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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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Segunda feira

O celular não vibra, o tempo não passa, a vontade não chega. O ânimo dorme, o sono se esconde, a pressão baixa. O trabalho não rende, a leitura não vinga, a programação só piora. O jornal não chegou, o rádio chiou, a internet pifou. A nuvem escondeu, o sol apareceu, na previsão não tem trégua. A roupa amassou, a calça rasgou, a camisa encolheu. O café esfriou, a coca esquentou, suco não tem. A vida desanimou, a esperança vingou, mas o choro cedeu. O cabelo ensebou, a ginástica transpirou e o banho acalmou. Em casa chegou, a cama chamou, a lua iluminou e o dia acabou. Ufa!

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Pé no freio

A verdade é que fiquei assustada pelo rumo que as coisas estavam tomando.

Diferentemente das outras tantas vezes – de sofrimento – em que pensei em me afastar de você, o afeto fazia-se cada vez mais presente e mais intenso. A cumplicidade era de dar em veja em muitos casais casados ou juntados. (Assumidos. Reais.) A amizade fazia-se valer em todo encontro – fosse ele recheado de café, cerveja, vinho, salgados, doces ou carinhos.

Declarações, desejo, vontade de estar junto. Esfarrapadas desculpas para encontros secretos. Escancarados no sorriso aberto. Incontrolável.

E percebi que era tudo perfeito. Tudo lindo. Fazia bem. Quando junto.

Mas continuava tenso, doído, incerto, irreal, injusto. Fazia mal. Quando separado.

Tudo errado. E eu poderia insistir no erro pelo resto da vida. E este era o meu maior medo.

Faria tudo de novo

Esqueço as lágrimas que, invisíveis, jorravam de dentro do peito. Apago a insegurança e a consciência do erro cometido por diversas vezes, sem o menor pudor. Perdoo a falta de atenção e carinho nos momentos que mais precisava. Relevo o abuso.

Levo comigo os almoços e cafés em que as mãos, descontroladas pela imensa vontade de estar perto, encontravam-se por debaixo da mesa.

Escolho sua melhor lembrança, que é para seguir meu caminho com mais leveza.

Nosso pior e melhor

É uma bipolaridade sem tamanho. A gente chora, a gente ri. Tudo em um mesmo dia. Às vezes, em um inimaginavelmente curto espaço de tempo. E a gente acha que acabou tudo para, depois, perceber que ainda nem começou direito. Aí a gente manda mensagem, carregada de esperança, mas –  logo após apertar o ensaiado botão ‘send’ – torcemos para que nunca seja respondida.

Na verdade, nem nós mesmos sabemos o que queremos.

Ouvimos um ‘sim’ e entendemos como sendo ‘não’. Quando nos deparamos com um ‘talvez’, surtamos, imaginando se tratar de um ‘nunca mais’ envergonhado, disfarçado, temido. Nem te conto o que acontece quando na desilusão de um ‘hoje não vai dar’, ouvido ao final do dia.

Eu escrevo sobre a dor. Por vezes, elejo-me o ser mais dramático do mundo e chego a me convencer de que o problema só pode ser comigo. Mas, oras, o fato de o outro não expor, não quer dizer que não sinta.

As amigas, dotadas de lencinhos e colírio para olhos vermelhos, sofridos, encontram-se no café ao final da tarde. O assunto é o mesmo há semanas – causas e consequências de amores bandidos, errados, não-correspondidos, alterados, exagerados. Uma reclama por não saber lidar com o amor que tem demais. Outra debulha-se em lágrimas por ter amor de menos. A (aparentemente) mais sã, satisfazer-se-ia com a atenção de um só, aquele mal escolhido. Já a mais maluca diz, sóbria, não se deixar embebedar pelo veneno da paixão. Mas todas suspiram baixinho ao longo do dia. Nesta regra não há exceção.

Mulher é um bicho estranho, penso eu. É isso, são elas o problema.

Mas, então, encontro-me com o velho amigo na academia. Ele faz caretas e extrapola todos os seus limites a fim de liberar mais endorfina. Sua meta não é perder os quilos a mais e muito menos virar o incrível Hulk. Só evita marejar os olhos, levantando peso para esquecer.

Somos todos iguais, concluo. O problema é a espécie.

Entre uma pedalada e outra, conversamos. “A paixão está no ar esses dias, eu sinto”, conta ele, desconfiado. Não entendo o recado. “Prenda a respiração pelo máximo de tempo que aguentar”, alarma. Coitado, tá desesperado.

Estava errada, entendo. O problema, meus caros, é o sentimento.

Acho graça, mas também sinto medo. Afinal, no fundo, nem adianta fugir ou se esconder, é uma praga. Pode mandar prender os cupidos, descobrir a vacina para o vírus e censurar as melodias românticas. Não tem salvação. É uma burrice deliciosa, contagiante e tenebrosa inventada pelo coração.

Apontamentos sobre alguém que não conheci

"Quando as ideias são tantas, o autor não se contenta com apenas caneta e papel como extensão do trabalho ininterrupto de um cérebro repleto de personagens"

Letras na parede para melhor visualizar a imaginação. Quando as ideias são tantas, o autor não se contenta com apenas caneta e papel como extensão do trabalho ininterrupto de um cérebro repleto de personagens. O café já não faz mais efeito e até atrapalha, agitando ao invés de colocar as narrativas em seu lugar. Assim sendo, Jack Daniel’s fez as vezes da bebida enquanto lia clássicos como A Odisséia, Os Lusíadas e a Bíblia.

‘O problema do coração humano em conflito consigo mesmo’ sempre o intrigou e, ironicamente, o levou a um ataque cardíaco. Este, fulminante, tirou a vida de William Faulkner, mas jamais apagará a memória dos rabiscos na parede, imortalizados em seus dezessete inovadores livros recheados de morte, ganância e depravação.

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