Busca

Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

Tag

vinho

Copiloto

Tem gente que parece que entra na vida da gente só para fazer bem. Parece que aparece só para nos fazer acreditar que podemos fazer mais e melhor e ser mais e melhor. É para esse tipo de gente que a gente arruma tempo na rotina atribulada, empesteada de nadas que a gente faz para tentar se sentir mais e melhor. Sem sucesso algum. E a gente ri e a gente chora e a gente se dá as mãos, gratos por esse tipo de contato verdadeiro. De carne e osso e sem importar maquiagens e sapatos de salto alto que a gente usa, mesmo com dor nos pés, mesmo com alergia nos olhos, para tentar parecer com aqueles que achamos ser mais e melhores do que nós, mas que nem sempre o são. E a gente ri e chora e chora de rir das desgraças da vida. Que doem, mas fazem parte. E a gente se apoia sem julgar pensamentos nefastos ou ideias ruins que, quando trabalhadas, podem sim se tornar melhores e mais plausíveis. Porque nenhuma árvore começa sua jornada lambendo o céu. É comendo terra que a semente germina. E a gente sai de uma conversa dessa regada a vinho que nem precisa ser bom, porque a companhia compensa. E a gente sorri, sozinho mesmo. Sabendo que com esse tipo de gente na vida, sozinhos mesmo nunca estaremos. E a gente vai dormir sabendo que amanhã vai ser um dia bom, que a gente já é um pouquinho mais e um pouquinho melhor do que era cinco horas atrás. Esse tipo de gente devia ter nome. Esse tipo de gente se chama amigo. Quem tem amigo nem precisa fazer muito, não. Só de estar ali já faz de si muito mais e muito, muito melhor.

Anúncios

Canção de Ninar

Aquieta esse facho, menina. Acalma essa alma. Canta essa canção. Não deixa mais vir do coração. Medita nas nuvens. Encontra o equilíbrio. Desperte o chakra. Deita na cama. Chore de rir. Assista TV. Beba um copo de vinho. Talvez dois. Talvez três. Garrafas. Fique sozinha um pouco. Deixe passar. Deixe vir. Não deixe ficar. Lembra de como era bom. Pensar só em você. Só para você. Só se quisesse. Se fizesse. Acontecer. Firma bem esses pés no chão, garota. Que passarinho sem asa não sabe voar, não. Observe de cima. Afaste-se do clima. De fininho, na multidão. Passa embaixo desse cordão. Acorda a mente. A imaginação. O apego não pode mais existir. Deixe chegar, mas faça sair. Guarde memórias em potinho cheio de areia. Despeje no mar, invocando a sereia. Nade profundo, pegando seu espaço. Só grude em si mesma, não se faça de carrapato. Limpe, limpe os sapatos. Não autorize a sujeira a adentrar. O que não serve não pode ficar, só deixe sair, não deixe entrar. Berre bem alto, chame bem a atenção. Mas depois caminhe discreta, não dê nem seta, nessa contramão. Aperte o botão. Esperança jogada na esquina. Tacada de cima do ventilador. Ignore essa dor. Egoíste-se. Sem dó. Sem chance. Sem querer ouvir sermão. Não se rebaixe, não abaixe essa razão. Tenha na cabeça essa missão. Na ponta da língua. Sempre a palavra não. Solte o cinto, se jogue no chão. Não faz bem viver assim, sempre a sorrir, com os dentes na mão.

O primeiro dia do resto da minha vida

O primeiro dia do resto da minha vida escritora foi quando sentei à frente do computador e escrevi sozinha minha primeira história.
Não deu tempo de esperar a inspiração chegar. Algo tinha que ser entregue. Então entreguei.
O primeiro dia do resto de minha vida escritora tinha eu e uma página de word em branco, referências abertas em abas do safari, um copo de água ao meu lado e a Niña tentando subir no meu colo.
Não me lembro se tinha chuva ou se tinha sol. Mas tinha uma vontade imensa de mergulhar pelas palavras conhecidas em um formato tão novo. Tinha muita insegurança e um medo danado de não ser boa o suficiente. Mas tinha também a certeza de que seria o melhor que eu poderia ser. E fui.
O primeiro dia do resto de minha vida profissional não teve glamour. Porque era só o começo. Mas teve vinho, teve pizza e teve conversa que durou mais de sete horas, mas pareceu passar apenas em duas.
No primeiro dia do resto da minha vida escritora, dei pulinhos empolgados e assustados com o que estava por vir. Neste primeiro emocionante dia, segurei com firmeza a mão da dupla perfeita, remei e descansei. Encarei os olhos do desconhecido e murmurei a palavra confiança.
Este também foi o dia em que minha fé na humanidade foi restabelecida – ainda tem gente legal nesse mundo, sabia?
E neste primeiro dia do começo da minha vida eu sorri enquanto subia a Augusta cumprimentando seus habitantes raros e magníficos.
O primeiro dia do resto da minha vida escritora teve eu e teve a certeza de que eu poderia ser um alguém igualzinho àquele dia. Maravilhoso.

Não há noite longa que não encontre o dia

Dormiu o melhor dos sonhos. Caiu nos braços de Morfeu e este, desta vez, não era gostoso, não tinha os braços fortes ou o dorso torneado. Era mais como colo de vó ou edredom quentinho e macio numa noite de rigoroso inverno.

Ao deitar-se já não tinha mais nada em seus pensamentos.

Conversara consigo mesma de maneira rígida e decisiva. Dera bronca, xingara, chorara, sorrira, esclarecera. Entendera. Era a primeira vez que fazia terapia assim: só ela, uma taça de vinho chileno, um maço de Marlboro light intocado e a lua.

A noite era clara, o vento cessara e as estrelas pareciam chorar. O sereno era espesso, quase como uma garoa, porém sutil. O frio era acolhedor e dramático. Ela era dramática. Mas soube usar a razão. Decidira. Ficar sozinha sempre lhe agradava muito. Não por muito tempo. Afinal, começava a fazer falta uma segunda voz, um toque, uma opinião. Mas naquela noite não. A solidão lhe bastou. A TV incomodou e a escuridão não deu medo. Estava segura. Sozinha. Pensante. Falante. Quem a visse a taxaria maluca, falando com as paredes. Como pode?

A conversa era tão intensa, tão verdadeira, que a casa se desfez. Não havia mais nada materializado, só o vinho, apenas os gestos relaxados. Contara a si mesma segredos que nem ela sabia. Revelara o inconsciente, vomitara o sentimento em palavras. Nem sempre era belo ou fazia sentido. Mas simbolizava, tranquilizava, amparava. O começo foi difícil. Pensamentos difíceis demais de decifrar. Aí então veio o desespero, seguido de choro e consequente depressão. Depois veio o alívio, o respirar, o enxergar.

Quando deu-se por satisfeita, trocou o jeans pelo pijama velho. O cérebro recusava-se a pensar. Até aquele momento não sabia que era possível desligar-se assim. A sensação deveria ser de vazio, mas, estranhamente, não o era. Alguns podiam até chamar de meditação. Relaxou, fechou os olhos. (Ou já estavam fechados?) Dormiu o sono dos deuses. Morfeu era acolhedor e confortável. Desejou nunca mais acordar.

Mas o dia seguinte certamente seria mais fácil agora que era mesmo a pessoa que mais lhe conhecia.

Vai passar

Vai passar porque a vida continua, o trabalho exige, os boletos vencem e o estômago ronca.

Vai passar porque o fígado reclama e as lágrimas secam.

Mesmo que nada mais faça sentido, vai passar porque o sol ainda nasce, a lua ainda brilha, a chuva ainda cai e porque a praça ainda tem vida noturna, mesmo sem nós dois ali.

Vai passar porque ainda existe a bebida, existe o cigarro e existem os amigos.

Vai passar porque tem a academia, o regime e as aulas de boxe.

Vai passar porque, no mundo, habitam 7 bilhões de pessoas e porque não é possível que ninguém, nunca, vá se fazer interessante de novo. Vai passar porque estreiam bons filmes e peças, porque aparecem viagens, porque existem bons livros e vinhos.

Não vai passar só porque todo mundo diz que passa ou porque a gente sabe, por experiências passadas, que, uma hora ou outra, isso acontece mesmo.

Vai passar porque tem que passar. Só por isso.

Então é natal

Nota: os membros que compõem minha família, além de bagunceiros e bagunçados, são o máximo e eu realmente não sei o que seria das minhas datas comemorativas sem eles

Para desgosto da minha mãe, não sou uma pessoa muito natalina. Isso porque, desde muito pequena, observo minha avó – lê-se ‘a pessoa mais bem humorada, engraçada, de bem com a vida e que mais fala palavrão que conheço’ – já começar a chorar pelos cantos semanas antes de assar o coitado do Peru – menu que também não é lá meu favorito.

A data, para ela, é sinônimo de reflexão, muita saudade doída e consequente melancolia. Não tem como ficar feliz, nem se eu fosse apaixonada por panetone. Isso sem contar o calor que, na minha visão, está mais para castigo do que benção divina sobre o famigerado país tropical. 

O natal é sempre comemorado lá em casa, para minha infelicidade. O dia, que promete ser de festança, ano após ano começa com estresse. Logo às oito horas da manhã, sou arrancada da cama  – com uma delicadeza que Jesus, certamente, condenaria – com o objetivo de ajudar a deixar a casa em ordem (vale lembrar, porém, que o resto da parentada só dá as caras lá pelas onze da noite). Tudo ao som de broncas e berros misturados a músicas natalinas no (juro!) cavaquinho.

A arrumação inclui banheiros, camas, quartos, lavar o quintal, entuchar as roupas espalhadas nos armários e fazer mágica para comer sem deixar resquício de farelos e afins pela cozinha. Quando parece que vai ficar tudo bem, toda tarde de todo santo natal, meu pai – com uma habilidade enorme para fazer sujeira e irritar sua esposa – resolve consertar uma torneira quebrada há uns belos três meses e, no exato momento em que descobre, minha mãe faz valer o sangue italiano que corre em suas veias. A gritaria, inevitavelmente, começa aí. E só termina na missa do galo.  

Também o amigo secreto, todo ano é a mesma coisa. Aquele tio engraçadão, invariavelmente, tira a tia que gosta de jogar truco, alguém faz alguma piada infame, algum casal mal resolvido sempre briga e fica de cara feia, alguma tia resolve colocar na vitrola o CD da Simone com a faixa ‘então é natal’ no infinito repeat para irritar meu pai e, quando dá meia noite, a família ataca – esfomeada e sem a menor finesse – o frango com farofa da minha avó como se fossem todos retirantes nordestinos. Chega a ser comovente.

A melhor parte mesmo é quando os tios mais chatos resolvem ir dormir e juntamos os primos, a tia mais descolada e o avô engraçadão ao redor da piscina. O objetivo é acabar com os líquidos restantes em todas as garrafas presentes – sejam elas de uísque, cerveja, champagne quente ou vinho ruim. Geralmente, alguém cai na água com celular no bolso e/ou vomita em algum saco de presente. A última ceia me rendeu uma fama familiar que carregarei pelo resto da vida.

A pior parte é o almoço do dia 25. O evento, que acontece no salão perto da casa da tia que mora longe, já é tradição. A comilança proporciona azia, mas também emocionantes reencontros de primos distantes. Chega a ser lindo. Tudo isso, não fosse a ressaca, até que seria fácil.

O problema, porém, é encarar – com enjoo e dor de cabeça – tias que só te veem uma vez por ano, nunca lembram ‘no que foi mesmo que você se formou’ e, ainda assim, questionam seu salário, seu corte de cabelo, sua provável mudança de casa e a sua (não-existente) vida amorosa.

Papo vai, papo vem, tiramos a famosa foto da família inteira reunida e já depositamos o dinheiro do bolão – que é para ver quem acerta qual casal vai resistir ao ano novo e permanecer unido para a foto do natal que vem.

Se sobreviventes, ficamos horas tentando nos despedir de todos – sempre esquecendo, obviamente, alguém que nos ligará mais tarde só para cobrar um ‘tchau’ decente – e damos graças por poder ir embora, desmontar a árvore, arrumar a bagunça que ficou na casa e dar fim ao evento-clássico-trágico-cômico-adorável que só se repetirá (se Deus permitir) dali a doze meses.

Autoajuda

Se quiser me entender, não desconsidere textos passados, por mais que o novo os contradiga. Oscilo. É surpreendente a capacidade que tenho de ir de um extremo a outro em uma única virada de página.

Minhas estratégias textuais já não existem – são baseadas em ironia, lugar-comum e drama, muito drama. A filosofia utilizada por mim será sempre a de boteco. Minhas entrelinhas bóiam em um copo de cerveja, uísque ou vinho – tudo depende da gravidade da situação a ser descrita. A máquina de escrever é sempre defumada pelo cigarro constantemente aceso no cinzeiro de vidro, por mais que imaginário.

Sou egoísta, mas não confesso. “Você tem que pensar no que quer transmitir ao leitor”, o renomado mestre aconselha – na melhor das intenções. Apenas balanço a cabeça, fingindo concordar. É a maneira de não revelar a vergonha de dizer que já não me importo com aquele que vai ler.

As palavras expostas a quem quiser, servem-me de economia por conta da fortuna não gasta em diferentes linhas da psicologia. A página em branco no word é chamada terapia.

Crime passional

Tarde. Um domingo chuvoso. A casa vazia. Um vinho. Lógico, típico. Mas dos melhores. O clássico, do tipo que nunca decepciona, tinha gosto amargo.
A uva, colhida com tanto carinho no penúltimo outono, descia rasgando a garganta, cruel. Não fosse oferecido por gente de confiança, temeria ser veneno.
Bebida tão cara para perder o gosto. Um efeito estragado do sentimento pisado. Sem dó. Nenhuma gota de mel no fel da vida.
Fez de meus dias melancolia. Me tirou, primeiro, o prazer de sonhar. Agora, tira-me o raro reconforto de um saborear tão nobre. Só lhe resta, então, tirar-me o respirar.
Chega! Te arranco de mim, que é para não me matar.

Coisas que aprendi com meu pai

Esse meu temperamento calmo e paciente até demais é herança genética de meu maior professor. Não ser do tipo estourada, porém, me trouxe alguns problemas. Era sempre eu a criança passada para trás pelos coleguinhas espertos. Era eu a tolerante e boazinha, com quem de tudo se podia abusar.

Já meu pai sempre foi diferente. Apresenta também semblante pacífico e demasiada tolerância. Mas quando ele perde a paciência e a confiança, é apenas uma vez, para nunca mais. Éramos muito parecidos, mas eu ainda tinha muito a aprender.

Com um currículo recheado de graduações e idiomas fluentes, meu pai é do tipo que impressiona. Se precisar, ministra excelentes aulas de exatas – a ele devo as boas notas tiradas em física, química e matemática – e humanas – a ele meu irmão deve menos recuperações em história e geografia.

Típico professor de cursinho, meu pai explica teoria com exemplos práticos e piadas. Mas suas melhores palestras são aquelas sobre experiência de vida, geralmente declamadas em jantares. Os ouvintes são sempre familiares e amigos próximos. Mas, por falar alto demais, não raras vezes flagro espectadores de outras mesas atentos às histórias do interessante senhor.

Apesar de ser engraçado e carregar em si um coração enorme e generoso, por muitos ele é temido. Sua fama de bravo, porém, é facilmente explicada por suas opiniões extremamente sinceras. Meu pai não era do tipo que via como obra de arte meus desenhos de criança. Não que fosse cruel, apenas não dava demasiado valor para qualquer rabisco que lhe apresentasse. Dele, nunca consegui reconhecimento artístico. Mas quando elogiou um texto meu, tive a certeza de que estava fazendo aquilo direito.

Ele sabia que a vida não me daria moleza e, para me preparar, nunca deu colher de chá. No fundo, tinha consciência de que a dureza de suas palavras fariam com que eu vertesse sofridas lágrimas, mas que estas seriam enxugadas pelo lenço de doçura e compreensão de minha mãe. Minha educação foi sempre bem balanceada entre a rigidez, o carinho e a liberdade.

Meu pai não toleraria se filho dele usasse drogas ilícitas, mas sempre afirmou que um drink ou outro pode ajudar a tocar a vida com menos seriedade. Ele não esconde quando bebe, mas também deixa mostrar a ressaca do dia seguinte, deixando claro que as escolhas trazem consequências. Sempre teve comigo um diálogo aberto, fazendo questão de me mostrar que o mundo não é cor de rosa, mas que, às vezes, o cinza pode ter um tom muito bonito.

Quando comecei a crescer, o ‘velho’ teve dificuldades em assimilar que dava broncas e lidava agora não mais com uma menina. Eu pensava diferente, tinha crises de existência e, ainda por cima, sofria de tpm. Aos poucos, ele teve que entender e se adaptar.

Meu pai me deu uma caixa de camisinhas quando morei fora por um tempo e não proferiu uma palavra sequer em relação a isso. Fiquei estupefata e também não reagi. Sabíamos que o recado estava dado: aproveite a vida, mas não seja inconsequente. De uma forma ou de outra, acabamos sempre nos entendendo.

Meu pai me ensinou que o mundo dá muitas voltas e que não posso nunca fechar portas ou janelas, porque podem me ser úteis no futuro. Me mostrou que a ignorância nas relações pessoais é a maior burrice do ser humano, por mais inteligente que este seja. Com ele, aprendi a ser gentil e bondosa, mesmo quando má.

Quando a vida parece dura demais e penso em desistir, me faz engolir o choro e pensar em alguma alternativa para seguir em frente. Para ele, passar a mão na cabeça é me deixar beber vinho do bom, enquanto filosofamos sobre a vida.

Com fortes argumentos embasados pelo conhecimento adquiridos com o tempo. meu pai bate usando a força das palavras proferidas serenamente. A maior violência quase física, de tão moral, da qual já fui vitima. E é por isso que não deixarei com que homem nenhum jamais me levante sequer um dedo – ou um único timbre no tom de voz.

Meu pai me ensinou não só a respeitar, mas a ser respeitada.

Sigo com o mesmo comportamento genético. Ainda não convenço ou boto medo em muita gente, que insiste em abusar. Mas hoje, há muito mais entre a calmaria e o momento em que a paciência acaba. São 22 anos de curso de vida, ministrado pelo seu Luiz.

Blog no WordPress.com.

Acima ↑