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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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Triste tarde

Passei a tarde toda admirando folhas caírem de suas árvores no meio da praça.
A bebê gordinha, de quase dois anos, usava conjunto quentinho de calça e blusa rosas.
Só as xuxinhas nos cabelos se viam brancas – como as nuvens que fazem contraste no céu azul.
Com as mãos mais pequenas que já vi tão de perto, transportava as folhas caídas de um lado a outro.
Tropeçava com suas pernas de quase-gente, mas nunca caía.
Fazia sons que sua mãe nem tentava entender, enquanto lia a alguma mensagem – que julgo muito importante – em seu celular.
E assim o tempo passou, ao som dos galhos que bailavam ao ritmo do vento, como as folhas que mudavam de ares ao gosto da menininha.
E assim a noite chegou, trazendo no escuro a vontade adormecida de voltar à casa.

Cada um sabe o que melhor lhe serve de medicina.

Limites

E – com pouca idade, muito pudor e nada de experiência – a gente acha que jamais toleraria isso ou aquilo. Mas o tempo vai passando e traímos nossos valores.

E lá estamos nós, fazendo o que julgávamos errado. Erramos e amamos o erro. A dúvida passa a ser célebre e a certeza sem graça.

Mas, o mesmo tempo que samba na cara de nossos pensamentos passados, também traz uma nova consciência que, permeada de menos julgamentos e mais maturidade, leva à conclusão de que valeu, mas que, agora, já chega.

E o mesmo impulso que faz com que deixemos que de um tudo aconteça conosco, nos obriga a impor certos limites – sob pena de acelerar o próprio fim – em prol de alguma ainda restante e muito necessária sanidade mental.

O fato de ser contra a nossa vontade e aos nossos desejos torna tudo muito mais difícil. Mas não teve jeito, acabou.

Assim sendo, peço-te permissão para continuar a escrever sobre uma ilusão/idealização de você. Porque de você mesmo, já não posso querer mais nada.

Segunda feira

O celular não vibra, o tempo não passa, a vontade não chega. O ânimo dorme, o sono se esconde, a pressão baixa. O trabalho não rende, a leitura não vinga, a programação só piora. O jornal não chegou, o rádio chiou, a internet pifou. A nuvem escondeu, o sol apareceu, na previsão não tem trégua. A roupa amassou, a calça rasgou, a camisa encolheu. O café esfriou, a coca esquentou, suco não tem. A vida desanimou, a esperança vingou, mas o choro cedeu. O cabelo ensebou, a ginástica transpirou e o banho acalmou. Em casa chegou, a cama chamou, a lua iluminou e o dia acabou. Ufa!

Ressaca

A gente vai ficar na fossa, vai chorar um pouco, deixando escorrer o corpo e o rímel pelo box, debaixo do chuveiro. Mas tudo isso, eventualmente, vai passar.

E vai deixar de existir também, em algum momento, a vontade de insistir e tentar mais uma vez. O toque do celular não mais iniciará um ataque cardíaco e a falta de ar, juntamente com a dor de estômago – causados pela espera do e-mail que nunca adentrará a caixa –, cessará.

Eu prometo que, assim como das outras vezes, haverá, com o tempo, a volta da percepção de que há sim outras pessoas interessantes no mundo e que é possível encantar-se novamente.

Por algumas semanas (ou meses, infelizmente não tenho como garantir), será preciso sobreviver. Mas viver, uma hora ou outra, estará novamente nos planos a curto prazo.

Prevejo irritação, falta de fome, excesso de sono e escassa vontade de sorrir verdadeiramente.

A visita a casa de amigos ou a simples ida a lugares públicos, provavelmente será feita arrastada, por pura obrigação. E a bebida ora acalmará, ora desesperará.

Vai ser preciso coragem ou pura necessidade para sair da cama. Mas passadas todas as etapas, a vida deve voltar, gradualmente, a ser bela. O sol voltará a nascer, as músicas voltarão a fazer sentido e todos aqueles clichês serão reais.

Um dia, eu juro. Agora, porém, provavelmente só em meados de 2012. Mas nem adianta revoltar-se, é assim mesmo que funciona. Se alguém lhe disse que seria fácil, mentiu.

Nosso pior e melhor

É uma bipolaridade sem tamanho. A gente chora, a gente ri. Tudo em um mesmo dia. Às vezes, em um inimaginavelmente curto espaço de tempo. E a gente acha que acabou tudo para, depois, perceber que ainda nem começou direito. Aí a gente manda mensagem, carregada de esperança, mas –  logo após apertar o ensaiado botão ‘send’ – torcemos para que nunca seja respondida.

Na verdade, nem nós mesmos sabemos o que queremos.

Ouvimos um ‘sim’ e entendemos como sendo ‘não’. Quando nos deparamos com um ‘talvez’, surtamos, imaginando se tratar de um ‘nunca mais’ envergonhado, disfarçado, temido. Nem te conto o que acontece quando na desilusão de um ‘hoje não vai dar’, ouvido ao final do dia.

Eu escrevo sobre a dor. Por vezes, elejo-me o ser mais dramático do mundo e chego a me convencer de que o problema só pode ser comigo. Mas, oras, o fato de o outro não expor, não quer dizer que não sinta.

As amigas, dotadas de lencinhos e colírio para olhos vermelhos, sofridos, encontram-se no café ao final da tarde. O assunto é o mesmo há semanas – causas e consequências de amores bandidos, errados, não-correspondidos, alterados, exagerados. Uma reclama por não saber lidar com o amor que tem demais. Outra debulha-se em lágrimas por ter amor de menos. A (aparentemente) mais sã, satisfazer-se-ia com a atenção de um só, aquele mal escolhido. Já a mais maluca diz, sóbria, não se deixar embebedar pelo veneno da paixão. Mas todas suspiram baixinho ao longo do dia. Nesta regra não há exceção.

Mulher é um bicho estranho, penso eu. É isso, são elas o problema.

Mas, então, encontro-me com o velho amigo na academia. Ele faz caretas e extrapola todos os seus limites a fim de liberar mais endorfina. Sua meta não é perder os quilos a mais e muito menos virar o incrível Hulk. Só evita marejar os olhos, levantando peso para esquecer.

Somos todos iguais, concluo. O problema é a espécie.

Entre uma pedalada e outra, conversamos. “A paixão está no ar esses dias, eu sinto”, conta ele, desconfiado. Não entendo o recado. “Prenda a respiração pelo máximo de tempo que aguentar”, alarma. Coitado, tá desesperado.

Estava errada, entendo. O problema, meus caros, é o sentimento.

Acho graça, mas também sinto medo. Afinal, no fundo, nem adianta fugir ou se esconder, é uma praga. Pode mandar prender os cupidos, descobrir a vacina para o vírus e censurar as melodias românticas. Não tem salvação. É uma burrice deliciosa, contagiante e tenebrosa inventada pelo coração.

Um prato que se come frio

E chega o dia – geralmente em uma terça feira de sol encoberto por nuvens – em que dá o fatídico estalo e, finalmente, nos perguntamos ‘o que raios estou fazendo aqui?’.

E tudo aquilo que antes fazia chorar, vira motivo de incontroláveis risos – dessa vez leves e serenos.

Os óculos cor de rosa caem. Ao mesmo tempo, o mundo não colore apenas em tons de cinza. Para nossa surpresa, o céu é azul, o sol amarelo e o sorriso de um branco que chega a cegar.

Não rimos mais apenas por educação. Vemos graça na piada infame contada pelo chato do departamento de informática. Os colegas de trabalho (pasmem!) podem até ser muito legais.

Entretanto, como a carne é fraca, não nos desfazemos por total dos frágeis laços. Deixamos que o tempo passe – porque é só isso que ele sabe fazer – e que cumpra com sua função de cessar aquilo que deve.

O ‘não’ não-proferido, disfarçado por falsa doçura e preocupação, nem machuca mais. A vontade, confessemos, é de mandar à merda. Mas apenas sorrimos.

A vingança, afinal, nem sempre vem embrulhada por duras palavras.

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