memória que mesmo longe, segue viva. Amiga cuja distância nunca foi motivo de estresse. Bela é frescor: ventilador em dia de verão, episódios de Friends em domingo de preguiça e gargalhada em happy hour às sextas-feiras.
Bela é tirar uma soneca depois do almoço, entradas grátis para ir ao cinema e nariz de palhaço para descontrair o trânsito afobado. Viagem sem roteiro, comer sem engordar, poder de tudo experimentar. Essa é ela.
Professora, atriz e cantora. Ganhadora de prêmios, jogadora. Bailarina e escritora.
Uma adulta para sempre criança. Sonhadora.
Desbravadora e vencedora.
Se medicina é profissão bonita, então é só nela que Bela seguiria seu caminho.
Nunca desconfiei que seria diferente. Mas agora é oficial: com talento e maestria, o lugar de Bela é mesmo na pediatria.
Sortudos serão aqueles, baixinhos e grandalhões, carrancudos e brincalhões, meigos e bobalhões, crianças em sua essência, que passarão, quando em gripe ou qualquer ocorrência, pelo lindo caminho da dra. Alegria.
Com ela confiaria deixar cérebro, fígado e meu pulmão.
Já é dela, afinal, o ombro, os ouvidos, o abraço e toda minha gratidão.
E para os novos passos que seguirá nesta profissão, bom…só hei de deixar apenas uma recomendação: siga sempre o seu coração. 

Back then

we used to sit on the second, maybe third, step of that stair. and we used to stare at the cold night while smoking our cigarettes. We would rather wait for some of us to get really really cold or scared by the black night and then we would go inside the house, we would eat bread with cheese and lettuce and ketchup, sometimes. I don’t even like the combination of lettuce and ketchup, but that didn’t really matter.

i was a really naive girl when you painted my nails with the most vibrant red i had ever seen. you were different. and that’s why i loved you. we drank, we partied, we ate a lot of chocolate and pizza hut and we told all of our secrets. we were so damn happy, girl.

we had the most amazing time of our lives and i…i don’t know if i recognize myself in those pictures anymore. my life has changed. i have changed so freaking much. sometimes i like it. and sometimes i understand that you have changed too. and that’s ok, my friend. that will always be ok.

we changed when we got into that airplane and when we started to hear people speaking portuguese all over the streets. honey, we changed by changing boyfriends, by getting laid, by having to choose a career. and, darling, we did it all. we’ve grown up. and that’s ok.

and that’s normal. you know? that is what it is.

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2 hours later

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but not when I look to this damn picture of our steps. this lonely stair that doesn’t lead us to Nana anymore….oh my god…this is you. and this is me. and this is us growing up, meeting new people, being happy every day, not worrying about a damn single thing. that was us not speaking to our parents for more than a week. that was me not going back to my host house and family for a week just to get in another great adventure with you and the girls. we were a gang, baby. we were. we didn’t have a name or a song or a logo. but that’s because we didn’t need that. we were awesome. we were friends. forever. and we had dreadlocks and we ate lollo and we weren’t scared. we were never scared.

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I’m scared right now. aren’t you?

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life was so easy back then. i used to wear my white coat everyday. you guys gave it to me. you were my best. and it matched my white boots. they were so ugly, but so comfy. i spent a few days without showering. you know that. not going back home took me to some bad decisions. but i don’t regret them.

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i felt so free.

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i’ve lost my freedom, even now that i’m older and making my own money.

i’m a big girl, i’m an adult. i miss me.

and i miss you.

and those steps …and the stair.

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and I wish i could just change a couple of things by holding this photograph as it was magic. but i can’t. but it isn’t. we were magic. and we’ve grown.

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casa Nana

Despedida

Mesmo tendo certeza absoluta de que havia tomado a decisão certa, sentei na cama e chorei.

Simplesmente chorei toda a saudade que tinha sentido de minha família. Chorei a força que tive que ter, as barras que tive que enfrentar e as escolhas que tive que fazer.

Chorei a saudade que eu ainda ia sentir, chorei os amigos que fiz e o mundo de coisas que aprendi. Chorei o amor que aprendi a controlar, os lugares que conheci e a felicidade que senti.

Chorei o prazer de morar em cidade pequena, chorei o saludo do outro lado da calle, chorei as botas que tive que deixar pelo peso da mala.

Chorei o fato de agora de verdade me conhecer. Chorei as pessoas incríveis que levo comigo. Chorei a parte enorme de mim que aqui eu deixo.

Chorei pela pinche distância geográfica. Pela dor e pelo prazer de viajar. Chorei primeiro por ter decidido ficar mais. Depois, por decidir ficar menos.

Chorei a família postiça que tive e as maluquices que vivi. Chorei a minha independência e a minha responsabilidade. Chorei em espanhol, em coreano, chinês, alemão e inglês. Só não chorei em português porque a volta é a única certeza que agora eu tenho.

Chorei por estar feliz. Pelo sentimento de dever mais que cumprido. Chorei por não deixar mais nenhum assunto mal acabado e pelo difícil que isso foi.

Chorei porque muitos choraram por mim. Por me sentir querida. Por amar.

Chorei porque já não choro por qualquer coisa, mas porque essa situação, de verdade, pedia todas as lágrimas e soluços e desespero. Chorei porque valeu e valeu muito a pena.

Vem ser dono do meu nariz

Aeroporto de Cumbica, Guarulhos, SP, Brasil:

– Então tá bom, gente! Tchau!!
– Tchau, boa viagem!!

– Tá, então eu vou! Tchaaau!!
– Tchau!!!! Boa viageeem!

– E aí? Acho melhor você ir, né?
– Aham. Sim, sim. Eu vou!
– Então coragem, vai!!
– Hãm…ok…então….eu vou…tchau!!
– Tchau!

Se alguém me pedisse para ficar, se sugerisse que assim, de repente, desistir não seria tão feio, não duvido que neste exato momento estaria escrevendo qualquer outra coisa sentada em minha cama em São Paulo, Brasil.

Ninguém me impediu. Nem eu dei o braço a torcer. Mas chorei durante todo o voo. Talvez as lágrimas tivessem mais a ver com o medo incontrolável causado pela absurda turbulência. Ajudou um pouco o fato de as aeromoças não estarem sorridentes ou servindo aquela gororoba que eles chamam de “frango” ou “massa”.

Mas tudo bem. Sobrevivi, enfim. E agora escrevo sobre essa história sentada em minha cama em Guanajuato, México. Eu gosto daqui. Gosto mesmo. Pela primeira vez na vida eu não sei o que é congestionamento. Chego aos lugares em 15 minutos, a pé. Sei o nome de 80% da população local. Toda segunda-feira conheço alguém diferente. Um chico ou uma chica que sempre tem mais ou menos a minha idade, exerce as mais diversas profissões, fala muito bem ou nada de espanhol, é legal ou insuportável, mas que sempre acaba virando um grande amigo.

Em minha lista de telefone existem nomes comuns e muito mexicanos como Maria Guadalupe e Juan José. Mas também tem Sebastien, Ashleigh, Momoka, Asusa, John, Asaki, Catalina, Katrin, Emily, Carl, Cindy e mais, muito mais. São amigos temporários porém intensos que, em sua maioria, vêm de países como Austrália, Suíça, Estados Unidos, Japão, China, Alemanha e Canadá.

Principalmente quando aparece algum brasileiro perdido nessa torre de babel, em dois dias já viramos companheiros de 10 anos, do tipo que xinga, faz piada idiota, ri da cara do outro e abre a geladeira sem pedir permissão.

O povo mexicano é tão caloroso quanto o brasileiro. Mas isso pode ser bom e ruim. Quase não há choque de cultura, mas às vezes dói presenciar um abraço fraternal e pensar que seus abraços ideais estão bem bem longe, a muitas turbulências de distância. Assim, os europeus mais frios são capazes de oferecer o apapacho mais carinhoso e o japonês, desacostumado ao contato físico, é o único amigo que pega na sua mão ao perceber nervosismo ou inquietação.

Viajar e morar fora são duas coisas completamente diferentes. Aqui eu tenho que matar alacranes, encontrar o foco de aranha, me preocupar com o gás, com a água e com a janta. Para tudo isso, não raras vezes conto moedas do trabalho que às vezes eu queria largar. Se eu fico doente, viro meu médico, motorista, pai e mãe. Faço compressa, preparo chá e seguro meu próprio cabelo se tiver que vomitar.

A primeira vez que passei um tempo fora, voltei para casa, adolescente, e meu inferno foi perder a liberdade conquistada. Voltar a obedecer antigas regras, dar satisfações e não viver a #vidaloka era quase a morte.

Dessa vez conheci a independência e entendi que vem com muita responsabilidade. Voltei para casa, para visitar. Comi a comida da vó, assisti à televisão com meu pai, busquei meu irmão na escola, passei agradáveis momentos com a minha mãe. Dessa vez, a satisfação dada foi espontânea. Saí pouco, mas sempre detalhando com quem, a que horas, quem levaria, quem buscaria e mantive impreterivelmente meu celular ligado a todos os momentos.

Semana passada, já de volta à casa mexicana, a japonesa que mora no quarto vizinho resolveu fazer uma reunião de “família” para explicar – com uma história sem pé nem cabeça, mas cheia de detalhes provavelmente inventados – os motivos pelos quais não havia dormido em casa na noite passada. Seus pequenos olhos fechados se viam marejados e sua culpa e dor por ter desobedecido uma das leis da casa – aquela que diz que é preciso avisar se for trazer algum visitante ou se for passar a noite fora – era tocante e evidente.

A australiana, a americana e eu a perdoamos, claro. Mas entreolhares entendemos que ninguém havia percebido a ausência de nossa querida amiga e roommate. Na verdade mesmo, contanto que ela e todas nós estivermos vivas na manhã seguinte, não importa.

O fato é que nosso maior desejo, aqui na nossa liberdade, é que alguém nos dê bronca por sair sem casaco, que nos prepare uma canja em dias de gripe, que nos empreste uns trocados para tomar uns goles de tequila e que nos espere acordados. Ter alguém a quem dar explicações e inventar mentiras e encontrar argumentos nunca se fez tão importante.

Lá em Guarulhos, minutos antes de embarcar, torcendo para dar dor de barriga, ter um treco ou milagrosamente voltar a ser um bebê, minha resistência nada tinha a ver com o amor que tenho a este pueblo chiquito e maravilhoso que encontrei aqui no meio do deserto, ao curso, ao trabalho, aos amigos. Minha quase desistência teve mais a ver com matar insetos, preparar minha comida, pagar minhas contas, resolver meus problemas em espanhol, exercer a paciência e fazer escolhas completamente sozinha. Meu medo, afinal, não era do avião, era de , de novo, sair da barra da saia da mãe.

Não é você. Sou eu.

Olheiras.
Insônia de escrita.
Páginas em branco.
Enlouqueço, mudo o cabelo, o guarda-roupa, a pele.
Mantenho os amigos. Sobrevivo.
Dói.
Abstinência do formar frases coerentes. Ou incoerentes. Ou qualquer coisa que não seja uma resposta de whatsapp escrita às pressas, informando que o encontro não está mais de pé.
Desculpas.
Aniversários de avós que já morreram. Compromissos inventados com o meu lençol, imprevistos com a minha varanda, um novo caso com o meu sofá.
“Preciso lavar meu pijama favorito”, dá vontade de dizer.
“Vou me mandar mesmo”, penso.
Melhor mesmo não alimentar ou criar ilusão.
Concluo.
I’m not ready yet.

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