Busca

Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

Tag

bebida

I’m back, bitch

Achei que minha fase de páginas de Word preenchidas por vírgulas, confissões, interrogações, reticências, pontos finais e divagações havia chegado ao fim.

Cigarro, uísque, vinho. Mesma praça, mesmo carro, mesmo choro.
Nada.
Novos pensamentos, músicas, livros, filmes e peças. Outras táticas.
Nada.
Nem uma mísera linha.
Fez-se branco na tela do computador. A caneta não tocava as páginas do moleskine nem para fazer rabiscos cotidianos.

Horas sentada ao relento, cabelos em coque molhados pelo sereno, imaginando histórias no horizonte de estrelas. Clichê.
Nada.
Nem um esboço do que poderia vir a ser, quem sabe, um pequeno texto.
Nem uma nota.

A matrícula no curso do renomado mestre só fez desfalcar na carteira. Só fez abrir os olhos para novos estilos de escrita.
De outros.
Minha página continuava vazia.
Parágrafos de nada.

Nem uma ideia, nem uma reclamação. Sem pitadas de sarcasmo ou raiva ou drama. Ou qualquer emoção.

É o fim da vida do blog. Da minha vida. De descobrir a mágica que se faz sentido no unir de palavras.

Acabou. Conformei.

Mas o destino, esse brincalhão, assistiu à minha acomodação e enviou uma nova inquietação, um novo conflito e a já esquecida inspiração.

Parei o trabalho, a leitura e a academia. Afoguei-me nas letras do teclado, perdi-me entre as folhas do caderno e esqueci-me de comer por quase três dias.

Mas quem precisa de comida quando o drama alimenta a escrita?

Não era o fim.
Que nada.
Era só uma fase perturbada.

Anúncios

Shame on us

Frases idiotas proferidas na mesa do bar.
Mesmos conselhos e mesmas broncas.
Nenhuma nova reação. Mania antiga de vomitarmos aos berros os erros cometidos.
A culpa do monólogo cansativo é sempre atribuída à bebida – seja ela uísque, vinho, cerveja ou suco de melancia com gelo.
Vacilamos de novo por sermos jovens, nossos impulsos nos movem, agimos sem pensar. Quem nunca, né?
Mas o buraco passa a ser mais embaixo. Porque o problema aqui, meu amigo, é “quem sempre”.

Da vida e suas tragicomédias

– Que graça teria nossa vida sem boas (leia-se trágicas, dramáticas e cômicas) histórias para contar e ouvir? – indaga meu amigo Salomão

Penso, por alguns silenciosos segundos.

Lembro da vez em que, a fim de paquerar o mocinho do terceiro colegial, espetei toda minha bunda de menininha da sétima série em um canteiro cheio de espinhos, fazendo com que, para sempre, associasse rosas ao menino que, na época, tinha o apelido de Vampirão.

Penso também em quando nos comunicávamos, eu e minhas amigas, por meio de recadinhos jogados pela janela com os meninos mais velhos do colégio. Foi assim que recebemos o apelido de Julietas de um querido e inesquecível professor. Seguimos buscando nossos Romeus.

Recordo a vez em que agarrei um japonês em pleno metrô canadense. O vagão estava tão cheio que não conseguia me equilibrar. Na brecada que deu, não pensei duas vezes. Fui xingada de inúmeros palavrões japoneses que jamais entenderei. Mas nunca me esquecerei da sensação de conforto do paletó macio ou da intimidade que tinha com a amiga que ria compulsivamente de meu lapso e com quem, hoje, nem falo mais.

Lembro do dia em que cantei, em solo canadense, “um elefante incomoda muita gente”com uma amiga brasileira. Juntas, chegamos até o número 200 ao esperar pelo ônibus que nunca chegou. Na mesma tarde, sambamos em volta do guarda-chuva a fim de convencer o guarda do consulado que éramos, de fato, brasileiras, e que precisávamos de ajuda por termos perdido nossos passaportes.

Coro ao recordar o tombo que levei ao tentar impressionar, aos 16 anos, meu namorado mais velho, usando salto agulha de mais de 15 centímetros. Essa cicatriz, no joelho, eu tenho até hoje. O mesmo namorado me levou de moto (quase uma biz) até a praia e eu só me lembro de berrar, durante toda a descida da serra “eu vou morrer e minha mãe vai me matar!”. Sobrevivi. Mas voltei de ônibus.

Sorrio ao pensar na vez em que saí do novo apartamento correndo, com chaves, cadernos, livros, sapato, desodorante e bolsas nas mãos e dei de cara com o cara mais bonito da face da terra no elevador. Seria até despojado, não fosse o enorme pedaço de panetone sendo mastigado em minha boca, impedindo qualquer tipo de comunicação ou sorriso ou classe ou dignidade. Fiasco.

Dei em cima do professor de spinning, que era gay. Confessei meu amor bêbado a um garçom muito simpático e acordei com várias mensagens no meu celular. Bebi pinga achando ser água e água achando ser pinga (tamanha a bebedeira). Cantei no karaokê achando que arrasava na interpretação da Madonna, no primeiro encontro. Topei um encontro às cegas e passei a noite dobrando guardanapos ao ouvir as histórias de um lutador de jiu-jitsu que não sabia falar de mais nada, além dos próprios músculos. Sem contar a vez em que escorreguei no cocô de cachorro e sujei minha calça, minha bunda, minha bolsa e meu paquera, bem no meio da rua.  Fiz amizade com travestis e passei o ano novo numa balada gay muito louca. Cheguei atrasada em inúmeras sessões de cinema com uma amiga que consegue ser mais enrolada do que eu. Com ela, dou risada até cinco da manhã dentro do carro. De dramas meus, nossos e de nosso grupo de amigos – todos desajeitados.

Choro de rir sozinha e respondo, convicta:

– Nenhuma.

Vai passar

Vai passar porque a vida continua, o trabalho exige, os boletos vencem e o estômago ronca.

Vai passar porque o fígado reclama e as lágrimas secam.

Mesmo que nada mais faça sentido, vai passar porque o sol ainda nasce, a lua ainda brilha, a chuva ainda cai e porque a praça ainda tem vida noturna, mesmo sem nós dois ali.

Vai passar porque ainda existe a bebida, existe o cigarro e existem os amigos.

Vai passar porque tem a academia, o regime e as aulas de boxe.

Vai passar porque, no mundo, habitam 7 bilhões de pessoas e porque não é possível que ninguém, nunca, vá se fazer interessante de novo. Vai passar porque estreiam bons filmes e peças, porque aparecem viagens, porque existem bons livros e vinhos.

Não vai passar só porque todo mundo diz que passa ou porque a gente sabe, por experiências passadas, que, uma hora ou outra, isso acontece mesmo.

Vai passar porque tem que passar. Só por isso.

Espírito velho

Hoje é sexta feira. Não são nem nove da noite. Já estou na cama. De pijama. Com meu livro. E estou muito feliz.

Poderia, do alto dos meus 22 anos, dizer que tenho trabalhado demais. Que estou cansada. Mas todos sabemos que, apesar de verdade, seria mentira. Não tem jeito, sou velha.

Se eu pudesse, confesso, teria sido uma adolescente normal, do tipo que curte ficar muito louca na balada. Juro.

Mas era do tipo que ficava conversando com a moça do banheiro enquanto descansava os pés, sentada em cima da pia, reclamando da altura do som.

Nunca aproveitei balada alguma. Ficava só na única caipirinha – que, ao longo da noite, virava água – e ainda tinha que cuidar dos amigos que, ao vomitar na manhã seguinte, imaginavam (vagamente e por meio de relances embaçados) ter aproveitado até demais.

Quanto a homens, eu tinha um lema: se não for o Brad Pitt, não informo nem meu nome. Adivinha, só! Nunca pegava ninguém. Tinha um certo asco dos caras que já deviam ter amassado umas cinco antes de vir tentar a sorte comigo. E não estou nem levando em conta os peculiares métodos de abordagem.

Era fila para entrar, para beber, para pagar, para sair. O aglomerado era tanto que a minha sensação era a de dançar dentro de um vagão de metrô lotado, pedindo desculpas pelos esbarrões e tomando cuidado, a fim de se esquivar das inúmeras cotoveladas e pisões.

Eram horas de preparação – das quais faziam parte cabelo, vestido e maquiagem – para passar a noite em um lugar escuro, de luzes ofuscantes (que não permitiam enxergar o rosto de ninguém, quanto menos a roupa nova), suando, fedendo a cigarro e tomando banho de cerveja.

Até tenho aqueles amigos que insistem. Mas não consigo entender a graça de um lugar como esse. Podem me chamar para os mais diferentes programas, juro que vou. Mas em baladas, não ponho os pés nunca mais.

Afinal, se a melhor parte (definitivamente!) era a filosofia divagada no banheiro – dividida com um alguém que estava ali a trabalho –, acho que faço bem em preferir minha cama, economizar uma grana preta e curtir minha mania de velhice.

Ressaca

A gente vai ficar na fossa, vai chorar um pouco, deixando escorrer o corpo e o rímel pelo box, debaixo do chuveiro. Mas tudo isso, eventualmente, vai passar.

E vai deixar de existir também, em algum momento, a vontade de insistir e tentar mais uma vez. O toque do celular não mais iniciará um ataque cardíaco e a falta de ar, juntamente com a dor de estômago – causados pela espera do e-mail que nunca adentrará a caixa –, cessará.

Eu prometo que, assim como das outras vezes, haverá, com o tempo, a volta da percepção de que há sim outras pessoas interessantes no mundo e que é possível encantar-se novamente.

Por algumas semanas (ou meses, infelizmente não tenho como garantir), será preciso sobreviver. Mas viver, uma hora ou outra, estará novamente nos planos a curto prazo.

Prevejo irritação, falta de fome, excesso de sono e escassa vontade de sorrir verdadeiramente.

A visita a casa de amigos ou a simples ida a lugares públicos, provavelmente será feita arrastada, por pura obrigação. E a bebida ora acalmará, ora desesperará.

Vai ser preciso coragem ou pura necessidade para sair da cama. Mas passadas todas as etapas, a vida deve voltar, gradualmente, a ser bela. O sol voltará a nascer, as músicas voltarão a fazer sentido e todos aqueles clichês serão reais.

Um dia, eu juro. Agora, porém, provavelmente só em meados de 2012. Mas nem adianta revoltar-se, é assim mesmo que funciona. Se alguém lhe disse que seria fácil, mentiu.

Então é natal

Nota: os membros que compõem minha família, além de bagunceiros e bagunçados, são o máximo e eu realmente não sei o que seria das minhas datas comemorativas sem eles

Para desgosto da minha mãe, não sou uma pessoa muito natalina. Isso porque, desde muito pequena, observo minha avó – lê-se ‘a pessoa mais bem humorada, engraçada, de bem com a vida e que mais fala palavrão que conheço’ – já começar a chorar pelos cantos semanas antes de assar o coitado do Peru – menu que também não é lá meu favorito.

A data, para ela, é sinônimo de reflexão, muita saudade doída e consequente melancolia. Não tem como ficar feliz, nem se eu fosse apaixonada por panetone. Isso sem contar o calor que, na minha visão, está mais para castigo do que benção divina sobre o famigerado país tropical. 

O natal é sempre comemorado lá em casa, para minha infelicidade. O dia, que promete ser de festança, ano após ano começa com estresse. Logo às oito horas da manhã, sou arrancada da cama  – com uma delicadeza que Jesus, certamente, condenaria – com o objetivo de ajudar a deixar a casa em ordem (vale lembrar, porém, que o resto da parentada só dá as caras lá pelas onze da noite). Tudo ao som de broncas e berros misturados a músicas natalinas no (juro!) cavaquinho.

A arrumação inclui banheiros, camas, quartos, lavar o quintal, entuchar as roupas espalhadas nos armários e fazer mágica para comer sem deixar resquício de farelos e afins pela cozinha. Quando parece que vai ficar tudo bem, toda tarde de todo santo natal, meu pai – com uma habilidade enorme para fazer sujeira e irritar sua esposa – resolve consertar uma torneira quebrada há uns belos três meses e, no exato momento em que descobre, minha mãe faz valer o sangue italiano que corre em suas veias. A gritaria, inevitavelmente, começa aí. E só termina na missa do galo.  

Também o amigo secreto, todo ano é a mesma coisa. Aquele tio engraçadão, invariavelmente, tira a tia que gosta de jogar truco, alguém faz alguma piada infame, algum casal mal resolvido sempre briga e fica de cara feia, alguma tia resolve colocar na vitrola o CD da Simone com a faixa ‘então é natal’ no infinito repeat para irritar meu pai e, quando dá meia noite, a família ataca – esfomeada e sem a menor finesse – o frango com farofa da minha avó como se fossem todos retirantes nordestinos. Chega a ser comovente.

A melhor parte mesmo é quando os tios mais chatos resolvem ir dormir e juntamos os primos, a tia mais descolada e o avô engraçadão ao redor da piscina. O objetivo é acabar com os líquidos restantes em todas as garrafas presentes – sejam elas de uísque, cerveja, champagne quente ou vinho ruim. Geralmente, alguém cai na água com celular no bolso e/ou vomita em algum saco de presente. A última ceia me rendeu uma fama familiar que carregarei pelo resto da vida.

A pior parte é o almoço do dia 25. O evento, que acontece no salão perto da casa da tia que mora longe, já é tradição. A comilança proporciona azia, mas também emocionantes reencontros de primos distantes. Chega a ser lindo. Tudo isso, não fosse a ressaca, até que seria fácil.

O problema, porém, é encarar – com enjoo e dor de cabeça – tias que só te veem uma vez por ano, nunca lembram ‘no que foi mesmo que você se formou’ e, ainda assim, questionam seu salário, seu corte de cabelo, sua provável mudança de casa e a sua (não-existente) vida amorosa.

Papo vai, papo vem, tiramos a famosa foto da família inteira reunida e já depositamos o dinheiro do bolão – que é para ver quem acerta qual casal vai resistir ao ano novo e permanecer unido para a foto do natal que vem.

Se sobreviventes, ficamos horas tentando nos despedir de todos – sempre esquecendo, obviamente, alguém que nos ligará mais tarde só para cobrar um ‘tchau’ decente – e damos graças por poder ir embora, desmontar a árvore, arrumar a bagunça que ficou na casa e dar fim ao evento-clássico-trágico-cômico-adorável que só se repetirá (se Deus permitir) dali a doze meses.

Só mais uma vez

Acendeu o cigarro. O primeiro trago foi como um passeio ao paraíso. Soltou a fumaça como quem respira depois de se afogar, aliviado. Fumou até o filtro, até não ter mais nicotina para sugar. A sensação era maravilhosa, mas ao jogar a bituca, a única sensação que ficou foi de asco. Aquele cheiro defumado, que mais tarde pareceria como de salgadinho vencido, impregnou nos dedos, roupas, cabelo, dentes e hálito, como praga. Não havia bala, chiclete, álcool-gel ou perfume que o tirasse. Jurou que nunca mais o faria.

Comprou uma barra de chocolate. Não contente, levou junto uma caixa de bombom. A barra sumiu repidamente, fez as vezes de aperitivo. Um pedaço dos céus derretendo na boca, daqueles capazes de melhorar qualquer coração partido. A caixa foi como uma bomba. O estômago já não agüentava mais, mas não teve coragem de desperdiçar o último bombom. Por jurar que nunca mais na vida comeria aquilo de novo, tinha que aproveitar até o final, cada pedacinho. Jogar a última embalagem, vazia, no lixo, foi como jogar a dignidade fora. Se sentia gorda, horrenda, infeliz.

Tomou um golinho. O dia de trabalho havia sido exaustivo, desgastante, do cão. Golinho merecido que se transformou em uma garrafa, duas, três. Até não saber mais quem era, de onde vinha e para onde ia. Cantou, dançou, sorriu. Mas a ressaca moral e física do dia seguinte o fez prometer que nunca mais. De novo.

Já havia superado, estava linda. Feliz e linda. Mas o encontrou numa festa e ele também impressionava pela beleza, renovado como nunca. E simpático, legal, inteligente, bom de papo, charmoso, gostoso. Como nunca. O orgulho foi pro chapéu. Acordou na velha cama, aquela testemunha de discórdias e choros e traições. Completamente nua, em todos os sentidos. O cara ao lado, diferente da noite anterior, era o mesmíssimo filho da puta de antes. E ela era aquela mesma boba esperançosa antes. Sentou e chorou copiosamente, tendo a certeza de que naquela cama não dormiria nunca mais.

Todos prometeram, não cumpriram e prometeram novamente. Vício, o prazer do durante não compensa a dor e o arrependimento do depois.

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑