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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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ônibus

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– O que a senhora está fazendo aqui a essa hora, tão cedo?

– Vou pra casa da patroa, né?

– Mas a senhora tá aposentada já, não fica em casa por quê? Já com idade, quase sem força. Olha aí, carregando peso, pegando ônibus, mais de um! Pra quê?

– Ah, a patroa tá com uma doença lá, não posso deixar sozinha, tem que cuidar dela!

– Mas a senhora também tem que se cuidar. Fica aí fazendo trabalho pesado, limpando, preparando o café da manhã pros outros. Podia estar em casa, fazendo a sua comida, cuidando da sua saúde, sua casa, suas coisas. A patroa já não tinha te dispensado, não?

– É. Mas a gente se apega tanto que acaba virando escravo…do coração.

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Cotidiano

Não sou eu! Não sou eu! Suspirou visivelmente aliviado com os braços levantados segurando na barra de ferro para não desequilibrar. Com o objetivo de ajudar, o mais alto abriu a tampa do teto, mas o mau cheiro se espalhava com o vento que entrava pelas pequenas janelas e como quando alguém boceja, o ato de levar o nariz disfarçadamente para debaixo do próprio braço se espalhou como vírus.

O resultado levava a um sorriso meio sem graça, envergonhado, porém aliviado e o inevitável olhar para os lados a fim de identificar o ‘culpado’ foi em vão. Este soube esconder sua culpa muito bem em um sorriso forçado ou, no mínimo, nem percebeu a silenciosa comoção enquanto babava no ombro de algum desconhecido sentado ao lado.

Ponto de observação

"Muitos prédios comerciais já estão com suas portas fechadas, mas as luzes da rua não me deixam notar que já passa das nove da noite"

 

Passa ônibus, passa ônibus, passa ônibus. Nunca é o meu, lógico! E no meio de um raciocínio: “Pipoca, amendoim, docinho de caju. Um real moça, vai aí?” “Obrigada” respondo sorrindo, reflexo do riso interno, afinal, era exatamente nisso que pensava. Não na pipoca ou no amendoim. Muito menos no docinho de caju. Mas nas personagens que aqui se encontram.

Tem de tudo: um menino ensina história à amiga não muito interessada com explicações como “e foi aí que a guerra fudeu tudo mesmo…”; um mendigo declama em dialeto próprio o que imagino ser, no mínimo, uma poesia ou algum ato de dramática peça, devido à expressiva interpretação; um casal de meninos modernos desfila exuberantes e apertadas calças ao passear com seu poodle de estimação; uma menina sai do McDonald’s com três sacos de lanche para viagem e me pergunto como se equilibrará no ônibus se suas pequenas mãos não dão conta nem de segurar a bolsa caindo do ombro.

Pessoas saindo do trabalho, cansadas. Jovens decidindo a balada, animados. Um fone de ouvido gigantesco me chama a atenção. Não por ser enorme, mas por sua cor. Laranja, combinando com a camiseta do esbelto cidadão fazendo Cooper.

Muitos prédios comerciais já estão com suas portas fechadas, mas as luzes da rua não me deixam notar que já passa das nove da noite. Táxis, carros e ônibus competindo com pedestres que teimam em ameaçar atravessar no sinal vermelho. Pézinhos inquietos com sapatos de todo tipo, melhor do que um desfile de moda.

Uma figura que não consigo definir o sexo coloca seu chapéu, afina a sanfona e depois de um longo suspiro toca o primeiro acorde. O show vai começar.

Ôpa, meu ônibus chegou logo agora! Vou para casa. (quase) Uma pena! Conto as moedas e, já com o pé apoiado no primeiro degrau, olho para trás quase que com pesar.

Parece estranho, mas é o efeito que a Avenida Paulista sempre causa em mim.

Arteiro fugitivo, o melhor amigo do homem

"Não é a primeira vez que o cachorro foge. Da outra vez, sumiu por seis meses de árdua e incessante procura"

 Seis e meia da tarde. Sentada num ponto de ônibus vazio. Sexta feira, véspera de feriado. O ônibus demora mais que o esperado e já sei que o caminho de volta para casa não será muito diferente. O carro vermelho com um motorista bocejante está parado em minha frente e há mais dez minutos não se moveu nem um único centímetro. Uma espera monóóótona.

Eis que amarrado a uma cordinha improvisada passeia um espivetado e tanto quanto alegre vira-lata. Seu dono, mais espivetado e alegre ainda, conversa com o bicho como quem passa sermão em uma criança arteira. Sorrio ao ver a cena que, dotada de uma peculiaridade sentimental, me comove.

Alertado pelo sorriso, o moço puxa o cachorro para o meu lado da calçada e como que convidado a falar, conta fragmentos de sua história: “acabei de achar, tava fugido”. Não é a primeira vez que o cachorro foge. Da outra vez, sumiu por seis meses de árdua e incessante procura. Agora foram só dois dias. “Ele era de rua e como sei que fica sempre com os mendigos, foi fácil de achar, fui lá para baixo do minhocão”. Expresso contentamento com a notícia e ele balança a cabeça com sentimento de missão cumprida, satisfeito. “Não teve jeito, saí para trabalhar e ele correu atrás, acabou foi se perdendo. Pior que o outro, grandão, fica chorando lá em casa. Mas hoje vai ficar feliz e eu aliviado, fiz o dia dele e ganhei o meu!”

Vestia um colete com um logo de marca de pneu e sujo de graxa, presumo que seja borracheiro. Ele sai  sem se despedir feliz e contente, voltando a dar bronca no recém-encontrado. A última coisa que ouço é “e nada de roer suas coleiras de novo”. Os dois companheiros seguem seu caminho e eu sigo o meu. Sorrindo.

A cidade em você

Por Ana Carolina Pereira

Será que dá para fazer amizades atravessando a rua? Não? Nem um 'oizinho'?

Outro dia, sentada num banco do ônibus, imaginei quantas pessoas já teriam se sentado alí. A princípio, esse tipo de indagação não faz sentido. É apenas mais um daquele monte de pensamentos completamente nulos que temos ao longo do dia. Mas realmente me empolguei considerando o fato de que eu, de repente, poderia muito bem conhecer, ser amiga ou apenas ter cruzado por aí com pelo menos uma pessoa que se sentou naquele mesmo banco, daquele mesmo ônibus.

A partir desse pensamento, foi possível refletir. Em discussões em sala de aula e conversa com amigos, já ouví a muitas reclamações como: ”as pessoas em São Paulo não se conhecem, não saem de seus nichos, de seus ‘mundinhos’. Os vizinhos não são amigos, nem sabem os nomes de quem pega o elevador todos os dias juntos e nem  sempre cumprimentam”, entre muitos outros, todos seguindo a mesma linha.

Quanto a cumprimentar o vizinho no elevador, devo dizer que depende da educação e bom senso de cada um. Mas poderia discorrer sobre o “mundinho” em que cada pessoa vive.

Vivemos numa cidade frenética que, quando dorme, acorda muito cedo e está sempre pronta para mais e mais trabalho, escola, compromissos, reuniões, aulas de yoga, natação, cursinho, aulas de inglês, teatro , entrevista de emprego etc. E a maioria dos cidadãos comuns (chamo de comuns, nesse caso, aqueles que têm o prazer, ou desprazer, de sofrer da “loucura paulistana”) já não conseguem cumprir suas tarefas e afazeres diários em apenas vinte e quatro horas. Todos estão sempre correndo, atrasados e se fecham em seus mundos, dentro de seus carros ou concentrados em seus fones de ouvido.

É possível perceber que as características da cidade são projetadas nas pessoas, que acordam todo dia, muitas vezes antes mesmo do sol ou junto com ele, para seguir sua rotina. E pegam o mesmo ônibus, fazem os mesmos caminhos e cruzam, muito provavelmente, com as mesmas pessoas. A cidade se relaciona com os cidadãos, mas esses ignoram os que estão ao seu lado.

Essa parece ser a grande diferença entre interior e a cidade grande. Imagino ser, pra não dizer impossível, completamente utópico imaginar uma São Paulo em que as pessoas se cumprimentam pelo nome pelas ruas, nos pontos de ônibus e atravessando a faixa de pedestres na avenida Paulista, por exemplo. Há que se entender que se o ritmo da cidade é solitário, apressado e muito trabalhador, o ritmo dos moradores da adorável e, muitas vezes, irritante metrópole é quase o mesmo.

O jeito seria balancear o lado acolhedor, educado e simpático de cada um com a correria e estresse do dia a dia. Assim, podemos todos ser um pedacinho vivo da cidade sem perder a humanidade. Afinal, somos pessoas – de carne, osso e sentimentos – que fazem parte de uma metrópole e não mais um pedaço de concreto com tentativas frustradas de se humanizar.

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