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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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Lembrança

Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu

Luiz morreu aos 54 anos.
Refeições gordurosas regadas a cerveja, vinho e uísque da melhor qualidade provavelmente destruíram seu fígado.
Mesmo sabendo de sua condição genética – a mãe de Luiz morreu de cirrose sem nunca ter bebido uma gota de álcool -, comeu e bebeu nos melhores restaurantes.
Experimentou todos os sabores. Japonês, indiano, apimentado mexicano, dendê baiano, testículo de jacaré e incontáveis frutas direto do pé.
Até os 50, chegava em casa depois das 4h da manhã. Dava-se ao luxo de encontrar amigos de anos pelo menos duas vezes por semana. Era sauna, era bar, era jantar. Era qualquer desculpa para festejar, farrear, desopilar.
Luiz tinha uma legião de amigos. Uns fiéis, outros nem tanto. Emprestava dinheiro, confortáveis ombros e conselhos capazes de mudar vidas.
Luiz era filósofo. Era químico, alquimista. Era matemático e professor. Era influente, poderoso. Era funcionário dele mesmo, diretor.
Assistiu a todos os bons filmes, acompanhou todas as boas séries e leu todas as notícias que as poucas horas de seus poucos dias deram conta de absorver.
Era inteligente. Trabalhador. Ambicioso e sonhador.
Mesmo pobre, viajava de primeira classe. Conheceu o mundo. China, Emirados Árabes, Estados Unidos, Canadá. Fez nevar Paris. Saboreou todas as cervejas da Bélgica. Passou frio na Itália. Brasil. Espanha. Inglaterra. Alemanha. Cozumel. Chile. Argentina. Paraguai e Uruguai.
Luiz tinha camaradas em todos os idiomas.
Suas cinzas serão jogadas em límpidas e turvas águas em um cruzeiro pelo mar caribenho.
Luiz viveu como quem tinha nas palmas das mãos o mundo inteiro.
Quando internado, arrumou briga com as enfermeiras. Queria trabalhar. Reclamava da comida sem gosto. Queria bife com batata frita.
Mesmo assim, tirou foto com seu colega de quarto, aquele do leito ao lado. E prometeu que sairiam dessa juntos.
Luiz morreu.
Um grupo de mais de duzentas pessoas ao seu velório compareceu.

Faria tudo de novo

Esqueço as lágrimas que, invisíveis, jorravam de dentro do peito. Apago a insegurança e a consciência do erro cometido por diversas vezes, sem o menor pudor. Perdoo a falta de atenção e carinho nos momentos que mais precisava. Relevo o abuso.

Levo comigo os almoços e cafés em que as mãos, descontroladas pela imensa vontade de estar perto, encontravam-se por debaixo da mesa.

Escolho sua melhor lembrança, que é para seguir meu caminho com mais leveza.

Ao começo da boa saudade

Em um momento de quase insanidade mental, puro êxtase proveniente do falso sentimento de enfim liberdade das amarras da dor que havia sentido, puxei o envelope que há muito habitava a bagunçada e revirada gaveta.

Cacau, como sempre o chamara – nem me pergunte o porquê –, também era canceriano, como eu, e pensava nos mínimos detalhes. A fita vermelha, minha cor favorita, amarrava com muita delicadeza palavras que jamais saberei reescrever.

Minha expectativa era mórbida, para combinar com a situação. Imaginava nuvens negras sobrevoando a escrita densa e sofrida. Dez anos de amizade e eu ainda não aprendi. Até morto, o ‘cidadão do mundo’ – como muitos o chamavam – é capaz de me surpreender.

“Chega de drama, dona Ana”, é o que certamente me diria neste exato momento de lágrimas escorrendo pelo teclado judiado do já muito usado computador. Foi assim que sua carta começou.

Uma viagem pelo tempo, relembrando cenários, memórias, o pátio do colégio que guardava meus sonhos de aspirante a escritora. Ele, o menino mais velho, que me enchia o saco por conta dos desenhos mal feitos deixados na mesa da inspetora quando chegávamos atrasados. Sempre chegávamos atrasados. E foi ali mesmo, na salinha daqueles que não conseguiam cumprir com o horário, que o cantinho mais disputado do primeiro andar – que era só meu – passou a ser nosso.

Fatídicas manhãs de segundas feiras em que fui apresentada ao rock clássico, destoando das meninas da mesma idade, que se deleitavam ao ruído mal interpretado de pagodes e duplas de criaturas a quem ousavam denominar “cantores”. “Isso sim é música de verdade, guria”, me convencia ao entregar-me uma cartilha com letras de quase todas as canções dos Beatles. ‘I’ll be back’ seguiria sendo nossa preferida pelos próximos muitos anos – descritos, por ele, à mão.

Muito do que Cacau lindamente escreveu, eu já nem me lembrava. A dor havia sido tanta, tanto sofrimento, lutas, desafios e ensaios de esperança, que a intensidade de nossos habituais risos e lágrimas se espalharam como que com o vento pela memória remota. Os flashes voltam todos agora.

Não dói. Acalenta. A leitura só faz sorrir. E no meio de frases me pego entendendo o objetivo de tanto detalhe. Não faria nada diferente. Se fosse eu, quereria ser lembrada da mesma maneira, com a mesma leveza e doçura.

Dividíamos nossa vida inteira. Ninguém no mundo me conhecia mais. Sendo assim, Cacau, então, me deixa conselhos que só ele saberia dar e só eu poderia entender. “Chega de drama”, “seja feliz enquanto valer a pena”, “abandone qualquer um , mas nunca aquele sonho ” e “lembre-se que chegamos e vamos embora da vida sozinhos. As pessoas com quem vamos dividir nosso trajeto devem ser escolhidas a dedo, porque só servem para fazer do árduo caminho longo, um prazeroso caminho curto”.

Sorrio. Mais uma vez. Sua veia meio poeta-filósofo-de-buteco, com frases-clichê proferidas de maneira teatral, sempre me encantava e envergonhava ao mesmo tempo.

Leio a última linha e fecho a última página. O poder das palavras só conhece quem por ele já foi submetido. Estarrecedor. Era tão real que soava como uma conversa, daquelas longas que tínhamos semanalmente, quase como religião.

Sinto que não seria, assim, tão irreal, se o sempre brincalhão  amigo saltasse de detrás do lixo do trabalho. Devia estar ali. Inconscientemente, procuro. Obviamente, não acho. Entendo.

Ouço com exímia clareza o som da ficha finalmente caindo. Conversas e conselhos. Cafés e chocolates suíssos. Peças de teatro, cinemas improvisados, botecos na baixa Augusta, viagens de final de semana, um carro e nenhum destino, personagens de um livro antigo, bibliotecas no meio da tarde. Nunca mais.

Disparo desespero em forma de inúmeras ligações e mensagens de texto. De resposta, sobra apenas solidão e lágrimas. Incrível. Seco por dentro, desidrato, desmorono. Cai a pele, a roupa, o ânimo. Caio no sofá.

Mundo injusto, concluo. Me apego a todas as religiões existentes ou inventadas por mim. Recomponho peça por peça. Falta um pedaço e, dessa vez, não finjo que não noto. Aprendi.

Volto a ser eu mesma. Frígida de choro, de uma enorme dificuldade de deixar molhar os olhos, por mais que estimulada.  Jeitão meu que, por hora, me sustenta.

Compreendo a falta como sendo a consequência de um passado de boas lembranças. Não há mais revolta, apenas gratidão. Da sorte que tive, não é justo, afinal, querer reclamar. Paro, então de pressionar o desconhecido, de exigir explicações da vida.

Hoje, se tivesse apenas um pedido a fazer, desejaria o endereço do divino. Deus ou Destino, tanto faz – diferentes nomes para mesmas indagações. E não seria para brigar, eu juro. Só queria um lugar para onde pudesse mandar uma notinha, o papel amassado, carinhosamente rabiscado, aquele que diz “muito obrigada por ter me apresentado um alguém capaz de fazer do mundo um lugar mais feliz”.

Depois do ponto final

Tomo um banho. Demorado. Testo os novos xampus e óleos adquiridos num surto consumista na farmácia do bairro. Tomo vergonha na cara e jogo as toalhas furadas no lixo. Passo cremes macios e cheirosos até demais. Troco a roupa de cama e me incomodo com a bagunça acumulada. Finalmente. Arrumo. E não só como quem quer esconder a sujeira dos olhos da esperada visita. Dobro calcinhas e enrolo cada par de meia. Separo as roupas para passar e organizo os inúmeros vestidos por cor e ocasião a serem usados. O armário agradece.

Mudo de bolsa, descartando todo objeto há tempos obsoleto. Não há razão coerente para carregar a vida – e tudo que se pode precisar nela – em um ombro só. Retiro os post-its da parede. Isso nunca foi organização, concluo. Descrevo todas as obrigações na agenda. É para isso que ela serve, afinal.

Apago todos os blogs favoritados do computador. Não os leio mesmo. Os que sigo, sei o endereço de cor e faço questão de digitá-los cada vez que os resolvo visitar. Rasgo cartas não enviadas. Não fazem mais tanto sentido e não há necessidade de ficar guardando. Já basta a lembrança na mente.

Desfaço todas as playlists do iTunes e descarto a capinha velha do iPod. Tanta proteção me atrapalha na hora de escolher a música. Sei que não vai quebrar. Excluo antigas mensagens. Contatos que não interessam mais também. Só tomam espaço no celular. Empilho livros abertos, abandonados. Fecho-os, dando chance a novas leituras.

Desocupo a carteira, jogando fora todo ingresso de cinema, teatro e shows dos últimos tempos. Não preciso de papel para saber que odiei ‘Água para elefantes’, amei ‘O discurso do rei’, desfrutei de excelente companhia em ‘Meia noite em Paris’, saí frustrada de ‘500 dias com ela ‘, fiquei extasiada ao assistir – por duas vezes – a ‘A alma imoral’ e  chorei horrores com Marisa Monte cantando ‘O que me importa’ e ‘Tema de amor’ ao vivo.

Me livro de remédios pela metade, antigas garrafas de água e moleskines usados por inteiro. Resolvo doar os bichos de pelúcia. Há tempos já não sou mais criança. E o bisonho certamente terá mais utilidade quando deixar de juntar poeira embaixo da cadeira de balanço e voltar a fazer um pequeno muito feliz. Sorrio, sem pesar, ao jogar as pétalas de rosas vermelhas desbotadas, guardadas com tanto carinho.

Separo o lixo reciclável e despejo os sacos plásticos na calçada. Lanço um aceno para a vizinha. Amanhã é dia da Lucinéia – doméstica da casa em frente – tomar café com o Zé – motorista do caminhão de lixo que passa na rua. Esfrego as mãos uma na outra. Respiro fundo. Fecho a porta de casa e aproveito para trocar o chaveiro quebrado.    

Sento na ponta da cama. Bem melhor agora. Mas algo ainda não está completo. Não sei direito o que é. Penso. Analiso. Resolvo. “Vou é mudar a cor desse quarto”, decido. Amarelo sempre me deu dor de cabeça. Corro. Milhões de opções de tinta. Escolho, sem nem pensar duas vezes. Visto a camiseta velhinha e prendo os cabelos. Tiro a poeira e afasto os móveis. Mergulho o pincel no balde colorido e o arremesso contra a parede. Visualizo, satisfeita.

Essa sou eu. Recomeçando outra vez.

Beca, capelo e canudo

Vamos nos desesperar, achando que nos falta capacidade. Chegaremos a questionar escolhas e caminhos que fizemos. E vamos temer o futuro (ou a falta dele). Vamos nos conhecer cada vez mais e mais profundamente e, em determinado momento, nos assustaremos ao descobrir que somos muito diferentes do que imaginávamos. E mudaremos ainda mais. Nos tornaremos irreconhecíveis ao espelho e teremos que nos apresentar a nos mesmos novamente.

Teremos maiores responsabilidades e decisões importantes até demais em nossas mãos. Aprenderemos a dizer ‘não’ e a entender quando também formos negados. Seremos obrigados a engolir enormes sapos e a levar desaforo para casa. Ao mesmo tempo, precisaremos enfrentar sem postergar. Agiremos como adultos que, enfim, somos e, às vezes, acharemos ridiculas nossas atitudes.

Teremos insônia e a cruel companhia de preocupações junto a nossa cabeça recostada no travesseiro. Pensaremos estar sozinhos ao nos depararmos com problemas sem ter ninguém a quem recorrer. Vez ou outra nos sentiremos medrosos e inexperientes. Mas isso vai passar. E vai recomeçar a cada novo ciclo. Este é só o primeiro. E em cada novo desafio, temor e insegurança nos lembraremos desse dia de enorme conquista. A primeira de muitas.

Vamos nos reconhecer na foto de formatura. Lembraremos dos bares, fofocas, conversas e trabalhos. E morreremos de rir recordando brigas bobas e noites em claro fazendo TGI! Acreditem, teremos saudades e talvez até vertamos uma lágrima. Recordaremos nitidamente de aulas e professores. E a eles seremos gratos. Eternamente. Enxergaremos que conseguimos e seguiremos, mais tranquilos.

Não sei qual caminho cada um vai seguir. Nem todos exerceremos a profissão. Alguns descobrirão que nasceram para a arquitetura, economia, astronomia e até medicina. Não seremos melhores amigos de todos com quem convivemos nestes quatro anos. Alguns só reencontraremos em distantes encontros de dez anos de formados. De outros ouviremos o prestigiado nome e nos orgulharemos. Afinal, independente de diferentes rumos que tomarmos, nossas vidas estarão sempre ligadas por essa etapa tão crucial que passamos e vencemos juntos.

O que fica são inúmeras lembranças que juntas, boas e ruins, fazem de nós muito do que somos hoje. Jornalistas. Formados. Um ciclo se fecha, dando espaço para a abertura de muitos outros. Muito sucesso, felicidade, satisfação e grandes conquitas a todos. A vida, meus queridos, começa agora!

Tomorrow never knows

Posso não te deixar nada. Nenhuma boa lembrança que te faça sorrir numa tarde ociosa de quinta feira, nenhum arquivo de word escondido na pasta de nome difícil de achar no computador, nem um mísero momento de devaneios num almoço solitário no meio da semana, nada.
Mas as minhas mensagens, notas desesperadamente confusas escritas no caminho para casa e rascunhos de e-mails nunca enviados ou postados no blog, um dia, certamente, virarão um livro.
Te entrego, envio por sedex 10, juntamente com uma carta em agradecimento pelos momentos que, graças a você, foram muito mais fáceis de superar. Pelos sorrisos abertos de maneira muito mais natural. Pela criatividade – e consequente produtividade – enfatizada pela química dos hormônios à flor da pele. Pela incompreendida vontade e improvável bom humor ao levantar da cama – mesmo num horário desumano e sabendo que o dia não será tão agradável – só para saber o que os instantes que passarei com você me reserva.
O tesão com que vivo minha (tão comum) vida nesses poucos meses de ilusão e aventura romântica de sabido fim iminente – de inevitável, irremediável, ponto de interrogação ao final do mês que se aproxima -, de tão bom, por mais que incerto, te dá o direito, todo ele, de não me guardar numa caixinha dentro do peito.
Não quero ser sua eterna lembrança, mas sua intensa rotina. Não quero ser motivo de textos nostálgicos, mas de incontrolável vontade de largar a leitura no meio do expediente e sair para tomar um café com direito a conversa de três horas. Não quero ser personagem insistente dos sonhos noturnos, mas presença constante nas tardes de cama sem nem pensar na possibilidade de dormir.
Pode me esquecer, ignorar, deixar para trás e substituir na próxima primavera. Mas agora, me tenha presente. De verdade, sem frescura, sem joguinhos e sem espera.

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