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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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amor

Eu Android, você iPhone

Te conheci numa dessas festas em que eu não deveria estar.
Conversando com gente desinteressante e bebendo um drink cujo nome jamais saberei pronunciar, mas que tinha um sabor meio assim, de amora, que me fez repensar todo álcool de pouca ou nenhuma qualidade que passara por meu sistema digestivo nos últimos 24 anos.
Fingi gostar de bandas que não conhecia, mas que não eram, de todo, desagradáveis aos ouvidos.
Lembrei dos amigos que gostaria que estivessem ali e até pensei em me juntar a eles depois das 12 iminentes badaladas do relógio. Porém, me apetecia mais voltar para o conforto do meu lar e, finalmente, terminar a quarta temporada daquela série chata, mas que me sinto na obrigação de assistir. E repensei minha ideia de vida social.
Quando foi que me tornara aquela pessoa?
Acendia o terceiro cigarro seguido, daquele que eu prometi parar de fumar cinco horas antes, mas recusei o enroladinho de salmão gourmet, mantendo-me fiel à dieta restrita que havia sido quebrada no passear da bandeja de bolinhas de queijo, enquanto resolvia parar de tentar fazer-me atraente de algum modo.
Os cinco dedos de raiz escura de um cabelo que deveria ter cor de cenoura, mas a genética não quis, passavam uma impressão de desleixo que cinta redutora de medidas nenhuma seria capaz de amenizar.
Quando você chegou, de uma das taças de vinho estampadas em minha saia de cetim azul saía uma leve fumaça, resultado do descuido bêbado de drink impronunciável de amora na hora de bater as cinzas do meu vício, agora descontrolado. Eu tentava, sem sucesso, disfarçar o desespero de ter engasgado com o palito irresponsavelmente colocado na terceira mini coxa-creme que degustava quando disse “sim, claro, te empresto o isqueiro” – provavelmente com palavras menos inteligíveis – e nem reparei que seu rosto parecia o céu.
Olhei para as estrelas sem esperança nenhuma de salvar aquela noite e me encantei tanto com o rastro que a lua levava ao seu redor que respondi de qualquer jeito a qualquer pergunta que me fizera sobre o clima e sobre como levamos conversas de elevador para nosso cotidiano sem nos envergonhar disso.
Quase não entendi que era uma piada, mas ri pela força do hábito mesmo assim. Foi aí que vi o teu escancarar de dentes feitos de nuvem e lábios macios como algodão. Pensei na saia pegando fogo, no  cabelo cor de água de salsicha em um fundo preto, estilo Romero Britto. Tentei botar a cinta no lugar me arrependi pelas decisões tomadas resultantes em bafo de cigarro com resquícios das mais variadas frituras consumidas e tive a certeza de ser tarde demais.
Mas você, com seus muitos centímetros a mais que eu, cabelos bagunçados de uma forma misteriosamente ordenada e uma camisa que, despretensiosamente, mostrava braços naturalmente definidos pela mesma genética que me apunhalara pelas costas, parecia não ligar para nada daquilo.
O cheiro mentolado que saía de sua bituca me fizera entender tudo: gay. Mas falou de como a ex gostava dessas festas chatas e como isso tinha sido crucial para o término do relacionamento e aí eu já não entendia mais nada.
Quando revelou sua facilidade com números já me imaginei impressionando meus amigos de humanas com um acompanhante que dividiria as contas do bar sem irritar o garçom, de cujo trabalho também faz parte – infelizmente, para ele – esperar pacientemente enquanto mais de dez jovens com dificuldades numéricas tentam entender quem tem que pagar quanto, para quem, por que, onde, como…
Enquanto divagava em vírgulas e zeros à esquerda, que representavam com exatidão o triste retrato de minha conta bancária, você me chamou para sair. E eu demorei para compreender. “tá quente aqui, né? me cairia bem um ar-condicionado agora” não é bem um convite. Está mais para mais uma daquela conversa de elevador típica de quem segura o riso  de larica da boa enquanto o vizinho carrega, um pouco constrangido, duas cheirosas caixas de papelão que levam em seu interior toda a felicidade do mundo sabor marguerita.
Considerando a irremediável oleosidade de minha pele, até pensei que o comentário sobre um lugar mais fresco pudesse estar se referindo à luminosidade não-intencionada que se assenta bem no meio da minha testa, quase como um foco de luz indiano, remetendo ao chakra frontal, terceiro olho de suma importância se eu praticasse kriya yoga às três da tarde de sol enquanto pego o ônibus lotado para chegar ao trabalho que não amo, mas também não odeio.
Aquele drink meio de amora misturado com Sprite, que me fez questionar meus hábitos alimentares, realmente fazia efeito, porque, quando vi, poucos passos faltavam para chegar à porta de saída daquela festa chata, cheia de gente metida na qual me meti acho que só para conhecer você.
Não sei dizer onde estava, mas o hambúrguer era bom para cacete e, sem me perguntar, você pediu uma porção de fritas com muito cheddar e bacon. Não tive tempo, nem coragem de dizer que eu, na verdade, era um tipo de espécie boêmia esquisita que não liga muito para batata frita, preferindo mil vezes porções de pastel, bolinhos de todos os tipos e até mandioca, se mandioca tiver. Meu petisco favorito, na verdade, é coração de galinha. Mas me dói saber a quantidade de galinhas que tiveram que morrer para eu poder aproveitar uma porção farta – talvez umas 20?
Quando criança, frequentava churrascarias e me emocionava ao ver chegar, quentinho, aquele espeto recheado de pequenos pedaços de felicidade. Quando descobri do que se tratava, fiquei anos sem consumir aquele alimento, mas algo em mim não estava completo. Hoje, com o coração na mão e muita parcimônia, me deixo degustar a iguaria em eventos especiais, sempre com muito respeito aos sentimentos aviários.
Mas o cheddar e o bacon estavam bons para cacete e eu comi batata frita como se fosse coração de galinha, mas sem ter que matar nenhuma galinha sequer para aproveitar uma farta porção.
Lembro-me de rir muito e de acreditar em deus, coisa que há muito não acontecia. É possível que alguém tenha colocado um pingo de substância ilícita em minha bebida quase roxa de amora que devorei com canudinhos verdes na festa chata. Porque a enormidade de respostas que obtive da vida aquela noite não me parece ser normal para um organismo, mesmo que cósmico, sóbrio. Se alguém souber o nome de tal substância, por favor, me diga, porque, só para deixar claro, não estou reclamando dos efeitos.
Em algum momento tive que fazer xixi. O espelho não me mostrava uma imagem agradável e tive a certeza de que conversara com restos alimentícios nos dentes por pelo menos quarenta minutos, sem perceber. Mas nem isso seria capaz de me parar, não àquela altura do campeonato.
Voltei à mesa onde estava você, sorrindo meio sem graça, eu juro que não sei de quê, sem nem ligar para cinta ou saia ou cabelo de Romero Britto desgrenhado. A conta já estava paga – será que falei de meu extrato bancário em voz alta? – e você me estendeu a mão como se eu já soubesse exatamente o que ia acontecer.
Fazia tempo que homem nenhum me abria a porta do carro. Não que eu sinta falta desse tipo de gesto. Acho que fico até meio sem saber o que fazer, se posso aceitar, se é feminista de minha parte, se tudo bem ou tudo mal, se devo me esconder, bater o pé, fazer discurso igualitário ou se posso só agradecer, sorrir e seguir.
Para ser bem sincera, não me lembro ao certo por qual dessas saídas optei, mas foi a correta para aquele momento, porque quando dei por mim já não vestia minhas roupas, mas não de uma maneira constrangedora. Me sentia livre e empolgada por livrar-me de tanto pano em um dia tão quente e de tanta novidade maravilhosamente regada a bebida roxa e cheddar e bacon e bolinha de queijo e um moço bonito de dentes de nuvem e lábios macios como algodão.
A fusão de meus cabelos desgrenhados com sua barba proposital e perfeitamente por fazer resultou em horas de montanha-russa norte-americana, daquelas aproveitadas por crianças e pré-adolescentes de classe média alta que não têm ainda noção do privilégio que têm em relação a mais de três quartos da população que jamais terá a oportunidade de se divertir de tal maneira.
Não que as brincadeiras de rua, pipa, bola, pega-pega, esconde-esconde não tenham sua graça. Mas só quem já sentiu o cheiro gringo do aeroporto de Orlando e esperou por horas na fila cheia de distrações de uma atração da Disneylândia sabe o frio na barriga que dá quando o funcionário que não fala seu idioma dá dicas de segurança e você não sabe muito bem se a trava da sua cadeira está suficientemente presa e se você corre o risco de cair de lá de cima como um saco de batatas pesado, sem cheddar nem bacon, para acabar sua vida como fumaça de uma cinza mal batida de um cigarro fumado por pura falta de força de vontade, mas aproveita o passeio mesmo assim, porque o desespero agoniante da adrenalina que corre nas veias vale a pena, como nunca antes.
E eu fiquei com medo de engravidar. Não me lembro se tinha camisinha. Mas imaginei o rosto daquele fruto que nasceria de meu ventre com suas covinhas sutis e nome chique. Chamaria Theodoro, talvez, se menino. Se menina, Antonella ou Antonieta. Antonieta Bertram, esses nomes de gente que já nasce fadada ao sucesso, à fama, à riqueza. Que Antonella nenhuma se vê jogada às traças, vestindo roupas sem marca ou preocupada com a cinta modeladora, com a raiz escura do cabelo ou  com o fato de comer mais bolinho de queijo do que o recomendado pela nutricionista holística.
Deitei ao seu lado e o teto que, graças ao bom deus, não tinha espelho, transformou-se em miragem de conto de fadas. A cor creme meio bege, meio cor de burro quando foge, meio abajur cor de carne, meio sem graça, era pradaria verde-limão em que lindos veados, raposas e búfalos corriam sem se preocupar com extinção ou predadores ou alimento. Um mundo novo feito do zero em que todas as espécies eram amigas e todos os amigos eram leais, diferentemente daquela vaca, que traiu minha confiança quando eu menos esperava. E por conta dela fui parar naquela festa chata de drink de amora cheio de substância ilícita e onde conheci o amor da minha vida. No caso, você.
Vestir-se, depois de despir-se, não é, exatamente, a situação mais confortável que quem não ama em absoluto seu próprio corpo pode passar. Aqueles três pulinhos que tem que dar para fazer a meia-calça entrar não devem ser bonitos nem quando reproduzidos pela modelo mais linda do mundo das modelos. Mas sair pelada me pareceu um pouco mais estranho, então me joguei na ideia de fingir que não ligava e agi com a naturalidade que tenho, a mesma de quando disfarcei, sem sucesso, não estar engasgada com o palito da coxa-creme.
Quando você me pediu para anotar meu número em seu celular, não contive a alegria, mas também não pude deixar de notar que usava um sistema iOS do qual eu, em minha ignorância Android, não sabia muito bem manejar.
Já tive iPhone, quando começou a ser moda. E confesso que não tinha problemas ou sugestões a acrescentar, mas a bateria que passou a durar pouco, a memória pior que a minha, que não me deixava nada registrar, começou a me tirar do sério. Na hora de comprar outro aparelho, o dinheiro para uma nova obra de Jobs poderia servir para pagar muitas parcelas do meu cartão de crédito estourado de luxos como sobreviver, então parti para outro mundo, um universo sofredor de muito preconceito, mas que aceita cartão de memória e que fica ligado o dia inteiro.
Minha vida mudou. Comecei um movimento militante de esquerda, defensor dos direitos dos oprimidos. É claro que as minhas fotos ficam tão boas quanto às suas, vítima do consumismo desenfreado. Olha só quantas curtidas tive no Instagram!
Meu touch é tão bom quanto o seu e… ai, deus, como faz para mexer nisso mesmo? Será que o sistema iOS é tipo a roupa do rei? Só os escolhidos por Steve conseguem lidar. Entrei na sua agenda de contatos ou isso é sua conta corrente? Quanto número, meu deus.
Não sei se foi o drink roxo ou as voltas na montanha-russa, mas acho que me deu um leve enjoo. Apertei mil botões como quem está preso no elevador com vizinhos que não gostam de falar sobre amenidades, como o tempo. Acho que modifiquei o contato da sua mãe. Os primeiros quatro números são meus, os últimos cinco são dela. No complexo de édipo, é sempre o progenitor que ganha mesmo.
Me embananei toda e o frágil aparelho escorregou da minha mão. Enquanto a tela rodopiava com a palavra “mamy” estampada de brilho intenso, meus desengonçados dedos tentavam, em vão, salvar o dia. Berrei por dentro, rasguei a saia, vomitei bolinhas de queijo com gosto de amora, baguncei o cabelo e perdi, janela abaixo, os poucos cigarros que me restavam. Enrolei a cinta bege, enfiei o resto da dignidade na bolsa e, saída de minha bolha de ilusão e fantasia, encarei o ponto de ônibus lotado de gente desinteressante que toma bebidas de má qualidade e conversa sobre amenidades fora do elevador.
Terminei a quarta e a quinta temporada da série chata, sobre a qual não serei capaz de comentar em minha vida social inexistente, busquei na internet do meu Android receitas roxas de bebidas ilícitas, mas ainda não consegui atingir a perfeição daquela combinação de ingredientes eximiamente selecionados pelas pessoas metidas daquela festa chata na qual te conheci e te ganhei.
Passei por diversas vezes na frente do ponto de ônibus lotado de gente desinteressante e busquei desesperadamente por um pedaço de iPhone no meio da rua, onde passavam carros, dirigidos por homens que já não abrem portas a moça nenhuma, mesmo quando de cinta modeladora e cabelo moldado pela genética e não pintado de quadro brega, como o meu estava naquele dia em que te perdi.
A vida seguiu correndo como uma gazela em pradarias verde-limão, enquanto eu lamentava minha falta de sorte, mesmo na sorte, no caminho para o trabalho que não amo, mas também não odeio.
Steve Jobs morreu, mas o produto de design incrível e tecnologia revolucionária seguiu atraindo malucos vítimas do consumismo desenfreado que lotam fachadas de lojas brancas, enfeitadas com uma maçã mordida às cinco horas da manhã de uma segunda-feira gelada para serem os primeiros a ter acesso às novidades de lançamentos que em pouquíssimo tempo se tornarão obsoletos.
Pensei em você e em como, por uma bobagem, jamais voltarei a ver dentes tão de nuvem e lábios tão de algodão. Procurei-te em muitas barbas não tão perfeitamente por fazer, mas me contentei com uma nova dieta, que não exclui bolinhas de queijo quando em fumódromos de festas que eu não deveria frequentar, juntando moedas para engordar o triste retrato de minha conta bancária. Assim, quem sabe, um dia, de novo, terei a oportunidade de sentir o frio na barriga enquanto espero minha vez no brinquedo da Disney e aí sim compreendo o privilégio que tenho em relação a mais de três quartos da população que brinca de bater bola no quintal e nunca sentirá a adrenalina de rodopiar com um cinto do qual não se tem certeza da segurança em outro idioma, mas que valerá a pena como nunca antes.

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Embriaguez

Maria começou a sentir tudo aquilo novamente. O tremelique que dá nas pernas, a vontade de berrar e chorar ao mesmo tempo que ri. E comer ao mesmo tempo que não sente fome e dormir quando o sonho atinge a gente com os olhos bem abertos.
Quando Maria pensou em parar, o sistema nervoso já não respondia à razão, que já não comandava o cérebro, que não tinha controle nenhum sobre os pés. E correu. Dançou pelada na chuva. Caminhou lentamente até o precipício e se atirou, sabendo que do chão não passaria.
Maria perdeu o medo. Do escuro, de nadar, de altura. Maria perdeu o medo de temer, temendo ter a certeza de que aquela sensação, que a acometia fervorosamente sem margem para acordos ou um diálogo sequer, resultaria em uma grande ressaca. Catuaba misturada com jurupinga, mistura com vodka, misturada com saquê. A dor de cabeça que não passa com remédio, que não melhora com fritura, que não aceita nem água, nem limão, nem nada. Estômago seco que contrai sem relaxar, que vomita tudo que já não tem. Que derruba, quase mata.
Mas catuaba, quando misturada com jurupinga, vodka e saquê dá um barato que Maria já conhecia. E Maria aproveitou. Maria o copo inteiro virou. Ah, Maria não se preocupou com pudor. Maria se embebedou.
Piruetas, risos fácies, humor matinal. Nenhuma notícia trágica era capaz de lhe fazer mal.
Quando Maria a sobriedade retomou, foi aí que o pesadelo, de novo, começou.
Nocaute como uma remada na cabeça.
Maria um banho tomou. O rímel pelo box escorreu e Maria, sofrida, nem percebeu. Alguém perguntou se Maria se arrependeu e com a resposta esse alguém se surpreendeu. Maria não se lamentou. Maria amou, Maria viveu.

Entorpece

quero sentir aquilo de novo.
dor misturada com prazer que misturada com dor vicia mais que cocaína.
adrenalina.
canabis injetada na veia. efeito purpurina.
cerveja com gosto de champagne, chuchu que parece chocolate, alface com gosto de aipim.
combinação que traz o melhor de mim.
heroína. crack. doce. bala. embala qualquer canção de letra melosa.
encoraja qualquer parte ali medrosa.
cachorro molhado correndo em meu jardim.
combinação que traz o melhor de mim.
ecstasy, ópio, metanfetamina. abomina qualquer traço de menina.
amadurece como fruta.
encaixa como luva. trava luta entre razão e emoção.
tem medo de fechar o coração.
desliza sobre lindo piso de marfim.
combinação que traz o melhor de mim.
quando acaba parece flor.
desabrocha e murcha.
arranca da terra.
deixa buraco.
bem mal me quer.
nunca mais será bela, enfim.
combinação maldita.
brinca, borda e pinta.
deixa o pior de todo o mundo padecer dentro de mim.

S.O.S.

“tô precisando de ajuda”, disse.
foi a primeira vez em muito tempo que deixou sair todo o desespero.
soou brando, doce e sincero.
mas era dolorido, veloz, fatal.
incontolável, triste, choroso, moroso, agudo, azedo, difícil.
era chato, impróprio, atrapalhava, matava, espatifava, envergonhava.
tinha medo, amor e dor. tinha história – começo, meio e fim -. e tinha queda. livre.
não tinha paraquedas, não tinha manual, não tinha instrução.
não tinha mapa, nem botas, nem água.
não tinha colchão, amortecedor, travesseiro.
não dormia. só sonhava. e acordava. acabada.
não tinha comida. mas alimentava. de raiva, de dúvidas, de lágrimas.
pegou na mão, arrancou do coração. deitou no chão.
e passou. sempre na contramão.

Prova de amor

Sem saber em quem colocar a culpa, oscilo entre “a vida é muito louca” e “somos todos muito covardes”.
Talvez as duas afirmações sejam verdadeiras.
Ou nenhuma das alternativas acima.
Não é como vestibular, de todas as maneiras.
A vida seria mais fácil se fosse em formato de teste.
Questões dissertativas são muito subjetivas. Não tem gabarito exato.
Indique-me, ó grande professor existencial, se A, B, C ou D.
Sempre C de Cristo, sempre A de Amor ou contas de proporção: se assinalei mais vezes A, C e D, está na hora de tentar um pouco a sorte com o B.
E no final, era sempre tudo ou nada.
É certo ou é errado. Não tem depende, não tem talvez, não tem “vamos conversar”.
É preto no branco. É sem graça. Mas funciona.
Sentimento não. Sentimento é emoção. É intersecção de ás e bês e cês e dês, é o alfabeto todo de ponta cabeça e de cima para baixo e de baixo para cima por diversas vezes seguidas e repetidas e então apagadas para logo serem reescritas.
E não dá para julgar não, assim como não se evita. Só quem vive sente e só quem sente sabe.
A resposta está lá, meu querido. Mas não importa o gabarito.
Dois e dois pode ser cinco. Não tem resultado definido.
É reprovado, é repetido. Mas é amado e destemido.
Depois sentará de novo, na mesma cadeira, mesma lição na aula de recuperação, que é para ver se aprende algo esse tolo coração.

e ponto.

conte-me tua vida. que encontro teu lide. te escrevo de cabo a rabo. te coloco entre vírgulas. te esqueço no final do segundo parágrafo sem perder o fio da meada pro início do terceiro. te perco entre minha pontuação. tão torta. tão morta. tão viva. te dou sentido se me deres novidade. inventa se for preciso. te viro do avesso. te espremo. te leio. decifro. e te conto aquilo que nem ao menos sabes. te faço chorar com rimas pobres. te encho de adjetivos. te poetizo. te alimento de gerúndios. te descrevo com palavras difíceis. te inflo o ego. te compartilho com o mundo. te deixo num rastro de vida. que quem mora em livro em conto em linhas de traçado sofrido já não morre. algum dia alguém te acha. e te publica. e te eterniza. e eu te uso para lotar mais uma folha. para fazer mais algum sentido. para sentir. e te marco. e te pinto. e te amo. eu te escrevo. para ter-te a um clique de mouse a uma virada de página a um rabisco lembrado no canto do caderno. e eu nunca te esqueço. nunca te ofereço qualquer outra opção. que entregar-se a escritor é virar ficção. que entregar-se a jornalista é virar pauta. puta. de lápis e caneta e caderno e anotação. que entregar-se é oferecer-se. perder-te o controle de ti mesmo. é fechar os olhos. é confiar. e te conquisto. e te convenço. e te rascunho. te admiro. te apago um pouco. para escrever de novo. te faço de vilão e mocinho. te dou o papel principal. coadjuvante. te controlo. te enrolo. te arranco do caderno. me arranco os cabelos. te insisto. te ensaio. te vejo. te escrevo. te escrevo. te escrevo. te bebo. te como. te durmo. te entendo. me entendo. te odeio. te rasgo. te amasso. te quero. mas te jogo. na lata do lixo. te molho de lágrimas. te ateio fogo. e observo. te agonizo. me retraio. te choro. me abro. pra próxima página.

Desastre natural

Você foi terremoto, seguido de tsunami, seguido de furacão – que era para ter certeza que havia despedaçado toda minha cidade de vidro.
Não deu tempo de evacuar prédios, casas, artérias e corações.
Não deu tempo de nada.
Correu quem tinha esperança, mas caiu na primeira pedra, primeiro telefonema, primeiro rosto que parecesse com o seu.
Era genocídio sem fim. De todos os meus neurônios, sentimentos, de toda minha vida inventada.Com você.
Não foi fácil, meu caro.
Escutar teu nome.
Conviver com tua sombra.
Ler meus textos. Seus.
Exilei-me, experimentei, refugiei emoções. Controlei.
Chorei quando precisava. Sim.
E perdi a maior parte de mim.
Mudei. Pintei. Cortei.
Trabalhei.
Internei. UTI.
É ridículo contar o tempo que demorou para respirar sozinha novamente.
Desliguei os aparelhos.
E sobrevivi. Pisando em ovos. Catando conchinhas na areia.
Mas aliviei. O pulmão e a cabeça. E cresci.
Hoje ainda chuto pedrinhas da avalanche causada pelo nosso primeiro impulso.
Mantenho intacto o guarda-chuva que me foi emprestado nos dias de sol e tirado em dias de chuva.
Já não me importo com cabelos molhados.
Ainda teimo em colar antigos vasos quebrados.
O velho jogo de tentativa e erro. e erro. e erro. e acerto.
Só assim reconstrui meu império.
Pequeno, mas só meu.
E no caminho de tijolos dourados (acredite!), ainda encontro caquinhos.
Mas ando com vassoura e sacos de lixo sempre à mão.
Que é para jogar fora o que ainda insiste de você.
Para longe de mim.

Fundidos

*texto baseado em lembranças sonadas de uma vida inventada e no romance Febre, de Renato Essenfelder – cuidado, leitores: pode conter spoilers

……..

Talvez ele tenha se matado, pensei.
Talvez fosse eu, naqueles tempos, tivesse me matado também.
Senti vergonha, porém.
Confesso que também cheguei aos mais de quarenta graus, que perambulei cabisbaixa, moribunda.
Também repassei, como fosse um filme, todos os detalhes, pequenos diálogos, grandes mentiras.
Homem suporta menos a dor.
Não fosse fêmea, provável também implorasse.
Implorei, talvez.
Tentei, tentei.
Marquei encontros em lugares nossos. Praças.
Usei de um tudo de desculpa.
Fui embora chutando pedrinhas. Descalça.
Tentei odiar também, assim como ele, igualzinho.
A profissão. A arrogância. O sabe tudo. Porque sabia mesmo. A inteligência.
Mesmo usando eu palavras difíceis também. Também soberba.
Maldisse com todo desdém que cabe apenas àqueles profundamente apaixonados.
Amar é isso. É odiar até as melhores qualidades.
Por saudade.
E foi isso que fez.
Que quase fiz. Que fazemos todos, oras bolas.
Porque o amor não é apenas bom quando correspondido, não, veja bem.
A dor de amor é um cutuco na alma, é febre que pulsa sem motivo algum. São veias que queimam a qualquer indício de passo, pensamento ou respirar.
Sofrimento são palavras bonitas descritas com raiva de afeto. Desilusão é vida. São sentidos aguçados, agudos, momento único paradoxal aos pequenos e raros segundos de plena felicidade, quando nunca se é mais intenso.
Não deslizar aos prantos no box do banheiro, não debulhar-se em posição fetal, não sujar de rímel o travesseiro, meu amigo, é apenas sobreviver à mediocridade do cotidiano.
As pílulas, então, pequenas bolinhas de salvação, seriam talvez a maneira de seguir remoendo, revivendo, delirando. A única maneira de seguir filosofando. Com maestria.
O jeito de continuar escrevendo.
Sofrer por amor é dominar um tema.
Mas entregar-se pode ser loucura.
Loucura é comprar anel, é optar por ficar.
Nunca seja a que ama mais, aconselha minha avó.
Mas somos teimosos. E buscamos a dor.
Sabíamos que o não seria não.
Perguntamos pelos motivos errados, preocupados com a ínfima possibilidade de um sim.
Errôneo.
E caímos porque é só assim que funcionamos.
Perdidos. Metades. Feridos. Dramáticos.
Em busca de cura que leve nome próprio, que mascare a ressaca com mais um porre.
Que é para levantar do fundo do poço. E começar tudo de novo.

 

Ya no te va a doler

Te deixei em um dia de chuva. Nunca chovia em Guanajuato e a gente já sabia que a venda de guarda-chuvas empoeirados no começo de cada esquina era o presságio de uma noite que de certo não poderia acabar bem.

Os callejones de pedras largas e escorregadias não foram feitos para serem molhados. Sapatos mexicanos quase se dissolvem quando em contato com micro partículas de chuva e as solas da bota marrom de guerra nunca imaginaram o encharcar que o adeus causaria.

“Deus quis assim”, você diria, se fosse mexicano puro. Mas o sotaque espanhol, a altura, a pele branca e os cabelos quase loiros te desviaram do caminho da fé. E foi no pecado que a gente se encontrou.

Duas almas perdidas, sozinhas, intensas. Foi numa noite de frio que berramos, bêbados, nas calles llenas de transeuntes que conheciam pela primeira vez o festival de horror em que a pequenita cidade se transformava quando virava palco de shows de um público que não poderia suportar.

Xinguei em espanhol e me senti poderosa. Você vomitou palavras horrendas e achou que nunca mais fosse me ver. “O destino quis assim”, você diria, se não fosse tão cético.

Nosso primeiro encontro sóbrio foi desengonçado. Ainda assim raivoso. “Te va a matar o te va a amar.” Me mori de risa. “Ni muerta.” 

Morri. Fui enterrada. Ressucitei e você ainda lá estava, achando tudo engraçado. Foi gracioso mesmo. Bonito. Químico. Natural. “Nossos filhos seriam bonitos”, você comentava. Eu abaixava a cabeça, revirava os olhos e apenas sorria meio que de lado. Meio que sabendo. Que nunca comprovaríamos suas teorias malucas de futuro.

Foi por você que me equilibrei de novo. Que descobri leveza no sentimento que antes trazia medo. Nunca te agradeci, acho. Mas serei eternamente grata. Meus pés alcançaram as nuvens de novo, mesmo quando tocando o chão. O riso não tinha receio de sair e as mãos se tocavam sem pudor. Era certo.

“O começo diz muito sobre o término de um amor”. Você acertou. Como sempre.

Fizemos chover, trovejar. Caiu o mundo. O nosso mundo. Sai correndo, molhada, sem olhar para trás. Que difícil seria ver teus olhos marejados. Ajudados pelos grossos pingos do céu, lágrimas rolaram em direção ao queixo tão bem esculpido. Correu. Me alcançou. Cabelos se confundiam com barba e meu corpo se confundia com o seu. Olhos fechados para perder a cena. Não adiantou. Dava para sentir.

Se pudesse, ficaria. Você sabe. Sabe?
Se pudesse, você viria. Viria?

A cidade acordou sem ressaca, seca. O cheiro de tortilla continuara ali.
Prometi que sairia inteira. Mas pedacinhos contentes valem mais que um todo sofrido.
Inspirei. Suspirei.

No voo de volta, olhos secos e cabelo ainda molhado. Cheiro de chuva rara.
Sua imagem na cantina. Tequila em uma mão. Cigarro na outra. Coração no chão.

Em meu assento, sorriso no rosto e vazio no peito. A vida nunca mais seria a mesma. E tudo bem.

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