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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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As simple as it gets

E aí a gente se desespera e liga pra tudo quanto é gente da já carimbada lista telefônica para ter certeza de que vai fazer alguma coisa diferente do que ir pra casa sozinha chorar as mágoas da decepção.

E aí a gente aceita convites de última hora e até se diverte, mas não consegue parar de pensar em como teria sido tão mais legal se fosse de outro jeito. Aquele, combinado. E aí a gente foca no trabalho e nos estudos que é pra tentar esquecer que se envolveu, mesmo sabendo que não podia, que não devia, que era errado. E aí a gente tenta se convencer de que é errado mesmo, que não daria certo, que não funciona. Mas aí a gente lembra que era bom, porque era mesmo. E aí a gente tenta se afastar, não demonstrar e em hipótese alguma ligar. E aí a gente mantém as mãos bem longe do telefone, mas vai até o céu quando este se manifesta. E aí a gente vai conferir, esperançosa, e descobre que é só mais uma mensagem sobre amor, daquele serviço que não foi comprado, mas insiste em comer os poucos créditos que ainda restam. E aí a gente lembra que tem que ligar pra TIM, pra cancelar essa porcaria que além de roubar uma fortuna de centavo em centavo, ainda é inconveniente, falando de decepções e dor de amor nos momentos em que estes são os únicos assuntos a serem evitados. E aí o coitado do moço do outro lado da linha não entende nada quando começamos a xingar a operadora de filha da puta, egoísta, insensível e enganadora.

– Mas, senhora, quando essas coisas de amor te perturbarem, é só responder com a palavra NÃO, que isso para – esclarece o paciente moço.

Como se a vida fosse assim tão simples.

E aí a gente desliga o telefone, estupefata de ver como alguém tão fora da situação conseguiu dar a luz que precisava. E aí tudo faz sentido e a gente consegue enxergar a situação. Some a vontade de trabalhar feito cão e focar nos estudos volta a ser difícil. Mas difícil mesmo vai ser, enfim, enviar a palavra NÃO.

Calúnia

Nota: da série ‘Cartas que, desesperada, não mandei’

Dar uma espairecida, tomar um ar. Essa ideia de errado, de “onde foi que eu me meti” me perturba cada vez mais e eu já não sei se quero de novo, se não quero mais. Hoje você tava chato e eu me pergunto se você é assim mesmo e eu não tinha percebido pela cegueira que a paixonite causa, se era meu estado muito alterado de consciência que me fazia admirá-lo tanto. Já não sei mais se é a situação ou se é você o errado. E tá acabando. O convívio, os trabalhos, a rotina, a gente. Talvez esteja na hora mesmo de alçar novos voos e achar meu lugar. Só meu, não com você ou por você ou para você. Meu. Para mim, comigo e por mim. Difícil essa coisa de pronome, né? Eu que sempre fui tão possessiva, abri mão de mim me doei a você. Não me resta nada. Já não me tenho mais e me iludo, achando que te tenho.
Mas você não é meu. Sabe que se não houvesse essa terceira pessoa, as coisas poderiam ser mais fáceis. Mas, espera aí, a terceira pessoa na verdade sou eu, eu que me meti onde não devia. Sabe que existir uma terceira – independentemente de ser eu ou ela – faz de você um filho da puta. E você cumpre tão bem este papel de canalha que nem me lembro de que sou a outra. Filho da puta. E eu aqui, dando uma de nora, preocupada com a sua mãe, tentando achar jeitos de te ajudar a fazer algo especial justo pra ela que te criou com tanto mimo de filho único que te fez pensar ser único mesmo. E é. Filho da puta. Bom de lábia, bom de piada, bom de cama. Eu caio na sua mesmo sabendo de tudo. Burra. Um filho da puta e uma menininha iludida, encantada, burra. Tenho dó de você, de quando for rejeitado, de quando não conseguir o que quer. Porque esse dia há de vir. Tenho dó de mim, do dia em que a realidade bater à porta e eu tiver que entender, na prática, que era brincadeira, que era aventura, que não tinha nada de amor. Mas tenho dó mesmo é de quem ama sem controle, acredita piamente e tira os dois pés do chão. Tenho dó de quem dorme com um filho da puta achando que acorda ao lado de um príncipe. Da dó de quem não só tira, mas lava e passa as roupas amassadas, traidoras. Da dó de quem tolera o Sr. Tudo Tem Que Ser Do Meu Jeito. Eu sofro, mas mando embora quando não o aguento. Tenho do é do terceiro elemento.

Leia-me

Nota: este texto é uma reedição (da série ‘E-mails que, desesperada, mandei’)

Você me dá vontade de voltar a fumar, que é pra ver se supre de alguma maneira, se alivia essa tensão que mistura ansiedade com angústia.

E aí eu percebo que fiz aquilo que prometi que não faria, desde o começo. Aquilo que me dá um medo danado, que tira o sono e a concentração. Tô me envolvendo demais. Muito mais do que devia ou podia. E não, eu não quero deixar de aparecer no seu cotidiano que já não me diz respeito, porque não, eu não me importo mesmo com o que pensam as pessoas, independentemente de serem meus amigos ou não. Porque eu não sei como vai ser quando eu não tiver mais desculpas plausíveis para ficar zanzando pela sua vida assim, à toa.

E eu não consigo dizer isso olhando nos seus olhos porque sempre fui melhor escrevendo do que falando e tenho certeza que vou balbuciar palavras que não vão fazer o menor sentido, fazendo com que eu fique sem graça, sem vontade de repetir e tentar de novo proferir algo coerente, porque vai soar ridículo. Como tantas vezes já aconteceu.

E aí eu saio pra dar uma volta no quarteirão, porque a vontade de fumar o segundo cigarro imaginário tá incontrolável. E aí eu lembro que tenho mais um monte de coisas para fazer, mas fica difícil concentrar. Então eu deixo para lá e sinto que nunca foi tão bom ligar o foda-se. Foda-se, vai!

Eu penso no quão errado é essa história de ficar assim com você e não sei direito o quão filho da puta você está sendo ou pode vir a ser. E penso na sua namorada. Não, eu nunca penso nela. Quando um ensaio de reflexão sobre o assunto se faz em minha cabeça, eu abstraio, dou um jeito, foco no trabalho. E, a essa altura do campeonato, eu já tô no terceiro cigarro daquele lá, para tentar esquecer o terceiro elemento, assim como esqueço quando estou com você. E aí eu lembro que não me importo mais com as suas condições, se é certo ou errado, se pode ou se não pode, se devo ou se não devo.

O quarto cigarro tem gosto de vale a pena, porque seria um pecado desperdiçar essa ligação tão forte, a sintonia, a química. Porque é tão difícil achar alguém com quem a gente se de tão bem, que goste tanto de estar perto. E aí se vai o quinto cigarro, aquele que quer dizer que está na hora de fazer valer a pena mesmo. Porque se é errado, já não tem mais como fazer ser certo.

Inevitavelmente, o sexto cigarro vem com o impulso de apagar tudo que vomitei na tela do celular e nunca te deixar saber. Vem o sétimo, oitavo, nono, lá se vai metade de um maço de Marlboro light imaginário.

No décimo primeiro decido apertar o send, como que para me livrar logo desse peso de palavras engasgadas e ligar o foda-se até para você, para o que vai pensar do que vai ler ao abrir o email.

Foda-se, vou fumar o maço inteiro, apertar o send e te encontrar amanhã com a mesma naturalidade de sempre, mesmo sabendo que agora você conhece minhas fraquezas, meus dois novos vícios: cigarro imaginário e você.

Enquanto com for melhor que sem

Não aguento mais discutir o mesmo assunto over and over. As conversas viram monotemáticas demais até para mim, que não dispenso um debate sobre dor de amor.

Os conselhos, que nem peço, já até decorei. “Larga esse filho da puta”, “foque no seu trabalho, invista em você, dedique-se a se conhecer”, “não responda, não ligue, desencane” e o meu favorito: “mas uma mulher tão bonita, tão inteligente, tão madura, tão querida e tão especial, como cai num negócio burro desses?”. Afaga o ego que é uma beleza. E eu sei. De tudo. E agradeço pela preocupação. Mas devo comunicar que não sofro mais da cegueira do envolvimento. Esta já não compromete mais minha visão. De uma certa forma, é tudo nítido, claro e límpido. E até enxergo o cinza ao invés do cor de rosa. Por vezes, também acho feio.  

Mas há muitas coisas nesse injusto mundo dos sentimentos que não se pode controlar. E meu coração sempre foi meio idiota mesmo. “Uma porta para o inferno”, descreveu a astróloga, que soube ler com muito afinco a parte nebulosa das emoções, presente em meu mapa. Ela estava certa ao constatar que continuaria a lhe encontrar. Que aquilo, meu amigo, não acabaria por ali não. Deve ter acertado também ao dizer que devemos nos conhecer de outras vidas, tamanha a sintonia. Maldita sintonia que me impede de lhe negar. Que me incita a continuar errando.

Errado eu sei que é, sempre soube – e consenti. Incomoda aqueles que tanto me consideram. Porque me fere. Eu sei. Mas também me acalenta. Eu juro. E (infelizmente, penso) o poder de julgamento cabe só a mim, que tenho consciência da minha situação e de meus sentimentos.

Pedirei ajuda, se o fardo ficar pesado demais. Porém, entendo que muito do caminho devo trilhar sozinha. As escolhas, quase nunca racionais, só eu posso fazer. E com as consequências – vezes fáceis, vezes difícies – também sou eu que tenho que lidar. E encaro. Por mais caro que me saia.

Então fica combinado assim: enquanto o bem que me faz ao lhe ver, compensar todo o mal de quando em sua ausência, considerarei que ainda vale a pena.

Só dessa vez, deixarei a inteligência para as opiniões e pitacos dos amigos nos encontros em bares de segunda feira. E continuarei insistindo, por mais burro que isso seja.

Quando o certo é o errado e o errado é o certo

E aí que, depois de tanta (des)ilusão,  resolvi deixar minha rebeldia amorosa de lado e abri a porteira do coração (olha que lindo!) pro certinho, bonitinho, aquele que tem futuro, a quem minha mãe amaria chamar de genro, leal, fiel. O certo.

É, ‘cuspi pra cima e caiu bem no meio da testa’, como diria minha astuta avó. Pois é, finalmente me envolvia com o temido ‘bonzinho’.

E não é que me surpreendi? Parei com aquele pré-conceito bobo. Era tudo muito legal, tudo muito certo. Não tinha que me preocupar com aquelas típicas coisas, como ‘com quem está’, ‘aonde está’ ou ‘por que não ligou’. Não me dava nem a chance de indagar ou ter pequenos surtos. Afinal, estava sempre comigo e quando não era assim, dava satisfações que, pela primeira vez, nem eram tão requisitadas.

Tinha mensagem de boa noite, de bom dia. Até (acreditem se quiserem) mensagem de bom almoço e bom café. Tinha passeio de final de semana, tinha carinho explícito em público. Não tinha preocupações. Não me deixava errar, tudo sempre nos eixos, tudo sempre correto.

Legal, né? Não, um porre. Gostoso, né? Não, um tédio.

‘Calma, Ana, se acalma, se aguenta’, cantava quase como um mantra em posição de yoga enquanto me martirizava por não pensar nele quando ia dormir, por não ser a primeira imagem que me vinha a cabeça quando acordava, por não tê-lo me atormentando em sonhos e por não dedicar comentários maldosos, amorosos ou sofridos a ele em redes sociais. Definitivamente, não era dele a ligação tão esperada em datas comemorativas.

Tá errado, tá muito errado. Mais errado com o certo do que quando era com o errado. Era bom quando era o errado. Era vivo. Era certo.

O certo em detrimento do bom ou o bom em detrimento do certo? Ai, tá tudo errado, coração burro do caramba.

Tem que querer estar perto, tem que querer pegar, tem que valer a pena sofrer. Tem que querer arriscar e se fazer de idiota. Tem que acreditar em mentiras, tem que cegar, tem que pulsar. Não tem jeito, tem que vibrar, esperançosa, junto com o toque do celular. E tem, tem que esperar, ansiosa, pelo sms que nunca chega, que pode nunca chegar. Tem que se apaixonar.

Proibido

É para ser filha da puta? Então seja filha da puta direito, daquelas dignas de apanhar com razão, sem dó de puxar o brinco de argola e arrancar tufos de cabelo.

É para ser amante? Então é para ser amante direito, daquelas merecedoras de tórridas noites proibidas e não apenas nhem nhem nhem. É para ser daquelas que toda mulher, no fundo, morre de inveja. Daquelas que tem o homem na palma da mão, na ponta dos pés, na barra do vestido.

Se é para ter um caso, é para ter um caso direito. Do tipo que se atraca no banheiro do trabalho, incontrolável. Do tipo que passa a mão por debaixo da mesa, que provoca na fila do almoço, que fala besteira no elevador, ao pé do ouvido.

Se é para pegar, então é para pegar de jeito. Usando todos os dedos, friccionando todos os músculos, tocando tudo quanto é parte, agarrando de todas as maneiras.

Se é para brincar de seduzir, então é para seduzir sem medo. Sem pudor, sem muito respeito, sem pisar em ovos, sem escolher local.

Se é só para ser passageiro, é para valer a pena. É ser intenso, palpável, real. É mexer com corpo e alma. É tempestade de verão, tufão, tsunami, terremoto. Devastador, de enlouquecer, de sofrer.

Se é para sofrer, é para sofrer com gosto. De ‘quero mais’, de ‘por que não?’, de desilusão. É doer o coração, o estômago e os rins. É estragar o fígado para afogar as mágoas, esgotar as lágrimas e a playlist de fossa. É ter vontade de assistir a clássicos e morrer de chorar no chão do banheiro. É para se entregar à dor por dias e noites, ver sentido em clichês, citar filósofos, comprar livros de auto-ajuda e fazer brigadeiro às três da manhã. É para se olhar no espelho toda borrada de rímel, nada apresentável, lamentável. Que é para sair dessa logo e levantar do fundo do poço, para começar tudo de novo.

Se é para ser, que seja logo. Porque se é para ser errado, que não tenha nada de certo. Se é para deixar a boa moça de lado, que seja má. Que seja já.

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