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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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dor

Raio-X

era uma menina. sentada na sarjeta. testa nos joelhos. mãos entrelaçadas.
era uma menina. cabelos presos. fios naturalmente caindo sobre as costas.
era uma menina. sapatos baixos e vermelhos. calças sem barra varrendo o medo do asfalto.
era só uma menina. destruída pelo tempo. pelo vento. pela chuva.
altura mediana. lábios finos e mandíbula grande. sobrancelhas definidas e cílios curvados.
pele clara e pelos longos. unhas grossas e juntas doídas.
anônima.
era uma menina. coração grande, peito pequeno. pés côncavos. mente convexa.
era uma menina. nádegas. coxas. joelhos bambos.
era uma menina.orelhas minúsculas. fígado doente.
era só uma menina. lágrimas salgadas. choro corrente.
dedos trêmulos. vontade de gritar. desespero no olhar.
lavava a nuca em água gelada. passava a vida à espera de nada.
era uma menina. meus sentimentos. eram uma menina.

Entorpece

quero sentir aquilo de novo.
dor misturada com prazer que misturada com dor vicia mais que cocaína.
adrenalina.
canabis injetada na veia. efeito purpurina.
cerveja com gosto de champagne, chuchu que parece chocolate, alface com gosto de aipim.
combinação que traz o melhor de mim.
heroína. crack. doce. bala. embala qualquer canção de letra melosa.
encoraja qualquer parte ali medrosa.
cachorro molhado correndo em meu jardim.
combinação que traz o melhor de mim.
ecstasy, ópio, metanfetamina. abomina qualquer traço de menina.
amadurece como fruta.
encaixa como luva. trava luta entre razão e emoção.
tem medo de fechar o coração.
desliza sobre lindo piso de marfim.
combinação que traz o melhor de mim.
quando acaba parece flor.
desabrocha e murcha.
arranca da terra.
deixa buraco.
bem mal me quer.
nunca mais será bela, enfim.
combinação maldita.
brinca, borda e pinta.
deixa o pior de todo o mundo padecer dentro de mim.

S.O.S.

“tô precisando de ajuda”, disse.
foi a primeira vez em muito tempo que deixou sair todo o desespero.
soou brando, doce e sincero.
mas era dolorido, veloz, fatal.
incontolável, triste, choroso, moroso, agudo, azedo, difícil.
era chato, impróprio, atrapalhava, matava, espatifava, envergonhava.
tinha medo, amor e dor. tinha história – começo, meio e fim -. e tinha queda. livre.
não tinha paraquedas, não tinha manual, não tinha instrução.
não tinha mapa, nem botas, nem água.
não tinha colchão, amortecedor, travesseiro.
não dormia. só sonhava. e acordava. acabada.
não tinha comida. mas alimentava. de raiva, de dúvidas, de lágrimas.
pegou na mão, arrancou do coração. deitou no chão.
e passou. sempre na contramão.

Pai. Do verbo ‘insubstituível’

a dor dói menos mesmo. como todo mundo disse que aconteceria.

todo mundo com um mínimo de sensatez, né?

o que mais me irritava quando você lá estava, já não sabendo direito que dia era (felizmente sem nunca esquecer-nos) e desmanchando-se em si mesmo, cada vez menos e menor em um caminho difícil de acompanhar por ser regado pela falta de esperança, com muito alívio do não-sofrimento e o desespero da despedida – aquela que, graças a deus (o seu, o meu, o que existe, o que não ou aquela simples e profunda fé meio descabida, porém poderosa, que usamos apenas em momentos críticos e trágicos e life changings como este) – eram as pessoas otimistas.

você sempre foi otimista para tudo que dependia de você. dava conta. e sabia que lograria qualquer resultado esperado. e mesmo que assim não fosse, as coisas se ajeitariam. era quase como mágica.

mas a vida não. a vida e suas peripécias nunca lhe foram tragadas com muita confiança. era sempre realista, duro e aproveitador do momento quando ele aparecia, porque sabia que o trajeto imposto por destino ou aquele deus de que falávamos acima ou de escolhas mesmo (vai saber…) tratava a sorte com parcimônia.

te vi partir dia após dia. após dia. após dia.

menos comida, menos força, menos reação. sempre com muita vontade de abrir os olhos e persistência para fazer a voz sair. ela nunca nunca saía. mas hei de encontrar no mundo alguém que saiba falar com o olhar tão bem como você.

aceitei de alma e coração sua passagem, encerramento, merecido descanso ou como você queira chamar. mas me parece que este foi um ato heróico ou covarde (tudo depende sempre do ponto de vista, não é mesmo?) feito por mim só e apenas.

e ninguém entendia.

lembra daqueles telefonemas que recebíamos? horas e horas de baboseira crédula pregando a palavra de misericórdia e milagre que te faria levantar da cama e correr entre brancos e limpos lençóis hospitalares que, apesar de macios, já machucavam sua sensível e cansada pele tão forte e morena e de tanto pulso em assuntos como economia e política.

sua corajosa veia empreendedora, como mágica, receberia mais energia e sangue e vida enviada talvez por anjos. teve aquela moça, lembra? (cheguei a te contar em um monólogo que, desculpa o trocadilho, deve ter-te feito querer morrer) que me contou sua experiência de quase falecimento. sei lá quantos dias na UTI, desenganada por sei lá quantos médicos, sei lá quantas e vezes e hoje aí, vivinha para me contar a história e provar que siiiim, mesmo já moribundo, você não me abandonaria.

quase acreditei nela. mas sabe qual o problema de acreditar em gente que insiste em dizer que ‘tudo vai ficar bem’ quando…bem…não vai? bom, é que, realmente….não foi. não ficou tudo bem. ficou tudo mal, péssimo, horrendo, desastroso. e ninguém me ligou para explicar o que fazer depois disso.

e quando você se foi, perdoado e amado e seguindo seu caminho que acredito ser de muita sorte (o mundo é muito cruel) e muito azar (tem tanto vídeo bom e tanta estupidez nova na internet que queria te mostrar, que te faria rir aquela risada gostosa), não sei dizer onde os imbatíveis fiéis de retórica enfiaram suas cabeças de vento. envergonhados, talvez. talvez tenham colocado a culpa em mim – que não tive assim tanta fé. eu cheguei a culpar os médicos e alguns pecados que havia cometido num passado recente (sabe como é…aqui se faz, aqui se paga).

mas de nada adianta pegar o criminoso, o ladrão de role model, pai, amigo, companheiro, confidente. a perda não se mede em vingança ou duras palavras proferidas a quem que, de fato, merecia. claro que fiz alguns telefonemas e sei que de longe você se orgulhou disso. te prometi stand up for myself e jamais deixarei proferir-se uma má palavra a seu respeito. a nosso particular respeito, você sabe.

doeu, pai. sem ou com culpado. quer quisera o destino ou deus ou você mesmo ou os médicos ou qualquer circunstância que já não importa.

um ano depois, somos apenas nós, aqui outra vez. sobrevivemos, meio tortos.

acordando ainda um após o outro, com medo de abrir os olhos e não te ver. indo dormir a base de séries engraçadas que é para não pensar demais na vida (nada mudou, veja bem).

às vezes é estranho não te extrañar demais. às vezes é estranho chorar de rir com alguma piada tipicamente sua. difícil às vezes ver que a vida anda, que o mundo gira e as coisas acontecem. sempre para frente, como você sempre recomendou.

um ano depois ainda ouço seu estalar de juntas subindo as escadas, o cheiro de perfume ainda se espalha pela casa e os conselhos sigo recebendo, não sei nem explicar como.

um ano depois ainda choro sozinha. só às vezes. mas rio muito também. de mim, de você, da vida. porque tudo isso faz parte. cruel e naturalmente.

e um ano depois nunca mais apareceram aquelas pessoas que acreditavam em milagres, ou pelo menos nunca mais me ligaram para contar experiências de quase-morte (ainda bem, não é mesmo?). elas seguiram suas quase-vidas e esqueceram-se das promessas não cumpridas de um credo por mim sempre desconfiado.

mas um ano depois, pai, tem muita gente boa também que aparece quase sempre. e dá um jeito de dizer que ‘está lá’, ‘para qualquer coisa’ (mesmo que a gente nunca saiba o que esse ‘qualquer coisa’ quer dizer). acho fofa a intenção, porém. apesar de meio sem sentido.

e tem aqueles, aqueles que você me ensinou a guardar no potinho dentro do peito, que não precisam expor sua presença com veemência, mas que pegam minha mão, me convidam para um drinque, agem naturalmente quando conto histórias suas e sorriem para dizer que estão lá – esses eu sei que estão mesmo.

tem uma toneladas de pais – avô, tios, padrinhos, conhecidos, vizinhos, pais de amigas – que já anunciaram que podem ocupar esse posto, deixado por ti.

o que eles não sabem é que você nunca foi embora de verdade. que segue em minhas orações (depois conversamos sobre para qual deus), em meus pensamento, atos, decisões. a cada respirar meu, lá está você. a cada vírgula escrita, a cada trabalho concluído. na minha vida, no meu coração. no formato das minhas mãos, no nariz de batata e até na maneira meio dura e truculenta de andar.

um ano depois e todos os muitos anos que vierem (porque eles virão, por melhor ou pior que isso possa parecer) a cadeira segue sendo sua e só sua.

o posto de ‘melhor pai do mundo’ é ocupado por todos os pais de todo o mundo. chega a ser banal, não é mesmo?

mas o título de ‘melhor MEU pai’ ninguém tira de você. se existe um deus, aquele mesmo, lá de cima, agradeço-o a cada segundo de cada dia a oportunidade de ter convivido com o personagem mais sagaz, divertido, despretencioso e pretencioso ao mesmo tempo, o mais incrível e perfeito companheiro de jornada que o cosmo poderia ter-me enviado.

não me imagino crescendo e sendo ensinada por nenhum outro modelo de pai e ditador e democrata e companheiro que você sempre foi. meu melhor professor.

o dia dos pais será sempre seu, para você e com você. mesmo longe. de mais ninguém.

hoje é dia de vinho, então. do melhor, por favor. dia de filme bom. de ouvir boas músicas e de gastar o dinheiro que não tenho em um restaurante que não conheço. dia de descobrir coisas novas. hoje é dia de gratidão, muita gratidão. sofrimento também, choro e riso.

uma sensação estranha que já faz parte de mim. um buraco imenso e vazio (para sempre impossível de preencher) no peito, que às vezes encho de flores – que é para disfarçar.
hoje é dia de saudade boa e ruim. e amor. só amor.
hoje é dia de homenagem. e essa eu fiz para você.

Correio (des)elegante

Dá um friozinho na barriga. Liga pra amiga. Sorri. Dá pequenos pulinhos sem sair do lugar.
Ele respondeu.
E ela, prestes a abrir a mensagem, o coração e a vida, trava.
Os dedos, em posição de ataque ao mouse, param ainda no ar. endurecem. entristecem. perdem toda aquela euforia incontida de quando digitavam a pergunta fatídica.
Ele respondeu.
O sentimento era o mesmo de outrora e apesar de uma nova história vinha recheado de caquinhos de uma devastação anterior. Ainda em recuperação.
A ansiedade vira angústia. A vontade vira desespero.
Ele respondeu.
O olho não quer ler. O cérebro não quer saber e a alma tem medo de cair, de novo.
Até o corpo responde. Borboletas no estômago passam a dar dor de barriga. A cabeça lateja, a pele arrepia. Chega a doer.
Ele respondeu.
É dor do passado. É trauma antigo. É como quem perde uma perna mas a continua sentindo, doendo, coçando, esticando e dobrando.
É fantasma. É real.
Ele respondeu.
E ela não quer mais saber. Não quer entender, não quer responder.
A vida se ajeita agora, só agora. Ainda não se pode arriscar. Acertar, errar, se perder e afundar.
Ainda não dá para amar.

Keep moving forward

Essa dor silenciosa é a pior dor que tem. É morrer por dentro cada dia um pouquinho. A cada semáforo vermelho, a cada chá preto, a cada nova música.

É estar mal o tempo todo em que se está bem. É não desmoronar quase nunca, desmoronando quase sempre. É buscar preencher o vazio com qualquer coisa que sabemos que não vai funcionar. Mas mesmo assim o fazemos.

É uma dor que dói tanto, que já não dói nunca. É um bichinho que incomoda o tempo todo, cutucando vezes sutil, vezes fortemente. É um desgosto constante de viver uma vida sem mais significado.

É ir à missa só por saber que ficar bravo com Deus não vai mudar a luta. Nada mudará.

É se esforçar para fingir viver, quando a alma está em frangalhos, moída, destroçada e ferida, detonada e jogada na cama, assistindo a qualquer episódio de Friends enquanto o corpo esboça falsos sorrisos ao tomar um cafezinho sem açúcar com qualquer pessoal.

A vida é o teatro que precisa rodar quando toca o despertador, abrindo a cortina do dia. O espectador só paga se gostar do show – que não pode parar. Cruel e simples. Um normal injusto pelo qual todo mundo, um dia, tem que passar. É assim, só assim, que a vida continua. E a gente carrega o guarda-chuva furado, enquanto o sol não brilha.

Se amar fosse doce

Se deixar para lá fosse um esporte, teria fôlego para muitas rodadas.
Mesmo sabendo que certamente perderia algumas.

Então vem.
Faz um estrago na minha vida.
Encanta minha rotina.
Dá vida ao meu acordar.

Só peço que, por carinho ou consideração, vá embora antes do anoitecer. A dor brilha mais sob a luz da lua.

Vá. E não peça desculpas. Piedade é pior que ilusão e eu já sabia mesmo que, de novo, não havia de ser amor.

Sem prosa, nem verso

Achei pedaços seus na minha bagunça.
Uma agenda esquecida, um caderno em branco, um livro por ler, folhas rabiscadas de edição.
A lembrança de um sorriso, um afago, um pegar de mãos.
Foi arrumando o antigo quarto que badernei meu coração.
Sentimentos esquecidos derramados pelo chão.
O amor comprimido em uma caixinha, na ultima prateleira do armário, caiu derrubando memórias.
Lágrimas invisíveis – mais salgadas e impossíveis de secar.
Aquele tipo de dor que a gente tem que carregar.
Conformados.
Sem nada poder falar, sem forças a mais para lutar.
Uma batalha já perdida antes mesmo de começar.

Facada

E cadê você agora, para sossegar o aperto no peito e fazer passar a dor aguda, dilacerante, cortante, insuportável?

Cadê você com o papo de “estarei aqui para o que precisar”?

Era tudo mentira. Paixão passageira. Manchada de egoísmo. Alicerce de ilusão.

Era válido quando era bom. Quando estava ali, a um toque no celular, uma mensagem mal intencionada, um e-mail despretensioso, uma idiota tão simples de enganar.

Compensava exalar simpatia, compreensão, ligação.

Era fácil se perder, deixar levar, pensar amar, suspirar. Era digno de passar por cima de valores. Podia ser diferente. Era bom acreditar.

Agora, me diz – enquanto você foge, ataca-me com grosserias, confunde-me com o vilão, passa-se por vítima, sente pena de si mesmo e arremessa-me na lama da indiferença –, quem vai estancar o sangue, controlar a pressão, suturar, levantar da cama, enxugar as lágrimas e fazer sarar?

Era falso.
Cada expressão, promessa e preocupação.
Todo interesse e cuidado.
Era brincadeira, joguinho de menino.
Era costume.
Era caça.
Era fuga.
Era armadilha. E eu caí.

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