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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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lembranças

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Xeretando velhos e-mails – veja bem, o tipo de coisa que não se pode fazer depois da meia-noite, muito menos em dias propícios a procurar no youtube a cara feia do Abujamra (se é que é assim que se escreve) declamando qualquer coisa – que fosse batatinha quando nasce se esparrama (ninguém me convence do “espalha a rama”, coisa mais feia) pelo chão – daquela maneira só dele.
Procurava eu, na verdade, a versão original de um dos textos – publicados neste blog onde escrevo agora – modificados por consideração. (“eu protegi teu nome por amor”, diria cazuza) e terminei a viagem (e a manhã) em baús encontrados bem más allá do continente.
Perdeu-se a terra, o chão.
Em tempos aqueles toda palavra era feita para mim, para nós.
Cada trançar de frases, cada desdobrar de verbos, a escolha perfeita de pontuação.
E o sorriso idiota no rosto.
Aquele que ainda tanto temo e que nunca mais, nem em tempos de dor de amor aguda e (obrigada, devo dizer, ao menos) material para tanto texto drama queen, ousou esboçar-se em minha face outra vez.
Ver poesia em tudo era voar o tempo inteiro, suscetível a qualquer rajada de vento, vendaval.
Para dizer “oi” escrevia-se “O Livro do Desassossego” quase, eu te juro.
Eis o mal do relacionamento à distância. Do meu relacionamento à distância.
O meu escrever que não sabe ser conciso – que se médico fosse, receitaria apenas amor em letras legíveis, mesmo quando em estado terminal.
Era um e-mail de desculpa, que virou e-mail de promessa, que virou obra de terror. E a literatura do perdão foi que perdeu-se, e até hoje não sei quem devia o quê, a quem.

Já empurrando com a barriga, sabendo da decisão errada de caminhos tortuosos e medo do ponto final, encontrei em Marshall Berman minha resposta, minha vida. E a enviei por e-mail, inteira. Que era para ver se o alguém me salvara. E morri.
“Os acontecimentos se precipitam; o filho de Gretchen morre, ela é lançada no cárcere, julgada como assassina e condenada à morte. Em uma derradeira cena de forte comoção, Fausto vai à sua cela no meio da noite. De início, ela não o reconhece. Toma-o pelo carrasco e, num gesto insano mas terrivelmente apropriado, oferece-lhe o próprio corpo para o sacrifício derradeiro. Ele lhe jura seu amor e tenta convencê-la a fugir com ele. Tudo pode ser arranjado: ela necessita apenas caminhar até a porta e estará livre. Gretchen se comove, todavia não se moverá. Alega que o abraço de Fausto é frio, que ele em realidade não a ama. E há alguma verdade nisso: embora ele não queira que ela morra, tampouco gostaria de voltar a viver com ela.” – Tudo que é sólido desmancha no ar.

[assim mesmo, grifado]

E o passado se desfaz também assim, veja só. Ainda há coerência na luz enxergada com lentes nebulosas, tateando o chão do inferno, revestido de pedregulhos pontudos. Perigoso.
Faz-se febre no rosto novamente. Pega fogo. Queima. Alucino.
Goethe mais uma vez faz sua mágica.
Era só uma lembrança, menina, calma.
A janela abre. O corpo respira.
Fecha o computador e vai dormir.
De novo. E para sempre.
Pelo menos dessa vez.

Fundidos

*texto baseado em lembranças sonadas de uma vida inventada e no romance Febre, de Renato Essenfelder – cuidado, leitores: pode conter spoilers

……..

Talvez ele tenha se matado, pensei.
Talvez fosse eu, naqueles tempos, tivesse me matado também.
Senti vergonha, porém.
Confesso que também cheguei aos mais de quarenta graus, que perambulei cabisbaixa, moribunda.
Também repassei, como fosse um filme, todos os detalhes, pequenos diálogos, grandes mentiras.
Homem suporta menos a dor.
Não fosse fêmea, provável também implorasse.
Implorei, talvez.
Tentei, tentei.
Marquei encontros em lugares nossos. Praças.
Usei de um tudo de desculpa.
Fui embora chutando pedrinhas. Descalça.
Tentei odiar também, assim como ele, igualzinho.
A profissão. A arrogância. O sabe tudo. Porque sabia mesmo. A inteligência.
Mesmo usando eu palavras difíceis também. Também soberba.
Maldisse com todo desdém que cabe apenas àqueles profundamente apaixonados.
Amar é isso. É odiar até as melhores qualidades.
Por saudade.
E foi isso que fez.
Que quase fiz. Que fazemos todos, oras bolas.
Porque o amor não é apenas bom quando correspondido, não, veja bem.
A dor de amor é um cutuco na alma, é febre que pulsa sem motivo algum. São veias que queimam a qualquer indício de passo, pensamento ou respirar.
Sofrimento são palavras bonitas descritas com raiva de afeto. Desilusão é vida. São sentidos aguçados, agudos, momento único paradoxal aos pequenos e raros segundos de plena felicidade, quando nunca se é mais intenso.
Não deslizar aos prantos no box do banheiro, não debulhar-se em posição fetal, não sujar de rímel o travesseiro, meu amigo, é apenas sobreviver à mediocridade do cotidiano.
As pílulas, então, pequenas bolinhas de salvação, seriam talvez a maneira de seguir remoendo, revivendo, delirando. A única maneira de seguir filosofando. Com maestria.
O jeito de continuar escrevendo.
Sofrer por amor é dominar um tema.
Mas entregar-se pode ser loucura.
Loucura é comprar anel, é optar por ficar.
Nunca seja a que ama mais, aconselha minha avó.
Mas somos teimosos. E buscamos a dor.
Sabíamos que o não seria não.
Perguntamos pelos motivos errados, preocupados com a ínfima possibilidade de um sim.
Errôneo.
E caímos porque é só assim que funcionamos.
Perdidos. Metades. Feridos. Dramáticos.
Em busca de cura que leve nome próprio, que mascare a ressaca com mais um porre.
Que é para levantar do fundo do poço. E começar tudo de novo.

 

Get back to where you once belonged

Nota: texto originalmente escrito para o blog ‘Insana Mente Sã’

Tô passando a vez. E não volto mais atrás. O papinho mentiroso de solitário e dependente já não cola mais. Pouco a pouco vou desconstruindo sua imagem, desacreditando de toda mentira agradável que sai quase que involuntária, bem naturalmente, de seus lábios esculpidos. Não os fito mais. A beleza esvai-se a cada meia verdade metida – contada de maneira cara de pau e desrespeitosa.

Nunca fui intolerante. Vez ou outra chego a ser até tola demais. Mas, depois de tanto afinco, finalmente conseguiu pisar no meu calo. Desrespeitar-me de uma forma tão explícita só aumenta sua já enorme parte negativa da lista que calcula se vale a pena continuar me enganando.

Não dar a mínima e tacar um belo foda-se para meus sentimentos é o tipo de coisa que só eu posso fazer. Você não. Nunca lhe foi dado este direito. Pode me comer, me enganar, pode me ter nas palmas de suas belas mãos. Eu deixo. Mas isso, jamais. Vá fazê-lo com o bando de garotinhas idiotas como eu, apaixonadas por você. Vá praticar sua falta de bom senso com aquela que, burramente, não te larga. Porque não te enxerga, não te conhece.

Bipolar, psicopata, filho da puta, cafajeste, sem caráter. Já te julguei e te julgaram de coisas piores – se é que elas existem. E isso, meu caro, nunca estremeceu um fio da admiração que tinha por você. Nunca ninguém conseguiu te tirar do meu pedestal. Só você.

Parabéns! Não precisou de ajuda nenhuma para subir, agora também desce sozinho. Boa sorte em achar um alguém como eu. Sou metida, pode dizer. Tenho-me certeza. De minhas qualidades e inúmeros defeitos. Valeu a pena. Eu também vali. Agora chega.

Volte para sua vida mesquinha de traições e joguinhos. Deixe-me seguir a minha. Fique com as lembranças, com o carinho e com as punhetas. Mudei o pedido do primeiro cigarro virado no maço: que nossos caminhos não se cruzem mais.

Confira a versão em vídeo aqui:

Sem prosa, nem verso

Achei pedaços seus na minha bagunça.
Uma agenda esquecida, um caderno em branco, um livro por ler, folhas rabiscadas de edição.
A lembrança de um sorriso, um afago, um pegar de mãos.
Foi arrumando o antigo quarto que badernei meu coração.
Sentimentos esquecidos derramados pelo chão.
O amor comprimido em uma caixinha, na ultima prateleira do armário, caiu derrubando memórias.
Lágrimas invisíveis – mais salgadas e impossíveis de secar.
Aquele tipo de dor que a gente tem que carregar.
Conformados.
Sem nada poder falar, sem forças a mais para lutar.
Uma batalha já perdida antes mesmo de começar.

Reflexo torto

"Fita a si mesmo no espelho – como exercício de comparação - como se olhasse para uma outra fotografia, mais recente, atual"

O rosto, por mais que cinco anos mais novo – e calcula uns dez quilos mais fino -, ainda reconhece. Os traços são praticamente os mesmos, moldados por um corte de cabelo pouca coisa mais recatado. São os olhos, dotados de uma alegria sem fim, fruto de conhecer coisas novas, almejando novas experiências e brilhando de medo gostoso do que ainda há por vir, que mais incomodam. Fita a si mesmo no espelho – como exercício de comparação – como se olhasse para uma outra fotografia, mais recente, atual. O que vê nos mesmos traços, mesmo cabelo e um piercing a menos são novos sonhos (mais reais), diferentes desejos (mais carnais), medos (mais irracionais) e muito mais sede de conhecimento. A média disso tudo chega a ser positiva, mas algo ainda o atormenta.

Pergunta-se em que curva do caminho aquela ânsia de fazer a diferença, mínima que fosse, de mudar o mundo e ser imensuravelmente feliz se perdeu. Os olhos do espelho mostram um insensato cansaço para um alguém de vinte e um anos de idade, que se contenta em assistir a seriados na televisão paga nas noites de sábado, evita constantemente o telefone e, com os pés no chão, perdera a ambição de abraçar o mundo tendo apenas dois curtos braços.

Escova os dentes, penteia os cabelos. Vira o rosto de um lado para o outro. Observa a foto de novo, dessa vez mais de perto, fixa os olhos no sorriso meio tímido, de canto de boca. Assim poderia ficar o dia todo. O relógio alarma a chegada de uma hora cheia. Lembra do compromisso e, sem esperanças de voltar à lembrança o motivo coerente para tanto brilho no olhar, guarda a foto na gaveta e sai correndo, apressado, atrasado.

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