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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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dor de amor

Caro mesmo é sofrer

Tem gente que me pergunta por que eu não volto a escrever textos de cortar os pulsos, de sangrar a alma, de fazer revirar estômago e chorar o peito cansado de respirar sem aparelhos. Não escrevo mais sobre dor de amor que atinge a gente como facada no meio das costas numa tarde de terça-feira despretensiosa porque não sei escrever sem sentir. Aquele ardor que queima a garganta na tentativa de liberar aquelas palavras que ecoam lá dentro faz tempo, sem coragem de sair, esse ardor… eu já não sinto. Eu eu não sei escrever sem sentir. Para despejar todo vômito de comida estragada por todo aquele tempo esquecido ali no ego murcho, desprovido de amor próprio, preciso puxar no baú de memória, cujo rangido chega a doer os ouvidos de tão errado e passado e infinito em sua finitude que fora. E preciso cortar-me os pulsos e sangrar-me a alma, com muito omeprazol na veia, que é para preservar o estômago de revirar-se enquanto os pulmões lutam para sobreviver. Uma sobrevida ligada a aparelhos não me interessa mais. Hoje sou inteira e meu inteiro, embora iminentemente dramático, é insanamente mais feliz, ainda que trágico. Hoje sou escritora de mim e a perda de tantos leitores é um preço ínfimo a se pagar, mesmo que doloroso.

Embriaguez

Maria começou a sentir tudo aquilo novamente. O tremelique que dá nas pernas, a vontade de berrar e chorar ao mesmo tempo que ri. E comer ao mesmo tempo que não sente fome e dormir quando o sonho atinge a gente com os olhos bem abertos.
Quando Maria pensou em parar, o sistema nervoso já não respondia à razão, que já não comandava o cérebro, que não tinha controle nenhum sobre os pés. E correu. Dançou pelada na chuva. Caminhou lentamente até o precipício e se atirou, sabendo que do chão não passaria.
Maria perdeu o medo. Do escuro, de nadar, de altura. Maria perdeu o medo de temer, temendo ter a certeza de que aquela sensação, que a acometia fervorosamente sem margem para acordos ou um diálogo sequer, resultaria em uma grande ressaca. Catuaba misturada com jurupinga, mistura com vodka, misturada com saquê. A dor de cabeça que não passa com remédio, que não melhora com fritura, que não aceita nem água, nem limão, nem nada. Estômago seco que contrai sem relaxar, que vomita tudo que já não tem. Que derruba, quase mata.
Mas catuaba, quando misturada com jurupinga, vodka e saquê dá um barato que Maria já conhecia. E Maria aproveitou. Maria o copo inteiro virou. Ah, Maria não se preocupou com pudor. Maria se embebedou.
Piruetas, risos fácies, humor matinal. Nenhuma notícia trágica era capaz de lhe fazer mal.
Quando Maria a sobriedade retomou, foi aí que o pesadelo, de novo, começou.
Nocaute como uma remada na cabeça.
Maria um banho tomou. O rímel pelo box escorreu e Maria, sofrida, nem percebeu. Alguém perguntou se Maria se arrependeu e com a resposta esse alguém se surpreendeu. Maria não se lamentou. Maria amou, Maria viveu.

Entorpece

quero sentir aquilo de novo.
dor misturada com prazer que misturada com dor vicia mais que cocaína.
adrenalina.
canabis injetada na veia. efeito purpurina.
cerveja com gosto de champagne, chuchu que parece chocolate, alface com gosto de aipim.
combinação que traz o melhor de mim.
heroína. crack. doce. bala. embala qualquer canção de letra melosa.
encoraja qualquer parte ali medrosa.
cachorro molhado correndo em meu jardim.
combinação que traz o melhor de mim.
ecstasy, ópio, metanfetamina. abomina qualquer traço de menina.
amadurece como fruta.
encaixa como luva. trava luta entre razão e emoção.
tem medo de fechar o coração.
desliza sobre lindo piso de marfim.
combinação que traz o melhor de mim.
quando acaba parece flor.
desabrocha e murcha.
arranca da terra.
deixa buraco.
bem mal me quer.
nunca mais será bela, enfim.
combinação maldita.
brinca, borda e pinta.
deixa o pior de todo o mundo padecer dentro de mim.

S.O.S.

“tô precisando de ajuda”, disse.
foi a primeira vez em muito tempo que deixou sair todo o desespero.
soou brando, doce e sincero.
mas era dolorido, veloz, fatal.
incontolável, triste, choroso, moroso, agudo, azedo, difícil.
era chato, impróprio, atrapalhava, matava, espatifava, envergonhava.
tinha medo, amor e dor. tinha história – começo, meio e fim -. e tinha queda. livre.
não tinha paraquedas, não tinha manual, não tinha instrução.
não tinha mapa, nem botas, nem água.
não tinha colchão, amortecedor, travesseiro.
não dormia. só sonhava. e acordava. acabada.
não tinha comida. mas alimentava. de raiva, de dúvidas, de lágrimas.
pegou na mão, arrancou do coração. deitou no chão.
e passou. sempre na contramão.

Crônico

é uma dor tão filha da puta, mas tão filha da puta que avisa que vai doer.
começa com uma pontada. são espasmos espalhados no tempo. contrações.
e vão ficando mais fortes e mais intensas e mais doloridas. como facadas. pequenos pinos, talvez, que cutucam, cutucam, cutucam.
lâminas cada vez mais pontudas e afiadas. dores cada vez mais agudas.
um incômodo que, quase imperceptível, fica lá, o dia todo, todo dia.
ameaça aumentar.
e aumenta, aumenta, aumenta.
vira irritação constante, sensação de estar lá, dentro, fundo.
as mãos tentam tocar o peso da dor. esfregam o peito, enxugam a testa, em atos frágeis e desesperados, coçam a garganta. com delicadeza os dedos se apertam contra a palma das mãos, suadas.
o estômago é sempre a próxima vítima. arde. não digere. não aceita. nem alimento nem bebida. vomita. a abstinência funciona como tratamento quimioterápico.
o organismo reage. rebela-se. grita. contorcendo-se, briga.
é guerra interna. não atinge países vizinhos.
o rosto chega a sorrir. as fotos saem todas bonitas. o trabalho flui, vezes um pouco mais lento.
o mundo segue girando, redondo que é. e a vida continua sempre em frente, vezes em curva, vezes de ré.
é preciso ser forte para manter-se de pé.
respira, respira, respira. até afetar o pulmão.
inspira ares de compaixão.
sufoca. e dói.
comprime. e dói.
e dói e dói e dói.
e tudo surta. tudo muda. tudo fere.
protege-se. investe na fé.
e é preciso ser forte para manter-se de pé.
quase retrocede, cede, envia, liga, chama, clama.
mas aguenta. caído na lama, apoiado no mundo, espera o baixar da maré.
e melhora.
às vezes até passa.
mas sempre volta.
aos poucos e abundante.
em testes velados.
como goles ferventes de café.

Correio (des)elegante

Dá um friozinho na barriga. Liga pra amiga. Sorri. Dá pequenos pulinhos sem sair do lugar.
Ele respondeu.
E ela, prestes a abrir a mensagem, o coração e a vida, trava.
Os dedos, em posição de ataque ao mouse, param ainda no ar. endurecem. entristecem. perdem toda aquela euforia incontida de quando digitavam a pergunta fatídica.
Ele respondeu.
O sentimento era o mesmo de outrora e apesar de uma nova história vinha recheado de caquinhos de uma devastação anterior. Ainda em recuperação.
A ansiedade vira angústia. A vontade vira desespero.
Ele respondeu.
O olho não quer ler. O cérebro não quer saber e a alma tem medo de cair, de novo.
Até o corpo responde. Borboletas no estômago passam a dar dor de barriga. A cabeça lateja, a pele arrepia. Chega a doer.
Ele respondeu.
É dor do passado. É trauma antigo. É como quem perde uma perna mas a continua sentindo, doendo, coçando, esticando e dobrando.
É fantasma. É real.
Ele respondeu.
E ela não quer mais saber. Não quer entender, não quer responder.
A vida se ajeita agora, só agora. Ainda não se pode arriscar. Acertar, errar, se perder e afundar.
Ainda não dá para amar.

Desastre natural

Você foi terremoto, seguido de tsunami, seguido de furacão – que era para ter certeza que havia despedaçado toda minha cidade de vidro.
Não deu tempo de evacuar prédios, casas, artérias e corações.
Não deu tempo de nada.
Correu quem tinha esperança, mas caiu na primeira pedra, primeiro telefonema, primeiro rosto que parecesse com o seu.
Era genocídio sem fim. De todos os meus neurônios, sentimentos, de toda minha vida inventada.Com você.
Não foi fácil, meu caro.
Escutar teu nome.
Conviver com tua sombra.
Ler meus textos. Seus.
Exilei-me, experimentei, refugiei emoções. Controlei.
Chorei quando precisava. Sim.
E perdi a maior parte de mim.
Mudei. Pintei. Cortei.
Trabalhei.
Internei. UTI.
É ridículo contar o tempo que demorou para respirar sozinha novamente.
Desliguei os aparelhos.
E sobrevivi. Pisando em ovos. Catando conchinhas na areia.
Mas aliviei. O pulmão e a cabeça. E cresci.
Hoje ainda chuto pedrinhas da avalanche causada pelo nosso primeiro impulso.
Mantenho intacto o guarda-chuva que me foi emprestado nos dias de sol e tirado em dias de chuva.
Já não me importo com cabelos molhados.
Ainda teimo em colar antigos vasos quebrados.
O velho jogo de tentativa e erro. e erro. e erro. e acerto.
Só assim reconstrui meu império.
Pequeno, mas só meu.
E no caminho de tijolos dourados (acredite!), ainda encontro caquinhos.
Mas ando com vassoura e sacos de lixo sempre à mão.
Que é para jogar fora o que ainda insiste de você.
Para longe de mim.

Referências

Xeretando velhos e-mails – veja bem, o tipo de coisa que não se pode fazer depois da meia-noite, muito menos em dias propícios a procurar no youtube a cara feia do Abujamra (se é que é assim que se escreve) declamando qualquer coisa – que fosse batatinha quando nasce se esparrama (ninguém me convence do “espalha a rama”, coisa mais feia) pelo chão – daquela maneira só dele.
Procurava eu, na verdade, a versão original de um dos textos – publicados neste blog onde escrevo agora – modificados por consideração. (“eu protegi teu nome por amor”, diria cazuza) e terminei a viagem (e a manhã) em baús encontrados bem más allá do continente.
Perdeu-se a terra, o chão.
Em tempos aqueles toda palavra era feita para mim, para nós.
Cada trançar de frases, cada desdobrar de verbos, a escolha perfeita de pontuação.
E o sorriso idiota no rosto.
Aquele que ainda tanto temo e que nunca mais, nem em tempos de dor de amor aguda e (obrigada, devo dizer, ao menos) material para tanto texto drama queen, ousou esboçar-se em minha face outra vez.
Ver poesia em tudo era voar o tempo inteiro, suscetível a qualquer rajada de vento, vendaval.
Para dizer “oi” escrevia-se “O Livro do Desassossego” quase, eu te juro.
Eis o mal do relacionamento à distância. Do meu relacionamento à distância.
O meu escrever que não sabe ser conciso – que se médico fosse, receitaria apenas amor em letras legíveis, mesmo quando em estado terminal.
Era um e-mail de desculpa, que virou e-mail de promessa, que virou obra de terror. E a literatura do perdão foi que perdeu-se, e até hoje não sei quem devia o quê, a quem.

Já empurrando com a barriga, sabendo da decisão errada de caminhos tortuosos e medo do ponto final, encontrei em Marshall Berman minha resposta, minha vida. E a enviei por e-mail, inteira. Que era para ver se o alguém me salvara. E morri.
“Os acontecimentos se precipitam; o filho de Gretchen morre, ela é lançada no cárcere, julgada como assassina e condenada à morte. Em uma derradeira cena de forte comoção, Fausto vai à sua cela no meio da noite. De início, ela não o reconhece. Toma-o pelo carrasco e, num gesto insano mas terrivelmente apropriado, oferece-lhe o próprio corpo para o sacrifício derradeiro. Ele lhe jura seu amor e tenta convencê-la a fugir com ele. Tudo pode ser arranjado: ela necessita apenas caminhar até a porta e estará livre. Gretchen se comove, todavia não se moverá. Alega que o abraço de Fausto é frio, que ele em realidade não a ama. E há alguma verdade nisso: embora ele não queira que ela morra, tampouco gostaria de voltar a viver com ela.” – Tudo que é sólido desmancha no ar.

[assim mesmo, grifado]

E o passado se desfaz também assim, veja só. Ainda há coerência na luz enxergada com lentes nebulosas, tateando o chão do inferno, revestido de pedregulhos pontudos. Perigoso.
Faz-se febre no rosto novamente. Pega fogo. Queima. Alucino.
Goethe mais uma vez faz sua mágica.
Era só uma lembrança, menina, calma.
A janela abre. O corpo respira.
Fecha o computador e vai dormir.
De novo. E para sempre.
Pelo menos dessa vez.

Fundidos

*texto baseado em lembranças sonadas de uma vida inventada e no romance Febre, de Renato Essenfelder – cuidado, leitores: pode conter spoilers

……..

Talvez ele tenha se matado, pensei.
Talvez fosse eu, naqueles tempos, tivesse me matado também.
Senti vergonha, porém.
Confesso que também cheguei aos mais de quarenta graus, que perambulei cabisbaixa, moribunda.
Também repassei, como fosse um filme, todos os detalhes, pequenos diálogos, grandes mentiras.
Homem suporta menos a dor.
Não fosse fêmea, provável também implorasse.
Implorei, talvez.
Tentei, tentei.
Marquei encontros em lugares nossos. Praças.
Usei de um tudo de desculpa.
Fui embora chutando pedrinhas. Descalça.
Tentei odiar também, assim como ele, igualzinho.
A profissão. A arrogância. O sabe tudo. Porque sabia mesmo. A inteligência.
Mesmo usando eu palavras difíceis também. Também soberba.
Maldisse com todo desdém que cabe apenas àqueles profundamente apaixonados.
Amar é isso. É odiar até as melhores qualidades.
Por saudade.
E foi isso que fez.
Que quase fiz. Que fazemos todos, oras bolas.
Porque o amor não é apenas bom quando correspondido, não, veja bem.
A dor de amor é um cutuco na alma, é febre que pulsa sem motivo algum. São veias que queimam a qualquer indício de passo, pensamento ou respirar.
Sofrimento são palavras bonitas descritas com raiva de afeto. Desilusão é vida. São sentidos aguçados, agudos, momento único paradoxal aos pequenos e raros segundos de plena felicidade, quando nunca se é mais intenso.
Não deslizar aos prantos no box do banheiro, não debulhar-se em posição fetal, não sujar de rímel o travesseiro, meu amigo, é apenas sobreviver à mediocridade do cotidiano.
As pílulas, então, pequenas bolinhas de salvação, seriam talvez a maneira de seguir remoendo, revivendo, delirando. A única maneira de seguir filosofando. Com maestria.
O jeito de continuar escrevendo.
Sofrer por amor é dominar um tema.
Mas entregar-se pode ser loucura.
Loucura é comprar anel, é optar por ficar.
Nunca seja a que ama mais, aconselha minha avó.
Mas somos teimosos. E buscamos a dor.
Sabíamos que o não seria não.
Perguntamos pelos motivos errados, preocupados com a ínfima possibilidade de um sim.
Errôneo.
E caímos porque é só assim que funcionamos.
Perdidos. Metades. Feridos. Dramáticos.
Em busca de cura que leve nome próprio, que mascare a ressaca com mais um porre.
Que é para levantar do fundo do poço. E começar tudo de novo.

 

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