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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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Ler é o melhor remédio

Lá fui eu para o primeiro e muito esperado dia de treinamento. É claro que eu sentia medo. No curso, demorado por demais e necessário por demais, sabiamente nos alertaram sobre tudo que poderia acontecer. Desde sorrisos que serão lembrados pelos restos de nossas vidas, passando pelo bem provável chilique de pais desesperados, chegando na morte – assunto delicado demais, principalmente para quem está dando o primeiro passo de muitos dentro de um hospital infantil.

Eu cheguei meio sem saber o que fazer, tentando ser simpática, mas não muito, mostrando que sei bem onde é meu lugar. Imaginei que quem lê histórias para crianças em hospital não tem como ser uma pessoa ruim. Então não tive muito receio quanto a conhecer minha treinadora. E eu tinha razão. Malu é uma senhora incrível. Para quem entende a referência, ela é a cópia cuspida e escarrada da Frankie, aquela mesmo, que é amiga da Grace, da Netflix. Para quem não vive nesse mundo, explico: Malu tem belos cabelos grisalhos, chegou na terceira idade com louvor e muita beleza, é meio hippie, não tem papas na língua, meio louca, meio secona e uma pessoa muito maravilhosa. Sua dupla, Vera, que trabalha a seu lado há 18 anos, é o exato oposto: a mulher mais doce que já conheci nessa vida. Queria ficar abraçada nela o tempo todo. Mas seria demasiado esquisito para um primeiro dia.

Como me foi informado, aquela experiência serviria apenas para observar. Sacar o estilo, entender como as coisas funcionam. Então lá estava eu, fazendo com perfeição o meu papel de sombra. Mas se você já teve qualquer contato com crianças, mesmo que de longe, mesmo que sem querer, sabe muito bem que elas são muito mais astutas do que todos nós, adultos, juntos. Assim sendo, é claro que mesmo contando com uma Malu doidona e descolada cheia de livros em ambas as mãos, era eu a peça daquele teatro todo que chamaria a atenção desde os bebês até os mais grandinhos e mais cruéis – um menino que estava para ter alta, portanto felizmente sem dor nenhuma e já muito entediado, perguntou se eu era muda. Eu observei um pouco, sim, mas aprendi muito mais e na marra. Minha voz engasgou, minhas mãos tremeram um pouco, derrubei alguns livros no chão e provavelmente quebrei alguma regra ao debruçar em um berço muito alto e dar conselhos para uma mãe que não estava desesperada não, mas que carregava muitas angústias em sua serenidade.

Foram só duas horas, entre chegar, colocar o avental, ouvir algumas instruções, escolher os livros, esperar os pacientes tomarem banho, tomarem café e serem examinados pelos médicos do turno da manhã e, finalmente, fazer o nosso trabalho. Poderia ter sido vinte. Vinte horas não dariam conta daquele mundo de histórias e crianças e muitos obstáculos a superar.

Mas em duas, apenas duas horas, eu aprendi a ser mais confiante, vi uma menina de seis anos melhorar a leitura em questão de três livros pequenos e cheios de gravuras, senti o amor incondicional de um pai que deixa sua vida toda de lado para morar ali, entre tubos e seringas, agulhas e lençóis que jamais serão os seus por quanto tempo for necessário, mesmo que esse tempo seja para sempre. E, em menos de duas horas, eu fui tocada, mudada, mexida. Eu conheci, na pele, o poder da história.

Quando estava ali, lendo, sendo útil, tendo um pequeno sucesso, nada mal, com meu público, Vera pegou um livro para ler. Bem ao lado da criança, onde já estava posicionada, debrucei para ouvir. Minha intenção era levar a pequena menina a fazer o mesmo, mostrar que aquilo era uma coisa legal. Minutos depois fui transportada para o mundo mágico de um menino chamado Guilherme Augusto Araújo Fernandes, e ele nem era tão velho assim. A cada página que os leves dedos viravam, quase como brisa, novas imagens e letras e novidades apareciam. E quanto mais suave a voz de Vera saía, quase como veludo, mais debruçada eu me derretia. Nem lutei contra meu ímpeto. Nem percebi o papelão. Virei a cabeça pro lado e prestei toda a minha atenção. Era como se eu estivesse em casa, no conforto da minha cama, protegida, feliz e quentinha, sendo acolhida pelos braços do universo. Quando a fatídica contra-capa chegou, precisei de uns segundos para entender onde estava, que horas eram, que eu precisava levantar dali, que tava vergonhoso e se dava tempo de mais um livro, pequenino que fosse. Eu fiquei um pouco vermelha, um pouco sem graça e muito feliz. Entendi a beleza, grandeza e importância desse tão delicado trabalho. Gelei, meu deus, que responsabilidade, mas saí de lá flutuando, distribuindo sorrisos, ansiosa pra semana que vem.

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Fundidos

*texto baseado em lembranças sonadas de uma vida inventada e no romance Febre, de Renato Essenfelder – cuidado, leitores: pode conter spoilers

……..

Talvez ele tenha se matado, pensei.
Talvez fosse eu, naqueles tempos, tivesse me matado também.
Senti vergonha, porém.
Confesso que também cheguei aos mais de quarenta graus, que perambulei cabisbaixa, moribunda.
Também repassei, como fosse um filme, todos os detalhes, pequenos diálogos, grandes mentiras.
Homem suporta menos a dor.
Não fosse fêmea, provável também implorasse.
Implorei, talvez.
Tentei, tentei.
Marquei encontros em lugares nossos. Praças.
Usei de um tudo de desculpa.
Fui embora chutando pedrinhas. Descalça.
Tentei odiar também, assim como ele, igualzinho.
A profissão. A arrogância. O sabe tudo. Porque sabia mesmo. A inteligência.
Mesmo usando eu palavras difíceis também. Também soberba.
Maldisse com todo desdém que cabe apenas àqueles profundamente apaixonados.
Amar é isso. É odiar até as melhores qualidades.
Por saudade.
E foi isso que fez.
Que quase fiz. Que fazemos todos, oras bolas.
Porque o amor não é apenas bom quando correspondido, não, veja bem.
A dor de amor é um cutuco na alma, é febre que pulsa sem motivo algum. São veias que queimam a qualquer indício de passo, pensamento ou respirar.
Sofrimento são palavras bonitas descritas com raiva de afeto. Desilusão é vida. São sentidos aguçados, agudos, momento único paradoxal aos pequenos e raros segundos de plena felicidade, quando nunca se é mais intenso.
Não deslizar aos prantos no box do banheiro, não debulhar-se em posição fetal, não sujar de rímel o travesseiro, meu amigo, é apenas sobreviver à mediocridade do cotidiano.
As pílulas, então, pequenas bolinhas de salvação, seriam talvez a maneira de seguir remoendo, revivendo, delirando. A única maneira de seguir filosofando. Com maestria.
O jeito de continuar escrevendo.
Sofrer por amor é dominar um tema.
Mas entregar-se pode ser loucura.
Loucura é comprar anel, é optar por ficar.
Nunca seja a que ama mais, aconselha minha avó.
Mas somos teimosos. E buscamos a dor.
Sabíamos que o não seria não.
Perguntamos pelos motivos errados, preocupados com a ínfima possibilidade de um sim.
Errôneo.
E caímos porque é só assim que funcionamos.
Perdidos. Metades. Feridos. Dramáticos.
Em busca de cura que leve nome próprio, que mascare a ressaca com mais um porre.
Que é para levantar do fundo do poço. E começar tudo de novo.

 

“Febre” na mão e sorriso no rosto

Quando soube que teria a possibilidade de folhear páginas e páginas daquelas belas, inteligentes, pensadas e sutis combinações de palavras, enlouqueci.
Torci muito pelo projeto, pelo autor, pelo talento que viraria sucesso.
Mas quando a espera ganhou vida, nome, cor, textura e preço, eu estava longe.
“Você pode comprar pela internet”, me diziam. Mas os correios do México são terríveis e só deixaram passar cartas de minha mãe porque o santo dela é forte e porque recado de mãe (convenhamos) é até pecado barrar.

No Brasil, tentei a livraria mais próxima. “Não tem, senhora!”
Entrei no site. Saí do site. Entrei no site. Saí do site. Entrei no site.
“Para efetuar a compra, clique aqui.” Cliquei. “Opção inválida.”
“Como assim, meu senhor?”
A máquina nunca me respondeu.
Deixei para lá. “Depois eu vejo isso”, pensei.
“Só vende na livraria tal”, me contaram. Fui.

– Ixi, senhora, não tem.
– E não dá para ver no sistema se tem em outra loja?
– Ixi, senhora, o sistema não está funcionando para ver outra loja.
– E se eu der uma volta? Você acha que ele volta a funcionar em quanto tempo?
– Ixi senhora…
– Ixi digo eu, moço.
– Mas a senhora pode verificar pela internet e efetuar a compra por lá mesmo. Chega direitinho na sua casa.

Lá vem essa tal de internet de novo. É cômodo e prático, eu sei. Mas a felicidade de comprar algo é exatamente trocar, naquele imediato momento, notas e moedas por algo palpável, tangível. Algo meu. Novo. Lindo. Escolhido a dedo.

Quer coisa mais chata que ver o saldo da conta diminuído e em vez de poder aproveitar o desejado produto, ganhar a necessidade de conferir o itinerário da encomenda? Eu, hein.

– Bom dia, moço.
– Oi, senhora. Achou o que procurava lá na internet?
– Não achei não, moço, Hoje o sistema está funcionando?
– Tá sim!
– Então checa aí pra mim!
– Olha, tá dizendo que na av. Paulista tem…
– Que horas fecha lá?
– Ixi, senhora, fecha daqui a 20 minutos. Não dá tempo de chegar lá não.
– E não dá para reservar o livro pra mim?
– Ixi…

Sábado de chuva. Avenida Paulista. Conjunto Nacional. 10h da manhã.

– Oi, moça. Bom dia. Vem cá, tem esse livro por aí?
– Diz aqui que o livro chegou em agosto e que ainda tem um exemplar, mas não sei se tem não. Vou procurar.
– Por favor!

A moça sumiu, evaporou. Mergulhou no mundo das prateleiras ordenadas com e sem sentido. Na minha prateleira particular, imaginária, seções de emprestados, presentes, comprados, favoritos, abandonados, na fila para serem lidos e aqueles que nunca mais serão folheados.
Caminhei junto a ela. Capas, fontes, letras, desenhos, fotos, grossos, finos, feios, bonitos, best sellers, dietas da moda, dor de amor, finais felizes, autoajuda, empreendedorismo, qualquer coisa for dummies, clássicos.

Na ponta dos dedos, diferentes texturas. Som de silêncio e procura por títulos. Olhos atentos. Cheiro de páginas e páginas e páginas. Velhas. Novas. Brancas. Amareladas.

Novidades em formato de sacolas, marcadores, canetas e cadernos.

No caminho, crianças entretidas com figuras. Jovens sentados em aconchegantes poltronas. Fones no ouvido. Livros nas mãos. Cheiro de café, atmosfera de leitura. Pessoas interessantes, interessadas. Felizes. Experiência que não dá para trocar por virtual nenhum. Por mais fácil que seja.

– Acabou.
– Como assim, “acabou”? Você não falou que no sistema dizia que tinha um?
– Pois é.
– Pois é o quê?
– O sistema dizia. Mas é que a internet não funciona direito às vezes…
– É mesmo? Não me diga!!! Moça, sério mesmo, eu preciso desse livro!
– Que cor é a capa?
– Vermelha!
– Ok!
– Ou azul!
– …
– Acho que é meio bege. Com azul. E vermelho. E tem meio que uma figura. Sabe, meio assim…! Ah, talvez seja meio roxa!
– Senhora…
– Quer que eu procure na internet?
– ….
– Não é esse não, moça, olha aí o título. Esse título é ruim, né?
– Acho bonitinho.
– …
– É esse?
– não!
– Ai, moça. Sinto muito.
– Não, não. Tudo bem! Acho que vou comprar pela internet mesmo.

Fiquei um tempo ainda por ali. Meio cabisbaixa. Vencida. Tentando achar algo empolgante para iniciar uma nova leitura enquanto esperaria pelos correios. Malditos correios. Presente de amigo secreto talvez. Quem sabe receitas diferentes ou até mesmo aquele volume gigante, teórico e chato, porém útil…

– Acheiii!
– …
– Moça! Moça! Achei!! Tava escondidinho lá! Mas tá aqui, pronto pra levar para casa!

Nem acreditei. Folheei. Abracei. Quase beijei a capa que, de fato, é meio bege, meio cinza, meio azul, meio verde, meio vermelha, meio roxa e que tem uma figura mesmo, meio assim…!

– É débito, moço, por favor!
– Ixi! Estamos sem sistema, não tá aceitando cartão.

A compra “foi efetuada com sucesso” da maneira mais arcaica possível. Na loja física. Com dinheiro vivo.
Agora, só falta o autógrafo.

Férias forçadas

Precisei de uma pausa.
Os motivos já nem sei.
Já passou, já respirei. Mas meu tempo eu respeitei.
Até tive vontade de escrever, sabe?
Mas quando um provável primeiro parágrafo acabava não fazendo menor sentido, tudo bem.
As palavras não saíam. Sem problemas.
O sentimento não fluía. Ok.
Deixava o teclado, a caneta, as letrinhas pequeninas do celular. Ia viver, conversar, tomar umas aulas de zumba, ler um livro, dormir, beber umas boas doses de tequila. Não importa.
Escrever é prazer, é paixão.
É para colocar um sorriso no rosto, não é para estressar.
É para vomitar o que incomoda e não descabelar.
A vida já é toda feita de lombadas, pedras, labirintos e enormes jornadas montanha acima. Mas desta vez, resolvi tomar outro caminho. Outro rumo. Talvez a mim mesma, quem sabe.
Este blog é a minha verdade – vezes inventada. E se a bola da vez for o silêncio, aqui ele estará representado pelo branco da página que, agora e só agora, significa serenidade.

Queria ser Frida Kahlo ou Margaret Thatcher

Queria ser uma daquelas mulheres fortes, daquelas que são tema de livros, biografias, músicas, filmes, seriados, tudo para mostrar às outras mulheres – que não são tão fortes – como as coisas têm que ser.

Mas não. Às vezes me faço forte por um ou dois meses, sabe como é…
E resolvo que vou mudar de ares, que vou mudar de vida, que vou mudar de cores. E mudo mesmo. A cor do cabelo, da parede, do lençol.
E mudo mesmo. De apartamento, de roommate, de roupas.
Mas o que fica mudo mesmo é o coração. Para que tudo isso aconteça, é ele que deixo de lado.

Mas só por um ou dois meses de fortaleza invencível, de muros inderrubáveis, de textos indecifráveis. Nesses um ou dois ou três, até, meses eu viro fera, grossa, chata e linda.

Incrível como os homens gostam de mulheres fortes. Que não se acham, se têm certeza. Que pensam, que leem, que escrevem, que discutem e que transam.

Mas continua sendo (ainda mais) incrível o poder do tempo e do vento que traz coisas velhas disfarçadas de novas. E passam esses um ou dois ou três meses. E passa a fortaleza e derrubam-me o concreto do muro e decifram-me em minhas frases tão comuns.

E a mulher forte e grossa e chata e briguenta e linda murcha. Dando espaço a uma menina fraca, besta, burra, encurvada, chorona e bem desinteressante. Que quase nunca transa. Uma idiota que aceita grosserias, que perde o apetite e vomita de nervoso, que coloca o som bem alto na playlist de fossa e sente pena de si mesma. Uma mocinha que aceita esperar, que acata a decisão do outro, que obedece, que omite o desejo mesmo quando borbulhando, que se acaba e que insiste na teimosia do erro que já acabou.

Ser forte, talvez, seja passar o que passa sem cometer suicídio ou perder o parafuso do equilíbrio. Sem chegar ao trabalho chorando, sem desistir do dia de amanhã. Ser forte, talvez, seja dar uma chance para o erro virar acerto e as lágrimas virarem afeto e o sofrimento virar amor. Talvez ser forte seja tentar de novo, seja levantar a cabeça humilhada, seja perder a dignidade por pura escolha racional, seja arcar com as consequências da própria inconsequência. Talvez seja continuar.

Mas talvez não, né? Talvez uma mulher forte mesmo seja aquela lá, do começo do texto, que tem livros e filmes e músicas, que não chora e nem vomita de nervoso, que pisa nos homens e decide quando, onde e porquê, que carrega uma fortaleza invencível, muros inderrubáveis e textos indecifráveis. Que não precisa mudar de cor de cabelo, lençol e paredes para mudar de vida. Que é linda porque sim e sabe disso.

E isso, talvez eu nunca seja.

Vai passar

Vai passar porque a vida continua, o trabalho exige, os boletos vencem e o estômago ronca.

Vai passar porque o fígado reclama e as lágrimas secam.

Mesmo que nada mais faça sentido, vai passar porque o sol ainda nasce, a lua ainda brilha, a chuva ainda cai e porque a praça ainda tem vida noturna, mesmo sem nós dois ali.

Vai passar porque ainda existe a bebida, existe o cigarro e existem os amigos.

Vai passar porque tem a academia, o regime e as aulas de boxe.

Vai passar porque, no mundo, habitam 7 bilhões de pessoas e porque não é possível que ninguém, nunca, vá se fazer interessante de novo. Vai passar porque estreiam bons filmes e peças, porque aparecem viagens, porque existem bons livros e vinhos.

Não vai passar só porque todo mundo diz que passa ou porque a gente sabe, por experiências passadas, que, uma hora ou outra, isso acontece mesmo.

Vai passar porque tem que passar. Só por isso.

Espírito velho

Hoje é sexta feira. Não são nem nove da noite. Já estou na cama. De pijama. Com meu livro. E estou muito feliz.

Poderia, do alto dos meus 22 anos, dizer que tenho trabalhado demais. Que estou cansada. Mas todos sabemos que, apesar de verdade, seria mentira. Não tem jeito, sou velha.

Se eu pudesse, confesso, teria sido uma adolescente normal, do tipo que curte ficar muito louca na balada. Juro.

Mas era do tipo que ficava conversando com a moça do banheiro enquanto descansava os pés, sentada em cima da pia, reclamando da altura do som.

Nunca aproveitei balada alguma. Ficava só na única caipirinha – que, ao longo da noite, virava água – e ainda tinha que cuidar dos amigos que, ao vomitar na manhã seguinte, imaginavam (vagamente e por meio de relances embaçados) ter aproveitado até demais.

Quanto a homens, eu tinha um lema: se não for o Brad Pitt, não informo nem meu nome. Adivinha, só! Nunca pegava ninguém. Tinha um certo asco dos caras que já deviam ter amassado umas cinco antes de vir tentar a sorte comigo. E não estou nem levando em conta os peculiares métodos de abordagem.

Era fila para entrar, para beber, para pagar, para sair. O aglomerado era tanto que a minha sensação era a de dançar dentro de um vagão de metrô lotado, pedindo desculpas pelos esbarrões e tomando cuidado, a fim de se esquivar das inúmeras cotoveladas e pisões.

Eram horas de preparação – das quais faziam parte cabelo, vestido e maquiagem – para passar a noite em um lugar escuro, de luzes ofuscantes (que não permitiam enxergar o rosto de ninguém, quanto menos a roupa nova), suando, fedendo a cigarro e tomando banho de cerveja.

Até tenho aqueles amigos que insistem. Mas não consigo entender a graça de um lugar como esse. Podem me chamar para os mais diferentes programas, juro que vou. Mas em baladas, não ponho os pés nunca mais.

Afinal, se a melhor parte (definitivamente!) era a filosofia divagada no banheiro – dividida com um alguém que estava ali a trabalho –, acho que faço bem em preferir minha cama, economizar uma grana preta e curtir minha mania de velhice.

Tomorrow never knows

Posso não te deixar nada. Nenhuma boa lembrança que te faça sorrir numa tarde ociosa de quinta feira, nenhum arquivo de word escondido na pasta de nome difícil de achar no computador, nem um mísero momento de devaneios num almoço solitário no meio da semana, nada.
Mas as minhas mensagens, notas desesperadamente confusas escritas no caminho para casa e rascunhos de e-mails nunca enviados ou postados no blog, um dia, certamente, virarão um livro.
Te entrego, envio por sedex 10, juntamente com uma carta em agradecimento pelos momentos que, graças a você, foram muito mais fáceis de superar. Pelos sorrisos abertos de maneira muito mais natural. Pela criatividade – e consequente produtividade – enfatizada pela química dos hormônios à flor da pele. Pela incompreendida vontade e improvável bom humor ao levantar da cama – mesmo num horário desumano e sabendo que o dia não será tão agradável – só para saber o que os instantes que passarei com você me reserva.
O tesão com que vivo minha (tão comum) vida nesses poucos meses de ilusão e aventura romântica de sabido fim iminente – de inevitável, irremediável, ponto de interrogação ao final do mês que se aproxima -, de tão bom, por mais que incerto, te dá o direito, todo ele, de não me guardar numa caixinha dentro do peito.
Não quero ser sua eterna lembrança, mas sua intensa rotina. Não quero ser motivo de textos nostálgicos, mas de incontrolável vontade de largar a leitura no meio do expediente e sair para tomar um café com direito a conversa de três horas. Não quero ser personagem insistente dos sonhos noturnos, mas presença constante nas tardes de cama sem nem pensar na possibilidade de dormir.
Pode me esquecer, ignorar, deixar para trás e substituir na próxima primavera. Mas agora, me tenha presente. De verdade, sem frescura, sem joguinhos e sem espera.

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