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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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Morte

Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu

Luiz morreu aos 54 anos.
Refeições gordurosas regadas a cerveja, vinho e uísque da melhor qualidade provavelmente destruíram seu fígado.
Mesmo sabendo de sua condição genética – a mãe de Luiz morreu de cirrose sem nunca ter bebido uma gota de álcool -, comeu e bebeu nos melhores restaurantes.
Experimentou todos os sabores. Japonês, indiano, apimentado mexicano, dendê baiano, testículo de jacaré e incontáveis frutas direto do pé.
Até os 50, chegava em casa depois das 4h da manhã. Dava-se ao luxo de encontrar amigos de anos pelo menos duas vezes por semana. Era sauna, era bar, era jantar. Era qualquer desculpa para festejar, farrear, desopilar.
Luiz tinha uma legião de amigos. Uns fiéis, outros nem tanto. Emprestava dinheiro, confortáveis ombros e conselhos capazes de mudar vidas.
Luiz era filósofo. Era químico, alquimista. Era matemático e professor. Era influente, poderoso. Era funcionário dele mesmo, diretor.
Assistiu a todos os bons filmes, acompanhou todas as boas séries e leu todas as notícias que as poucas horas de seus poucos dias deram conta de absorver.
Era inteligente. Trabalhador. Ambicioso e sonhador.
Mesmo pobre, viajava de primeira classe. Conheceu o mundo. China, Emirados Árabes, Estados Unidos, Canadá. Fez nevar Paris. Saboreou todas as cervejas da Bélgica. Passou frio na Itália. Brasil. Espanha. Inglaterra. Alemanha. Cozumel. Chile. Argentina. Paraguai e Uruguai.
Luiz tinha camaradas em todos os idiomas.
Suas cinzas serão jogadas em límpidas e turvas águas em um cruzeiro pelo mar caribenho.
Luiz viveu como quem tinha nas palmas das mãos o mundo inteiro.
Quando internado, arrumou briga com as enfermeiras. Queria trabalhar. Reclamava da comida sem gosto. Queria bife com batata frita.
Mesmo assim, tirou foto com seu colega de quarto, aquele do leito ao lado. E prometeu que sairiam dessa juntos.
Luiz morreu.
Um grupo de mais de duzentas pessoas ao seu velório compareceu.

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A história de Maria: quem disse que um versinho não daria?

Maria morreu aos 86 anos.
Uma veia entupida fez seu coração parar de bater.
Maria fazia check-up a cada seis meses, usando o convênio de idosos que um médico também idoso recomendou.
Morava na mesma casa há 50 anos. Foi lá que seus pais morreram. E seus três cachorros também
Maria nunca teve sua própria casa. Nunca morou sozinha. Nunca viajou.
Maria nunca transou.
Não acreditava em casamento e não deixou-se abrir o coração.
É provável que fosse lésbica. Mas como lidar com a religião?
Com sua aposentadoria, Maria guardava um pouco de dinheiro e o resto gastava na padaria.
Bolos, pães. Mas tudo sem glútem, recomendação de revista.
Era saudável, comia cenoura para cuidar bem da vista.
Seu sonho era conhecer a Disney. Mas tinha medo de avião.
Maria passou a vida na janela, vendo sua juventude desfilar lá embaixo, lá no chão.
Cuidar de samambaias era sua diversão.
Maria tinha uma enorme compaixão e com porteiros e vizinhos dividia sua refeição.
Cozinhava como ninguém.
Frequentava a quermesse e para o padre dizia amém.
No banco pagava a fatura de sua televisão.
Tinha mais de 500 canais, mas passava o dia vendo Datena.
Só tragédia, só desilusão.
Café da manhã. Almoço. Janta. Dormir e o ciclo repetir.
Saía para ir ao mercado.
Sua casa estava sempre em perfeito estado.
Pensou em adotar gatos, mas concluiu que muito trabalho daria.
Era pacata, afinal, a vida de Maria.
Guardava recortes de destinos nunca explorados.
Tão pesados que um dia a gaveta cedeu.
Cansada, pegou no sono. Só três dias depois a vizinha na porta bateu.
Maria não respondia. Maria, então, morreu.
Cinco vasos de samambaias, um padeiro e dois porteiros.
Foi esse grupo que ao velório compareceu.

Pai. Do verbo ‘insubstituível’

a dor dói menos mesmo. como todo mundo disse que aconteceria.

todo mundo com um mínimo de sensatez, né?

o que mais me irritava quando você lá estava, já não sabendo direito que dia era (felizmente sem nunca esquecer-nos) e desmanchando-se em si mesmo, cada vez menos e menor em um caminho difícil de acompanhar por ser regado pela falta de esperança, com muito alívio do não-sofrimento e o desespero da despedida – aquela que, graças a deus (o seu, o meu, o que existe, o que não ou aquela simples e profunda fé meio descabida, porém poderosa, que usamos apenas em momentos críticos e trágicos e life changings como este) – eram as pessoas otimistas.

você sempre foi otimista para tudo que dependia de você. dava conta. e sabia que lograria qualquer resultado esperado. e mesmo que assim não fosse, as coisas se ajeitariam. era quase como mágica.

mas a vida não. a vida e suas peripécias nunca lhe foram tragadas com muita confiança. era sempre realista, duro e aproveitador do momento quando ele aparecia, porque sabia que o trajeto imposto por destino ou aquele deus de que falávamos acima ou de escolhas mesmo (vai saber…) tratava a sorte com parcimônia.

te vi partir dia após dia. após dia. após dia.

menos comida, menos força, menos reação. sempre com muita vontade de abrir os olhos e persistência para fazer a voz sair. ela nunca nunca saía. mas hei de encontrar no mundo alguém que saiba falar com o olhar tão bem como você.

aceitei de alma e coração sua passagem, encerramento, merecido descanso ou como você queira chamar. mas me parece que este foi um ato heróico ou covarde (tudo depende sempre do ponto de vista, não é mesmo?) feito por mim só e apenas.

e ninguém entendia.

lembra daqueles telefonemas que recebíamos? horas e horas de baboseira crédula pregando a palavra de misericórdia e milagre que te faria levantar da cama e correr entre brancos e limpos lençóis hospitalares que, apesar de macios, já machucavam sua sensível e cansada pele tão forte e morena e de tanto pulso em assuntos como economia e política.

sua corajosa veia empreendedora, como mágica, receberia mais energia e sangue e vida enviada talvez por anjos. teve aquela moça, lembra? (cheguei a te contar em um monólogo que, desculpa o trocadilho, deve ter-te feito querer morrer) que me contou sua experiência de quase falecimento. sei lá quantos dias na UTI, desenganada por sei lá quantos médicos, sei lá quantas e vezes e hoje aí, vivinha para me contar a história e provar que siiiim, mesmo já moribundo, você não me abandonaria.

quase acreditei nela. mas sabe qual o problema de acreditar em gente que insiste em dizer que ‘tudo vai ficar bem’ quando…bem…não vai? bom, é que, realmente….não foi. não ficou tudo bem. ficou tudo mal, péssimo, horrendo, desastroso. e ninguém me ligou para explicar o que fazer depois disso.

e quando você se foi, perdoado e amado e seguindo seu caminho que acredito ser de muita sorte (o mundo é muito cruel) e muito azar (tem tanto vídeo bom e tanta estupidez nova na internet que queria te mostrar, que te faria rir aquela risada gostosa), não sei dizer onde os imbatíveis fiéis de retórica enfiaram suas cabeças de vento. envergonhados, talvez. talvez tenham colocado a culpa em mim – que não tive assim tanta fé. eu cheguei a culpar os médicos e alguns pecados que havia cometido num passado recente (sabe como é…aqui se faz, aqui se paga).

mas de nada adianta pegar o criminoso, o ladrão de role model, pai, amigo, companheiro, confidente. a perda não se mede em vingança ou duras palavras proferidas a quem que, de fato, merecia. claro que fiz alguns telefonemas e sei que de longe você se orgulhou disso. te prometi stand up for myself e jamais deixarei proferir-se uma má palavra a seu respeito. a nosso particular respeito, você sabe.

doeu, pai. sem ou com culpado. quer quisera o destino ou deus ou você mesmo ou os médicos ou qualquer circunstância que já não importa.

um ano depois, somos apenas nós, aqui outra vez. sobrevivemos, meio tortos.

acordando ainda um após o outro, com medo de abrir os olhos e não te ver. indo dormir a base de séries engraçadas que é para não pensar demais na vida (nada mudou, veja bem).

às vezes é estranho não te extrañar demais. às vezes é estranho chorar de rir com alguma piada tipicamente sua. difícil às vezes ver que a vida anda, que o mundo gira e as coisas acontecem. sempre para frente, como você sempre recomendou.

um ano depois ainda ouço seu estalar de juntas subindo as escadas, o cheiro de perfume ainda se espalha pela casa e os conselhos sigo recebendo, não sei nem explicar como.

um ano depois ainda choro sozinha. só às vezes. mas rio muito também. de mim, de você, da vida. porque tudo isso faz parte. cruel e naturalmente.

e um ano depois nunca mais apareceram aquelas pessoas que acreditavam em milagres, ou pelo menos nunca mais me ligaram para contar experiências de quase-morte (ainda bem, não é mesmo?). elas seguiram suas quase-vidas e esqueceram-se das promessas não cumpridas de um credo por mim sempre desconfiado.

mas um ano depois, pai, tem muita gente boa também que aparece quase sempre. e dá um jeito de dizer que ‘está lá’, ‘para qualquer coisa’ (mesmo que a gente nunca saiba o que esse ‘qualquer coisa’ quer dizer). acho fofa a intenção, porém. apesar de meio sem sentido.

e tem aqueles, aqueles que você me ensinou a guardar no potinho dentro do peito, que não precisam expor sua presença com veemência, mas que pegam minha mão, me convidam para um drinque, agem naturalmente quando conto histórias suas e sorriem para dizer que estão lá – esses eu sei que estão mesmo.

tem uma toneladas de pais – avô, tios, padrinhos, conhecidos, vizinhos, pais de amigas – que já anunciaram que podem ocupar esse posto, deixado por ti.

o que eles não sabem é que você nunca foi embora de verdade. que segue em minhas orações (depois conversamos sobre para qual deus), em meus pensamento, atos, decisões. a cada respirar meu, lá está você. a cada vírgula escrita, a cada trabalho concluído. na minha vida, no meu coração. no formato das minhas mãos, no nariz de batata e até na maneira meio dura e truculenta de andar.

um ano depois e todos os muitos anos que vierem (porque eles virão, por melhor ou pior que isso possa parecer) a cadeira segue sendo sua e só sua.

o posto de ‘melhor pai do mundo’ é ocupado por todos os pais de todo o mundo. chega a ser banal, não é mesmo?

mas o título de ‘melhor MEU pai’ ninguém tira de você. se existe um deus, aquele mesmo, lá de cima, agradeço-o a cada segundo de cada dia a oportunidade de ter convivido com o personagem mais sagaz, divertido, despretencioso e pretencioso ao mesmo tempo, o mais incrível e perfeito companheiro de jornada que o cosmo poderia ter-me enviado.

não me imagino crescendo e sendo ensinada por nenhum outro modelo de pai e ditador e democrata e companheiro que você sempre foi. meu melhor professor.

o dia dos pais será sempre seu, para você e com você. mesmo longe. de mais ninguém.

hoje é dia de vinho, então. do melhor, por favor. dia de filme bom. de ouvir boas músicas e de gastar o dinheiro que não tenho em um restaurante que não conheço. dia de descobrir coisas novas. hoje é dia de gratidão, muita gratidão. sofrimento também, choro e riso.

uma sensação estranha que já faz parte de mim. um buraco imenso e vazio (para sempre impossível de preencher) no peito, que às vezes encho de flores – que é para disfarçar.
hoje é dia de saudade boa e ruim. e amor. só amor.
hoje é dia de homenagem. e essa eu fiz para você.

Faz um tempo, eu quis fazer uma canção pra você viver mais

Eu tinha um medo incondicional de que alguma coisa, um dia, acontecesse com você. Dizem que, quando nascemos, no fundo sabemos o nosso destino e as dores pelas quais passaremos.

Se for verdade, talvez fosse só minha memória irracional me dizendo para passar muito tempo com você. E eu passei.

Quantas e tantas vezes enfrentei o congestionamento ao seu lado, quando poderia ter ficado em casa, assistindo a qualquer coisa besta na TV. Escolhia o lado dos homens na mesa enorme de almoços com família e amigos só para ouvir suas histórias e suas opiniões divertidas e interessantes sobre qualquer tema. Você sempre soube falar sobre qualquer coisa. Isso era realmente impressionante.

Eu nunca gostei de discutir e contar como foi o meu dia. Mas pra você, eu contava. Você sabe.

Só para deitar ao seu lado na cama eu deixava de assistir ao Saia Justa e assistia ao jornal da Globo News. Isso estragava minhas quartas-feiras, mas não tinha o menor problema.

Frequentei churrascos chatos, festas sem graça e passei fins de semana mal humorada. Se pudesse, voltava atrás e colocava um sorriso no rosto em cada uma dessas ocasiões. Mas, pensando bem, você não ligava muito e uma das melhores lembranças que tenho é de quando você me mandava morder o próprio dedo para aliviar a TPM ou a bravice sem fundamento.

Eu dava socos em sua barriga grandona e a chamava de Sofia. Era nossa brincadeirinha. Você só devolvia o soco quando estava meio de saco cheio, mas nunca me machucava.

Suas palavras de ordem ao me mandar segurar o choro quando algo não me agradava, me prepararam pra vida e eu acho que aprendi até que bem, porque só tenho chorado às vezes. Mas lavo o rosto, levanto o queixo e sorrio, só por saber que era isso que você me mandaria fazer.

Eu não vou deixar ninguém nunca gritar comigo, assim como você não deixava. E quando for dar bronca nos meus filhos, não alterarei meu tom de voz, exatamente como você fazia. Esse seu método funciona. Sei disso porque, mesmo tendo cara de bravo, você era muito respeitado e muito, muito querido.

Eu falava de você para todo mundo. Hoje, é difícil ter que usar verbos no passado. Então me calo.

Uma vez, conversei com você o caminho inteiro de volta pra casa, pra você não ter sono. A gente sempre lembrava desse dia e das perguntas bestas que eu inventei. Acho que aí já estava me preparando para ser jornalista.

Às vezes escrevo um poema e me sinto feliz por pensar que você ficaria orgulhoso. Você se impressionou quando descobriu que eu tinha esse dom. Eu nem sabia que tinham feito sentido aquelas palavras sobre fumaça e lágrimas que postei no blog só por falta de opção. Mas você era meu melhor crítico e, por isso, ainda me arrisco em rimas pobres que, às vezes, representam todo o sentimento do mundo.

Já não escrevo sobre amor. Sei lá, ficou obsoleto e medroso esse meu viéz. Você me mandou virar a página e estou lendo novos livros. Em espanhol. Acho que a gente não teve a chance de conversar em espanhol. Você já estava muito fraco e, eu, com muito medo.

Fui medrosa, me desculpe. O medo e sei lá mais o quê, me fizeram ficar longe de sua doença. Nosso último abraço foi aquele do aeroporto. Acho que te abracei umas três vezes. Se pudesse, ficaria naquele abraço para sempre. Era o seu melhor. Era o meu melhor.

Suas últimas palavras foram “vai lá, filhinha”, e eu fui. Você mandou. E eu obedeci. Queria que você tivesse me pedido para ficar. Queria ter ficado.

Voltei e você já não era você. Eu te olhava e já tinha saudades do cara barrigudo e sério, por quem eu tinha o meu maior amor. Mas eu te reconheci nos dentes brancos e certinhos e lindos. Sua arcada dentária era incrível. Te reconheci na pinta da mão esquerda e nas próprias mãos, ainda pesadas e morenas. Te reconheci mais ainda na voz e quando você fez comentários sobre política. Quando você achou legal as cartas que eu li pra você na revista, aí eu tive certeza que era você. E sorri. O amor, ah, o amor ainda estava lá.

Você lembrou do meu aniversário e achou que fiz surpresa ao te visitar naquele leito. Eu estava sempre ali. E sempre vou estar.

À noite, depois do trabalho, durante anos, eu deitava ao seu lado, me aproximava, me aconchegava em sua barriga e, com o ouvido espremido em seu peito, dizia “olha, pai, seu coração está batendo”. “Ainda, bem, né?”, você respondia. “Pai, você está quente”, eu comentava. “Que bom! Significa que estou vivo! Imagina se não estivesse?!?”. E eu nunca, nunca imaginava.

Keep moving forward

Essa dor silenciosa é a pior dor que tem. É morrer por dentro cada dia um pouquinho. A cada semáforo vermelho, a cada chá preto, a cada nova música.

É estar mal o tempo todo em que se está bem. É não desmoronar quase nunca, desmoronando quase sempre. É buscar preencher o vazio com qualquer coisa que sabemos que não vai funcionar. Mas mesmo assim o fazemos.

É uma dor que dói tanto, que já não dói nunca. É um bichinho que incomoda o tempo todo, cutucando vezes sutil, vezes fortemente. É um desgosto constante de viver uma vida sem mais significado.

É ir à missa só por saber que ficar bravo com Deus não vai mudar a luta. Nada mudará.

É se esforçar para fingir viver, quando a alma está em frangalhos, moída, destroçada e ferida, detonada e jogada na cama, assistindo a qualquer episódio de Friends enquanto o corpo esboça falsos sorrisos ao tomar um cafezinho sem açúcar com qualquer pessoal.

A vida é o teatro que precisa rodar quando toca o despertador, abrindo a cortina do dia. O espectador só paga se gostar do show – que não pode parar. Cruel e simples. Um normal injusto pelo qual todo mundo, um dia, tem que passar. É assim, só assim, que a vida continua. E a gente carrega o guarda-chuva furado, enquanto o sol não brilha.

Ao começo da boa saudade

Em um momento de quase insanidade mental, puro êxtase proveniente do falso sentimento de enfim liberdade das amarras da dor que havia sentido, puxei o envelope que há muito habitava a bagunçada e revirada gaveta.

Cacau, como sempre o chamara – nem me pergunte o porquê –, também era canceriano, como eu, e pensava nos mínimos detalhes. A fita vermelha, minha cor favorita, amarrava com muita delicadeza palavras que jamais saberei reescrever.

Minha expectativa era mórbida, para combinar com a situação. Imaginava nuvens negras sobrevoando a escrita densa e sofrida. Dez anos de amizade e eu ainda não aprendi. Até morto, o ‘cidadão do mundo’ – como muitos o chamavam – é capaz de me surpreender.

“Chega de drama, dona Ana”, é o que certamente me diria neste exato momento de lágrimas escorrendo pelo teclado judiado do já muito usado computador. Foi assim que sua carta começou.

Uma viagem pelo tempo, relembrando cenários, memórias, o pátio do colégio que guardava meus sonhos de aspirante a escritora. Ele, o menino mais velho, que me enchia o saco por conta dos desenhos mal feitos deixados na mesa da inspetora quando chegávamos atrasados. Sempre chegávamos atrasados. E foi ali mesmo, na salinha daqueles que não conseguiam cumprir com o horário, que o cantinho mais disputado do primeiro andar – que era só meu – passou a ser nosso.

Fatídicas manhãs de segundas feiras em que fui apresentada ao rock clássico, destoando das meninas da mesma idade, que se deleitavam ao ruído mal interpretado de pagodes e duplas de criaturas a quem ousavam denominar “cantores”. “Isso sim é música de verdade, guria”, me convencia ao entregar-me uma cartilha com letras de quase todas as canções dos Beatles. ‘I’ll be back’ seguiria sendo nossa preferida pelos próximos muitos anos – descritos, por ele, à mão.

Muito do que Cacau lindamente escreveu, eu já nem me lembrava. A dor havia sido tanta, tanto sofrimento, lutas, desafios e ensaios de esperança, que a intensidade de nossos habituais risos e lágrimas se espalharam como que com o vento pela memória remota. Os flashes voltam todos agora.

Não dói. Acalenta. A leitura só faz sorrir. E no meio de frases me pego entendendo o objetivo de tanto detalhe. Não faria nada diferente. Se fosse eu, quereria ser lembrada da mesma maneira, com a mesma leveza e doçura.

Dividíamos nossa vida inteira. Ninguém no mundo me conhecia mais. Sendo assim, Cacau, então, me deixa conselhos que só ele saberia dar e só eu poderia entender. “Chega de drama”, “seja feliz enquanto valer a pena”, “abandone qualquer um , mas nunca aquele sonho ” e “lembre-se que chegamos e vamos embora da vida sozinhos. As pessoas com quem vamos dividir nosso trajeto devem ser escolhidas a dedo, porque só servem para fazer do árduo caminho longo, um prazeroso caminho curto”.

Sorrio. Mais uma vez. Sua veia meio poeta-filósofo-de-buteco, com frases-clichê proferidas de maneira teatral, sempre me encantava e envergonhava ao mesmo tempo.

Leio a última linha e fecho a última página. O poder das palavras só conhece quem por ele já foi submetido. Estarrecedor. Era tão real que soava como uma conversa, daquelas longas que tínhamos semanalmente, quase como religião.

Sinto que não seria, assim, tão irreal, se o sempre brincalhão  amigo saltasse de detrás do lixo do trabalho. Devia estar ali. Inconscientemente, procuro. Obviamente, não acho. Entendo.

Ouço com exímia clareza o som da ficha finalmente caindo. Conversas e conselhos. Cafés e chocolates suíssos. Peças de teatro, cinemas improvisados, botecos na baixa Augusta, viagens de final de semana, um carro e nenhum destino, personagens de um livro antigo, bibliotecas no meio da tarde. Nunca mais.

Disparo desespero em forma de inúmeras ligações e mensagens de texto. De resposta, sobra apenas solidão e lágrimas. Incrível. Seco por dentro, desidrato, desmorono. Cai a pele, a roupa, o ânimo. Caio no sofá.

Mundo injusto, concluo. Me apego a todas as religiões existentes ou inventadas por mim. Recomponho peça por peça. Falta um pedaço e, dessa vez, não finjo que não noto. Aprendi.

Volto a ser eu mesma. Frígida de choro, de uma enorme dificuldade de deixar molhar os olhos, por mais que estimulada.  Jeitão meu que, por hora, me sustenta.

Compreendo a falta como sendo a consequência de um passado de boas lembranças. Não há mais revolta, apenas gratidão. Da sorte que tive, não é justo, afinal, querer reclamar. Paro, então de pressionar o desconhecido, de exigir explicações da vida.

Hoje, se tivesse apenas um pedido a fazer, desejaria o endereço do divino. Deus ou Destino, tanto faz – diferentes nomes para mesmas indagações. E não seria para brigar, eu juro. Só queria um lugar para onde pudesse mandar uma notinha, o papel amassado, carinhosamente rabiscado, aquele que diz “muito obrigada por ter me apresentado um alguém capaz de fazer do mundo um lugar mais feliz”.

Éramos 15

Amizade é como amor. Tem que haver fidelidade, confiança, cumplicidade, carinho e tesão. Quando nos encontrávamos, todas essas características se faziam valer. E como bons amigos que éramos, chorávamos toda dor de amores incapazes de cumprir com os mesmos pré-requisitos.

Éramos 15. Um número extremamente redondo e completo, por mais que ímpar. E descobrimos, com o tempo, que amigo é mais que família que podemos escolher, é amor que não deixamos vingar.

Como bons amores, fizemos votos de união na saúde e na doença. E, estes, não deixamos de seguir.

Os médicos diziam que não tinha mais jeito. Mas amizade é religião, e a nossa fé acreditava que tinha sim. Quando o diagnóstico apontou um mês de vida, fizemos mandinga, promessa, ritual de passagem e dança da cura. O mês virou um ano, que virou dois, que virou cinco. Mais um componente ímpar para nossa coleção de bons números.

Cinco anos de afeto e cuidados. Anos de medo, em que o coração quase parava com o toque do celular às três da manhã. Ironicamente, este foi o horário em que, de fato, fora anunciado o seu partir.

Se ser amigo é também cumprir promessas, falhamos ao chorar compulsivamente a falta que já nos fazia.

Amizade não comporta egoísmo, mas a verdade é que, mesmo ao acompanhar todo seu sofrimento, torcíamos pela continuidade do tratamento – que acarretava em risadas, conselhos e conversas intermináveis, mesmo quando com imensa dor.

A amizade sofre de cegueira maior do que o próprio amor. Nem mesmo em seus minutos finais enxergávamos a magreza, palidez e olheira presentes no já tão frágil corpo. Na memória, apenas a imagem do menino metido que, ao se livrar do antigo boné azul, virou homem maduro e corajoso, que lia auto-ajuda apenas para dar risada e decorar clichês. Sabia de cor os melhores trechos dos melhores livros de Gabriel García Márquez. ‘Crônica de Uma Morte Anunciada’ era seu favorito. Mundo irônico. Cruel.

Suas leituras sobre budismo e espiritismo, e todo aquele papo repetitivo sobre desapego do corpo e importância da alma, chegava a nos entediar. Hoje esboçamos um sorriso triste, entendendo que – atencioso e preocupado como era – arrumava sempre maneiras de, com muita sutileza, nos preparar para o iminente momento do fim. Estava próximo, e ele sabia.

O acordar às três da manhã à espera de notícias ruins ainda é reflexo do organismo lerdo que não entendeu o que a mente também teima em não aceitar. O único ensaio de alívio que dá, é saber que aproveitamos com extrema totalidade e entrega todos os inúmeros momentos que passamos juntos. Doamos aquilo que tínhamos de melhor e sugamos tudo o que tinha a oferecer.

Amizade é fidelidade, confiança, cumplicidade, carinho e tesão. E ele era o símbolo de tudo isso. Deixou 14 cartas escritas a punho com o enfermeiro fiel. Como bom canceriano que se preze, fez questão de imprimir seu sentimento a cada passo dado. E não seria diferente, nem mesmo com a morte por perto. Sei que todos os calhamaços começam com “querido (a) amigo (a)”, e que em cada carta estão detalhadas diferentes experiências de 28 anos vividos com intensidade. Mas – embora tenha a certeza de que a leitura de cada palavra me remeterá a momentos incríveis, memórias que valem a pena e sabedoria milenar –, ainda não tive coragem de rasgar o selo vermelho que fecha, com muito cuidado, o enorme envelope branco. Sei que nem o mais bonito dos poemas será capaz de suprir sua falta e amenizar essa imensa dor.

Prometemos continuar a frequentar nosso famoso boteco, sem deixar a tristeza dominar os constantes encontros de segunda feira. Mas é impressionante como a sofrida subtração de apenas um, pode criar um vazio tão imensurável.

Não tem jeito, concluímos. 14 nunca será um número redondo, por mais que par.

Crime passional

Tarde. Um domingo chuvoso. A casa vazia. Um vinho. Lógico, típico. Mas dos melhores. O clássico, do tipo que nunca decepciona, tinha gosto amargo.
A uva, colhida com tanto carinho no penúltimo outono, descia rasgando a garganta, cruel. Não fosse oferecido por gente de confiança, temeria ser veneno.
Bebida tão cara para perder o gosto. Um efeito estragado do sentimento pisado. Sem dó. Nenhuma gota de mel no fel da vida.
Fez de meus dias melancolia. Me tirou, primeiro, o prazer de sonhar. Agora, tira-me o raro reconforto de um saborear tão nobre. Só lhe resta, então, tirar-me o respirar.
Chega! Te arranco de mim, que é para não me matar.

Se pudesse ajudar…

Pensei, pensei, refleti, pensei mais e tudo isso não sai da minha cabeça. Tantas imagens, informações, uma enxurrada de desastres e lágrimas. A vida humana como ela é: frágil, pequena, sujeita, impremeditável. 
A morte tão de perto. A natureza, bela, vira um monstro e o sentimento de solidariedade, a vontade de ajudar faz com que a sensação de pequenez e inutilidade fique maior ainda. Nada a se fazer de concreto. Alimentos, roupas, dinheiro. É só o que é possível de tão longe e vidas, tantas vidas perdidas não voltam com um ‘sinto muito’, nem que este venha do papa. O conforto de familiares e amigos é uma missão impossível.
Problemas. Uma vez, discuti bravamente sobre a dimensão de problemas pessoais que, tão pequenos aos olhos, doíam tanto no coração. Um sofrimento bobo, quase em vão. Problema é chegar ao fundo do poço, detonado por lama, pedras e água, muita água.
 Três da manhã. Tão difícil de se safar. O barulhinho da chuva, propício para o sono pesado, gostoso, fatal. O maior desastre natural. Não escolheu raça, classe social e muito menos turistas ou nativos. Arrasou tudo que ousasse estar no caminho.
Cenário de guerra. Tentativas de salvamento. A escolha entre a própria vida ou o bichinho de estimação. Pesar. Casa? Que casa? Irreconhecível. Não dá para saber o que era sala, cozinha, banheiro. A cor das paredes, agora inexistentes, pintadas de marrom. Assim como carros, lojas, hospitais, igrejas, bens materiais que não valem uma vida, mas precisam de uma, quase inteira, para serem conquistados. Perdeu-se tudo: moradia, roupas, alimentos. Ironicamente, não há mais nem água. Perdeu-se todos: pai, mãe, filhos, parentes, amigos, vizinhos. E a mãe natureza não dá trégua, não mostra carinho, perde o olhar fraternal. Parece raivosa, irada, impiedosa. Chega a ficar forte a dúvida sobre a existência de Deus, mas, mesmo assim, ora-se, pedindo pela alma daqueles que se foram e pela vida daqueles que ficaram. 
Em momentos como esse, palavras não são suficientes. Então, em meio à desolação e tristeza, esperança e fé na superação. É só o que sobrou.

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