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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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Shame on us

Frases idiotas proferidas na mesa do bar.
Mesmos conselhos e mesmas broncas.
Nenhuma nova reação. Mania antiga de vomitarmos aos berros os erros cometidos.
A culpa do monólogo cansativo é sempre atribuída à bebida – seja ela uísque, vinho, cerveja ou suco de melancia com gelo.
Vacilamos de novo por sermos jovens, nossos impulsos nos movem, agimos sem pensar. Quem nunca, né?
Mas o buraco passa a ser mais embaixo. Porque o problema aqui, meu amigo, é “quem sempre”.

Terapia de bar

– Não podíamos estar mais felizes por sentir tamanha dor!

– O quê? – espantou-se ao assoar o nariz molhado por incessantes lágrimas, o mais gay dos amigos gays devia estar louco – você só pode estar brincando, Salomão!

– Já parou para pensar o quão sortudos somos por ter uma história tão bela a ponto de doer tanto dizer tchau?

– Se não tivesse valido a pena, sairíamos dela saltitando e não chorando em posição fetal.

Constante frustração nossa

E quem diria que, na mais inesperada esquina da vida, encontraria um amigo de frustrações.
As questões, tão diferentes, se fazem iguais – por pertencerem ao coração.
O que queremos, não podemos ter. Coisas da vida, merdas do cotidiano.
E nas rápidas muitas horas de goles gelados de cerveja descendo áspera pela garganta em uma tarde de muito calor, disparo e ouço conselhos desesperados.
Confusos, confiamos segredos no ombro amigo e tomamos a decisão de dar um enorme passo – aquele, nem sempre favorito, que consideramos “certo” (seja lá o que isso quer dizer).
Deixamos o tempo passar. Apoiamos para não cair, torcendo para que o próximo bar seja regado a menos drama e melhores novidades.

Reencontro

A metros do trabalho, estacionei o carro na praça que tenho chamado de minha. A necessidade de acender um cigarro era maior do que a vontade de chegar em casa. Não por nada, estava tudo bem. Sem grandes conquistas ou significativas decepções.

Quando em horário de verão, 19h ainda é dia. A praça, recém-molhada pela breve chuva, era rodeada por amigos em bares, contemplada por crianças brincando no parquinho e recheada com o previsível casal apaixonado e com o maconheiro que disfarçava – sem poder aproveitar – sua densa fumaça. Sentei em um banco e observei. Esta era a minha prática favorita aos finais de tarde.

Eis que, então, vi de longe um rosto conhecido. Irreconhecível. Abri os braços, oferencendo um acolher de falsa saudade.

Nossas conversas eram sempre assim. “Não podemos ser críticos, mas temos que ter senso crítico”, proferiu. Ele sempre filosofava – com um ar meio anarquista – e eu sempre balançava a cabeça, como que concordando, mas sem compreender metade de seus pensamentos de menino, poetizados em falas teatrais.

Desta vez, porém, as palavras pareciam sair da boca de um homem – que carregava uma maleta transpassada ao ombro, de trabalhador. O moleque, finalmente, crescera. E me deixou ali, estupefata, descabelada depois de um dia longo, no meio da praça.

O contato fazer-se-ia o último. Não carregávamos celular. Irônico mundo da tecnologia – sem a qual nos tornamos inúteis. Prometi procurá-lo nas redes sociais para marcarmos, quem sabe, uma cerveja. Mas, no fundo, sabíamos que, provavelmente, não o faria.

O cheiro de nicotina cessou com a ajuda da brisa trazida no balançar das árvores. Mas guardei seu novo, porém típico, discurso – que, pela primeira vez em anos, foi capaz de mexer comigo.

Engraçados esses (re)encontros, feitos de acaso, promovidos pela vida.

Na lama, no bar

O fundo do meu poço tinha cara de bar, cheiro de cigarro e gosto de uísque. O fundo do meu poço tinha som de banda de jazz e risos de amigos bêbados. Era povoado por criaturas interessantes que, às duas horas da manhã, jogavam “stop” em guardanapos apoiados no balcão molhado de cerveja.

O fundo do meu poço tinha eu. E, perturbadoramente, tinha você em cada rosto fitado de repente. O poço, na verdade, era só meu. Para todo o resto, era apenas mais um bar.

Enquanto com for melhor que sem

Não aguento mais discutir o mesmo assunto over and over. As conversas viram monotemáticas demais até para mim, que não dispenso um debate sobre dor de amor.

Os conselhos, que nem peço, já até decorei. “Larga esse filho da puta”, “foque no seu trabalho, invista em você, dedique-se a se conhecer”, “não responda, não ligue, desencane” e o meu favorito: “mas uma mulher tão bonita, tão inteligente, tão madura, tão querida e tão especial, como cai num negócio burro desses?”. Afaga o ego que é uma beleza. E eu sei. De tudo. E agradeço pela preocupação. Mas devo comunicar que não sofro mais da cegueira do envolvimento. Esta já não compromete mais minha visão. De uma certa forma, é tudo nítido, claro e límpido. E até enxergo o cinza ao invés do cor de rosa. Por vezes, também acho feio.  

Mas há muitas coisas nesse injusto mundo dos sentimentos que não se pode controlar. E meu coração sempre foi meio idiota mesmo. “Uma porta para o inferno”, descreveu a astróloga, que soube ler com muito afinco a parte nebulosa das emoções, presente em meu mapa. Ela estava certa ao constatar que continuaria a lhe encontrar. Que aquilo, meu amigo, não acabaria por ali não. Deve ter acertado também ao dizer que devemos nos conhecer de outras vidas, tamanha a sintonia. Maldita sintonia que me impede de lhe negar. Que me incita a continuar errando.

Errado eu sei que é, sempre soube – e consenti. Incomoda aqueles que tanto me consideram. Porque me fere. Eu sei. Mas também me acalenta. Eu juro. E (infelizmente, penso) o poder de julgamento cabe só a mim, que tenho consciência da minha situação e de meus sentimentos.

Pedirei ajuda, se o fardo ficar pesado demais. Porém, entendo que muito do caminho devo trilhar sozinha. As escolhas, quase nunca racionais, só eu posso fazer. E com as consequências – vezes fáceis, vezes difícies – também sou eu que tenho que lidar. E encaro. Por mais caro que me saia.

Então fica combinado assim: enquanto o bem que me faz ao lhe ver, compensar todo o mal de quando em sua ausência, considerarei que ainda vale a pena.

Só dessa vez, deixarei a inteligência para as opiniões e pitacos dos amigos nos encontros em bares de segunda feira. E continuarei insistindo, por mais burro que isso seja.

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