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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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Guanajuato

Ya no te va a doler

Te deixei em um dia de chuva. Nunca chovia em Guanajuato e a gente já sabia que a venda de guarda-chuvas empoeirados no começo de cada esquina era o presságio de uma noite que de certo não poderia acabar bem.

Os callejones de pedras largas e escorregadias não foram feitos para serem molhados. Sapatos mexicanos quase se dissolvem quando em contato com micro partículas de chuva e as solas da bota marrom de guerra nunca imaginaram o encharcar que o adeus causaria.

“Deus quis assim”, você diria, se fosse mexicano puro. Mas o sotaque espanhol, a altura, a pele branca e os cabelos quase loiros te desviaram do caminho da fé. E foi no pecado que a gente se encontrou.

Duas almas perdidas, sozinhas, intensas. Foi numa noite de frio que berramos, bêbados, nas calles llenas de transeuntes que conheciam pela primeira vez o festival de horror em que a pequenita cidade se transformava quando virava palco de shows de um público que não poderia suportar.

Xinguei em espanhol e me senti poderosa. Você vomitou palavras horrendas e achou que nunca mais fosse me ver. “O destino quis assim”, você diria, se não fosse tão cético.

Nosso primeiro encontro sóbrio foi desengonçado. Ainda assim raivoso. “Te va a matar o te va a amar.” Me mori de risa. “Ni muerta.” 

Morri. Fui enterrada. Ressucitei e você ainda lá estava, achando tudo engraçado. Foi gracioso mesmo. Bonito. Químico. Natural. “Nossos filhos seriam bonitos”, você comentava. Eu abaixava a cabeça, revirava os olhos e apenas sorria meio que de lado. Meio que sabendo. Que nunca comprovaríamos suas teorias malucas de futuro.

Foi por você que me equilibrei de novo. Que descobri leveza no sentimento que antes trazia medo. Nunca te agradeci, acho. Mas serei eternamente grata. Meus pés alcançaram as nuvens de novo, mesmo quando tocando o chão. O riso não tinha receio de sair e as mãos se tocavam sem pudor. Era certo.

“O começo diz muito sobre o término de um amor”. Você acertou. Como sempre.

Fizemos chover, trovejar. Caiu o mundo. O nosso mundo. Sai correndo, molhada, sem olhar para trás. Que difícil seria ver teus olhos marejados. Ajudados pelos grossos pingos do céu, lágrimas rolaram em direção ao queixo tão bem esculpido. Correu. Me alcançou. Cabelos se confundiam com barba e meu corpo se confundia com o seu. Olhos fechados para perder a cena. Não adiantou. Dava para sentir.

Se pudesse, ficaria. Você sabe. Sabe?
Se pudesse, você viria. Viria?

A cidade acordou sem ressaca, seca. O cheiro de tortilla continuara ali.
Prometi que sairia inteira. Mas pedacinhos contentes valem mais que um todo sofrido.
Inspirei. Suspirei.

No voo de volta, olhos secos e cabelo ainda molhado. Cheiro de chuva rara.
Sua imagem na cantina. Tequila em uma mão. Cigarro na outra. Coração no chão.

Em meu assento, sorriso no rosto e vazio no peito. A vida nunca mais seria a mesma. E tudo bem.

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Guanajuato lindo y querido

Lembra quando a gente chegou aqui, meu deus?

Uma menina de olhos chorosos e bússula quebrada. Não fazia a menor ideia de quem era ou de quem poderia vir a ser.

No começo, foi o México que teve que se acostumar com minhas roupas bregas, minha temporária aversão a todos os tipos de chile, minha mania de comer abacate com açúcar e meu mal espanhol.

Para mim, no entanto, foi rápido entender a geografia das pequenas calles, o bom humor matinal mexicano, os mariachis invadindo os restaurantes e os domingos com direito a banda no coreto.

Por meses eu esqueci o que era andar de carro, demorar mais de 15 minutos para chegar em algum lugar ou passar o sábado em um shopping center.

Nos finais de semana, com pouco dinheiro, pegava qualquer ônibus e visitava cidades vizinhas, com diferente culinária, diferentes morros, diferentes pessoas e igrejas muito parecidas.

Não tive problemas com as peregrinações matutinas que tomavam toda a minha rua. Algumas eu até acompanhei. Aliás, gostava muito de participar de eventos locais. La única güera em meio a todos aquelos mexicanos festeiros e fiéis.

Se a minha história com Guanajuato tivesse terminado quando estava programado,  esta pequenita cidade mexicana estaria para sempre em meu coração como a cidade da magia, felicidade e calmaria. Provavelmente seria destino de inúmeras férias e de vida depois da aposentadoria.

Mas estar apaixonado, minha gente, funciona da mesma maneira em qualquer lugar do mundo. Assim, Guanajuato e eu, sofremos a crise dos 7. 7 meses depois, as cucarachas começaram a me incomodar. O fato de ter que buscar pequenos animais mortais como aranhas e escorpiões debaixo da cama, nas frestas das janelas y en todos los rincones me empezó a molestar. Mesmo.

As mesmas músicas dos mesmos mariachis a cada restaurante me agradava cada vez menos e quando a banda do coreto começou a me irritar, meu amigo, eu soube que era o fim. Depois de 9 meses, o cheiro de tortilla de maíz sendo feita passou a ser veneno pro nariz e o sotaque mexicano já não era mais assim tão bonitinho.

Comecei a sentir falta até do trânsito de São Paulo e passei a não entender como pessoas de países como Estados Unidos, Canadá e Suíça resolviam ficar para sempre em Guanajuato. Os óculos cor de rosa caíram e o ar seco e a altitude daquela cidade que um dia me surpreendeu, começou a me fazer mucho daño.

A vida tem ciclos e o segredo é saber enxergar a hora de fechá-los. Se eu insistisse um pouquinho mais, acredito que sairia daqui com um verdadeiro asco de tudo que tem a ver com México. Mas, felizmente, minha história se encerra a tempo de receber o meu diploma e reconhecer que o país da tequila foi meu melhor amigo e a melhor coisa que podia ter acontecido em minha vida neste último ano.

Foi aqui que eu descobri quem eu era sem medo de mostrar-me ao mundo. Foi essa cidade que me acolheu com seus callejones íngrimes e o ar seco nem fez tanto mal assim. Saio daqui uma pessoa muito melhor do que cheguei. Com amigos de todas as partes do mundo, inúmeras fotos, um repertório cheio de malas palabras y canciones en español, histórias para contar, receitas de abacate com sal e já sem paixão, mas com muito amor que, muito claro e límpido, seguirá comigo até a eternidade. Guanajuato sempre fará parte de mim e eu sempre farei parte de Guanajuato.

Vem ser dono do meu nariz

Aeroporto de Cumbica, Guarulhos, SP, Brasil:

– Então tá bom, gente! Tchau!!
– Tchau, boa viagem!!

– Tá, então eu vou! Tchaaau!!
– Tchau!!!! Boa viageeem!

– E aí? Acho melhor você ir, né?
– Aham. Sim, sim. Eu vou!
– Então coragem, vai!!
– Hãm…ok…então….eu vou…tchau!!
– Tchau!

Se alguém me pedisse para ficar, se sugerisse que assim, de repente, desistir não seria tão feio, não duvido que neste exato momento estaria escrevendo qualquer outra coisa sentada em minha cama em São Paulo, Brasil.

Ninguém me impediu. Nem eu dei o braço a torcer. Mas chorei durante todo o voo. Talvez as lágrimas tivessem mais a ver com o medo incontrolável causado pela absurda turbulência. Ajudou um pouco o fato de as aeromoças não estarem sorridentes ou servindo aquela gororoba que eles chamam de “frango” ou “massa”.

Mas tudo bem. Sobrevivi, enfim. E agora escrevo sobre essa história sentada em minha cama em Guanajuato, México. Eu gosto daqui. Gosto mesmo. Pela primeira vez na vida eu não sei o que é congestionamento. Chego aos lugares em 15 minutos, a pé. Sei o nome de 80% da população local. Toda segunda-feira conheço alguém diferente. Um chico ou uma chica que sempre tem mais ou menos a minha idade, exerce as mais diversas profissões, fala muito bem ou nada de espanhol, é legal ou insuportável, mas que sempre acaba virando um grande amigo.

Em minha lista de telefone existem nomes comuns e muito mexicanos como Maria Guadalupe e Juan José. Mas também tem Sebastien, Ashleigh, Momoka, Asusa, John, Asaki, Catalina, Katrin, Emily, Carl, Cindy e mais, muito mais. São amigos temporários porém intensos que, em sua maioria, vêm de países como Austrália, Suíça, Estados Unidos, Japão, China, Alemanha e Canadá.

Principalmente quando aparece algum brasileiro perdido nessa torre de babel, em dois dias já viramos companheiros de 10 anos, do tipo que xinga, faz piada idiota, ri da cara do outro e abre a geladeira sem pedir permissão.

O povo mexicano é tão caloroso quanto o brasileiro. Mas isso pode ser bom e ruim. Quase não há choque de cultura, mas às vezes dói presenciar um abraço fraternal e pensar que seus abraços ideais estão bem bem longe, a muitas turbulências de distância. Assim, os europeus mais frios são capazes de oferecer o apapacho mais carinhoso e o japonês, desacostumado ao contato físico, é o único amigo que pega na sua mão ao perceber nervosismo ou inquietação.

Viajar e morar fora são duas coisas completamente diferentes. Aqui eu tenho que matar alacranes, encontrar o foco de aranha, me preocupar com o gás, com a água e com a janta. Para tudo isso, não raras vezes conto moedas do trabalho que às vezes eu queria largar. Se eu fico doente, viro meu médico, motorista, pai e mãe. Faço compressa, preparo chá e seguro meu próprio cabelo se tiver que vomitar.

A primeira vez que passei um tempo fora, voltei para casa, adolescente, e meu inferno foi perder a liberdade conquistada. Voltar a obedecer antigas regras, dar satisfações e não viver a #vidaloka era quase a morte.

Dessa vez conheci a independência e entendi que vem com muita responsabilidade. Voltei para casa, para visitar. Comi a comida da vó, assisti à televisão com meu pai, busquei meu irmão na escola, passei agradáveis momentos com a minha mãe. Dessa vez, a satisfação dada foi espontânea. Saí pouco, mas sempre detalhando com quem, a que horas, quem levaria, quem buscaria e mantive impreterivelmente meu celular ligado a todos os momentos.

Semana passada, já de volta à casa mexicana, a japonesa que mora no quarto vizinho resolveu fazer uma reunião de “família” para explicar – com uma história sem pé nem cabeça, mas cheia de detalhes provavelmente inventados – os motivos pelos quais não havia dormido em casa na noite passada. Seus pequenos olhos fechados se viam marejados e sua culpa e dor por ter desobedecido uma das leis da casa – aquela que diz que é preciso avisar se for trazer algum visitante ou se for passar a noite fora – era tocante e evidente.

A australiana, a americana e eu a perdoamos, claro. Mas entreolhares entendemos que ninguém havia percebido a ausência de nossa querida amiga e roommate. Na verdade mesmo, contanto que ela e todas nós estivermos vivas na manhã seguinte, não importa.

O fato é que nosso maior desejo, aqui na nossa liberdade, é que alguém nos dê bronca por sair sem casaco, que nos prepare uma canja em dias de gripe, que nos empreste uns trocados para tomar uns goles de tequila e que nos espere acordados. Ter alguém a quem dar explicações e inventar mentiras e encontrar argumentos nunca se fez tão importante.

Lá em Guarulhos, minutos antes de embarcar, torcendo para dar dor de barriga, ter um treco ou milagrosamente voltar a ser um bebê, minha resistência nada tinha a ver com o amor que tenho a este pueblo chiquito e maravilhoso que encontrei aqui no meio do deserto, ao curso, ao trabalho, aos amigos. Minha quase desistência teve mais a ver com matar insetos, preparar minha comida, pagar minhas contas, resolver meus problemas em espanhol, exercer a paciência e fazer escolhas completamente sozinha. Meu medo, afinal, não era do avião, era de , de novo, sair da barra da saia da mãe.

Facebookcídio

A gente vive em cidade pequena e reaprende a conectar sem presença de tecnologia, a curtir sem apertar um botão, registrar sem fazer check-in, estar junto sem tagar em fotos, aproveitar sem flashs e ter uma história incrível para contar sem atualizar status.

Seja o que Deus quiser

Esta cidade mexeu comigo. As pessoas também. Mas, a esta altura do campeonato, já tinha experiência suficiente para saber que não posso me deixar levar pela emoção. Não outra vez.
Nunca fui muito religiosa, para desgosto de minha avó, tampouco pensava que religião poderia me trazer alguma razão. Mas dizem que a fé é a solução para qualquer desesperado.
Para ser bem sincera, de uma maneira bem estranha, aquela igreja também tinha mexido comigo. Talvez por suas cores, suas luzes, suas imagens ou a ausência de padres Marcelo ou Zezinho – nada contra, veja bem, mas é que, de verdade, acredito no poder das canções cantadas de maneira serena e em latim.
Deus, precisava de ajuda. Aonde mais poderia buscá-la?
Entrei. Não me importei com as pombas que voavam sobre minha cabeça, nem reparei se estava vazia ou cheia, mal escutei os sinos que anunciavam a próxima missa.
Pedi. Mais do que já havia pedido em cartas para o papai Noel. Acreditei. Muito mais que em coelhinho da Páscoa.
Implorei por uma luz, um sonho, uma conversa. Qualquer sinal que me ajudasse a reconhecer o melhor caminho a tomar.
Te juro que fui invadida por uma paz descomunal. Saí com uma certeza absurda de que havia sido escutada.
Satisfeita, desci a imponente escadaria. No décimo degrau torci o pé.
Entendi o recado.

Mulher mexicana

Ser revolucionária não é beijar homens e mulheres, fumar maconha na praça, ter ‘trabalhos de homem’, mostrar o corpo sem querer dizer que se insinua, ter nome de fruta ou tatuar o orifício anal.
Ser a frente de seu tempo, creio, é pedir o divórcio do esposo, mãe e pai e decidir trabalhar.
É não ser controlada por marido algum, não preparar a janta todas as noites e dizer a seu filho que não só pode, como deve ajudar a futura esposa nas tarefas domésticas.
Ter coragem é assumir um filho estando solteira, enfrentar uma gravidez completamente sozinha e não ter medo de mimar o marido de menos e ser trocada por outra.
Ter personalidade é não aceitar a infidelidade do homem, não dar ouvidos a tudo que diz o padre – da igreja ou seu próprio – e não viver para sempre um casamento arranjado.
Ser forte é criar muito bem três filhos sozinha, cuidar da casa e trabalhar fora.
É caminhar pelas ruas com um largo sorriso no rosto e ter a certeza de que a vida nem sempre é fácil, mas que, por agora, está se saindo muito muito bem.

Buena onda

Chuva que lava o chão da alma, escurece o céu e clareia a mente.
Deixe-me enxergar através de límpidas gotas de frescor tudo aquilo inchado pelo calor.
Deixo limpar enquanto espero paciente o libertar do caminho à casa de Linda.
Lindos são os costumes de um povo que desconhece o consumismo, que vangloria o esquecido abraço, que caminha sem pensar em estética e nunca tem pressa, por isso para para conversar com vizinhos e antigos amigos.
Chuva que cai sem reclamações, vem apagar o agito da velha cidade, leva tudo aquilo embora.
Traz Guanajuato pra dentro do meu peito que não mais chora.

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