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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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São Paulo

O primeiro dia do resto da minha vida

O primeiro dia do resto da minha vida escritora foi quando sentei à frente do computador e escrevi sozinha minha primeira história.
Não deu tempo de esperar a inspiração chegar. Algo tinha que ser entregue. Então entreguei.
O primeiro dia do resto de minha vida escritora tinha eu e uma página de word em branco, referências abertas em abas do safari, um copo de água ao meu lado e a Niña tentando subir no meu colo.
Não me lembro se tinha chuva ou se tinha sol. Mas tinha uma vontade imensa de mergulhar pelas palavras conhecidas em um formato tão novo. Tinha muita insegurança e um medo danado de não ser boa o suficiente. Mas tinha também a certeza de que seria o melhor que eu poderia ser. E fui.
O primeiro dia do resto de minha vida profissional não teve glamour. Porque era só o começo. Mas teve vinho, teve pizza e teve conversa que durou mais de sete horas, mas pareceu passar apenas em duas.
No primeiro dia do resto da minha vida escritora, dei pulinhos empolgados e assustados com o que estava por vir. Neste primeiro emocionante dia, segurei com firmeza a mão da dupla perfeita, remei e descansei. Encarei os olhos do desconhecido e murmurei a palavra confiança.
Este também foi o dia em que minha fé na humanidade foi restabelecida – ainda tem gente legal nesse mundo, sabia?
E neste primeiro dia do começo da minha vida eu sorri enquanto subia a Augusta cumprimentando seus habitantes raros e magníficos.
O primeiro dia do resto da minha vida escritora teve eu e teve a certeza de que eu poderia ser um alguém igualzinho àquele dia. Maravilhoso.

Vem ser dono do meu nariz

Aeroporto de Cumbica, Guarulhos, SP, Brasil:

– Então tá bom, gente! Tchau!!
– Tchau, boa viagem!!

– Tá, então eu vou! Tchaaau!!
– Tchau!!!! Boa viageeem!

– E aí? Acho melhor você ir, né?
– Aham. Sim, sim. Eu vou!
– Então coragem, vai!!
– Hãm…ok…então….eu vou…tchau!!
– Tchau!

Se alguém me pedisse para ficar, se sugerisse que assim, de repente, desistir não seria tão feio, não duvido que neste exato momento estaria escrevendo qualquer outra coisa sentada em minha cama em São Paulo, Brasil.

Ninguém me impediu. Nem eu dei o braço a torcer. Mas chorei durante todo o voo. Talvez as lágrimas tivessem mais a ver com o medo incontrolável causado pela absurda turbulência. Ajudou um pouco o fato de as aeromoças não estarem sorridentes ou servindo aquela gororoba que eles chamam de “frango” ou “massa”.

Mas tudo bem. Sobrevivi, enfim. E agora escrevo sobre essa história sentada em minha cama em Guanajuato, México. Eu gosto daqui. Gosto mesmo. Pela primeira vez na vida eu não sei o que é congestionamento. Chego aos lugares em 15 minutos, a pé. Sei o nome de 80% da população local. Toda segunda-feira conheço alguém diferente. Um chico ou uma chica que sempre tem mais ou menos a minha idade, exerce as mais diversas profissões, fala muito bem ou nada de espanhol, é legal ou insuportável, mas que sempre acaba virando um grande amigo.

Em minha lista de telefone existem nomes comuns e muito mexicanos como Maria Guadalupe e Juan José. Mas também tem Sebastien, Ashleigh, Momoka, Asusa, John, Asaki, Catalina, Katrin, Emily, Carl, Cindy e mais, muito mais. São amigos temporários porém intensos que, em sua maioria, vêm de países como Austrália, Suíça, Estados Unidos, Japão, China, Alemanha e Canadá.

Principalmente quando aparece algum brasileiro perdido nessa torre de babel, em dois dias já viramos companheiros de 10 anos, do tipo que xinga, faz piada idiota, ri da cara do outro e abre a geladeira sem pedir permissão.

O povo mexicano é tão caloroso quanto o brasileiro. Mas isso pode ser bom e ruim. Quase não há choque de cultura, mas às vezes dói presenciar um abraço fraternal e pensar que seus abraços ideais estão bem bem longe, a muitas turbulências de distância. Assim, os europeus mais frios são capazes de oferecer o apapacho mais carinhoso e o japonês, desacostumado ao contato físico, é o único amigo que pega na sua mão ao perceber nervosismo ou inquietação.

Viajar e morar fora são duas coisas completamente diferentes. Aqui eu tenho que matar alacranes, encontrar o foco de aranha, me preocupar com o gás, com a água e com a janta. Para tudo isso, não raras vezes conto moedas do trabalho que às vezes eu queria largar. Se eu fico doente, viro meu médico, motorista, pai e mãe. Faço compressa, preparo chá e seguro meu próprio cabelo se tiver que vomitar.

A primeira vez que passei um tempo fora, voltei para casa, adolescente, e meu inferno foi perder a liberdade conquistada. Voltar a obedecer antigas regras, dar satisfações e não viver a #vidaloka era quase a morte.

Dessa vez conheci a independência e entendi que vem com muita responsabilidade. Voltei para casa, para visitar. Comi a comida da vó, assisti à televisão com meu pai, busquei meu irmão na escola, passei agradáveis momentos com a minha mãe. Dessa vez, a satisfação dada foi espontânea. Saí pouco, mas sempre detalhando com quem, a que horas, quem levaria, quem buscaria e mantive impreterivelmente meu celular ligado a todos os momentos.

Semana passada, já de volta à casa mexicana, a japonesa que mora no quarto vizinho resolveu fazer uma reunião de “família” para explicar – com uma história sem pé nem cabeça, mas cheia de detalhes provavelmente inventados – os motivos pelos quais não havia dormido em casa na noite passada. Seus pequenos olhos fechados se viam marejados e sua culpa e dor por ter desobedecido uma das leis da casa – aquela que diz que é preciso avisar se for trazer algum visitante ou se for passar a noite fora – era tocante e evidente.

A australiana, a americana e eu a perdoamos, claro. Mas entreolhares entendemos que ninguém havia percebido a ausência de nossa querida amiga e roommate. Na verdade mesmo, contanto que ela e todas nós estivermos vivas na manhã seguinte, não importa.

O fato é que nosso maior desejo, aqui na nossa liberdade, é que alguém nos dê bronca por sair sem casaco, que nos prepare uma canja em dias de gripe, que nos empreste uns trocados para tomar uns goles de tequila e que nos espere acordados. Ter alguém a quem dar explicações e inventar mentiras e encontrar argumentos nunca se fez tão importante.

Lá em Guarulhos, minutos antes de embarcar, torcendo para dar dor de barriga, ter um treco ou milagrosamente voltar a ser um bebê, minha resistência nada tinha a ver com o amor que tenho a este pueblo chiquito e maravilhoso que encontrei aqui no meio do deserto, ao curso, ao trabalho, aos amigos. Minha quase desistência teve mais a ver com matar insetos, preparar minha comida, pagar minhas contas, resolver meus problemas em espanhol, exercer a paciência e fazer escolhas completamente sozinha. Meu medo, afinal, não era do avião, era de , de novo, sair da barra da saia da mãe.

Buena onda

Chuva que lava o chão da alma, escurece o céu e clareia a mente.
Deixe-me enxergar através de límpidas gotas de frescor tudo aquilo inchado pelo calor.
Deixo limpar enquanto espero paciente o libertar do caminho à casa de Linda.
Lindos são os costumes de um povo que desconhece o consumismo, que vangloria o esquecido abraço, que caminha sem pensar em estética e nunca tem pressa, por isso para para conversar com vizinhos e antigos amigos.
Chuva que cai sem reclamações, vem apagar o agito da velha cidade, leva tudo aquilo embora.
Traz Guanajuato pra dentro do meu peito que não mais chora.

A hora de ir pro altar

Cidade do interior é assim mesmo: calor durante o dia, frio durante a noite. Aquela calmariiiiiia que inquieta, ao invés de acalmar, qualquer um acostumado com uma metrópole. Ar puro, vizinhança inteira se conhece, é amiga e todo mundo sabe da vida de todo mundo (‘aquela ali tem um caso com o bonitinho que mora em frente àquela moça que engravidou do coroinha, lembra? Então, aí…’), uma maravilha!

Praça de interior é assim mesmo: crianças brincando enquanto o sol ainda raia, jovens se embebedando e paquerando à luz da lua. Um clima acolhedor, sensação de cobertor velhinho em noite de inverno.

Tias do interior são assim mesmo: acumulam as meias ainda não entregues – presentes de 3 aniversários e 4 natais -, enchendo a gaveta do guarda roupa para o rigoroso inverno. Fazem aquelas receitas de bolinho de chuva que ninguém, no mundo, sabe fazer igual e, acompanhadas de chocolate quente no capricho, ouvem suas histórias xoxas, da vida comum, como se fossem acontecimentos do ano.

É uma delícia, por mais que tedioso, vistá-las nessa época do ano. Por lá, a festa junina é da melhor qualidade. Arroz doce, canjica, quentão, bolo de fubá, broa de milho, tudo caseiro! A festa é de São João, mas as tias são devotas de Santo Antônio, o casamenteiro, e levam tudo muito a sério:

– Minha filha, tome: pão de santo Antônio, bolo de santo Antônio, água de santo Antônio! Tome tudo, tudinho!

– Mas é muito…

– Olha, hoje em dia, até santo tá cobrando juros, correção e ainda entra na onda da inflação! Faça direito, menina, se ajude: beba tudo, coma tudo e aproveita pra fazer essa novena aqui, tó!

– Tá bom, tia, obrigada…mas…

– Você quer ficar que nem a filha do dono da vendinha? Olha lá, que dó: quarentona, solteirona, de tão desesperada usa essas roupas curtas nesse frio, viu só?! Você quer ficar assim, quer?

– Não, tia, mas é que….

– Sabe? A a mãe da moça que engravidou do coroinha tem muita fé! Ela fez que fez promessa, fez que fez novena e não é que o santo atendeu? Só que ela, coitada, pedia errado: em vez de genro, pedia um neto e cá ele veio! Mas a moça, coitada, agora tá mãe solteira! Você quer ficar assim, quer? Quer?

– Não, tia, mas é que…

– Tome, minha filha, mais um pedaço de bolo e leve esse pão com você, que é pra quando sentir que tá indo, mas não vai…Sabe assim, aquela sensação?

– Na verdade, não, mas…

– Olha aqui, Esmeralda, a cria vai voltar pra cidade grande munida de santo Antônio no estômago e, se o santo quiser, no coração!

– Que bom, minha filha! Esse foi feito com muita fé! Do próximo ano não passa, agora sim você vai arrumar um marido!

– Mas eu…não quero arrumar um marido no próximo ano…

– O QUÊ? NÃO? COMO NÃO? FÁÁÁÁÁTIMA, CORRE AQUI!! COSPE, MINHA FILHA! COSPE! COSPE TUDO! PÕE ESSE DEDO NA GUELA, COSPE, COSPE!

– Ai, Esmeralda, que bom que deu tudo certo com a bichinha! Preciso avisar que ela esqueceu as meias, ano que vem a gente entrega junto com os próximos pares! Ai, ai, que idade bonita a dela! Mas ela tem razão, é muito nova, teem tanta vida pela frente… que bom que a gente fez ela cuspir o bolo, o pão, a água…

– É, isso aí a gente deu um jeito, né? Mas quero ver o que que eu vou fazer agora com os número dela que eu distribuí pros meninos, filhos das cumadres daqui, que moram na cidade grande. Avisei que a cria tava feita e que tava procurando marido…

– ESMERALDA!!!!

– Ah, Fátima, sabe como é, né? Não dá para deixar tudo na mão do santo assim hoje em dia. Só quis dar uma forcinha…

Bem vindo de volta, São Paulo

OBS: este texto é uma reedição (blog naotembulameuremedio.wordpress.com)

Quase 2 meses depois da data oficial, o ano começou (agora na prática). Quem ia viajar, já viajou. Quem é fã da mais famosa festa brasileira e passa o resto do ano pensando em pular carnaval, já pulou e, provavelmente (salvo algumas raríssimas excessões) , todas as promessas de ano novo já foram descumpridas: já percebemos que é quase certo que continuaremos a estudar para as provas na véspera, que não teremos tempo para ler mais livros, que não faremos uma limpa no armário abarrotado de roupa, não caminharemos pelo menos 3 vezes por semana, não subiremos escadas ao invés de usar o elevador, não seremos mais pacientes no trânsito e não, não vamos começar um novo regime na próxima segunda feira.

Isto entendido, o ano finalmente começou. Tirando o fato de que escrevemos as datas repetidas, mudando apenas o 2010 por 2011, é quase como se tudo continuasse da mesmíssima maneira, inclusive o lugar em que moramos.

Há um certo vazio dentro da cidade nas férias que me intriga. Tenho que confessar que o fato de quase metade da população suburbana se afugentar em praias lotadas, casas de parentes no interior ou até mesmo países distantes, faz com que a vida do paulistano que fica seja um pouquinho mais agradável. A sensação que tenho é que consigo ocupar um lugar maior na grande metrópole. E isso serve para pequenos clubes noturno (em que antes, não se podia nem sonhar em dançar empolgadamente, porque corria um grande risco de bater em pessoas desconhecidas) e cinemas, por exemplo. Sinto até que posso escolher, de fato, o restaurante em que quero jantar de acordo com as minhas preferências gastronômicas e não apenas levando em consideração o tempo de espera e o estresse que passaria esperando por uma mesa. Lugares mais vazios, menos congestionamento, menos filas, quase a perfeição. Mas ainda assim, alguma coisa me incomoda. Me lembro de já ter citado, em texto passado, como nos tornamos um pedacinho da cidade em que moramos e volto ao mesmo ponto. São Paulo que eu conheço é frenético, lotado, estressado. Passando férias e feriado por aqui me sinto como se tivesse viajado e estivesse conhecendo alguma cidade mais tranquila e bem mais calma.

Mas é melhor não se acostumar muito, pois passado o carnaval, subitamente se percebe uma movimentação estranha. Não chego mais aos lugares em 20 minutos, não passeio tranquilamente pelas ruas e muito menos consigo chegar depois das dez da noite e me deparar com uma mesa sorrindo para mim, me esperando no barzinho mais famoso do bairro. Pronto, São Paulo está de volta. Estou achando até que era a cidade, e não eu, que tinha tirado férias.

Protesto da alma

As lágrimas que escorriam chegavam à boca quase no exato momento em que balbuciava fragmentos de memórias de velhos e bons tempos que passara naquelas salas. Risadas, choros, surpresas, conversas, paqueras, análises, apreciações e, não raras vezes, até um cochilinho daqueles propícios de depois do almoço. O que mais lhe incomodava era imaginar o que faria se aquele espaço – já tão conhecido, quase como sua casa e, certamente, parte de sua vida – passasse a ser um mero caixote de concreto como tantos outros ao seu redor: sem vida, sem cultura, sem a frequente presença de descolados e interessados jovens, saudosos e bem dispostos senhores e qualquer tipo de público que por ali passasse e resolvesse ficar. Temia mesmo era que faltasse àquele prédio a rotina de bons momentos.
Seu Opi Stein tem 72 anos e frequenta o Cine Belas Artes ‘desde a época em que ir ao cinema era um glamour só’. No dia 23 de fevereiro, às sete horas da noite, lá estava ele, segurando uma discreta folha sulfite que dizia, em letra de mão, ‘salvem o cine belas artes, salvem a cultura da cidade’. Não se sabia ao certo o que estava acontecendo. Manifestantes apareciam em todos os cantos e tentavam, das mais diversas e barulhentas maneiras, explicar o porquê de tanta revolta. Jornalistas não sabiam mais o quê ou a quem perguntar. Foi então que, por obra do acaso, no meio de todo o burburinho, a câmera de um dos muitos veículos de comunicação que cobriam o evento percebeu, num cantinho quase escondido, o humilde protesto de um quietinho senhor. Apesar dos muitos jovens que pulavam e exigiam, aos berros, providências contra o fechamento do cinema, a atenção se voltou toda àquele discreto pedido e foi ao tentar responder à uma simples questão como ‘o que o Cine Belas Artes representa para o senhor?’ que as incontidas lágrimas – também discretas e humildes – conseguiram, sem fazer qualquer alarde, explicar as razões pelas quais o estabelecimento não deveria ser fechado. Da maneira mais simples e pura, entendeu-se, enfim, a importância que aquele tão conhecido cinema de rua tem para a cidade de São Paulo.

Raindrops keep falling on my head

Pequenas nuvens começam a se formar. É nessa hora que, aqueles que podem, saem de seus trabalhos, correndo. Ao alcançar o próximo quarteirão, o céu já é encoberto por um manto enorme, espesso, preto.
Agora é só esperar. No caminho, iluminado por clarões de raios e relâmpagos, a pressa é visível aos olhos de todos os pedestres. Medo.
Não tarda, pingos grossos atingem por todos os lados. O guarda chuva não consegue segurar e vira do avesso por muitas vezes. O vento é veloz demais. Os pássaros passam avisando, a chuva forte está mesmo chegando.
O ponto de ônibus já não é mais abrigo. O jeito agora é se virar como dá e esperar, ansiosamente, pelo transporte. Na adversidade se faz amizade, concluo. Uma inteligente e precavida senhora chama a atenção de todos. Nos pés, uma delicada sandália de material sensível. Olha para os lados, tira da mochila uma enorme sacola e, de, lá sua salvação em dias de janeiro: uma longa e estilosa galocha. Logo, todos ao lado começam a mostrar seus truques. Uma capa de chuva azul, um guarda-chuva gigante, saco plástico nos pés, lenço para proteger os cabelos e mochilas impermeáveis. Só faltava um bote inflável. De resto, todas as artimanhas possíveis e imagináveis estavam ali, num raio de cem metros que comportava o ponto de ônibus e seus arredores. A situação um tanto quanto inusitada colocou um sorriso no rosto de muitos ali presentes. Olhares amigáveis, começos de conversa e comentários sobre a rotineira poça d’água que resolvia se instalar logo ali, na espera para ir para casa. Carros, caminhões e ônibus passavam sem se importar, jogando água para tudo quanto era lado, molhando o que estivesse ao seu redor. Egoísmo. Fazendo do mundo um lugar sempre pior. Característica comum àquele que, ao terminar de tomar seu refrigerante tacou a garrafa longe, no meio da água, sem o mínimo de vergonha ou senso. Após olhares de reprovação, a concentração volta à avenida, à espera pelo ônibus que não vem enquanto a água sobe cada vez mais. O olhar fixo no caminho parece até que trará o enorme veículo mais rápido só com a força do pensamento.
Ôpa, e não é que pode funcionar mesmo? Satisfeitos, vamos embora. Mas a história não acaba aqui. Nunca acaba. Ainda falta torcer pelo menor congestionamento possível e, com sorte, não pegar nenhum trecho alagado. E amanhã? Ah, é janeiro, amanhã começa tudo de novo.

Ponto de observação II

Já passa das oito horas da noite, mas o horário de verão exerce sua função com louvor, me fazendo checar o relógio mais de três vezes.
Desisti do primeiro ônibus que passou, os passageiros desafiavam a lei da física (aquela que diz que ‘dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo’) e aquilo lá já havia passado e muito da brincadeira de Tetris humano.

A violência sem sentido que tem acontecido na avenida mais movimentada de São Paulo me fez titubear quando a esperar no ponto pela próxima condução que, devido ao congestionamento rotineiro e imprevisível, não tem hora para chegar.

Porém, a majestosa decoração de natal me entretém e aquele agradável sentimento – já mencionado em texto passado – que esta avenida me proporciona, me faz esquecer do cansaço da sexta feira.

Me distraio a observer o mundo de gente que, a passos largos, se arrasta pela faixa de pedestres. Observo a naturalidade com que a mãe troca a fralda de sua filha ali mesmo, no banco do ponto de ônibus. O cheiro de cocô de neném se espalha com sutileza, mas a menina que come um lanche logo ao lado não parece se incomodar.

Olho para o lado e percebo que a banca de jornais, aquela pela qual passo quase todos os dias, vende também uma grande variedade de livros. E não só daquela coleção pocket, mesma que a jovem descolada devora ao meu lado.

As luzes da decoração de final de ano se mistura com as luzes próprias da avenida e nem percebo que, a essa altura, já escureceu.

Ôpa, uma passeata! À frente, bicicletas. Seria um movimento contra o congestionamento, a favor do meio ambiente? Ah, não, é contra o vestibular! ‘Universidade para todos’ escrito em todos os cartazes chacoalhados em cabos de vassoura bem no alto e a musiquinha que embala a passeata começa com algo que não consegui entender e termina com ‘aqui está presente o movimento estudantil!’.

O pensamento é, imediatamente, direcionado ao meu trabalho de conclusão de curso. Olha a participação política, aí! Mas, espera aí, isso é participação política? Bom, um bando de jovens saindo às ruas para expressar e lutar por algo em que acreditam é, no mínimo, uma participação social. Bonito de se ver.

“Preciso ler mais sobre isso”, penso. Mas, ao começar a resgatar possíveis autores, sou abruptamente interrompida por um rosto curioso: “Com licença, moça, você é jornalista?”espera pela resposta ansiosamente, olho para trás, sera que é comigo mesmo? “Sou…”, repondo meio sem jeito, “Por quê?”. “Ah, porque parece, seu jeito, suas roupas e a maneira empolgada com que escreve e não tira os olhos desse caderninho aí”, explica. Uma sensação de mistura de felicidade e surrealismo me invade e antes que conseguisse balbuciar alguma coisa, complementa: “será que você pode me entrevistar?”, pergunta. Acho que essa foi a situação mais esquisita em que me meti nos últimos tempos, mas “por que não?”, penso eu. E começo uma conversa que iria durar mais ou menos uns engraçados 20 minutos.

Seu nome é Leilane, mas essa história fica para outro post. Meu ônibus chegou, vazio, e está na hora de ir para casa. Ufa!

Aproveite o verão, rapaz!

O verão está chegando. A estação mais quente do ano começa, oficialmente, no dia 21 de dezembro, mas os termometros já anunciam a proximidade desta época tão aclamada por muitos brasileiros.

Devo anunciar, logo de início, que esta não é a minha estação do ano favorita. Sei que, dito isto, contrario a grande maioria. Mas venhamos e convenhamos…

Verão no interior, carnaval, casas com piscina, praia e brisa do mar combinam perfeitamente com esse clima tropical acentuado pelo aquecimento global. Mas São Paulo no verão? Uma eca.

Pergunte para quem não tem carro com ar condicionado e tem que pegar ônibus lotado.

Sol torrando o cuco, pessoas suadas e, consequentemente, desodorantes vencidos e aquele cheirinho peculiar – e indescritível – no elevador abarrotado de gente.

Não consigo acreditar que alguém realmente goste dessa sensação. Qualquer pequeníssima roupa que você use, parece um casacão de pele (sintética, por favor). Sem falar em qualquer caminhadinha daqui até a padaria na esquina que, com esse calor, é o mesmo que correr os quinze quilômetros da corrida de São Silvestre debaixo de sol (e sem preparação física).

Graças ao gênio Willis Carrier, inventor do ar-condicionado, grande parte dos problemas de calor em excesso foram, se não resolvidos, amenizados. Mas isso apenas para quem não sofre de rinite ou aqueles cuja imunidade, sendo muito baixa, não aguenta tanta mudança catastrófica de temperatura e pega logo um bom resfriado.

Essa é a estação de cultuar os corpos e exibi-los em, quase microscópicos, trajes de banho. É, por tanto, a era das academias. Academias essas, que estão sempre lotadas e requerem mais paciência para ficar esperando duas horas por uma esteira desocupada, do que motivação para usá-la por trinta minutos.

A maior benção da natureza é quando, finalmente, cai a chuva. Mas chuva de verão não se contenta em apenas molhar as plantinhas que estão clamando por água e refrescar um pouquinho o ar abafado. Não, elas vêm com força total, destruindo árvores, quebrando fios de eletricidade e alagando a cidade inteira – problema que os governantes insistem em não resolver. O que viria para refrescar, acaba gerando o caos total.

Três banhos por dia, ocasionando um gasto excessivo de água. Exposição constante ao sol, trazendo maiores riscos de câncer de pele e ainda marquinhas indesejadas de óculos de sol e camisetas com manga.

Por essas e muitas outras razões, os adoradores do verão que me desculpem, mas um friozinho agora, em meados de dezembro, faria muito bem, obrigada.

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