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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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saudade

Crônico

é uma dor tão filha da puta, mas tão filha da puta que avisa que vai doer.
começa com uma pontada. são espasmos espalhados no tempo. contrações.
e vão ficando mais fortes e mais intensas e mais doloridas. como facadas. pequenos pinos, talvez, que cutucam, cutucam, cutucam.
lâminas cada vez mais pontudas e afiadas. dores cada vez mais agudas.
um incômodo que, quase imperceptível, fica lá, o dia todo, todo dia.
ameaça aumentar.
e aumenta, aumenta, aumenta.
vira irritação constante, sensação de estar lá, dentro, fundo.
as mãos tentam tocar o peso da dor. esfregam o peito, enxugam a testa, em atos frágeis e desesperados, coçam a garganta. com delicadeza os dedos se apertam contra a palma das mãos, suadas.
o estômago é sempre a próxima vítima. arde. não digere. não aceita. nem alimento nem bebida. vomita. a abstinência funciona como tratamento quimioterápico.
o organismo reage. rebela-se. grita. contorcendo-se, briga.
é guerra interna. não atinge países vizinhos.
o rosto chega a sorrir. as fotos saem todas bonitas. o trabalho flui, vezes um pouco mais lento.
o mundo segue girando, redondo que é. e a vida continua sempre em frente, vezes em curva, vezes de ré.
é preciso ser forte para manter-se de pé.
respira, respira, respira. até afetar o pulmão.
inspira ares de compaixão.
sufoca. e dói.
comprime. e dói.
e dói e dói e dói.
e tudo surta. tudo muda. tudo fere.
protege-se. investe na fé.
e é preciso ser forte para manter-se de pé.
quase retrocede, cede, envia, liga, chama, clama.
mas aguenta. caído na lama, apoiado no mundo, espera o baixar da maré.
e melhora.
às vezes até passa.
mas sempre volta.
aos poucos e abundante.
em testes velados.
como goles ferventes de café.

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Tudo que vai

Gosto de ser a pessoa que vai. Aquela cuja única tarefa dolorosa é anunciar sua partida. Que pode, sim, verter sinceras lágrimas, rapidamente enxutas pela ânsia do novo, pela magia do desconhecido.
A pessoa que vai pode até olhar para trás para acenar com o já peso da saudade prematura. Pode caminhar meio tortamente, acompanhada do medo do incerto. Mas a felicidade da conquista empurra sempre para frente, mesmo tropeçando, mesmo em zigue-zague.
A pessoa que vai, vai mesmo. E descobre que o mundo é bem maior do que aquele cotidiano gostosinho, porém comum e de já fácil manejo – por experiência – onde costumava-se viver, acomodado.
A pessoa que vai, vai descobrir-se a si mesmo também. Passará dificuldades e sofrerá novas pressões, mas erguer-se-á pegando impulso a cada pedra jogada no caminho. A pessoa que vai entende que pode ir e irá ainda mais longe a cada nova oportunidade.
A pessoa que vai leva a bagagem de toda a experiência anterior. Com ela, sente-se mais segura e mais capaz. E o é mesmo.
A pessoa que fica, fica com a sensação de vazio.
Fica meio triste, embora orgulhosa do triunfo do outro.
Fica meio perdida, porém. A cada piada interna contada, cada risada compartilhada ou aquele olhar típico de tarde de segunda-feira irritante em que saber-se não sozinho acalenta e faz acalmar. Busca-se o riso, o bufar, o olhar. E nada, não se encontra nada – é como tentar apoiar o cotovelo em uma base de mesa solta, desparafusada. Não machuca, mas não suporta, não aporta, não funciona.
A pessoa que vai sempre diz que vai sentir falta. E vai mesmo. Mas é diferente.
A pessoa que vai leva tudo com ela e ainda pode voltar vez ou outra para relembrar bons momentos.
A pessoa que fica, fica também com os móveis – vazios – e com aquele buraco no peito.
O dia a dia cessa, como é de sua responsabilidade fazê-lo, a dor mais aguda, mas o rastro do que se foi fica sempre ali, mesmo substituído – por melhor ou pior que isso seja.
Ser a pessoa que fica implica em lidar com uma perda que não é irreparável – visto que a pessoa que vai (ainda bem!) vai feliz e vai com vida, afinal -, mas que atormenta como se fosse.
Ser a pessoa que vai e saber que vai fazer muita falta é uma boa sensação, porém.
E é com essa certeza que a parte sobrevivente da mais recente parceria Superpoderosa deve ir. Levando consigo todo o conhecimento gastronômico adquirido semanalmente, além, é claro, do profissionalismo invejável e a cara de jornalista que não deixa dúvidas de sua competência.
Quando conheci Isabel pensei tratar-se da tão comum raça de comunicólogos arrogantes e sabichões. Mas toda essa pompa era apenas timidez.
Bel é a menina da risada gostosa, das piadas inteligentes e do texto leve e claro.
Bel é a organizadora do site e aquela que está sempre pronta para segurar o tranco quando a colega aqui perde as estribeiras.
Bel não é mais sisuda, mas segue sendo séria, passando credibilidade com sua pose de quem sabe muito bem o que está fazendo – porque sabe mesmo.
Bel é a pessoa que vai e vai levando junto a ela toda minha admiração, gratidão e carinho.
Eu, como pessoa que fico, fico com o exemplo de pessoa e profissional e fico feliz, com mais uma amizade que a vida me deu de presente. Fico com o coração na mão e com a certeza de que ainda escutarei seu nome em referências gastronômicas por aí.
Fico com a certeza de que vou encontrá-la em mais ainda muitas e muitas tardes, de lazer em vez de trabalho e com a mesma parceria de hoje.
Eu fico e você vai.
E vá mesmo, mas volte sempre. E não saia nunca de minha vida.

Pai. Do verbo ‘insubstituível’

a dor dói menos mesmo. como todo mundo disse que aconteceria.

todo mundo com um mínimo de sensatez, né?

o que mais me irritava quando você lá estava, já não sabendo direito que dia era (felizmente sem nunca esquecer-nos) e desmanchando-se em si mesmo, cada vez menos e menor em um caminho difícil de acompanhar por ser regado pela falta de esperança, com muito alívio do não-sofrimento e o desespero da despedida – aquela que, graças a deus (o seu, o meu, o que existe, o que não ou aquela simples e profunda fé meio descabida, porém poderosa, que usamos apenas em momentos críticos e trágicos e life changings como este) – eram as pessoas otimistas.

você sempre foi otimista para tudo que dependia de você. dava conta. e sabia que lograria qualquer resultado esperado. e mesmo que assim não fosse, as coisas se ajeitariam. era quase como mágica.

mas a vida não. a vida e suas peripécias nunca lhe foram tragadas com muita confiança. era sempre realista, duro e aproveitador do momento quando ele aparecia, porque sabia que o trajeto imposto por destino ou aquele deus de que falávamos acima ou de escolhas mesmo (vai saber…) tratava a sorte com parcimônia.

te vi partir dia após dia. após dia. após dia.

menos comida, menos força, menos reação. sempre com muita vontade de abrir os olhos e persistência para fazer a voz sair. ela nunca nunca saía. mas hei de encontrar no mundo alguém que saiba falar com o olhar tão bem como você.

aceitei de alma e coração sua passagem, encerramento, merecido descanso ou como você queira chamar. mas me parece que este foi um ato heróico ou covarde (tudo depende sempre do ponto de vista, não é mesmo?) feito por mim só e apenas.

e ninguém entendia.

lembra daqueles telefonemas que recebíamos? horas e horas de baboseira crédula pregando a palavra de misericórdia e milagre que te faria levantar da cama e correr entre brancos e limpos lençóis hospitalares que, apesar de macios, já machucavam sua sensível e cansada pele tão forte e morena e de tanto pulso em assuntos como economia e política.

sua corajosa veia empreendedora, como mágica, receberia mais energia e sangue e vida enviada talvez por anjos. teve aquela moça, lembra? (cheguei a te contar em um monólogo que, desculpa o trocadilho, deve ter-te feito querer morrer) que me contou sua experiência de quase falecimento. sei lá quantos dias na UTI, desenganada por sei lá quantos médicos, sei lá quantas e vezes e hoje aí, vivinha para me contar a história e provar que siiiim, mesmo já moribundo, você não me abandonaria.

quase acreditei nela. mas sabe qual o problema de acreditar em gente que insiste em dizer que ‘tudo vai ficar bem’ quando…bem…não vai? bom, é que, realmente….não foi. não ficou tudo bem. ficou tudo mal, péssimo, horrendo, desastroso. e ninguém me ligou para explicar o que fazer depois disso.

e quando você se foi, perdoado e amado e seguindo seu caminho que acredito ser de muita sorte (o mundo é muito cruel) e muito azar (tem tanto vídeo bom e tanta estupidez nova na internet que queria te mostrar, que te faria rir aquela risada gostosa), não sei dizer onde os imbatíveis fiéis de retórica enfiaram suas cabeças de vento. envergonhados, talvez. talvez tenham colocado a culpa em mim – que não tive assim tanta fé. eu cheguei a culpar os médicos e alguns pecados que havia cometido num passado recente (sabe como é…aqui se faz, aqui se paga).

mas de nada adianta pegar o criminoso, o ladrão de role model, pai, amigo, companheiro, confidente. a perda não se mede em vingança ou duras palavras proferidas a quem que, de fato, merecia. claro que fiz alguns telefonemas e sei que de longe você se orgulhou disso. te prometi stand up for myself e jamais deixarei proferir-se uma má palavra a seu respeito. a nosso particular respeito, você sabe.

doeu, pai. sem ou com culpado. quer quisera o destino ou deus ou você mesmo ou os médicos ou qualquer circunstância que já não importa.

um ano depois, somos apenas nós, aqui outra vez. sobrevivemos, meio tortos.

acordando ainda um após o outro, com medo de abrir os olhos e não te ver. indo dormir a base de séries engraçadas que é para não pensar demais na vida (nada mudou, veja bem).

às vezes é estranho não te extrañar demais. às vezes é estranho chorar de rir com alguma piada tipicamente sua. difícil às vezes ver que a vida anda, que o mundo gira e as coisas acontecem. sempre para frente, como você sempre recomendou.

um ano depois ainda ouço seu estalar de juntas subindo as escadas, o cheiro de perfume ainda se espalha pela casa e os conselhos sigo recebendo, não sei nem explicar como.

um ano depois ainda choro sozinha. só às vezes. mas rio muito também. de mim, de você, da vida. porque tudo isso faz parte. cruel e naturalmente.

e um ano depois nunca mais apareceram aquelas pessoas que acreditavam em milagres, ou pelo menos nunca mais me ligaram para contar experiências de quase-morte (ainda bem, não é mesmo?). elas seguiram suas quase-vidas e esqueceram-se das promessas não cumpridas de um credo por mim sempre desconfiado.

mas um ano depois, pai, tem muita gente boa também que aparece quase sempre. e dá um jeito de dizer que ‘está lá’, ‘para qualquer coisa’ (mesmo que a gente nunca saiba o que esse ‘qualquer coisa’ quer dizer). acho fofa a intenção, porém. apesar de meio sem sentido.

e tem aqueles, aqueles que você me ensinou a guardar no potinho dentro do peito, que não precisam expor sua presença com veemência, mas que pegam minha mão, me convidam para um drinque, agem naturalmente quando conto histórias suas e sorriem para dizer que estão lá – esses eu sei que estão mesmo.

tem uma toneladas de pais – avô, tios, padrinhos, conhecidos, vizinhos, pais de amigas – que já anunciaram que podem ocupar esse posto, deixado por ti.

o que eles não sabem é que você nunca foi embora de verdade. que segue em minhas orações (depois conversamos sobre para qual deus), em meus pensamento, atos, decisões. a cada respirar meu, lá está você. a cada vírgula escrita, a cada trabalho concluído. na minha vida, no meu coração. no formato das minhas mãos, no nariz de batata e até na maneira meio dura e truculenta de andar.

um ano depois e todos os muitos anos que vierem (porque eles virão, por melhor ou pior que isso possa parecer) a cadeira segue sendo sua e só sua.

o posto de ‘melhor pai do mundo’ é ocupado por todos os pais de todo o mundo. chega a ser banal, não é mesmo?

mas o título de ‘melhor MEU pai’ ninguém tira de você. se existe um deus, aquele mesmo, lá de cima, agradeço-o a cada segundo de cada dia a oportunidade de ter convivido com o personagem mais sagaz, divertido, despretencioso e pretencioso ao mesmo tempo, o mais incrível e perfeito companheiro de jornada que o cosmo poderia ter-me enviado.

não me imagino crescendo e sendo ensinada por nenhum outro modelo de pai e ditador e democrata e companheiro que você sempre foi. meu melhor professor.

o dia dos pais será sempre seu, para você e com você. mesmo longe. de mais ninguém.

hoje é dia de vinho, então. do melhor, por favor. dia de filme bom. de ouvir boas músicas e de gastar o dinheiro que não tenho em um restaurante que não conheço. dia de descobrir coisas novas. hoje é dia de gratidão, muita gratidão. sofrimento também, choro e riso.

uma sensação estranha que já faz parte de mim. um buraco imenso e vazio (para sempre impossível de preencher) no peito, que às vezes encho de flores – que é para disfarçar.
hoje é dia de saudade boa e ruim. e amor. só amor.
hoje é dia de homenagem. e essa eu fiz para você.

I carry your heart. I carry it in my heart.

“estou em crise existencial”, eu dizia, agarrando uma almofada, com um biscoito na mão.
era hora de voltar a ter cinco anos, agarrar-me naquela enorme barriga morena, dormir escutando as batidas de seu coração e saber que tudo, tudo daria certo no final.
“para de chorar”, era a primeira coisa que ele me dizia. às vezes isso me fazia chorar mais, mas na maioria das vezes meu orgulho de filha durona me ajudava a engolir as lágrimas.
“qual é o problema?”, perguntava ainda agindo indiferente, mirando fixamente a televisão e coçando a perna ou o braço.
ainda com voz trêmula eu começava. divagava. divagava. divagava. meditava até. usava tons agudos quando estava realmente perdida, incomodada, estupefata.
ele não me deixava continuar. “fica calma e deixa de resmungar. não quero problemas, quero soluções”.
parece ríspido dito assim, de sopetão. mas era tudo técnica, estudada com maestria. e me fazia crescer. respirava. mantinha o foco. engrossava a voz.
“preciso de um plano”, ele dizia. “dê-me um plano. qualquer um.”
and he meant it.
poderia ser o mais loucos dos loucos. poderia incluir uma passagem só de ida para a China. dar a volta ao mundo em três dias. mudar de sexo. virar monge. morar em marte.
não importava. com tanto que tivesse um caminho, uma meta, que desse vontade de viver, conhecer, explorar, evoluir.
“te deixo trabalhar em uma locadora se isso incluir assistir a todos os filmes para aprender a fazer um roteiro e usar o dinheiro do mísero salário para fazer um curso que te dê contatos, que te leve para frente”.
foi seguindo esses conselhos e olhando em seus olhos castanhos e absurdamente redondos que conclui tantas etapas e vivi tantas aventuras e aproveitei tantas oportunidades.
e se nada desse certo eu ainda poderia voltar e agarrar uma almofada e deitar na barriga gordinha e escutar a batida forte daquele coração enorme.
queria ter só uma mãozinha, pai, só uma piscadela, um último conselho.
mas dou uma coçada em minha própria barriga gordinha, me dou uma bronca desprovida de sentido e medito a fim de escutar as fortes batidas de meu próprio coração, que é para poder olhar para frente e fazer aquilo que você sempre me ensinou: desvendar um plano e seguir adiante.

Então é saudade

Você adorava quando eu conseguia expor de maneira engraçada e vezes sarcástica o cotidiano de nossa família maluca. O texto ficava ainda melhor quando não envolvia o seu lado, pegando no pé apenas do estresse da mamãe, da mania de exagero dos Flore e da bagunça em que esta combinação de pessoas resultava.

O “Então é Natal“, intitulado assim em sua homenagem – pelo ódio mortal que tinha da tão famosa música gravada pela despenteada cantora – era o nosso favorito.

Este ano não teve Simone. 

Cogitei seriamente a possibilidade de usar sua ausência para enfim me rebelar e deixar para trás a milenar tradição de fazer amigo secreto, trocar presentes e comer pernil mesmo sem gostar.
Meu plano era me enfiar debaixo das cobertas, assistir a qualquer filme em espanhol – para não perder a audição idiomática, como você me ensinou – e esperar passar.

Este ano não teve amigo secreto.

Todo o dinheiro de toda lembrancinha carésima que compraria para cada tia que certamente não gostaria do equivalente a meias dos presentes de natal, eu doaria. Você tinha uma veia social. E pensei em passar este dia distribuindo presentes, ouvindo histórias de velhinhos em casas de repouso, ninando alguma criança sem pais. Tentando ser uma pessoa melhor.

Este ano não teve abraços.

Seria egoísta, porém, enaltecer minha dor e quebrar expectativas de pessoas queridas que em mim depositavam a esperança de um fim de ano alegre, apesar dos poréns. Não seria justo, não é mesmo?
Contanto que não houvesse discursos ou choradeira, umas doses de tequila me poderiam ajudar.

Este ano não teve bebedeira.

“Suck it up”, você diria. Posso te escutar me mandando segurar o choro, levantar a cabeça e fazer o que eu tinha que fazer. E eu fiz, eu juro. Me peguei olhando para os lados de vez em quando e em alguns raros momentos pude jurar que você estava lá. Te procurei para contar as pérolas que a vó soltou na mesa e o porquê de a mamãe estar roxa de tanto rir.

Este ano não teve você.

Só era triste mesmo quando não entendiam minhas piadas. Quando não pude usar de tanto sarcasmo e quando roubar a comida antes da hora perdeu a graça quando feito sozinha. Alguns momentos foram divertidos, você sabe. Esta família te arrancava gargalhadas gostosas. Que fizeram falta.

E teremos que nos acostumar com isso. 

Sobrevivemos, olha só! E pediremos ao Papai Noel para que cada ano seja mais fácil, menos sofrido e mais engraçado, bem daquele jeito que você gostava. Faltará para sempre a melodia cantada sem ritmo, o abraço apertado à meia noite e o “feliz natal, filhinha” tão gostoso de ouvir. Os tios perderão belas histórias e piadas velhas porém igualmente engraçadas contadas entre uma e outra taça. A “sogra” já não será perturbada com pedidos do tipo “da próxima vez quero camarão na moranga” ou “faltou farofa neste frango”, bem típicos de seu amor apache. Dependeremos de GPS para chegar ao almoço do dia 25 e serei obrigada a encontrar um braço fraternal e paciente para me ajudar a andar de salto ladeira abaixo, como você tão gentilmente fazia. Haverá sempre um vazio e sobrará sempre cerveja, pedaços de pernil e uma cadeira.
Para sempre insubstituível.

Back then

we used to sit on the second, maybe third, step of that stair. and we used to stare at the cold night while smoking our cigarettes. We would rather wait for some of us to get really really cold or scared by the black night and then we would go inside the house, we would eat bread with cheese and lettuce and ketchup, sometimes. I don’t even like the combination of lettuce and ketchup, but that didn’t really matter.

i was a really naive girl when you painted my nails with the most vibrant red i had ever seen. you were different. and that’s why i loved you. we drank, we partied, we ate a lot of chocolate and pizza hut and we told all of our secrets. we were so damn happy, girl.

we had the most amazing time of our lives and i…i don’t know if i recognize myself in those pictures anymore. my life has changed. i have changed so freaking much. sometimes i like it. and sometimes i understand that you have changed too. and that’s ok, my friend. that will always be ok.

we changed when we got into that airplane and when we started to hear people speaking portuguese all over the streets. honey, we changed by changing boyfriends, by getting laid, by having to choose a career. and, darling, we did it all. we’ve grown up. and that’s ok.

and that’s normal. you know? that is what it is.

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2 hours later

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but not when I look to this damn picture of our steps. this lonely stair that doesn’t lead us to Nana anymore….oh my god…this is you. and this is me. and this is us growing up, meeting new people, being happy every day, not worrying about a damn single thing. that was us not speaking to our parents for more than a week. that was me not going back to my host house and family for a week just to get in another great adventure with you and the girls. we were a gang, baby. we were. we didn’t have a name or a song or a logo. but that’s because we didn’t need that. we were awesome. we were friends. forever. and we had dreadlocks and we ate lollo and we weren’t scared. we were never scared.

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I’m scared right now. aren’t you?

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life was so easy back then. i used to wear my white coat everyday. you guys gave it to me. you were my best. and it matched my white boots. they were so ugly, but so comfy. i spent a few days without showering. you know that. not going back home took me to some bad decisions. but i don’t regret them.

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i felt so free.

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i’ve lost my freedom, even now that i’m older and making my own money.

i’m a big girl, i’m an adult. i miss me.

and i miss you.

and those steps …and the stair.

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and I wish i could just change a couple of things by holding this photograph as it was magic. but i can’t. but it isn’t. we were magic. and we’ve grown.

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casa Nana

Proibido chorar em horário de trabalho

Me deu uma vontaaade de chorar. Mas era segunda-feira e o trabalho com menos uma jornalista na redação estava fervendo.
O mundo do mercado imobiliário me esperava, com suas grosserias e esperas infinitas ao telefone, com má vontade de responder e-mails e respostas curtas que não ajudavam a preencher as inúmeras páginas de inúmeras matérias que eu tinha que escrever.
Fui pro banheiro e derramei algumas lágrimas.
Mas nem isso deu tempo de fazer direito. Jornalista toma muito café, você sabe, acompanhado de um cigarrinho. E aí toma-se água também. E aí se vai muito ao banheiro.
Saí e 
fingi que os olhos vermelhos eram maconha. Menos desagradável que chorar a ausência de um ente querido e amargar o clima de pré-fechamento.
A vida não deixa nem a gente sofrer direito. E isso é o que mais conforta.

Faz um tempo, eu quis fazer uma canção pra você viver mais

Eu tinha um medo incondicional de que alguma coisa, um dia, acontecesse com você. Dizem que, quando nascemos, no fundo sabemos o nosso destino e as dores pelas quais passaremos.

Se for verdade, talvez fosse só minha memória irracional me dizendo para passar muito tempo com você. E eu passei.

Quantas e tantas vezes enfrentei o congestionamento ao seu lado, quando poderia ter ficado em casa, assistindo a qualquer coisa besta na TV. Escolhia o lado dos homens na mesa enorme de almoços com família e amigos só para ouvir suas histórias e suas opiniões divertidas e interessantes sobre qualquer tema. Você sempre soube falar sobre qualquer coisa. Isso era realmente impressionante.

Eu nunca gostei de discutir e contar como foi o meu dia. Mas pra você, eu contava. Você sabe.

Só para deitar ao seu lado na cama eu deixava de assistir ao Saia Justa e assistia ao jornal da Globo News. Isso estragava minhas quartas-feiras, mas não tinha o menor problema.

Frequentei churrascos chatos, festas sem graça e passei fins de semana mal humorada. Se pudesse, voltava atrás e colocava um sorriso no rosto em cada uma dessas ocasiões. Mas, pensando bem, você não ligava muito e uma das melhores lembranças que tenho é de quando você me mandava morder o próprio dedo para aliviar a TPM ou a bravice sem fundamento.

Eu dava socos em sua barriga grandona e a chamava de Sofia. Era nossa brincadeirinha. Você só devolvia o soco quando estava meio de saco cheio, mas nunca me machucava.

Suas palavras de ordem ao me mandar segurar o choro quando algo não me agradava, me prepararam pra vida e eu acho que aprendi até que bem, porque só tenho chorado às vezes. Mas lavo o rosto, levanto o queixo e sorrio, só por saber que era isso que você me mandaria fazer.

Eu não vou deixar ninguém nunca gritar comigo, assim como você não deixava. E quando for dar bronca nos meus filhos, não alterarei meu tom de voz, exatamente como você fazia. Esse seu método funciona. Sei disso porque, mesmo tendo cara de bravo, você era muito respeitado e muito, muito querido.

Eu falava de você para todo mundo. Hoje, é difícil ter que usar verbos no passado. Então me calo.

Uma vez, conversei com você o caminho inteiro de volta pra casa, pra você não ter sono. A gente sempre lembrava desse dia e das perguntas bestas que eu inventei. Acho que aí já estava me preparando para ser jornalista.

Às vezes escrevo um poema e me sinto feliz por pensar que você ficaria orgulhoso. Você se impressionou quando descobriu que eu tinha esse dom. Eu nem sabia que tinham feito sentido aquelas palavras sobre fumaça e lágrimas que postei no blog só por falta de opção. Mas você era meu melhor crítico e, por isso, ainda me arrisco em rimas pobres que, às vezes, representam todo o sentimento do mundo.

Já não escrevo sobre amor. Sei lá, ficou obsoleto e medroso esse meu viéz. Você me mandou virar a página e estou lendo novos livros. Em espanhol. Acho que a gente não teve a chance de conversar em espanhol. Você já estava muito fraco e, eu, com muito medo.

Fui medrosa, me desculpe. O medo e sei lá mais o quê, me fizeram ficar longe de sua doença. Nosso último abraço foi aquele do aeroporto. Acho que te abracei umas três vezes. Se pudesse, ficaria naquele abraço para sempre. Era o seu melhor. Era o meu melhor.

Suas últimas palavras foram “vai lá, filhinha”, e eu fui. Você mandou. E eu obedeci. Queria que você tivesse me pedido para ficar. Queria ter ficado.

Voltei e você já não era você. Eu te olhava e já tinha saudades do cara barrigudo e sério, por quem eu tinha o meu maior amor. Mas eu te reconheci nos dentes brancos e certinhos e lindos. Sua arcada dentária era incrível. Te reconheci na pinta da mão esquerda e nas próprias mãos, ainda pesadas e morenas. Te reconheci mais ainda na voz e quando você fez comentários sobre política. Quando você achou legal as cartas que eu li pra você na revista, aí eu tive certeza que era você. E sorri. O amor, ah, o amor ainda estava lá.

Você lembrou do meu aniversário e achou que fiz surpresa ao te visitar naquele leito. Eu estava sempre ali. E sempre vou estar.

À noite, depois do trabalho, durante anos, eu deitava ao seu lado, me aproximava, me aconchegava em sua barriga e, com o ouvido espremido em seu peito, dizia “olha, pai, seu coração está batendo”. “Ainda, bem, né?”, você respondia. “Pai, você está quente”, eu comentava. “Que bom! Significa que estou vivo! Imagina se não estivesse?!?”. E eu nunca, nunca imaginava.

Despedida

Mesmo tendo certeza absoluta de que havia tomado a decisão certa, sentei na cama e chorei.

Simplesmente chorei toda a saudade que tinha sentido de minha família. Chorei a força que tive que ter, as barras que tive que enfrentar e as escolhas que tive que fazer.

Chorei a saudade que eu ainda ia sentir, chorei os amigos que fiz e o mundo de coisas que aprendi. Chorei o amor que aprendi a controlar, os lugares que conheci e a felicidade que senti.

Chorei o prazer de morar em cidade pequena, chorei o saludo do outro lado da calle, chorei as botas que tive que deixar pelo peso da mala.

Chorei o fato de agora de verdade me conhecer. Chorei as pessoas incríveis que levo comigo. Chorei a parte enorme de mim que aqui eu deixo.

Chorei pela pinche distância geográfica. Pela dor e pelo prazer de viajar. Chorei primeiro por ter decidido ficar mais. Depois, por decidir ficar menos.

Chorei a família postiça que tive e as maluquices que vivi. Chorei a minha independência e a minha responsabilidade. Chorei em espanhol, em coreano, chinês, alemão e inglês. Só não chorei em português porque a volta é a única certeza que agora eu tenho.

Chorei por estar feliz. Pelo sentimento de dever mais que cumprido. Chorei por não deixar mais nenhum assunto mal acabado e pelo difícil que isso foi.

Chorei porque muitos choraram por mim. Por me sentir querida. Por amar.

Chorei porque já não choro por qualquer coisa, mas porque essa situação, de verdade, pedia todas as lágrimas e soluços e desespero. Chorei porque valeu e valeu muito a pena.

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