Busca

Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

Tag

escrever

Caro mesmo é sofrer

Tem gente que me pergunta por que eu não volto a escrever textos de cortar os pulsos, de sangrar a alma, de fazer revirar estômago e chorar o peito cansado de respirar sem aparelhos. Não escrevo mais sobre dor de amor que atinge a gente como facada no meio das costas numa tarde de terça-feira despretensiosa porque não sei escrever sem sentir. Aquele ardor que queima a garganta na tentativa de liberar aquelas palavras que ecoam lá dentro faz tempo, sem coragem de sair, esse ardor… eu já não sinto. Eu eu não sei escrever sem sentir. Para despejar todo vômito de comida estragada por todo aquele tempo esquecido ali no ego murcho, desprovido de amor próprio, preciso puxar no baú de memória, cujo rangido chega a doer os ouvidos de tão errado e passado e infinito em sua finitude que fora. E preciso cortar-me os pulsos e sangrar-me a alma, com muito omeprazol na veia, que é para preservar o estômago de revirar-se enquanto os pulmões lutam para sobreviver. Uma sobrevida ligada a aparelhos não me interessa mais. Hoje sou inteira e meu inteiro, embora iminentemente dramático, é insanamente mais feliz, ainda que trágico. Hoje sou escritora de mim e a perda de tantos leitores é um preço ínfimo a se pagar, mesmo que doloroso.

Destilado do papel

Gosto de sofrer um pouco. Tristeza que destila, destila, fermenta e vira inspiração.
Se transforma em palavras que abraçam, afagam o coração. Frases e pontos e vírgulas que se alinham sem o cérebro conseguir acompanhar. Sento no escuro, no macio do colchão. No colo, o peso da máquina de fazer expor, sair, distrair e desabafar.
Dedos que correm e percorrem o teclado cheio de erros, érres por ésses, sem concordar verbo com sujeito.
Roupa amassada, cabelo despenteado. Cada canto do quarto vira um personagem encantado, iluminado, cheio de história para contar.
Quem sabe o que se passa na cabeça e na conversa dos cachecóis que vivem na prateleira, que moram no armário cansado de ter seus braços abertos e fechados e abertos e fechados até o rangir da dobradiça, até machucar.
Quanto conhecimento tem a luminária, em cada virar de página de livro, de rasura no caderno, de filmes e série e silêncio. Observando-me cochilar.
Neste piso que passo sem nem perceber, quantos tênis, botas, chinelos, quantos caminhos a percorrer. Cada pisada com pressa ou certeira, silenciosa, medrosa, festeira. O que pensa das meias que escorregam e o cabelo que rega a madeira quando saído do banho no mesmo horário, de segunda a sexta-feira?
Três pedaços de janela, que se revezam no frio e no calor. Têm visão interna e externa. Mas o que será que ela prefere? Será que às vezes queria não ver, não saber, não conhecer? Quando chove e a vista fica tão bela, quando escurece e dá medo de nunca mais o sol nascer. Mas a escuridão também pode ser poética, quando o vizinho da frente suas velas resolve acender.
O espelho que tudo mostra e nada esconde, onde será que mantém sua alegria de viver? Quando exibe uma roupa nova, reconhece o furo no pijama velho ou revela uma ruga sem nem perceber.
São sete quadros na parede. Mais dez pendurados enfeites que ninguém perguntou se ali queriam permanecer. Pode ser que não suportem seus vizinhos de gancho e que com outros pequenos pregos sonhem a cada amanhecer.
A vida fica mais bonita quando imaginada, quando sonhada com os olhos vidrados neste clarão em que escrevo sem correria, mas sem demora. Fica aqui um pouco de mim, um pouco da minha história e quem sabe esse impulso de letras que me devora, um dia me carregue, dicionário afora, para um mundo bem melhor que esse, de agora.

Férias forçadas

Precisei de uma pausa.
Os motivos já nem sei.
Já passou, já respirei. Mas meu tempo eu respeitei.
Até tive vontade de escrever, sabe?
Mas quando um provável primeiro parágrafo acabava não fazendo menor sentido, tudo bem.
As palavras não saíam. Sem problemas.
O sentimento não fluía. Ok.
Deixava o teclado, a caneta, as letrinhas pequeninas do celular. Ia viver, conversar, tomar umas aulas de zumba, ler um livro, dormir, beber umas boas doses de tequila. Não importa.
Escrever é prazer, é paixão.
É para colocar um sorriso no rosto, não é para estressar.
É para vomitar o que incomoda e não descabelar.
A vida já é toda feita de lombadas, pedras, labirintos e enormes jornadas montanha acima. Mas desta vez, resolvi tomar outro caminho. Outro rumo. Talvez a mim mesma, quem sabe.
Este blog é a minha verdade – vezes inventada. E se a bola da vez for o silêncio, aqui ele estará representado pelo branco da página que, agora e só agora, significa serenidade.

Não é você. Sou eu.

Olheiras.
Insônia de escrita.
Páginas em branco.
Enlouqueço, mudo o cabelo, o guarda-roupa, a pele.
Mantenho os amigos. Sobrevivo.
Dói.
Abstinência do formar frases coerentes. Ou incoerentes. Ou qualquer coisa que não seja uma resposta de whatsapp escrita às pressas, informando que o encontro não está mais de pé.
Desculpas.
Aniversários de avós que já morreram. Compromissos inventados com o meu lençol, imprevistos com a minha varanda, um novo caso com o meu sofá.
“Preciso lavar meu pijama favorito”, dá vontade de dizer.
“Vou me mandar mesmo”, penso.
Melhor mesmo não alimentar ou criar ilusão.
Concluo.
I’m not ready yet.

Ajoelha e não reza

Não, não tá fácil. Não sei se pra ninguém. Mas, para mim, certamente não.

Nem escrever.

Nem sair.

Nem estudar.

Tem sido uma batalha, eu diria. Várias, na verdade. Pequenas lutas diárias – a hora de levantar, dirigir, entrevistar, socializar, fingir que tá tudo bem. Mas não tá.

E, às vezes, parece que só eu sei. Ainda bem.

Optei por não trabalhar de casa. Infinitos frilas, de infinitas editorias, com infinitos prazos. Nenhum texto sairia decente com minha versão jornalista fitando paredes recém-pintadas de um apartamento cuja nova decoração você nunca vai conhecer.


E digo nunca com autoridade. Coloquei um ponto final neste dramático texto maluco – mas que, internamente, não passa de mera reticência confusa, que quer ser transformada em interrogação e, por fim, em uma bela exclamação.

Mas não.

Contenho-me e não deixo nenhuma vírgula ter a audácia de se aproximar. O ponto é final. E ponto.

Meu lugar de assistir televisão é no chão, em cima de almofadas confortáveis de menos para as nádegas e demais para a situação. Jamais daria conta de sentar no sofá novamente. Maldito sofá. Que me traz lembranças do assoalho empoeirado, dos banheiros sem luz, da torneira sem água, dos quartos sem móveis, dos armários vazios e coração cheio.

Nostalgia errônea.

Memórias falsas.

Consequências da inconsequência.

Pequenas tragédias do cotidiano.

Mas a gente vai levando. Dando chance pro desconhecido, aceitando propostas indecentes, apostando em hipóteses de remotas oportunidades.

O que move é a fé de que a vida se encarrega de trazer as boas novas.

Lá em cima, no telhado

Lançou-se

Ao destino, ao que deus quiser, ao léu, ao céu.

Parou.

De sofrer, de medicar, de amar.

Cortou.

Os pulsos, o sofrimento e a saudade.

Matou.

A esperança, que teimava em viver.

Ligou.

Uma última vez, para ver se atendia. Se entendia.

Escreveu.

Para ver se passava, transbordava, desabafava.

Desistiu.

Da vida, da dor, dos porres.

Despiu.

A alma, a mente, o corpo. Para ficar leve.

E se jogou.

Do décimo nono andar.

Limites

E – com pouca idade, muito pudor e nada de experiência – a gente acha que jamais toleraria isso ou aquilo. Mas o tempo vai passando e traímos nossos valores.

E lá estamos nós, fazendo o que julgávamos errado. Erramos e amamos o erro. A dúvida passa a ser célebre e a certeza sem graça.

Mas, o mesmo tempo que samba na cara de nossos pensamentos passados, também traz uma nova consciência que, permeada de menos julgamentos e mais maturidade, leva à conclusão de que valeu, mas que, agora, já chega.

E o mesmo impulso que faz com que deixemos que de um tudo aconteça conosco, nos obriga a impor certos limites – sob pena de acelerar o próprio fim – em prol de alguma ainda restante e muito necessária sanidade mental.

O fato de ser contra a nossa vontade e aos nossos desejos torna tudo muito mais difícil. Mas não teve jeito, acabou.

Assim sendo, peço-te permissão para continuar a escrever sobre uma ilusão/idealização de você. Porque de você mesmo, já não posso querer mais nada.

Bobagem

É vontade de dormir no sofá e sonhar com você. É nostalgia de ter tanta coisa para fazer e só conseguir concentrar em tua barba. (suspiro!)

Não é amor, porém, é só saudade. É só desculpa para resgatar a inspiração, é só motivo inventado para escrever, é só o escritor que habita em mim à procura de mais um drama. Mesma trama. É insistência, ilusão, teimosia. É minha escolha. É rebeldia. Coisa de criança e desejo de mulher. É quero porque quero. E só. É falso. E eu sei.

Fugitiva

Substitui-te, todas as noites, pelo combo academia+Gabriel García Márquez. No caminho de volta para casa, ouço notícias. Quando na esteira ergométrica, assisto a seriados humorísticos. Evito canções. E não me identifico com nenhuma trama amorosa de nenhum Aureliano que habita as páginas de Cem Anos de Solidão. Ainda bem.

Em almoços corporativos, discuto a volatilidade da bolsa de valores e reclamo do cara chato da informática, que insiste em fazer as mesmas piadas infames. Dia após dia.

Escrevo duas matérias até a hora de ir embora. Converso sobre economia, entrevisto, informo (a mim e a outros) e quando, finalmente, chega a hora de dormir, estou exausta demais para encarar qualquer coisa que não seja algum programa estilo Big Brother na televisão.

Sou medrosa demais para lidar com a situação.

Aos finais de semana, aproveito para me matricular em mais uma aula de ginástica que se encaixe em meus horários e resolvo que vou fazer a pós, além de escolher mais uns dois ou três cursos de relevância acadêmica para minha vida profissional. Começo leituras de matérias que ainda nem tenho. Foco no trabalho e no estudo.

Quando o cérebro já está cansado demais para raciocinar, saio. Bebo, dou risada, mato saudades e enfrento problemas alheios, de amigos e desconhecidos. Busco soluções para relacionamentos, brigas com chefes e rumos de vida. De todas as vidas, menos a minha. Quando o assunto sou eu, calo-me, mudo de assunto, fujo, evito.

Evito-lhe. Mesmo sabendo que, uma hora ou outra, terei que encará-lo. Não pessoalmente, provavelmente. Mas dentro de mim.

A essa altura, imagino que nem ao menos deparar-me-ei com a difícil decisão de responder a alguma mensagem. Esta, creio, não chegará. Você tem tornado as coisas mais fáceis, sem nem saber o quão difícil para mim seria negar-lhe. Agradeço.

Ocupo-me, apesar do turbilhão de sentimentos que ainda existe – mas que também se enconde. E enquanto finjo que te esqueço – que me esqueço -, a vida segue.

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑