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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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Tudo que vai

Gosto de ser a pessoa que vai. Aquela cuja única tarefa dolorosa é anunciar sua partida. Que pode, sim, verter sinceras lágrimas, rapidamente enxutas pela ânsia do novo, pela magia do desconhecido.
A pessoa que vai pode até olhar para trás para acenar com o já peso da saudade prematura. Pode caminhar meio tortamente, acompanhada do medo do incerto. Mas a felicidade da conquista empurra sempre para frente, mesmo tropeçando, mesmo em zigue-zague.
A pessoa que vai, vai mesmo. E descobre que o mundo é bem maior do que aquele cotidiano gostosinho, porém comum e de já fácil manejo – por experiência – onde costumava-se viver, acomodado.
A pessoa que vai, vai descobrir-se a si mesmo também. Passará dificuldades e sofrerá novas pressões, mas erguer-se-á pegando impulso a cada pedra jogada no caminho. A pessoa que vai entende que pode ir e irá ainda mais longe a cada nova oportunidade.
A pessoa que vai leva a bagagem de toda a experiência anterior. Com ela, sente-se mais segura e mais capaz. E o é mesmo.
A pessoa que fica, fica com a sensação de vazio.
Fica meio triste, embora orgulhosa do triunfo do outro.
Fica meio perdida, porém. A cada piada interna contada, cada risada compartilhada ou aquele olhar típico de tarde de segunda-feira irritante em que saber-se não sozinho acalenta e faz acalmar. Busca-se o riso, o bufar, o olhar. E nada, não se encontra nada – é como tentar apoiar o cotovelo em uma base de mesa solta, desparafusada. Não machuca, mas não suporta, não aporta, não funciona.
A pessoa que vai sempre diz que vai sentir falta. E vai mesmo. Mas é diferente.
A pessoa que vai leva tudo com ela e ainda pode voltar vez ou outra para relembrar bons momentos.
A pessoa que fica, fica também com os móveis – vazios – e com aquele buraco no peito.
O dia a dia cessa, como é de sua responsabilidade fazê-lo, a dor mais aguda, mas o rastro do que se foi fica sempre ali, mesmo substituído – por melhor ou pior que isso seja.
Ser a pessoa que fica implica em lidar com uma perda que não é irreparável – visto que a pessoa que vai (ainda bem!) vai feliz e vai com vida, afinal -, mas que atormenta como se fosse.
Ser a pessoa que vai e saber que vai fazer muita falta é uma boa sensação, porém.
E é com essa certeza que a parte sobrevivente da mais recente parceria Superpoderosa deve ir. Levando consigo todo o conhecimento gastronômico adquirido semanalmente, além, é claro, do profissionalismo invejável e a cara de jornalista que não deixa dúvidas de sua competência.
Quando conheci Isabel pensei tratar-se da tão comum raça de comunicólogos arrogantes e sabichões. Mas toda essa pompa era apenas timidez.
Bel é a menina da risada gostosa, das piadas inteligentes e do texto leve e claro.
Bel é a organizadora do site e aquela que está sempre pronta para segurar o tranco quando a colega aqui perde as estribeiras.
Bel não é mais sisuda, mas segue sendo séria, passando credibilidade com sua pose de quem sabe muito bem o que está fazendo – porque sabe mesmo.
Bel é a pessoa que vai e vai levando junto a ela toda minha admiração, gratidão e carinho.
Eu, como pessoa que fico, fico com o exemplo de pessoa e profissional e fico feliz, com mais uma amizade que a vida me deu de presente. Fico com o coração na mão e com a certeza de que ainda escutarei seu nome em referências gastronômicas por aí.
Fico com a certeza de que vou encontrá-la em mais ainda muitas e muitas tardes, de lazer em vez de trabalho e com a mesma parceria de hoje.
Eu fico e você vai.
E vá mesmo, mas volte sempre. E não saia nunca de minha vida.

As simple as it gets

E aí a gente se desespera e liga pra tudo quanto é gente da já carimbada lista telefônica para ter certeza de que vai fazer alguma coisa diferente do que ir pra casa sozinha chorar as mágoas da decepção.

E aí a gente aceita convites de última hora e até se diverte, mas não consegue parar de pensar em como teria sido tão mais legal se fosse de outro jeito. Aquele, combinado. E aí a gente foca no trabalho e nos estudos que é pra tentar esquecer que se envolveu, mesmo sabendo que não podia, que não devia, que era errado. E aí a gente tenta se convencer de que é errado mesmo, que não daria certo, que não funciona. Mas aí a gente lembra que era bom, porque era mesmo. E aí a gente tenta se afastar, não demonstrar e em hipótese alguma ligar. E aí a gente mantém as mãos bem longe do telefone, mas vai até o céu quando este se manifesta. E aí a gente vai conferir, esperançosa, e descobre que é só mais uma mensagem sobre amor, daquele serviço que não foi comprado, mas insiste em comer os poucos créditos que ainda restam. E aí a gente lembra que tem que ligar pra TIM, pra cancelar essa porcaria que além de roubar uma fortuna de centavo em centavo, ainda é inconveniente, falando de decepções e dor de amor nos momentos em que estes são os únicos assuntos a serem evitados. E aí o coitado do moço do outro lado da linha não entende nada quando começamos a xingar a operadora de filha da puta, egoísta, insensível e enganadora.

– Mas, senhora, quando essas coisas de amor te perturbarem, é só responder com a palavra NÃO, que isso para – esclarece o paciente moço.

Como se a vida fosse assim tão simples.

E aí a gente desliga o telefone, estupefata de ver como alguém tão fora da situação conseguiu dar a luz que precisava. E aí tudo faz sentido e a gente consegue enxergar a situação. Some a vontade de trabalhar feito cão e focar nos estudos volta a ser difícil. Mas difícil mesmo vai ser, enfim, enviar a palavra NÃO.

Vai passar

Vai passar porque a vida continua, o trabalho exige, os boletos vencem e o estômago ronca.

Vai passar porque o fígado reclama e as lágrimas secam.

Mesmo que nada mais faça sentido, vai passar porque o sol ainda nasce, a lua ainda brilha, a chuva ainda cai e porque a praça ainda tem vida noturna, mesmo sem nós dois ali.

Vai passar porque ainda existe a bebida, existe o cigarro e existem os amigos.

Vai passar porque tem a academia, o regime e as aulas de boxe.

Vai passar porque, no mundo, habitam 7 bilhões de pessoas e porque não é possível que ninguém, nunca, vá se fazer interessante de novo. Vai passar porque estreiam bons filmes e peças, porque aparecem viagens, porque existem bons livros e vinhos.

Não vai passar só porque todo mundo diz que passa ou porque a gente sabe, por experiências passadas, que, uma hora ou outra, isso acontece mesmo.

Vai passar porque tem que passar. Só por isso.

Espírito velho

Hoje é sexta feira. Não são nem nove da noite. Já estou na cama. De pijama. Com meu livro. E estou muito feliz.

Poderia, do alto dos meus 22 anos, dizer que tenho trabalhado demais. Que estou cansada. Mas todos sabemos que, apesar de verdade, seria mentira. Não tem jeito, sou velha.

Se eu pudesse, confesso, teria sido uma adolescente normal, do tipo que curte ficar muito louca na balada. Juro.

Mas era do tipo que ficava conversando com a moça do banheiro enquanto descansava os pés, sentada em cima da pia, reclamando da altura do som.

Nunca aproveitei balada alguma. Ficava só na única caipirinha – que, ao longo da noite, virava água – e ainda tinha que cuidar dos amigos que, ao vomitar na manhã seguinte, imaginavam (vagamente e por meio de relances embaçados) ter aproveitado até demais.

Quanto a homens, eu tinha um lema: se não for o Brad Pitt, não informo nem meu nome. Adivinha, só! Nunca pegava ninguém. Tinha um certo asco dos caras que já deviam ter amassado umas cinco antes de vir tentar a sorte comigo. E não estou nem levando em conta os peculiares métodos de abordagem.

Era fila para entrar, para beber, para pagar, para sair. O aglomerado era tanto que a minha sensação era a de dançar dentro de um vagão de metrô lotado, pedindo desculpas pelos esbarrões e tomando cuidado, a fim de se esquivar das inúmeras cotoveladas e pisões.

Eram horas de preparação – das quais faziam parte cabelo, vestido e maquiagem – para passar a noite em um lugar escuro, de luzes ofuscantes (que não permitiam enxergar o rosto de ninguém, quanto menos a roupa nova), suando, fedendo a cigarro e tomando banho de cerveja.

Até tenho aqueles amigos que insistem. Mas não consigo entender a graça de um lugar como esse. Podem me chamar para os mais diferentes programas, juro que vou. Mas em baladas, não ponho os pés nunca mais.

Afinal, se a melhor parte (definitivamente!) era a filosofia divagada no banheiro – dividida com um alguém que estava ali a trabalho –, acho que faço bem em preferir minha cama, economizar uma grana preta e curtir minha mania de velhice.

Reencontro

A metros do trabalho, estacionei o carro na praça que tenho chamado de minha. A necessidade de acender um cigarro era maior do que a vontade de chegar em casa. Não por nada, estava tudo bem. Sem grandes conquistas ou significativas decepções.

Quando em horário de verão, 19h ainda é dia. A praça, recém-molhada pela breve chuva, era rodeada por amigos em bares, contemplada por crianças brincando no parquinho e recheada com o previsível casal apaixonado e com o maconheiro que disfarçava – sem poder aproveitar – sua densa fumaça. Sentei em um banco e observei. Esta era a minha prática favorita aos finais de tarde.

Eis que, então, vi de longe um rosto conhecido. Irreconhecível. Abri os braços, oferencendo um acolher de falsa saudade.

Nossas conversas eram sempre assim. “Não podemos ser críticos, mas temos que ter senso crítico”, proferiu. Ele sempre filosofava – com um ar meio anarquista – e eu sempre balançava a cabeça, como que concordando, mas sem compreender metade de seus pensamentos de menino, poetizados em falas teatrais.

Desta vez, porém, as palavras pareciam sair da boca de um homem – que carregava uma maleta transpassada ao ombro, de trabalhador. O moleque, finalmente, crescera. E me deixou ali, estupefata, descabelada depois de um dia longo, no meio da praça.

O contato fazer-se-ia o último. Não carregávamos celular. Irônico mundo da tecnologia – sem a qual nos tornamos inúteis. Prometi procurá-lo nas redes sociais para marcarmos, quem sabe, uma cerveja. Mas, no fundo, sabíamos que, provavelmente, não o faria.

O cheiro de nicotina cessou com a ajuda da brisa trazida no balançar das árvores. Mas guardei seu novo, porém típico, discurso – que, pela primeira vez em anos, foi capaz de mexer comigo.

Engraçados esses (re)encontros, feitos de acaso, promovidos pela vida.

Omissão

Mantenho, sobre minha mesa de trabalho, post-its que não posso usar. Guardo comigo, lá no fundo, segredos que não devo contar. Retenho sentimentos que não consigo externar e contenho lágrimas que não ouso derramar.

Amo sem poder a ninguém contar. Escrevo, mas insisto em não mostrar. Teimo. E os conselhos, sempre finjo escutar. Quem me vê sorrindo, não percebe o peso que carrego no olhar.

Vivo duas vidas. Aquela que exponho e aquela que faço questão de nunca mostrar.

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