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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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Raiva

Realmente me deu vontade de chorar. Não fosse meu orgulho, todo o lamento preso com aperto no meio do peito rolaria, salgado, bochechas abaixo. Acho que seria daquele tipo de choro de criança cansada, que faz bico e barulho e perde até o fôlego, tamanha insatisfação.
Queria ser criança, talvez. Deixar o mar desaguar sem medo de julgamentos. Esperar a mamãe acalmar, acalentar, ninar. Queria dormir. Na mesa de trabalho mesmo. Arrumar um casulo, montar uma cabana.
Queria que a vida desse um tempo. Que desse umas férias. Coisa pouca. Que pudesse trazer apenas alegrias. Por alguns dias apenas, que fosse. Que encantasse ao fazer-me enxergar o mundo como pequenina que fui e ainda sou e sempre serei.
Talvez o problema, enfim, seja eu. Talvez seja mimada demais, talvez esteja cansada demais.
E para segurar, como é que faz?

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Boas Novas

ouviu notícia boa e deu vontade de chorar.
deixou, então,  a água toda rolar.
não é todo dia que o cérebro deixa o coração mandar.

Pai. Do verbo ‘insubstituível’

a dor dói menos mesmo. como todo mundo disse que aconteceria.

todo mundo com um mínimo de sensatez, né?

o que mais me irritava quando você lá estava, já não sabendo direito que dia era (felizmente sem nunca esquecer-nos) e desmanchando-se em si mesmo, cada vez menos e menor em um caminho difícil de acompanhar por ser regado pela falta de esperança, com muito alívio do não-sofrimento e o desespero da despedida – aquela que, graças a deus (o seu, o meu, o que existe, o que não ou aquela simples e profunda fé meio descabida, porém poderosa, que usamos apenas em momentos críticos e trágicos e life changings como este) – eram as pessoas otimistas.

você sempre foi otimista para tudo que dependia de você. dava conta. e sabia que lograria qualquer resultado esperado. e mesmo que assim não fosse, as coisas se ajeitariam. era quase como mágica.

mas a vida não. a vida e suas peripécias nunca lhe foram tragadas com muita confiança. era sempre realista, duro e aproveitador do momento quando ele aparecia, porque sabia que o trajeto imposto por destino ou aquele deus de que falávamos acima ou de escolhas mesmo (vai saber…) tratava a sorte com parcimônia.

te vi partir dia após dia. após dia. após dia.

menos comida, menos força, menos reação. sempre com muita vontade de abrir os olhos e persistência para fazer a voz sair. ela nunca nunca saía. mas hei de encontrar no mundo alguém que saiba falar com o olhar tão bem como você.

aceitei de alma e coração sua passagem, encerramento, merecido descanso ou como você queira chamar. mas me parece que este foi um ato heróico ou covarde (tudo depende sempre do ponto de vista, não é mesmo?) feito por mim só e apenas.

e ninguém entendia.

lembra daqueles telefonemas que recebíamos? horas e horas de baboseira crédula pregando a palavra de misericórdia e milagre que te faria levantar da cama e correr entre brancos e limpos lençóis hospitalares que, apesar de macios, já machucavam sua sensível e cansada pele tão forte e morena e de tanto pulso em assuntos como economia e política.

sua corajosa veia empreendedora, como mágica, receberia mais energia e sangue e vida enviada talvez por anjos. teve aquela moça, lembra? (cheguei a te contar em um monólogo que, desculpa o trocadilho, deve ter-te feito querer morrer) que me contou sua experiência de quase falecimento. sei lá quantos dias na UTI, desenganada por sei lá quantos médicos, sei lá quantas e vezes e hoje aí, vivinha para me contar a história e provar que siiiim, mesmo já moribundo, você não me abandonaria.

quase acreditei nela. mas sabe qual o problema de acreditar em gente que insiste em dizer que ‘tudo vai ficar bem’ quando…bem…não vai? bom, é que, realmente….não foi. não ficou tudo bem. ficou tudo mal, péssimo, horrendo, desastroso. e ninguém me ligou para explicar o que fazer depois disso.

e quando você se foi, perdoado e amado e seguindo seu caminho que acredito ser de muita sorte (o mundo é muito cruel) e muito azar (tem tanto vídeo bom e tanta estupidez nova na internet que queria te mostrar, que te faria rir aquela risada gostosa), não sei dizer onde os imbatíveis fiéis de retórica enfiaram suas cabeças de vento. envergonhados, talvez. talvez tenham colocado a culpa em mim – que não tive assim tanta fé. eu cheguei a culpar os médicos e alguns pecados que havia cometido num passado recente (sabe como é…aqui se faz, aqui se paga).

mas de nada adianta pegar o criminoso, o ladrão de role model, pai, amigo, companheiro, confidente. a perda não se mede em vingança ou duras palavras proferidas a quem que, de fato, merecia. claro que fiz alguns telefonemas e sei que de longe você se orgulhou disso. te prometi stand up for myself e jamais deixarei proferir-se uma má palavra a seu respeito. a nosso particular respeito, você sabe.

doeu, pai. sem ou com culpado. quer quisera o destino ou deus ou você mesmo ou os médicos ou qualquer circunstância que já não importa.

um ano depois, somos apenas nós, aqui outra vez. sobrevivemos, meio tortos.

acordando ainda um após o outro, com medo de abrir os olhos e não te ver. indo dormir a base de séries engraçadas que é para não pensar demais na vida (nada mudou, veja bem).

às vezes é estranho não te extrañar demais. às vezes é estranho chorar de rir com alguma piada tipicamente sua. difícil às vezes ver que a vida anda, que o mundo gira e as coisas acontecem. sempre para frente, como você sempre recomendou.

um ano depois ainda ouço seu estalar de juntas subindo as escadas, o cheiro de perfume ainda se espalha pela casa e os conselhos sigo recebendo, não sei nem explicar como.

um ano depois ainda choro sozinha. só às vezes. mas rio muito também. de mim, de você, da vida. porque tudo isso faz parte. cruel e naturalmente.

e um ano depois nunca mais apareceram aquelas pessoas que acreditavam em milagres, ou pelo menos nunca mais me ligaram para contar experiências de quase-morte (ainda bem, não é mesmo?). elas seguiram suas quase-vidas e esqueceram-se das promessas não cumpridas de um credo por mim sempre desconfiado.

mas um ano depois, pai, tem muita gente boa também que aparece quase sempre. e dá um jeito de dizer que ‘está lá’, ‘para qualquer coisa’ (mesmo que a gente nunca saiba o que esse ‘qualquer coisa’ quer dizer). acho fofa a intenção, porém. apesar de meio sem sentido.

e tem aqueles, aqueles que você me ensinou a guardar no potinho dentro do peito, que não precisam expor sua presença com veemência, mas que pegam minha mão, me convidam para um drinque, agem naturalmente quando conto histórias suas e sorriem para dizer que estão lá – esses eu sei que estão mesmo.

tem uma toneladas de pais – avô, tios, padrinhos, conhecidos, vizinhos, pais de amigas – que já anunciaram que podem ocupar esse posto, deixado por ti.

o que eles não sabem é que você nunca foi embora de verdade. que segue em minhas orações (depois conversamos sobre para qual deus), em meus pensamento, atos, decisões. a cada respirar meu, lá está você. a cada vírgula escrita, a cada trabalho concluído. na minha vida, no meu coração. no formato das minhas mãos, no nariz de batata e até na maneira meio dura e truculenta de andar.

um ano depois e todos os muitos anos que vierem (porque eles virão, por melhor ou pior que isso possa parecer) a cadeira segue sendo sua e só sua.

o posto de ‘melhor pai do mundo’ é ocupado por todos os pais de todo o mundo. chega a ser banal, não é mesmo?

mas o título de ‘melhor MEU pai’ ninguém tira de você. se existe um deus, aquele mesmo, lá de cima, agradeço-o a cada segundo de cada dia a oportunidade de ter convivido com o personagem mais sagaz, divertido, despretencioso e pretencioso ao mesmo tempo, o mais incrível e perfeito companheiro de jornada que o cosmo poderia ter-me enviado.

não me imagino crescendo e sendo ensinada por nenhum outro modelo de pai e ditador e democrata e companheiro que você sempre foi. meu melhor professor.

o dia dos pais será sempre seu, para você e com você. mesmo longe. de mais ninguém.

hoje é dia de vinho, então. do melhor, por favor. dia de filme bom. de ouvir boas músicas e de gastar o dinheiro que não tenho em um restaurante que não conheço. dia de descobrir coisas novas. hoje é dia de gratidão, muita gratidão. sofrimento também, choro e riso.

uma sensação estranha que já faz parte de mim. um buraco imenso e vazio (para sempre impossível de preencher) no peito, que às vezes encho de flores – que é para disfarçar.
hoje é dia de saudade boa e ruim. e amor. só amor.
hoje é dia de homenagem. e essa eu fiz para você.

Terapia de bar

– Não podíamos estar mais felizes por sentir tamanha dor!

– O quê? – espantou-se ao assoar o nariz molhado por incessantes lágrimas, o mais gay dos amigos gays devia estar louco – você só pode estar brincando, Salomão!

– Já parou para pensar o quão sortudos somos por ter uma história tão bela a ponto de doer tanto dizer tchau?

– Se não tivesse valido a pena, sairíamos dela saltitando e não chorando em posição fetal.

Falha na fé

Buscamos respostas na astrologia, cartas de tarô, I-ching, leitura de mãos e borra de café. Fazemos complexas perguntas a pêndulos de cristal, aceitamos conselhos malucos, anotamos receitas de simpatias e acatamos recomendações de bons pais de santo.

É nessa hora que o (antes) inabalável ceticismo cede o lugar para as mais diferentes crenças. Passamos a acreditar em destino, deuses ou qualquer oráculo que possa nos ouvir e abrir caminhos para um momento de paz, de satisfação, de menos angústia, mais esperança e, se tudo der certo, pelo menos uma pequena amostra de felicidade.

Dá desespero mesmo passar por tudo isso. Chorar no banho, perder a fome, ter vontade de se afundar nos lençóis e de lá nunca mais sair. É horrível não suportar ouvir canções, assistir a filmes ou sair para conversar com velhos amigos.

Insistimos, então, em misticismo, milagres e novenas. E quando cogitamos a possibilidade de discar o número desenhado no poste (aquele, que diz que traz a pessoa amada em três dias, arruma o emprego dos sonhos ou descola uma passagem só de ida), entendemos que existe uma linha muito tênue entre o acreditar em magia e apresentar um caso grave de insanidade crônica.

Quem nunca? Mas no momento, meu amigo, feliz ou infelizmente, não interessa se quem constrói o futuro é o destino, forças maiores ou nossas próprias escolhas. Chega de insistir e tentar entender, descobrir ou desvendar. É chegado o momento de esperar. De dar tempo ao tempo e exercer a difícil tarefa de ser paciente.

Agora, é engolir o choro e sobreviver – enquanto viver ainda parece impossível.

Segunda feira

O celular não vibra, o tempo não passa, a vontade não chega. O ânimo dorme, o sono se esconde, a pressão baixa. O trabalho não rende, a leitura não vinga, a programação só piora. O jornal não chegou, o rádio chiou, a internet pifou. A nuvem escondeu, o sol apareceu, na previsão não tem trégua. A roupa amassou, a calça rasgou, a camisa encolheu. O café esfriou, a coca esquentou, suco não tem. A vida desanimou, a esperança vingou, mas o choro cedeu. O cabelo ensebou, a ginástica transpirou e o banho acalmou. Em casa chegou, a cama chamou, a lua iluminou e o dia acabou. Ufa!

Ressaca

A gente vai ficar na fossa, vai chorar um pouco, deixando escorrer o corpo e o rímel pelo box, debaixo do chuveiro. Mas tudo isso, eventualmente, vai passar.

E vai deixar de existir também, em algum momento, a vontade de insistir e tentar mais uma vez. O toque do celular não mais iniciará um ataque cardíaco e a falta de ar, juntamente com a dor de estômago – causados pela espera do e-mail que nunca adentrará a caixa –, cessará.

Eu prometo que, assim como das outras vezes, haverá, com o tempo, a volta da percepção de que há sim outras pessoas interessantes no mundo e que é possível encantar-se novamente.

Por algumas semanas (ou meses, infelizmente não tenho como garantir), será preciso sobreviver. Mas viver, uma hora ou outra, estará novamente nos planos a curto prazo.

Prevejo irritação, falta de fome, excesso de sono e escassa vontade de sorrir verdadeiramente.

A visita a casa de amigos ou a simples ida a lugares públicos, provavelmente será feita arrastada, por pura obrigação. E a bebida ora acalmará, ora desesperará.

Vai ser preciso coragem ou pura necessidade para sair da cama. Mas passadas todas as etapas, a vida deve voltar, gradualmente, a ser bela. O sol voltará a nascer, as músicas voltarão a fazer sentido e todos aqueles clichês serão reais.

Um dia, eu juro. Agora, porém, provavelmente só em meados de 2012. Mas nem adianta revoltar-se, é assim mesmo que funciona. Se alguém lhe disse que seria fácil, mentiu.

Um prato que se come frio

E chega o dia – geralmente em uma terça feira de sol encoberto por nuvens – em que dá o fatídico estalo e, finalmente, nos perguntamos ‘o que raios estou fazendo aqui?’.

E tudo aquilo que antes fazia chorar, vira motivo de incontroláveis risos – dessa vez leves e serenos.

Os óculos cor de rosa caem. Ao mesmo tempo, o mundo não colore apenas em tons de cinza. Para nossa surpresa, o céu é azul, o sol amarelo e o sorriso de um branco que chega a cegar.

Não rimos mais apenas por educação. Vemos graça na piada infame contada pelo chato do departamento de informática. Os colegas de trabalho (pasmem!) podem até ser muito legais.

Entretanto, como a carne é fraca, não nos desfazemos por total dos frágeis laços. Deixamos que o tempo passe – porque é só isso que ele sabe fazer – e que cumpra com sua função de cessar aquilo que deve.

O ‘não’ não-proferido, disfarçado por falsa doçura e preocupação, nem machuca mais. A vontade, confessemos, é de mandar à merda. Mas apenas sorrimos.

A vingança, afinal, nem sempre vem embrulhada por duras palavras.

Éramos 15

Amizade é como amor. Tem que haver fidelidade, confiança, cumplicidade, carinho e tesão. Quando nos encontrávamos, todas essas características se faziam valer. E como bons amigos que éramos, chorávamos toda dor de amores incapazes de cumprir com os mesmos pré-requisitos.

Éramos 15. Um número extremamente redondo e completo, por mais que ímpar. E descobrimos, com o tempo, que amigo é mais que família que podemos escolher, é amor que não deixamos vingar.

Como bons amores, fizemos votos de união na saúde e na doença. E, estes, não deixamos de seguir.

Os médicos diziam que não tinha mais jeito. Mas amizade é religião, e a nossa fé acreditava que tinha sim. Quando o diagnóstico apontou um mês de vida, fizemos mandinga, promessa, ritual de passagem e dança da cura. O mês virou um ano, que virou dois, que virou cinco. Mais um componente ímpar para nossa coleção de bons números.

Cinco anos de afeto e cuidados. Anos de medo, em que o coração quase parava com o toque do celular às três da manhã. Ironicamente, este foi o horário em que, de fato, fora anunciado o seu partir.

Se ser amigo é também cumprir promessas, falhamos ao chorar compulsivamente a falta que já nos fazia.

Amizade não comporta egoísmo, mas a verdade é que, mesmo ao acompanhar todo seu sofrimento, torcíamos pela continuidade do tratamento – que acarretava em risadas, conselhos e conversas intermináveis, mesmo quando com imensa dor.

A amizade sofre de cegueira maior do que o próprio amor. Nem mesmo em seus minutos finais enxergávamos a magreza, palidez e olheira presentes no já tão frágil corpo. Na memória, apenas a imagem do menino metido que, ao se livrar do antigo boné azul, virou homem maduro e corajoso, que lia auto-ajuda apenas para dar risada e decorar clichês. Sabia de cor os melhores trechos dos melhores livros de Gabriel García Márquez. ‘Crônica de Uma Morte Anunciada’ era seu favorito. Mundo irônico. Cruel.

Suas leituras sobre budismo e espiritismo, e todo aquele papo repetitivo sobre desapego do corpo e importância da alma, chegava a nos entediar. Hoje esboçamos um sorriso triste, entendendo que – atencioso e preocupado como era – arrumava sempre maneiras de, com muita sutileza, nos preparar para o iminente momento do fim. Estava próximo, e ele sabia.

O acordar às três da manhã à espera de notícias ruins ainda é reflexo do organismo lerdo que não entendeu o que a mente também teima em não aceitar. O único ensaio de alívio que dá, é saber que aproveitamos com extrema totalidade e entrega todos os inúmeros momentos que passamos juntos. Doamos aquilo que tínhamos de melhor e sugamos tudo o que tinha a oferecer.

Amizade é fidelidade, confiança, cumplicidade, carinho e tesão. E ele era o símbolo de tudo isso. Deixou 14 cartas escritas a punho com o enfermeiro fiel. Como bom canceriano que se preze, fez questão de imprimir seu sentimento a cada passo dado. E não seria diferente, nem mesmo com a morte por perto. Sei que todos os calhamaços começam com “querido (a) amigo (a)”, e que em cada carta estão detalhadas diferentes experiências de 28 anos vividos com intensidade. Mas – embora tenha a certeza de que a leitura de cada palavra me remeterá a momentos incríveis, memórias que valem a pena e sabedoria milenar –, ainda não tive coragem de rasgar o selo vermelho que fecha, com muito cuidado, o enorme envelope branco. Sei que nem o mais bonito dos poemas será capaz de suprir sua falta e amenizar essa imensa dor.

Prometemos continuar a frequentar nosso famoso boteco, sem deixar a tristeza dominar os constantes encontros de segunda feira. Mas é impressionante como a sofrida subtração de apenas um, pode criar um vazio tão imensurável.

Não tem jeito, concluímos. 14 nunca será um número redondo, por mais que par.

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