Busca

Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

Tag

México

Vamos fugir

hoje me bateu uma saudade daquelas calles llenas de paralelepípedos, ventanas grandes, poucas opções de lazer e muito tempo de sobra.
quando dá vontade de fugir de novo pode ser que alguma coisa esteja errada. ou que a gente precise um tempo de nós mesmos, sabe? para poder-nos conhecer melhor.
há quem diga que viajar para distanciar-se de problemas é bobagem, prática ineficaz.
ah, quem afirma tamanha heresia nunca embarcou em experiências internacionais -para fora de si – com a maestria necessária.
é claro, ao empacotar, guardamos também o cérebro e o coração, vitais à nossa saúde e a nosso sofrimento. mas navegar por terras distantes, voar para longe da raiz do que aflige e desembarcar em estações além-mar de lágrimas é um santo remédio.
é possível desfazer-se e reconstruir-se em um apenas partir e chegar.
pôr os pés em novos destinos são oportunidades de escolher uma nova personalidade e encontrar-se ainda mais.
viajar é conhecer pessoas novas, culturas infinitas, idiomas impossíveis de decifrar e entender que a vida é muito mais e maior do que aquele minúsculo mundinho cotidiano, de onde saiu o motivo do pesar.
não pesa mais, a não ser que o passageiro muito insista em vestir aquela máscara de oxigênio sem haver despressurização na cabine.
melhorar depende única e exclusivamente de quem decide caminhar por outras estradas da vida.
viajar é ter problemas maiores do que dor de amor, de desilusão, de perda.
viajar é perdão, é esquecimento, é superação. viajar é auto-conhecimento, auto-suficiência.
viajar é cura, sim.
e chegou minha hora de partir de novo. de mim e para mim. em uma viagem sem fim.

Vem ser dono do meu nariz

Aeroporto de Cumbica, Guarulhos, SP, Brasil:

– Então tá bom, gente! Tchau!!
– Tchau, boa viagem!!

– Tá, então eu vou! Tchaaau!!
– Tchau!!!! Boa viageeem!

– E aí? Acho melhor você ir, né?
– Aham. Sim, sim. Eu vou!
– Então coragem, vai!!
– Hãm…ok…então….eu vou…tchau!!
– Tchau!

Se alguém me pedisse para ficar, se sugerisse que assim, de repente, desistir não seria tão feio, não duvido que neste exato momento estaria escrevendo qualquer outra coisa sentada em minha cama em São Paulo, Brasil.

Ninguém me impediu. Nem eu dei o braço a torcer. Mas chorei durante todo o voo. Talvez as lágrimas tivessem mais a ver com o medo incontrolável causado pela absurda turbulência. Ajudou um pouco o fato de as aeromoças não estarem sorridentes ou servindo aquela gororoba que eles chamam de “frango” ou “massa”.

Mas tudo bem. Sobrevivi, enfim. E agora escrevo sobre essa história sentada em minha cama em Guanajuato, México. Eu gosto daqui. Gosto mesmo. Pela primeira vez na vida eu não sei o que é congestionamento. Chego aos lugares em 15 minutos, a pé. Sei o nome de 80% da população local. Toda segunda-feira conheço alguém diferente. Um chico ou uma chica que sempre tem mais ou menos a minha idade, exerce as mais diversas profissões, fala muito bem ou nada de espanhol, é legal ou insuportável, mas que sempre acaba virando um grande amigo.

Em minha lista de telefone existem nomes comuns e muito mexicanos como Maria Guadalupe e Juan José. Mas também tem Sebastien, Ashleigh, Momoka, Asusa, John, Asaki, Catalina, Katrin, Emily, Carl, Cindy e mais, muito mais. São amigos temporários porém intensos que, em sua maioria, vêm de países como Austrália, Suíça, Estados Unidos, Japão, China, Alemanha e Canadá.

Principalmente quando aparece algum brasileiro perdido nessa torre de babel, em dois dias já viramos companheiros de 10 anos, do tipo que xinga, faz piada idiota, ri da cara do outro e abre a geladeira sem pedir permissão.

O povo mexicano é tão caloroso quanto o brasileiro. Mas isso pode ser bom e ruim. Quase não há choque de cultura, mas às vezes dói presenciar um abraço fraternal e pensar que seus abraços ideais estão bem bem longe, a muitas turbulências de distância. Assim, os europeus mais frios são capazes de oferecer o apapacho mais carinhoso e o japonês, desacostumado ao contato físico, é o único amigo que pega na sua mão ao perceber nervosismo ou inquietação.

Viajar e morar fora são duas coisas completamente diferentes. Aqui eu tenho que matar alacranes, encontrar o foco de aranha, me preocupar com o gás, com a água e com a janta. Para tudo isso, não raras vezes conto moedas do trabalho que às vezes eu queria largar. Se eu fico doente, viro meu médico, motorista, pai e mãe. Faço compressa, preparo chá e seguro meu próprio cabelo se tiver que vomitar.

A primeira vez que passei um tempo fora, voltei para casa, adolescente, e meu inferno foi perder a liberdade conquistada. Voltar a obedecer antigas regras, dar satisfações e não viver a #vidaloka era quase a morte.

Dessa vez conheci a independência e entendi que vem com muita responsabilidade. Voltei para casa, para visitar. Comi a comida da vó, assisti à televisão com meu pai, busquei meu irmão na escola, passei agradáveis momentos com a minha mãe. Dessa vez, a satisfação dada foi espontânea. Saí pouco, mas sempre detalhando com quem, a que horas, quem levaria, quem buscaria e mantive impreterivelmente meu celular ligado a todos os momentos.

Semana passada, já de volta à casa mexicana, a japonesa que mora no quarto vizinho resolveu fazer uma reunião de “família” para explicar – com uma história sem pé nem cabeça, mas cheia de detalhes provavelmente inventados – os motivos pelos quais não havia dormido em casa na noite passada. Seus pequenos olhos fechados se viam marejados e sua culpa e dor por ter desobedecido uma das leis da casa – aquela que diz que é preciso avisar se for trazer algum visitante ou se for passar a noite fora – era tocante e evidente.

A australiana, a americana e eu a perdoamos, claro. Mas entreolhares entendemos que ninguém havia percebido a ausência de nossa querida amiga e roommate. Na verdade mesmo, contanto que ela e todas nós estivermos vivas na manhã seguinte, não importa.

O fato é que nosso maior desejo, aqui na nossa liberdade, é que alguém nos dê bronca por sair sem casaco, que nos prepare uma canja em dias de gripe, que nos empreste uns trocados para tomar uns goles de tequila e que nos espere acordados. Ter alguém a quem dar explicações e inventar mentiras e encontrar argumentos nunca se fez tão importante.

Lá em Guarulhos, minutos antes de embarcar, torcendo para dar dor de barriga, ter um treco ou milagrosamente voltar a ser um bebê, minha resistência nada tinha a ver com o amor que tenho a este pueblo chiquito e maravilhoso que encontrei aqui no meio do deserto, ao curso, ao trabalho, aos amigos. Minha quase desistência teve mais a ver com matar insetos, preparar minha comida, pagar minhas contas, resolver meus problemas em espanhol, exercer a paciência e fazer escolhas completamente sozinha. Meu medo, afinal, não era do avião, era de , de novo, sair da barra da saia da mãe.

Entre eu e eu mesma

– deus do céu, você vai continuar?
– vou.
– mesmo sabendo que talvez não seja tudo aquilo que espera?
– sim.
– por muito tempo?
– bastante.
– quanto?
– suficiente.
– para quê?
– para tudo.
– mas você está fugindo?
– talvez…
– mas fugindo de quê?
– não sei ainda.
– e não tem medo de ficar?
– não.
– por quê?
– porque sei que tenho para onde voltar.

Vem, 2013!

Incrível, agora, é escrever sem sentir dor. Impressionantes são as visitas cada vez maiores em meu blog – que já não espreme todo o sangue de um coração partido e moído e pisado.
Interessante é perceber que felicidade também vende, que superação também atrai e que amor não precisa ser sofrido.
Sorrir ao ler textos passados é saber que já não mais machuca. Cutuca, sim, dá uma pena até, às vezes. Porque, claro, valeu a pena.
Mas sentir alívio ao entender que acabou de verdade, ah, essa vem a ser a melhor sensação do ano.
E que ano! E que venham outros. Sabe o quê? Com lágrimas, sim! Mas também com gargalhadas e aprendizado e muitas histórias para contar.
Que venham novos estilos de texto e mais leitores, mais viagens e mais amores – em formato de homens, amigos, família, lugares – e tudo o mais que possa servir de inspiração.
Vem, 2013, vem preencher meu coração!

Facebookcídio

A gente vive em cidade pequena e reaprende a conectar sem presença de tecnologia, a curtir sem apertar um botão, registrar sem fazer check-in, estar junto sem tagar em fotos, aproveitar sem flashs e ter uma história incrível para contar sem atualizar status.

Seja o que Deus quiser

Esta cidade mexeu comigo. As pessoas também. Mas, a esta altura do campeonato, já tinha experiência suficiente para saber que não posso me deixar levar pela emoção. Não outra vez.
Nunca fui muito religiosa, para desgosto de minha avó, tampouco pensava que religião poderia me trazer alguma razão. Mas dizem que a fé é a solução para qualquer desesperado.
Para ser bem sincera, de uma maneira bem estranha, aquela igreja também tinha mexido comigo. Talvez por suas cores, suas luzes, suas imagens ou a ausência de padres Marcelo ou Zezinho – nada contra, veja bem, mas é que, de verdade, acredito no poder das canções cantadas de maneira serena e em latim.
Deus, precisava de ajuda. Aonde mais poderia buscá-la?
Entrei. Não me importei com as pombas que voavam sobre minha cabeça, nem reparei se estava vazia ou cheia, mal escutei os sinos que anunciavam a próxima missa.
Pedi. Mais do que já havia pedido em cartas para o papai Noel. Acreditei. Muito mais que em coelhinho da Páscoa.
Implorei por uma luz, um sonho, uma conversa. Qualquer sinal que me ajudasse a reconhecer o melhor caminho a tomar.
Te juro que fui invadida por uma paz descomunal. Saí com uma certeza absurda de que havia sido escutada.
Satisfeita, desci a imponente escadaria. No décimo degrau torci o pé.
Entendi o recado.

Mulher mexicana

Ser revolucionária não é beijar homens e mulheres, fumar maconha na praça, ter ‘trabalhos de homem’, mostrar o corpo sem querer dizer que se insinua, ter nome de fruta ou tatuar o orifício anal.
Ser a frente de seu tempo, creio, é pedir o divórcio do esposo, mãe e pai e decidir trabalhar.
É não ser controlada por marido algum, não preparar a janta todas as noites e dizer a seu filho que não só pode, como deve ajudar a futura esposa nas tarefas domésticas.
Ter coragem é assumir um filho estando solteira, enfrentar uma gravidez completamente sozinha e não ter medo de mimar o marido de menos e ser trocada por outra.
Ter personalidade é não aceitar a infidelidade do homem, não dar ouvidos a tudo que diz o padre – da igreja ou seu próprio – e não viver para sempre um casamento arranjado.
Ser forte é criar muito bem três filhos sozinha, cuidar da casa e trabalhar fora.
É caminhar pelas ruas com um largo sorriso no rosto e ter a certeza de que a vida nem sempre é fácil, mas que, por agora, está se saindo muito muito bem.

Apenas uma mensagem

E aí eu to sentada sozinha em um banco dessa praça em que essas crianças brincam e as pessoas passam e os poetas vendem suas dores e ideias e que, para muitos, trata-se apenas de um pedaço de papel menos importante que o higiênico. Fumo meu cigarro imaginário – sempre o faço quando está frio e pensar na vida é quase tão vital quanto respirar. Não ligo muito pros mariaches que fazem festa no coreto, atenho-me ao meu iPod. Prefiro uma banda ainda desconhecida pela massa que enche estádios de futebol e compra ingressos que valem o preço de um mês de aluguel de um apartamento mais ou menos habitável no centro de São Paulo. A vida segue a mesma, mesmo quando muito diferente. Nem lembro tanto daqueles que deixei em minhas terras também tropicais. É como uma defesa. Mas então, bem ao lado, meus olhos se deparam com três amigas abraçadas. Creio que não seja só o frio – carinho nunca dependeu de clima. E me dá vontade de tatuar um trevo e de abraçar aquela de bochechas rosadas, a única que me chama de Anita. Aqui não tenho apelidos, não. E não abraço com tanta frequencia quanto gostaria. E aí abro o facebook só para te mandar uma mensagem falando ‘oi, como estão as coisas por aí?’ e acaba saindo um texto.
Na verdade, só queria dizer que, puta que pariu, tô com saudades!
Beijo grande e, por favor, sinta-se abraçada. Faça-o, principalmente porque neste exato momento sou a mais louca da praça, agarrando minha jaqueta de couro como se cada manga e cada pedaço de tecido fosse você e as outras duas folhas que, vitais, me fazem sempre inteira.

Carta aberta a mim mesma

Querida Ana,

Hoje é dia 6 de novembro de 2012.
Você (ou eu, não sei direito como mencionar-nos) está no México, vivendo na casa da Linda, estudando espanhol.
No último mês, Ana, você descobriu que, metaforicamente falando, há vida após a morte, há luz no final do túnel, não há noite longa que não encontre o dia.
Escolha, minha querida, o clichê que preferir, não importa. Você virou a página e descobriu que há muito mais a ler.
Hoje, amada, você acredita. Em sonhos, em um futuro, em destino. Mais que isso. Hoje, você acredita em você. Entende que, de fato, nenhum ser humano é uma ilha e que sim, você precisa de contatos e, vamos combinar, relações interpessoais que tenham a ver com atividade humana já não podem ser um sacrifício. Não pra você. Afinal, sabe que tem os melhores amigos que existem.
Mas também sabe que dá conta de muito sozinha. Que se adapta, que se esforça, que consegue. Seja lá o que for. Basta estar realmente determinada.
O medo ainda existe, claro, você nunca vai deixar de ser aquela menina que fazia das cobertas o esconderijo perfeito para qualquer mal que pudesse existir. Mas, agora, ele não anda mais a frente, impedindo a passagem, e muito menos atrás, empurrando pro penhasco. O medo, garota, anda ao lado, quase que de mãos dadas.
E a vida vai ficando divertida.
Você olha para trás grata pelos erros cometidos. Sem eles, jamais chegaria até aqui.
Agradece também os pontos positivos e, principalmente, a enorme base de apoio chamada família que sempre segurou as pontas quando viver era um pouco demais para você.
Neste momento, porém, não há dia mais importante que o dia de hoje – aquele, em que dá para diminuir as marcas e cicatrizes do passado e começar a construir um futuro mais colorido.
Desenhe, Ana. É esse o conselho que lhe dou para quando, em um ano, ler esta carta de novo. Desenhe na sala de aula ou no trabalho, quando estiver entediada ou cansada – você sabe que isso sempre te ajuda. Desenhe nas paredes quando sentir que precisa mudar a cara do apartamento – não há cor mais original que esta. Desenhe para amigos, entregue cartões feitos à mão – mais barato e pessoal. Desenhe as linhas da sua vida. A caneta, pelo menos em metade do tempo, está em suas mãos – é você quem decide se o próximo traço será à direita ou à esquerda.
Desenhe com cores. Pare de trabalhar somente com tons de cinza. Descubra cores inesperadas de misturas divertidas. Não tenha medo de ousar, criatura.
E seja muito, muito feliz.
Lembre-se: hoje é 6 de novembro de 2012 e, sim, você acredita.
Um beijo,
Ana.

Blog no WordPress.com.

Acima ↑