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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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lágrimas

Queria ser Frida Kahlo ou Margaret Thatcher

Queria ser uma daquelas mulheres fortes, daquelas que são tema de livros, biografias, músicas, filmes, seriados, tudo para mostrar às outras mulheres – que não são tão fortes – como as coisas têm que ser.

Mas não. Às vezes me faço forte por um ou dois meses, sabe como é…
E resolvo que vou mudar de ares, que vou mudar de vida, que vou mudar de cores. E mudo mesmo. A cor do cabelo, da parede, do lençol.
E mudo mesmo. De apartamento, de roommate, de roupas.
Mas o que fica mudo mesmo é o coração. Para que tudo isso aconteça, é ele que deixo de lado.

Mas só por um ou dois meses de fortaleza invencível, de muros inderrubáveis, de textos indecifráveis. Nesses um ou dois ou três, até, meses eu viro fera, grossa, chata e linda.

Incrível como os homens gostam de mulheres fortes. Que não se acham, se têm certeza. Que pensam, que leem, que escrevem, que discutem e que transam.

Mas continua sendo (ainda mais) incrível o poder do tempo e do vento que traz coisas velhas disfarçadas de novas. E passam esses um ou dois ou três meses. E passa a fortaleza e derrubam-me o concreto do muro e decifram-me em minhas frases tão comuns.

E a mulher forte e grossa e chata e briguenta e linda murcha. Dando espaço a uma menina fraca, besta, burra, encurvada, chorona e bem desinteressante. Que quase nunca transa. Uma idiota que aceita grosserias, que perde o apetite e vomita de nervoso, que coloca o som bem alto na playlist de fossa e sente pena de si mesma. Uma mocinha que aceita esperar, que acata a decisão do outro, que obedece, que omite o desejo mesmo quando borbulhando, que se acaba e que insiste na teimosia do erro que já acabou.

Ser forte, talvez, seja passar o que passa sem cometer suicídio ou perder o parafuso do equilíbrio. Sem chegar ao trabalho chorando, sem desistir do dia de amanhã. Ser forte, talvez, seja dar uma chance para o erro virar acerto e as lágrimas virarem afeto e o sofrimento virar amor. Talvez ser forte seja tentar de novo, seja levantar a cabeça humilhada, seja perder a dignidade por pura escolha racional, seja arcar com as consequências da própria inconsequência. Talvez seja continuar.

Mas talvez não, né? Talvez uma mulher forte mesmo seja aquela lá, do começo do texto, que tem livros e filmes e músicas, que não chora e nem vomita de nervoso, que pisa nos homens e decide quando, onde e porquê, que carrega uma fortaleza invencível, muros inderrubáveis e textos indecifráveis. Que não precisa mudar de cor de cabelo, lençol e paredes para mudar de vida. Que é linda porque sim e sabe disso.

E isso, talvez eu nunca seja.

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Sem prosa, nem verso

Achei pedaços seus na minha bagunça.
Uma agenda esquecida, um caderno em branco, um livro por ler, folhas rabiscadas de edição.
A lembrança de um sorriso, um afago, um pegar de mãos.
Foi arrumando o antigo quarto que badernei meu coração.
Sentimentos esquecidos derramados pelo chão.
O amor comprimido em uma caixinha, na ultima prateleira do armário, caiu derrubando memórias.
Lágrimas invisíveis – mais salgadas e impossíveis de secar.
Aquele tipo de dor que a gente tem que carregar.
Conformados.
Sem nada poder falar, sem forças a mais para lutar.
Uma batalha já perdida antes mesmo de começar.

Vai passar

Vai passar porque a vida continua, o trabalho exige, os boletos vencem e o estômago ronca.

Vai passar porque o fígado reclama e as lágrimas secam.

Mesmo que nada mais faça sentido, vai passar porque o sol ainda nasce, a lua ainda brilha, a chuva ainda cai e porque a praça ainda tem vida noturna, mesmo sem nós dois ali.

Vai passar porque ainda existe a bebida, existe o cigarro e existem os amigos.

Vai passar porque tem a academia, o regime e as aulas de boxe.

Vai passar porque, no mundo, habitam 7 bilhões de pessoas e porque não é possível que ninguém, nunca, vá se fazer interessante de novo. Vai passar porque estreiam bons filmes e peças, porque aparecem viagens, porque existem bons livros e vinhos.

Não vai passar só porque todo mundo diz que passa ou porque a gente sabe, por experiências passadas, que, uma hora ou outra, isso acontece mesmo.

Vai passar porque tem que passar. Só por isso.

Faria tudo de novo

Esqueço as lágrimas que, invisíveis, jorravam de dentro do peito. Apago a insegurança e a consciência do erro cometido por diversas vezes, sem o menor pudor. Perdoo a falta de atenção e carinho nos momentos que mais precisava. Relevo o abuso.

Levo comigo os almoços e cafés em que as mãos, descontroladas pela imensa vontade de estar perto, encontravam-se por debaixo da mesa.

Escolho sua melhor lembrança, que é para seguir meu caminho com mais leveza.

Ao começo da boa saudade

Em um momento de quase insanidade mental, puro êxtase proveniente do falso sentimento de enfim liberdade das amarras da dor que havia sentido, puxei o envelope que há muito habitava a bagunçada e revirada gaveta.

Cacau, como sempre o chamara – nem me pergunte o porquê –, também era canceriano, como eu, e pensava nos mínimos detalhes. A fita vermelha, minha cor favorita, amarrava com muita delicadeza palavras que jamais saberei reescrever.

Minha expectativa era mórbida, para combinar com a situação. Imaginava nuvens negras sobrevoando a escrita densa e sofrida. Dez anos de amizade e eu ainda não aprendi. Até morto, o ‘cidadão do mundo’ – como muitos o chamavam – é capaz de me surpreender.

“Chega de drama, dona Ana”, é o que certamente me diria neste exato momento de lágrimas escorrendo pelo teclado judiado do já muito usado computador. Foi assim que sua carta começou.

Uma viagem pelo tempo, relembrando cenários, memórias, o pátio do colégio que guardava meus sonhos de aspirante a escritora. Ele, o menino mais velho, que me enchia o saco por conta dos desenhos mal feitos deixados na mesa da inspetora quando chegávamos atrasados. Sempre chegávamos atrasados. E foi ali mesmo, na salinha daqueles que não conseguiam cumprir com o horário, que o cantinho mais disputado do primeiro andar – que era só meu – passou a ser nosso.

Fatídicas manhãs de segundas feiras em que fui apresentada ao rock clássico, destoando das meninas da mesma idade, que se deleitavam ao ruído mal interpretado de pagodes e duplas de criaturas a quem ousavam denominar “cantores”. “Isso sim é música de verdade, guria”, me convencia ao entregar-me uma cartilha com letras de quase todas as canções dos Beatles. ‘I’ll be back’ seguiria sendo nossa preferida pelos próximos muitos anos – descritos, por ele, à mão.

Muito do que Cacau lindamente escreveu, eu já nem me lembrava. A dor havia sido tanta, tanto sofrimento, lutas, desafios e ensaios de esperança, que a intensidade de nossos habituais risos e lágrimas se espalharam como que com o vento pela memória remota. Os flashes voltam todos agora.

Não dói. Acalenta. A leitura só faz sorrir. E no meio de frases me pego entendendo o objetivo de tanto detalhe. Não faria nada diferente. Se fosse eu, quereria ser lembrada da mesma maneira, com a mesma leveza e doçura.

Dividíamos nossa vida inteira. Ninguém no mundo me conhecia mais. Sendo assim, Cacau, então, me deixa conselhos que só ele saberia dar e só eu poderia entender. “Chega de drama”, “seja feliz enquanto valer a pena”, “abandone qualquer um , mas nunca aquele sonho ” e “lembre-se que chegamos e vamos embora da vida sozinhos. As pessoas com quem vamos dividir nosso trajeto devem ser escolhidas a dedo, porque só servem para fazer do árduo caminho longo, um prazeroso caminho curto”.

Sorrio. Mais uma vez. Sua veia meio poeta-filósofo-de-buteco, com frases-clichê proferidas de maneira teatral, sempre me encantava e envergonhava ao mesmo tempo.

Leio a última linha e fecho a última página. O poder das palavras só conhece quem por ele já foi submetido. Estarrecedor. Era tão real que soava como uma conversa, daquelas longas que tínhamos semanalmente, quase como religião.

Sinto que não seria, assim, tão irreal, se o sempre brincalhão  amigo saltasse de detrás do lixo do trabalho. Devia estar ali. Inconscientemente, procuro. Obviamente, não acho. Entendo.

Ouço com exímia clareza o som da ficha finalmente caindo. Conversas e conselhos. Cafés e chocolates suíssos. Peças de teatro, cinemas improvisados, botecos na baixa Augusta, viagens de final de semana, um carro e nenhum destino, personagens de um livro antigo, bibliotecas no meio da tarde. Nunca mais.

Disparo desespero em forma de inúmeras ligações e mensagens de texto. De resposta, sobra apenas solidão e lágrimas. Incrível. Seco por dentro, desidrato, desmorono. Cai a pele, a roupa, o ânimo. Caio no sofá.

Mundo injusto, concluo. Me apego a todas as religiões existentes ou inventadas por mim. Recomponho peça por peça. Falta um pedaço e, dessa vez, não finjo que não noto. Aprendi.

Volto a ser eu mesma. Frígida de choro, de uma enorme dificuldade de deixar molhar os olhos, por mais que estimulada.  Jeitão meu que, por hora, me sustenta.

Compreendo a falta como sendo a consequência de um passado de boas lembranças. Não há mais revolta, apenas gratidão. Da sorte que tive, não é justo, afinal, querer reclamar. Paro, então de pressionar o desconhecido, de exigir explicações da vida.

Hoje, se tivesse apenas um pedido a fazer, desejaria o endereço do divino. Deus ou Destino, tanto faz – diferentes nomes para mesmas indagações. E não seria para brigar, eu juro. Só queria um lugar para onde pudesse mandar uma notinha, o papel amassado, carinhosamente rabiscado, aquele que diz “muito obrigada por ter me apresentado um alguém capaz de fazer do mundo um lugar mais feliz”.

Omissão

Mantenho, sobre minha mesa de trabalho, post-its que não posso usar. Guardo comigo, lá no fundo, segredos que não devo contar. Retenho sentimentos que não consigo externar e contenho lágrimas que não ouso derramar.

Amo sem poder a ninguém contar. Escrevo, mas insisto em não mostrar. Teimo. E os conselhos, sempre finjo escutar. Quem me vê sorrindo, não percebe o peso que carrego no olhar.

Vivo duas vidas. Aquela que exponho e aquela que faço questão de nunca mostrar.

Cíclico

As palavras saem de sua boca com uma naturalidade agonizante. É como se nada, nunca, tivesse acontecido. E respondo com uma falsidade tão verdadeira que chega a intrigar. Confunde. Ignoro as mil lágrimas vertidas e esqueço as promessas de mudança e vingança feitas em momento de ódio desesperador.

Não te culpo. Você chama, eu vou. Não me culpo. Você reaparece, eu renasço.

Causa e consequência

Desconhecido, aproximou-se. O ar nada amigável não enganava. Não queria papo. Ufa! Não era dia de paciência. Muito menos de simpatia. Apenas sentou-se ao seu lado e acendeu um cigarro, ignorando o toldo, os três metros de distância permitidos por lei, a própria lei e a placa que dizia ser proibido.
Não olhou feio, não achou ruim, até gostava do cheiro. Inspirou nicotina. Tudo bem. Não fez esforço para se esquivar da fumaça, deixando que entrasse em seus olhos. Bela desculpa, afinal, para verter lágrimas assim, em público.

Back to black

Menti.

Não precisava me conhecer/reconhecer no mundo novo, na vida nova. Não entrei em crise pelo término de um ciclo vezes longo, vezes curto e maior parte do tempo agradável e encantador. Não me preocupava com o futuro. Sempre soube me virar muito bem.

Me conheço e reconheço no mundo novo e na vida nova sem maiores dificuldades. Sei, com humildade e sem modéstia de meus defeitos e qualidades. Percebo minha potencialidade.

Não precisava me ocupar para esquecer o que estava por vir. Necessitava, quase como ar, parar de pensar no que já havia sido. Foi você.  Tudo começou naquela noite, aquela em que você tinha mesmo ido embora. Nunca fui de verter muitas lágrimas e a TPM já havia passado há semanas. Inexplicavelmente, me debulhei assistindo ao programa do Jô. Tudo porque o entrevistado carregava, em seu rosto, a barba mal feita e, em seu jeito, a mesma mania de passar os dedos por entre os cabelos entre frases inteligentes proferidas com muita naturalidade. Chorei até dormir. Foi aí.

Acordei cedo e me inscrevi na yoga, no pilates, na hidroginástica, no spinning e nas aulas de localizada – perna, bunda, braço e peito. Devorei livros, livros e mais livros. Assisti a clássicos filmes. Me esforcei para aprender a expressar meus sentimentos e soltar palavras reprimidas. Escrevi textos. Fiz matérias. Aceitei freelas. Dei aulas de inglês. Fui ao ginecologista, endocrinologista, dermatologista, cabeleireiro e astrólogo. Cuidei da alma.

Aprendi a andar de bicicleta e a beber tequila sem golfar. Troquei a cerveja pelo vinho, o refrigerante por suco e a fritura pelos assados. Diminui a carne vermelha, o carboidrato e o doce. Tomei shakes diet de café da manhã e sanduíches integrais no jantar. Dormi nove horas por noite e entornei dois litros de água por dia. Cuidei do corpo.

Arrumei um jeito de te tirar dos meus sonhos, de não fuçar suas redes sociais e não tocar em seu nome. Não chorei mágoas, não desabafei, não pirei. Fiquei bem.

Comprei maquiagem, roupa e sapato. Saí. Recebi inúmeros drinks, sorrisos, cantadas e caronas. Passei noites às gargalhadas e dias sem ressaca. Acreditei, de verdade, na magia do desejo feito ao apagar as velas do bolo de aniversário. Visitei museus, passeei em parques, estudei línguas.  Arrumei minha rotina, meu armário e minha vida. Sem pesar, enfim, respirei aliviada.

E aí você voltou. Juntamente com as palavras engasgadas, a vontade de fumar e o medo de perder. E a TPM, mais uma vez, não estava ali. E, mais uma vez, cai em prantos ao deixar a água do banho lavar desde os longos cabelos tratados até as pernas recém-torneadas pelo fracassado esforço de tentar te esquecer. E aí eu desejei que você nunca tivesse voltado, que nunca tivesse nascido. Ou, mais fácil, que eu nunca tivesse te amado.

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