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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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Sobre Elena Ferrante e a montanha-russa da vida

Me vi passando por um momento desses meio blá. Faz tempo que não escrevo. Tem muito texto na pasta de rascunhos, mas esses me parecem obsoletos, já não me representam. Com os amigos, a sensação é parecida. Não me leve a mal, os poucos e bons guardo comigo numa caixinha, sempre dentro de mim e a dois passos do whatsapp. Os novos, me empolgaram a princípio. Mas assim como vieram, se foram, meio que desapontados. Desapontada fiquei eu também. Bem mais por culpa minha do que deles. Não sei também o que estava esperando, não sei fazer amizades a essa altura do campeonato. Aqueles, da caixinha, formaram seu caráter junto comigo. Tomaram decisões erradas, com as quais aprendi. Eu também fui de muita ajuda nessa época difícil que chamamos de adolescência. Nossos passos estavam sempre em sincronia. Nossos acertos foram muito comemorados. Muitas vezes com cerveja e cigarros comprados sabe deus como, sem identidade.

Mas até para esses, não sei muito bem o que mais poderia, agora, oferecer. Não muito além de meu rosto velho conhecido, ombros e risadas como ponte para memórias deliciosas, de tempos que não voltam mais.

Sinto como se eu fosse um e.t. dentro do meu próprio corpo. Algo muito parecido com os meus dez anos, quando sangrei pela primeira vez. De maneira muito precoce, surgiram-me seios e pelos e sentimentos que eu nem sabia que existiam. E a vontade de ficar sozinha – essa nunca me abandonou. A diferença é que dessa vez não ganhei flores ou festinha, muito menos parabéns. Não há glamour em tornar-se adulto.

O sangue já escorre por entre minhas pernas há mais de dezessete anos, com uma frequência bem desregulada e acompanhado de dores que meu eu hipocondríaco sempre acha que me levarão à morte – e elas sempre desaparecem, esnobes. E eu tive que aprender a conviver com isso. Novos pontos de gordura também me apareceram, mas, dessa vez, por obra do carboidrato e não pela sabedoria infindável da misteriosa mãe natureza.

Os muitos quilos que ganhei – colocando a culpa na súbita perda de meu pai e de uma cirurgia truculenta de joelho, já em sua função quase normal – nunca mais perdi. E até isso vai ficando mais difícil.

O horizonte não é claro e empolgante, como antes fora. O próximo passo a seguir é no escuro. E dá muito medo. Dessa vez, tem muita coisa em jogo. Os boletos mensais não me deixam mentir.

Sentei no sofá, com uma gata – que era pra ser dócil, mas gosta mesmo é de tentar arrancar o dedão do meu pé – sobre minhas pernas e pensei na vida. E não foi legal.

Veja bem, eu amo estar viva. Agradeço por cada novo meme que deus me dá a oportunidade de ver, eu juro. Mas não devia ser um pouco ou muito mais do que isso?

Uma vez eu contei a uma terapeuta, que meu refúgio era nos livros. Era nesse mundo encantado, nada meu, muito do outro, que eu gostava de estar quando a realidade não me era assim, tão satisfatória.

Mas os últimos livros que li, acredite, foram péssimos. E eu li até o final só porque, diferentemente do que acontece com as dietas, não consigo abandoná-los no meio do caminho. É uma questão de respeito.

Aí, dia desses, acabei parando numa mesa de vinho – quase que por inércia – e uma gente muito interessante que cruzou meu caminho acho que por misericórdia do destino, me recomendou Elena Ferrante. E hoje, depois de um feriado meia-boca, eu senti meus olhos ganharem brilho novamente.

E se um texto bem escrito fez tão bem a mim, então por que raios não faria a você?

Esse post, então, é pra recomendar essa autora italiana meio anônima – ninguém sabe ao certo quem ela é –, cuja obra merece cada centavo de seu contado dinheirinho. Serve também para agradecer essa linda e despretensiosa indicação e, como não poderia deixar de ser, como mais um capítulo desse diário que chamo de blog – porque foi para isso que ele nasceu e foi assim, afinal, que conquistei alguns dos que me seguem.

A vida, minha gente, é essa coisa esquisita mesmo, uma montanha-russa sem freio que, dependendo da curva, faz a gente berrar de felicidade com os braços abertos ou chorar segurando bem forte na barra de segurança, pedindo pelo amor de jesus cristo, para ir um pouco mais devagar. Sem contar as inúmeras vezes que te faz vomitar, né?

Mas é isso que faz dela o bem mais precioso que o mundo poderia ter. Vai entender.

 

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Destilado do papel

Gosto de sofrer um pouco. Tristeza que destila, destila, fermenta e vira inspiração.
Se transforma em palavras que abraçam, afagam o coração. Frases e pontos e vírgulas que se alinham sem o cérebro conseguir acompanhar. Sento no escuro, no macio do colchão. No colo, o peso da máquina de fazer expor, sair, distrair e desabafar.
Dedos que correm e percorrem o teclado cheio de erros, érres por ésses, sem concordar verbo com sujeito.
Roupa amassada, cabelo despenteado. Cada canto do quarto vira um personagem encantado, iluminado, cheio de história para contar.
Quem sabe o que se passa na cabeça e na conversa dos cachecóis que vivem na prateleira, que moram no armário cansado de ter seus braços abertos e fechados e abertos e fechados até o rangir da dobradiça, até machucar.
Quanto conhecimento tem a luminária, em cada virar de página de livro, de rasura no caderno, de filmes e série e silêncio. Observando-me cochilar.
Neste piso que passo sem nem perceber, quantos tênis, botas, chinelos, quantos caminhos a percorrer. Cada pisada com pressa ou certeira, silenciosa, medrosa, festeira. O que pensa das meias que escorregam e o cabelo que rega a madeira quando saído do banho no mesmo horário, de segunda a sexta-feira?
Três pedaços de janela, que se revezam no frio e no calor. Têm visão interna e externa. Mas o que será que ela prefere? Será que às vezes queria não ver, não saber, não conhecer? Quando chove e a vista fica tão bela, quando escurece e dá medo de nunca mais o sol nascer. Mas a escuridão também pode ser poética, quando o vizinho da frente suas velas resolve acender.
O espelho que tudo mostra e nada esconde, onde será que mantém sua alegria de viver? Quando exibe uma roupa nova, reconhece o furo no pijama velho ou revela uma ruga sem nem perceber.
São sete quadros na parede. Mais dez pendurados enfeites que ninguém perguntou se ali queriam permanecer. Pode ser que não suportem seus vizinhos de gancho e que com outros pequenos pregos sonhem a cada amanhecer.
A vida fica mais bonita quando imaginada, quando sonhada com os olhos vidrados neste clarão em que escrevo sem correria, mas sem demora. Fica aqui um pouco de mim, um pouco da minha história e quem sabe esse impulso de letras que me devora, um dia me carregue, dicionário afora, para um mundo bem melhor que esse, de agora.

Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu

Luiz morreu aos 54 anos.
Refeições gordurosas regadas a cerveja, vinho e uísque da melhor qualidade provavelmente destruíram seu fígado.
Mesmo sabendo de sua condição genética – a mãe de Luiz morreu de cirrose sem nunca ter bebido uma gota de álcool -, comeu e bebeu nos melhores restaurantes.
Experimentou todos os sabores. Japonês, indiano, apimentado mexicano, dendê baiano, testículo de jacaré e incontáveis frutas direto do pé.
Até os 50, chegava em casa depois das 4h da manhã. Dava-se ao luxo de encontrar amigos de anos pelo menos duas vezes por semana. Era sauna, era bar, era jantar. Era qualquer desculpa para festejar, farrear, desopilar.
Luiz tinha uma legião de amigos. Uns fiéis, outros nem tanto. Emprestava dinheiro, confortáveis ombros e conselhos capazes de mudar vidas.
Luiz era filósofo. Era químico, alquimista. Era matemático e professor. Era influente, poderoso. Era funcionário dele mesmo, diretor.
Assistiu a todos os bons filmes, acompanhou todas as boas séries e leu todas as notícias que as poucas horas de seus poucos dias deram conta de absorver.
Era inteligente. Trabalhador. Ambicioso e sonhador.
Mesmo pobre, viajava de primeira classe. Conheceu o mundo. China, Emirados Árabes, Estados Unidos, Canadá. Fez nevar Paris. Saboreou todas as cervejas da Bélgica. Passou frio na Itália. Brasil. Espanha. Inglaterra. Alemanha. Cozumel. Chile. Argentina. Paraguai e Uruguai.
Luiz tinha camaradas em todos os idiomas.
Suas cinzas serão jogadas em límpidas e turvas águas em um cruzeiro pelo mar caribenho.
Luiz viveu como quem tinha nas palmas das mãos o mundo inteiro.
Quando internado, arrumou briga com as enfermeiras. Queria trabalhar. Reclamava da comida sem gosto. Queria bife com batata frita.
Mesmo assim, tirou foto com seu colega de quarto, aquele do leito ao lado. E prometeu que sairiam dessa juntos.
Luiz morreu.
Um grupo de mais de duzentas pessoas ao seu velório compareceu.

A história de Maria: quem disse que um versinho não daria?

Maria morreu aos 86 anos.
Uma veia entupida fez seu coração parar de bater.
Maria fazia check-up a cada seis meses, usando o convênio de idosos que um médico também idoso recomendou.
Morava na mesma casa há 50 anos. Foi lá que seus pais morreram. E seus três cachorros também
Maria nunca teve sua própria casa. Nunca morou sozinha. Nunca viajou.
Maria nunca transou.
Não acreditava em casamento e não deixou-se abrir o coração.
É provável que fosse lésbica. Mas como lidar com a religião?
Com sua aposentadoria, Maria guardava um pouco de dinheiro e o resto gastava na padaria.
Bolos, pães. Mas tudo sem glútem, recomendação de revista.
Era saudável, comia cenoura para cuidar bem da vista.
Seu sonho era conhecer a Disney. Mas tinha medo de avião.
Maria passou a vida na janela, vendo sua juventude desfilar lá embaixo, lá no chão.
Cuidar de samambaias era sua diversão.
Maria tinha uma enorme compaixão e com porteiros e vizinhos dividia sua refeição.
Cozinhava como ninguém.
Frequentava a quermesse e para o padre dizia amém.
No banco pagava a fatura de sua televisão.
Tinha mais de 500 canais, mas passava o dia vendo Datena.
Só tragédia, só desilusão.
Café da manhã. Almoço. Janta. Dormir e o ciclo repetir.
Saía para ir ao mercado.
Sua casa estava sempre em perfeito estado.
Pensou em adotar gatos, mas concluiu que muito trabalho daria.
Era pacata, afinal, a vida de Maria.
Guardava recortes de destinos nunca explorados.
Tão pesados que um dia a gaveta cedeu.
Cansada, pegou no sono. Só três dias depois a vizinha na porta bateu.
Maria não respondia. Maria, então, morreu.
Cinco vasos de samambaias, um padeiro e dois porteiros.
Foi esse grupo que ao velório compareceu.

e ponto.

conte-me tua vida. que encontro teu lide. te escrevo de cabo a rabo. te coloco entre vírgulas. te esqueço no final do segundo parágrafo sem perder o fio da meada pro início do terceiro. te perco entre minha pontuação. tão torta. tão morta. tão viva. te dou sentido se me deres novidade. inventa se for preciso. te viro do avesso. te espremo. te leio. decifro. e te conto aquilo que nem ao menos sabes. te faço chorar com rimas pobres. te encho de adjetivos. te poetizo. te alimento de gerúndios. te descrevo com palavras difíceis. te inflo o ego. te compartilho com o mundo. te deixo num rastro de vida. que quem mora em livro em conto em linhas de traçado sofrido já não morre. algum dia alguém te acha. e te publica. e te eterniza. e eu te uso para lotar mais uma folha. para fazer mais algum sentido. para sentir. e te marco. e te pinto. e te amo. eu te escrevo. para ter-te a um clique de mouse a uma virada de página a um rabisco lembrado no canto do caderno. e eu nunca te esqueço. nunca te ofereço qualquer outra opção. que entregar-se a escritor é virar ficção. que entregar-se a jornalista é virar pauta. puta. de lápis e caneta e caderno e anotação. que entregar-se é oferecer-se. perder-te o controle de ti mesmo. é fechar os olhos. é confiar. e te conquisto. e te convenço. e te rascunho. te admiro. te apago um pouco. para escrever de novo. te faço de vilão e mocinho. te dou o papel principal. coadjuvante. te controlo. te enrolo. te arranco do caderno. me arranco os cabelos. te insisto. te ensaio. te vejo. te escrevo. te escrevo. te escrevo. te bebo. te como. te durmo. te entendo. me entendo. te odeio. te rasgo. te amasso. te quero. mas te jogo. na lata do lixo. te molho de lágrimas. te ateio fogo. e observo. te agonizo. me retraio. te choro. me abro. pra próxima página.

Descoberta

Eu, sinceramente, achei que tinha superado.
Mas seguia comendo chocolate.
Demais.
Evitava o espelho.
Mudei o cabelo.
Quebrei o joelho.
E precisei me apaixonar perdidamente por um personagem de televisão.
Para entender-te.
Me entender.
Demorei, sabia?
Para sacar o envolvimento.
Tirar do espetáculo alguma lição.
Ficção.
No travesseiro toma o rumo que a gente quiser.
Mão e língua.
Coração.
E a gravação no replay. e replay. e replay.
Pausa.
Click.
Estava lá.
A arte imitando a vida.
A minha vida.
E a vida…
é mais que arte.
Sem roteiro.
Nem pausa.
Nem rec.
Nem play.
Botões quebrados.
E lá vamos nós.
Desapaixona.
Entende.
Sorri.
Joga fora o velho cookie.
Solta o cabelo.
Arruma o joelho.
Reinstala o espelho.
Reabre o coração.

Mesmo sem sentido

Já não encontro com amigos. Estou cansada. Dá preguiça de ir longe. Ou perto. Só preparar mesmo alguma coisinha em casa. Mas vai até que horas? Eu acordo cedo. Cedo? Eu tenho é que madrugar para dar conta de fazer exercício físico. Sabe como é…qualidade de vida. Qualidade de quê? Isso não pode ser vida.
A gente tem muito papo para colocar em dia, mas puta que pariu, você mora em São Bernardo. E eu tô sem habilitação. Poderia dormir na tua casa. Mas e a minha cama? Virei velha, preciso do meu travesseiro. Cadê a menina que dormia até em pedra? Voou. Morreu. Talvez nunca tenha existido. Às vezes eu acho que fui adolescente só por obrigação. Mas que minha vontade sempre foi ficar em casa assistindo ao Jô e comendo doce.
Aí não sabe porque ficou gorda. E reclama. E acorda às 5h da manhã para queimar a banha. E fica cansada. E não sai com os amigos. Porque tem sono. E reclama. E tudo virou longe, mesmo quando perto. É tudo muito congestionado. E perigoso. De que perigo a gente foge? Quer risco maior que não viver a porra da vida? A gente ganha dinheiro. Dorme oito horas por noite. Corta o carboidrato da dieta. Corre. E pra quê? Pra quem? Pra mim é que não é. E você? Pra quem que é? Quem é? Quem quer ser? É essa mesmo a vida que queria estar levando?
Vivos por fora e mortos por dentro. Caminhando sem querer estar. Chutando pedras no caminho. E que caminho… Cadê a paisagem? Muda então, faz alguma coisa, vai vender coco na praia. Se joga no mar. Pra limpar. Limpa a casa, sacode a poeira, varre a imensidão de desgosto, que o gosto, eu juro que vem. Come um brigadeiro de vez em quando. Pastel. Guaraná. Feijoada. Capricha na salada também. O que é que tem?
E corra sim. Mas saia. Divirta-se. Toma um energético. Que o sono a gente compensa na eternidade. E enquanto estamos vivos. Enquanto não somos mortos. Enquanto não nos matamos. Vivamos.

Proibido chorar em horário de trabalho

Me deu uma vontaaade de chorar. Mas era segunda-feira e o trabalho com menos uma jornalista na redação estava fervendo.
O mundo do mercado imobiliário me esperava, com suas grosserias e esperas infinitas ao telefone, com má vontade de responder e-mails e respostas curtas que não ajudavam a preencher as inúmeras páginas de inúmeras matérias que eu tinha que escrever.
Fui pro banheiro e derramei algumas lágrimas.
Mas nem isso deu tempo de fazer direito. Jornalista toma muito café, você sabe, acompanhado de um cigarrinho. E aí toma-se água também. E aí se vai muito ao banheiro.
Saí e 
fingi que os olhos vermelhos eram maconha. Menos desagradável que chorar a ausência de um ente querido e amargar o clima de pré-fechamento.
A vida não deixa nem a gente sofrer direito. E isso é o que mais conforta.

Faz um tempo, eu quis fazer uma canção pra você viver mais

Eu tinha um medo incondicional de que alguma coisa, um dia, acontecesse com você. Dizem que, quando nascemos, no fundo sabemos o nosso destino e as dores pelas quais passaremos.

Se for verdade, talvez fosse só minha memória irracional me dizendo para passar muito tempo com você. E eu passei.

Quantas e tantas vezes enfrentei o congestionamento ao seu lado, quando poderia ter ficado em casa, assistindo a qualquer coisa besta na TV. Escolhia o lado dos homens na mesa enorme de almoços com família e amigos só para ouvir suas histórias e suas opiniões divertidas e interessantes sobre qualquer tema. Você sempre soube falar sobre qualquer coisa. Isso era realmente impressionante.

Eu nunca gostei de discutir e contar como foi o meu dia. Mas pra você, eu contava. Você sabe.

Só para deitar ao seu lado na cama eu deixava de assistir ao Saia Justa e assistia ao jornal da Globo News. Isso estragava minhas quartas-feiras, mas não tinha o menor problema.

Frequentei churrascos chatos, festas sem graça e passei fins de semana mal humorada. Se pudesse, voltava atrás e colocava um sorriso no rosto em cada uma dessas ocasiões. Mas, pensando bem, você não ligava muito e uma das melhores lembranças que tenho é de quando você me mandava morder o próprio dedo para aliviar a TPM ou a bravice sem fundamento.

Eu dava socos em sua barriga grandona e a chamava de Sofia. Era nossa brincadeirinha. Você só devolvia o soco quando estava meio de saco cheio, mas nunca me machucava.

Suas palavras de ordem ao me mandar segurar o choro quando algo não me agradava, me prepararam pra vida e eu acho que aprendi até que bem, porque só tenho chorado às vezes. Mas lavo o rosto, levanto o queixo e sorrio, só por saber que era isso que você me mandaria fazer.

Eu não vou deixar ninguém nunca gritar comigo, assim como você não deixava. E quando for dar bronca nos meus filhos, não alterarei meu tom de voz, exatamente como você fazia. Esse seu método funciona. Sei disso porque, mesmo tendo cara de bravo, você era muito respeitado e muito, muito querido.

Eu falava de você para todo mundo. Hoje, é difícil ter que usar verbos no passado. Então me calo.

Uma vez, conversei com você o caminho inteiro de volta pra casa, pra você não ter sono. A gente sempre lembrava desse dia e das perguntas bestas que eu inventei. Acho que aí já estava me preparando para ser jornalista.

Às vezes escrevo um poema e me sinto feliz por pensar que você ficaria orgulhoso. Você se impressionou quando descobriu que eu tinha esse dom. Eu nem sabia que tinham feito sentido aquelas palavras sobre fumaça e lágrimas que postei no blog só por falta de opção. Mas você era meu melhor crítico e, por isso, ainda me arrisco em rimas pobres que, às vezes, representam todo o sentimento do mundo.

Já não escrevo sobre amor. Sei lá, ficou obsoleto e medroso esse meu viéz. Você me mandou virar a página e estou lendo novos livros. Em espanhol. Acho que a gente não teve a chance de conversar em espanhol. Você já estava muito fraco e, eu, com muito medo.

Fui medrosa, me desculpe. O medo e sei lá mais o quê, me fizeram ficar longe de sua doença. Nosso último abraço foi aquele do aeroporto. Acho que te abracei umas três vezes. Se pudesse, ficaria naquele abraço para sempre. Era o seu melhor. Era o meu melhor.

Suas últimas palavras foram “vai lá, filhinha”, e eu fui. Você mandou. E eu obedeci. Queria que você tivesse me pedido para ficar. Queria ter ficado.

Voltei e você já não era você. Eu te olhava e já tinha saudades do cara barrigudo e sério, por quem eu tinha o meu maior amor. Mas eu te reconheci nos dentes brancos e certinhos e lindos. Sua arcada dentária era incrível. Te reconheci na pinta da mão esquerda e nas próprias mãos, ainda pesadas e morenas. Te reconheci mais ainda na voz e quando você fez comentários sobre política. Quando você achou legal as cartas que eu li pra você na revista, aí eu tive certeza que era você. E sorri. O amor, ah, o amor ainda estava lá.

Você lembrou do meu aniversário e achou que fiz surpresa ao te visitar naquele leito. Eu estava sempre ali. E sempre vou estar.

À noite, depois do trabalho, durante anos, eu deitava ao seu lado, me aproximava, me aconchegava em sua barriga e, com o ouvido espremido em seu peito, dizia “olha, pai, seu coração está batendo”. “Ainda, bem, né?”, você respondia. “Pai, você está quente”, eu comentava. “Que bom! Significa que estou vivo! Imagina se não estivesse?!?”. E eu nunca, nunca imaginava.

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