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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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sentimento

Raio-X

era uma menina. sentada na sarjeta. testa nos joelhos. mãos entrelaçadas.
era uma menina. cabelos presos. fios naturalmente caindo sobre as costas.
era uma menina. sapatos baixos e vermelhos. calças sem barra varrendo o medo do asfalto.
era só uma menina. destruída pelo tempo. pelo vento. pela chuva.
altura mediana. lábios finos e mandíbula grande. sobrancelhas definidas e cílios curvados.
pele clara e pelos longos. unhas grossas e juntas doídas.
anônima.
era uma menina. coração grande, peito pequeno. pés côncavos. mente convexa.
era uma menina. nádegas. coxas. joelhos bambos.
era uma menina.orelhas minúsculas. fígado doente.
era só uma menina. lágrimas salgadas. choro corrente.
dedos trêmulos. vontade de gritar. desespero no olhar.
lavava a nuca em água gelada. passava a vida à espera de nada.
era uma menina. meus sentimentos. eram uma menina.

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Tá na hora de você amar de novo

Deu abraço de saudade. Daquele que não quer largar, que confunde o respirar, que atormenta da melhor maneira que se possa imaginar.
Do casaco se fez conforto, dos olhos rolaram lágrimas, no cheiro voltaram lembranças.
Cabelos, barbas, braços, corpos que se tornavam apenas um elemento perdido, flutuante no meio da calçada – passagem de apressados vazios de sentimento.
O soltar foi esquisito. Doído. Real. Estava ali, mas já não mais existia. Era como venerar um defunto. Corpo palidamente gelado, lábios roxos de frio, juntas duras de morte, sangue quente latino em terras estrangeiras, coração pulsando nas trevas da alma.
No riso sem graça, a confissão de que ainda mexe. Na conversa madura, o entendimento do porque não deu certo. Na justiça das palavras, a libertação.
O melhor encontro de mãos por debaixo da mesa, o melhor bater de pés nervosos contra o chão, a melhor sensação de paixão.
Levantaram e resolveram repetir o exercício do abraço. Sorriram e prometeram, um dia, outro encontro marcar.
Dessa vez, eterno.
Foi sereno.
Mas era um sonho.
E acordou.

Omissão

Mantenho, sobre minha mesa de trabalho, post-its que não posso usar. Guardo comigo, lá no fundo, segredos que não devo contar. Retenho sentimentos que não consigo externar e contenho lágrimas que não ouso derramar.

Amo sem poder a ninguém contar. Escrevo, mas insisto em não mostrar. Teimo. E os conselhos, sempre finjo escutar. Quem me vê sorrindo, não percebe o peso que carrego no olhar.

Vivo duas vidas. Aquela que exponho e aquela que faço questão de nunca mostrar.

Crime passional

Tarde. Um domingo chuvoso. A casa vazia. Um vinho. Lógico, típico. Mas dos melhores. O clássico, do tipo que nunca decepciona, tinha gosto amargo.
A uva, colhida com tanto carinho no penúltimo outono, descia rasgando a garganta, cruel. Não fosse oferecido por gente de confiança, temeria ser veneno.
Bebida tão cara para perder o gosto. Um efeito estragado do sentimento pisado. Sem dó. Nenhuma gota de mel no fel da vida.
Fez de meus dias melancolia. Me tirou, primeiro, o prazer de sonhar. Agora, tira-me o raro reconforto de um saborear tão nobre. Só lhe resta, então, tirar-me o respirar.
Chega! Te arranco de mim, que é para não me matar.

Enquanto com for melhor que sem

Não aguento mais discutir o mesmo assunto over and over. As conversas viram monotemáticas demais até para mim, que não dispenso um debate sobre dor de amor.

Os conselhos, que nem peço, já até decorei. “Larga esse filho da puta”, “foque no seu trabalho, invista em você, dedique-se a se conhecer”, “não responda, não ligue, desencane” e o meu favorito: “mas uma mulher tão bonita, tão inteligente, tão madura, tão querida e tão especial, como cai num negócio burro desses?”. Afaga o ego que é uma beleza. E eu sei. De tudo. E agradeço pela preocupação. Mas devo comunicar que não sofro mais da cegueira do envolvimento. Esta já não compromete mais minha visão. De uma certa forma, é tudo nítido, claro e límpido. E até enxergo o cinza ao invés do cor de rosa. Por vezes, também acho feio.  

Mas há muitas coisas nesse injusto mundo dos sentimentos que não se pode controlar. E meu coração sempre foi meio idiota mesmo. “Uma porta para o inferno”, descreveu a astróloga, que soube ler com muito afinco a parte nebulosa das emoções, presente em meu mapa. Ela estava certa ao constatar que continuaria a lhe encontrar. Que aquilo, meu amigo, não acabaria por ali não. Deve ter acertado também ao dizer que devemos nos conhecer de outras vidas, tamanha a sintonia. Maldita sintonia que me impede de lhe negar. Que me incita a continuar errando.

Errado eu sei que é, sempre soube – e consenti. Incomoda aqueles que tanto me consideram. Porque me fere. Eu sei. Mas também me acalenta. Eu juro. E (infelizmente, penso) o poder de julgamento cabe só a mim, que tenho consciência da minha situação e de meus sentimentos.

Pedirei ajuda, se o fardo ficar pesado demais. Porém, entendo que muito do caminho devo trilhar sozinha. As escolhas, quase nunca racionais, só eu posso fazer. E com as consequências – vezes fáceis, vezes difícies – também sou eu que tenho que lidar. E encaro. Por mais caro que me saia.

Então fica combinado assim: enquanto o bem que me faz ao lhe ver, compensar todo o mal de quando em sua ausência, considerarei que ainda vale a pena.

Só dessa vez, deixarei a inteligência para as opiniões e pitacos dos amigos nos encontros em bares de segunda feira. E continuarei insistindo, por mais burro que isso seja.

Quando o feitiço vira contra o feiticeiro

‘Agora você tá fudido’ – assim mesmo, com ‘u’ – foi o que te falei naquela ocasião. Era tanta emoção, depois de toda aquela tensão desesperadora, que o estado alterado de consciência simplesmente deixou sair as palavras.

 Achava que te tinha nas mãos, achava que me tinha no controle. Sabia que gostava de mim e pensava poder mudar sua história. Implorei para que mudasse a minha. Insisti. Teimei em continuar, deixando de lado a intuição que me dizia que aquilo ia dar merda. A inconsequência é sintoma típico da razão cegada pelos sentimentos que deixei me envolver.

Era sabido que um dia a conta viria. Só não imaginava que seria tão cara. Agora, como que tentando dividir meu desespero, de maneira discreta disparo segredos em escancaradas palavras que antes só deixava você conhecer.

Não raras vezes ainda sinto um fiozinho de esperança que segue intacto em algum lugar inalcançável, dentro de um órgão não palpável no mundo físico. É remoto, irreal e pequeno. Mas afasta a sensação de vazio.

E aí você me pede para procurar o cara certo para mim, um alguém legal com quem eu possa construir um relacionamento de verdade. Quebra as minhas pernas. Então concluo que aquela vontade e afeto todo demonstrado na última vez foi apenas o coração deixando transparecer a emoção do momento, que nada condiz com a fria realidade.

Apesar de chocada, te vejo como o filho da puta mais sincero e honesto que já conheci. Mais uma vez você sobe no meu conceito de uma maneira muito errada. E concluo que o amor, se é que posso chamar isso de amor, não é apenas cego, mas também o mais estúpido e burro dos sentimentos.

‘Onde foi que eu me meti?’ Repetia a incansável pergunta indagada inúmeras vezes nos últimos meses. Como de praxe, não obtive nenhuma resposta coerente.

Tenho consciência de que qualquer passo que der em direção a você me levará ao arrependimento. Porém, apesar de todos os conselhos e a indiscutível certeza de que o melhor seria dizer ‘não’ de uma vez por todas, converso comigo mesma e articulo um esquema bem planejado de desconstrução da imagem divina que tenho de você. Tento, assim, praticar o desapego para conseguir, enfim, transformar todo o sentimento em simples carinho, podendo levar a prazerosa não-relação adiante sem ter que conviver com aquele velho conhecido, nada simpático, sofrimento.

Me iludo novamente, fingindo estar orgulhosa da minha postura nada ética e teimando insistir na falsa sensação de estar bem satisfeita com o resultado. Que situação!

É, proferi irracionalmente de boca cheia as palavras naquela primeira vez. O único problema, meu amigo, é que nem imaginava que, a partir daquele dia, quem estaria ‘fudida’, na verdade, seria eu.

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