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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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rotina

Hoje é domingo, pede cachimbo…

…O buraco é fundo, acabou-se o mundo.

Ficou bebadinha no almoço de família e confessou ao primo de segundo grau os sonhos eróticos que andava tendo.
A tia brigou com o tio, que ofendeu a vó ao criticar sua comida salgada.
O vô dormiu no sofá, enquanto o timão perdia de 2×0.
A prima não saiu um segundo do celular, fofocando com amigas distantes, e a mãe tentava desvendar os segredos encontrados na mochila do filho.
O pau começou a quebrar quando o espertinho do cachorro lambeu o molho de tomate feito para o macarrão.
O irmão, astuto, comeu o frango – ainda intacto – sem saber que o pai percebia que tava doidão.
O vizinho trouxe uma boa sobremesa. Mas ninguém deu bola.
O astro, para variar, foi a torta de abóbora da vó, que, mesmo queimada, tinha gosto de tradição.
Tem gente que chora, que ri e que arruma desculpas para se safar – mas sempre tá lá.
E assim, todo domingo, é feita a mesma refeição.

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Alô, dona de casa

É mais ou menos assim: o organismo, veja bem, já se acostumou com a ideia de acordar antes, bem antes, das duas da tarde. Tem gente que diz que são hormônios de gente grande, já eu, creio ser apenas uma injustiça do tempo, que faz a gente acostumar até com o acordar quando tudo que se queria era esparramar o corpo, anseios e sonhos em lençóis macios sem pressa ou compromisso.

A gente acorda, então, mesmo sem o apitar de um despertador pra vida, já mais convencida de que o outro lado da cama (aquele, vazio) deve ficar assim mesmo por algum tempo, levanta, escova os dentes de porta aberta, escolhe um vestido, uma meia-calça, uma sapatilha. Confere a geladeira, percebe a falta de danoninho, gosto de infância, e anota na tentativa de lista grudada no armário de besteiras, os itens de sobrevivência a serem comprados na semana.

A ideia de escolher produtos de limpeza no supermercado ainda confunde um pouco e é nessas horas que a gente percebe que a verdadeira função do elevador é pegar dicas com as incrivelmente solícitas e simpáticas faxineiras alheias.

É de praxe também dar umas risadas ao retirar a correspondência com o porteiro. A gente sabe que rádio-peão existe em todas as profissões, mas você não faz ideia do poder do tanto de informações que têm os porteiros – sabem das entradas e saídas, acompanhantes, brigas, pegações no elevador e nas escadas, separações, reclamações, encomendas, brigas de vizinhos, conhecem pijamas e até rotinas de delivery.

Na volta do mercado, um cafezinho na padaria, uma passada na floricultura. Nunca imaginei colorir minha casa com flores vivas, de fato, mas, assim como o sono, a vontade de concreto diminui de tempos em tempos.

Preparar o almoço ao som de sessão da tarde, aprender a temperar feijão, descobrir que alguns legumes são mais gostosos refogados do que cozidos, fritar bife sem contaminar a casa toda e lavar a louça sem reclamar. Tirar um cochilo de beleza, bem torta, espremida no sofá, acordar com vontade de gente. Visitar um amigo querido, tomar café da tarde com caipirinha, cerveja, uísque ou café mesmo, colocar as fofocas em dia e deixar em aberto um jantar no japonês.

Navegar um pouquinho pelas redes sociais, ainda evitando, agora sem culpa ou pesar, a página que insiste em continuar em branco no word e assistir com muita atenção a qualquer coisa no Discovery Channel.

Colocar o pijama só para ficar confortável ao ouvir as peripécias do dia agitado da roommate, optar por atum com torradas no jantar, esticar os velhos lençóis amaciados e perfumados, magicamente, pela máquina de lavar, sorrir ao comer um danoninho como ceia, beber água direto da garrafa, trancar as portas e apagar as luzes, observando sem pressa a vida que passa enquanto a gente descansa o corpo na rede da varanda florida.

Repousar o corpo com enorme prazer no macio do colchão semi-novo e assistir ao Saia Justa e até ao Programa do Jô sem se preocupar com dormir tarde ou pouco. Amanhã, o dia também será deliciosamente desplanejado e ocioso. Pensei até em ir correr no parque, veja bem.

Rotina

E aí eu te vejo vivendo essa vidinha sem graça, chata, com essas manias ridículas.

Os mesmos horários.

Mesmos programas de sábado à noite, o mesmo cansaço nas tardes de sexta feira, o mesmo passeio aos domingos pela manhã.

Os mesmos bares, mesmos pratos, mesmos drinks.

Mesmos discursos, mesmos conselhos, mesmo café.

Mesmos discos, mesmas músicas, mesma dança.

 E me dá (mesmo) tanta vontade de fazer parte de tudo isso.

Tomorrow never knows

Posso não te deixar nada. Nenhuma boa lembrança que te faça sorrir numa tarde ociosa de quinta feira, nenhum arquivo de word escondido na pasta de nome difícil de achar no computador, nem um mísero momento de devaneios num almoço solitário no meio da semana, nada.
Mas as minhas mensagens, notas desesperadamente confusas escritas no caminho para casa e rascunhos de e-mails nunca enviados ou postados no blog, um dia, certamente, virarão um livro.
Te entrego, envio por sedex 10, juntamente com uma carta em agradecimento pelos momentos que, graças a você, foram muito mais fáceis de superar. Pelos sorrisos abertos de maneira muito mais natural. Pela criatividade – e consequente produtividade – enfatizada pela química dos hormônios à flor da pele. Pela incompreendida vontade e improvável bom humor ao levantar da cama – mesmo num horário desumano e sabendo que o dia não será tão agradável – só para saber o que os instantes que passarei com você me reserva.
O tesão com que vivo minha (tão comum) vida nesses poucos meses de ilusão e aventura romântica de sabido fim iminente – de inevitável, irremediável, ponto de interrogação ao final do mês que se aproxima -, de tão bom, por mais que incerto, te dá o direito, todo ele, de não me guardar numa caixinha dentro do peito.
Não quero ser sua eterna lembrança, mas sua intensa rotina. Não quero ser motivo de textos nostálgicos, mas de incontrolável vontade de largar a leitura no meio do expediente e sair para tomar um café com direito a conversa de três horas. Não quero ser personagem insistente dos sonhos noturnos, mas presença constante nas tardes de cama sem nem pensar na possibilidade de dormir.
Pode me esquecer, ignorar, deixar para trás e substituir na próxima primavera. Mas agora, me tenha presente. De verdade, sem frescura, sem joguinhos e sem espera.

Ponto de observação

"Muitos prédios comerciais já estão com suas portas fechadas, mas as luzes da rua não me deixam notar que já passa das nove da noite"

 

Passa ônibus, passa ônibus, passa ônibus. Nunca é o meu, lógico! E no meio de um raciocínio: “Pipoca, amendoim, docinho de caju. Um real moça, vai aí?” “Obrigada” respondo sorrindo, reflexo do riso interno, afinal, era exatamente nisso que pensava. Não na pipoca ou no amendoim. Muito menos no docinho de caju. Mas nas personagens que aqui se encontram.

Tem de tudo: um menino ensina história à amiga não muito interessada com explicações como “e foi aí que a guerra fudeu tudo mesmo…”; um mendigo declama em dialeto próprio o que imagino ser, no mínimo, uma poesia ou algum ato de dramática peça, devido à expressiva interpretação; um casal de meninos modernos desfila exuberantes e apertadas calças ao passear com seu poodle de estimação; uma menina sai do McDonald’s com três sacos de lanche para viagem e me pergunto como se equilibrará no ônibus se suas pequenas mãos não dão conta nem de segurar a bolsa caindo do ombro.

Pessoas saindo do trabalho, cansadas. Jovens decidindo a balada, animados. Um fone de ouvido gigantesco me chama a atenção. Não por ser enorme, mas por sua cor. Laranja, combinando com a camiseta do esbelto cidadão fazendo Cooper.

Muitos prédios comerciais já estão com suas portas fechadas, mas as luzes da rua não me deixam notar que já passa das nove da noite. Táxis, carros e ônibus competindo com pedestres que teimam em ameaçar atravessar no sinal vermelho. Pézinhos inquietos com sapatos de todo tipo, melhor do que um desfile de moda.

Uma figura que não consigo definir o sexo coloca seu chapéu, afina a sanfona e depois de um longo suspiro toca o primeiro acorde. O show vai começar.

Ôpa, meu ônibus chegou logo agora! Vou para casa. (quase) Uma pena! Conto as moedas e, já com o pé apoiado no primeiro degrau, olho para trás quase que com pesar.

Parece estranho, mas é o efeito que a Avenida Paulista sempre causa em mim.

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