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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

eu remo, tu remas

Errei o caminho três vezes
Cheguei e já não tinha vaga
Rodei e rodei e rodei
Parei
Cabeça apoiada no volante
As pernas já não tinham forças para sair
Saí assim mesmo
Cambaleei
Não entendi uma palavra proferida a mim pelo caixa
20 30 40 129 reais
Posso ter sido roubada
Só queria sair dali
Entrei e sentei
Bebi uma cerveja quase sozinha
Não deixei esquentar. Não dessa vez
Esperei e esperei e esperei
Cada um que passava achava que era você
Um cara careca
Uma mina de dread
Um grupo de amigos nigerianos
Um brother muito doidão
O barulho me incomodava
Segurei bem forte os ouvidos. Feito concha
Acho que fui cantada. Ignorei a investida
Não sei mais se gosto de homem
Sai daqui, disse. Grossa como nunca
Como sempre
O mundo começou a girar
Não tô acostumada com cerveja gelada descendo assim, de uma vez
Quando tava a ponto de sair correndo, me recolhendo
Despontou você
Respirei
As águas rolaram tanto e muito
De alívio
De estar finalmente em casa
Às vezes só o que eu preciso é te dar um abraço
E basta.

nothing. at all.

Parecia milagre. Agora vai. Tanta emoção. Tanta sintonia. Tanta verdade. Tanta vontade. Achei que a gente tinha encontrado aquele sentimento que destrói qualquer muro, pula qualquer cerca, ilumina qualquer escuridão.
E lutei com todas as minhas forças por uma batalha na qual nunca por inteiro acreditei.
Com o coração na mão.
Tentei de novo. Me joguei de novo. Em uma piscina rasa demais. De novo.
Sobrevivi. Morrendo por dentro.
Amando por dentro.
Sofrendo demais.
Mas valeu demais.
Cada segundo.

posologia

dá um tremelique. começa bem no centro do corpo, meio que na espinha, meio que no estômago.
aí desce pras pernas, fazendo cair. fazendo tombar. perdendo o equilíbrio como quando criança que vivia engessada. que vivia ralada, vivia.
o tremor sobe pra cabeça, balança os ombros, faz chacoalhar o pulmão.
dá uma agonia dentro da gente.
deita. levanta. deita. levanta. deita de novo.
tenta dormir. não dá. não rola. não descansa.
parece que tem um duende aqui dentro. pisoteia tudo. remexe tudo. como roupa recém-lavada, que, encharcada, precisa torcer.
e bate um martelo. enfia facas. machuca.
pega o celular. conversa. amigos.
mais amigos. outros amigos. mais uma opinião.
não adianta nada não.
é só meu. é só seu. é tão nosso que não cabe num caminhão.
só eu entendo.
clamo pelo universo. céu. lua. astros.
tento homeopatia. muito lerdo.
maconha. muito pouco.
maracugina. de um a dois comprimidos revestidos, três vezes ao dia, depois de cada principal refeição.
sistema nervoso não responde. o tremelique só caminha pelo corpo. pode ser grave, vai saber.
não tem bula. meu remédio é você.

Labirinto

não precisa nem tocar. nem relar. nem precisa chegar perto. é só aparecer. em sonho. em texto. em pensamento.
é só lembrar. é imaginar. mesmo no ambiente menos propício. mesmo quando o assunto é tenso. mesmo quando dá sono. dá tédio. tem graça. porque tá dentro. porque tá junto. e não precisa de muito mais.
o desejo é físico. a conexão, de alma.
o toque inevitável. a íris que se encontra. e não larga nunca mais.
a memória é fotográfica. o cheiro tá guardado nas narinas. texturas. peles. cores.
as palavras não machucam mais. abrem o peito. vomitam o que é bom, o que é ruim.
aliviam.
resolvem.
confundem.
há paz. onde há entendimento. e a gente se ajuda. só nós por nós.
erramos. arrependemos até. mas nos rendemos. a tudo isso que explode. vulcão.
apertem os cintos. primeira fila da montanha russa. agarra com força. se perde no looping.
descida. subida. eternas. deliciosamente maluca. frio. na barriga. na espinha.
vontades.
medos.
dedos que não disfarçam.
e duas mãos sempre juntas. tentando achar a saída.

fênix

Todo mundo dorme lá dentro. Um amontoado de corpos etílicos, cansados de extravasar.
Aqui fora sou eu. Como só eu conheço. Peço licença pra lua, que gentilmente ilumina um pedaço de papel amassado de quem não consegue despejar o desespero em pequenas teclas de mensagens rápidas. Precisa do borrar da caneta.
Não me importo com a legibilidade das letras intrincadas, também um pouco bêbadas. Esse é o tipo de carta que não se entrega. Escreve-se pro outro, que existe em si mesmo. Confessa-se exagerado, desnecessário tão necessária e urgentemente que soa até piegas. Brega, talvez.
É pouco o sinal que chega. Mas suficiente pra cumprir com a única missão de fazer rodar o mais triste disco do chico. Dramático. Poético. Real.
A canção que faz mais sentido é tocada inúmeras vezes, tentativa frustrada de derramar mais um pouco de água do mar.
A sofrência vem lá de dentro. Âmago. Como ondas bravas. Ressacas. Contorcendo as entranhas até fazer um nó escoteiro no fundo da garganta. Solta! – Eu peço.
Mas os olhos, já secos, se recusam. Eu respeito. Vai assim mesmo.
O ponto final é libertador. Alívio.
Não há certeza, porém. Tudo ainda continua lá. Lá dentro, aqui fora.
Que não adianta correr pra longe. Não dá pra fugir do que se carrega no peito. Na alma.
Mas agora respiro.
E sorrio. Sincero.
Sofrer é viver.
Viver é bom demais.

tá nublando a nuvem dos olhos.
o cinza é clarinho e o sol ainda se vê ao longe.
o mundo é muito grande. e tem tanto problema maior do que o meu.
injusto é deixar a inocência deitada na cama, vítima de um vírus qualquer. raro.
injusto é ver a cria murchinha, tristonha, sem poder brincar.
injusto é poder uma história contar. e achar que tudo é capaz de mudar.
mas poder sair pro cotidiano enquanto com muita doença o paciente ainda tem que lidar.
injusto é conseguir todas as contas pagar e ainda assim só saber reclamar.
a vida é tão linda. mas muda num segundo e o melhor mesmo era se o meteoro contra a terra resolvesse se chocar.
assim, não tinha mais o que chorar.
e enquanto eu me ponho aqui, a trabalhar.
uma família lá fora acaba de desabar.
dá vontade de desistir, é muito difícil continuar.
mas é exatamente agora que não dá pra arregar.
se você tem a sorte de sua saúde desfrutar.
vai pra casa, não precisa duas vezes pensar.
corre pros seus queridos, agarra mesmo, sem explicar.
enquanto o coração ainda tá bantendo, por favor, bora aproveitar.
deixa de besteira, faça tudo valer a pena.
não deixe nunca de abraçar.

Aqui vamos nós outra vez

Achei que o coração tava quebrado.
Até batia, mas nada sentia.
Apanhou, apanhou, apanhou.
Atacar ele até tentou.
Mas caiu. Desajeitado.
Pobre, pobre coitado.
Num potinho feito de gelo ele descansa sem demora.
Não tá nem aí pra vida lá de fora.
E, assim, os dias foram todos se passando.
Tranquilamente, monotonamente, solamente caminhando.
Sem muita emoção, focando na concentração.
Sem dizer muitos sim, só tacando a mão no não.
Mas um tiro meio torto o atingiu bem em cheio.
Devagarinho remendou o buraquinho lá do meio.
De repente ele ri, ele dança, ele chora.
Mesmo com medo do crescer do sentimento que aflora.
Ignora os sinais, pensa bem antes de falar.
O receio bate forte de de novo machucar.
As músicas voltaram a fazer muito sentido.
A grama tá mais verde, o mundo tá mais lindo.
O sorriso, mega bobo, invadiu o guarda-roupa.
Vai com calma, coração, tô ficando muito louca.
É difícil, no escuro, tantos passos ter que dar.
Dado os riscos que se corre se de novo se entregar.
Fecha os olhos, dê-me a mão, corajoso coração.
Se o cair é inevitável, só saberemos ao tentar.
O importante, sempre sempre, é saber se levantar.
Vem comigo, vem sem medo. Vem a vida aproveitar.
Tá na hora de viver. Tá na hora de amar.

Amigos, amigos… Facadas à parte.

comecei a chamar a menina de traíra, veja bem, sem que ela me tenha feito nada. absolutamente nada. bem, nada diretamente, né? porque magoar amigo é magoar-me duas vezes. traição, então, nem se fala. que a gente passa uma vida inteira de confiança, respeito, admiração. segura a cabeça do outro enquanto o outro vomita, não deixa engasgar, pega água gelada, protege o cabelo e até leva pro hospital, se necessário. tudo sem contar pros pais do dito cujo, que além de pisar, espirra a merda pros amigo tudo. que a gente faz voz de quem sabe muito bem do que está falando quando recebe a ligação às quatro da manhã de uma mãe desesperada e responde “aham, aham, tá aqui sim, mas não pode falar, porque tá no banheiro”. e aí é a gente que desespera, ligando para todos os conhecidos em comum, hospitais, iml, suando frio até aparecer, tão vivo que dá vontade de matar. a gente pega carro emprestado para acudir quando foi preso, quando foi pego, quando tá triste. a gente deixa de dormir para servir de terapeuta. gasta o crédito que não tem para acalmar ânsias noturnas. deixa de lado família, trabalho, animal de estimação. que a vida do outro é tipo continuidade da nossa. que se o outro morre, grande parte da gente vai junto. que quando machuca, a gente fica meio manco também. e se estamos numa canoa, eu remo e você descansa. você descansa e eu remo. e aí eu falo mesmo. que na hora de ser amigo na festa e na farra, ah, aí é mara! mas na crise e no problema, aí não dá para aguentar? que pode me ofender, difamar, xingar e até berrar. nada disso me indigna. mas apunhalar pelas costas a amiga? cê me desculpa, que aí não vai dar.

Lar

Quando eu era pequena, era batata: todo carnaval, ano novo, feriados, aniversários e fins de semana eram lá. Minha mãe preparava as malas, meu pai fazia mágica para fazer caber todos os apetrechos em um porta-malas apertado e logo a gente seguia viagem.
No caminho, a pequena eu já ia entrando no clima. À medida em que saíamos da cidade, as janelas eram todas abertas, o rádio era substituído pelo som do vento e os prédios davam lugar a tons de verde que se misturavam e confundiam, em uma pintura impossível de explicar.
Quando passávamos pela estrada de terra, eu já tirava logo o cinto e me preparava para matar as saudades da vizinhança. Começava pelos cachorros, que nos reconheciam de longe, fazendo papai tirar o pé do acelerador.
Eu sacudia os bracinhos ao cumprimentar o Meloso, sentia um afago no peito ao rever dona Maria e seus muitos filhos na barra da saia e me sentia completa ao avistar o velho amigo Azulão.
Ao estacionar, vovô já estava posicionado, todo pomposo, com uma das mãos apoiada no ponto mais alto do portão e a outra descansando na cintura. O chapéu, vezes de palha, vezes de pano, escondia a abundância de cabelos volumosos e bem pouco grisalhos. Ele nos recebia com um abraço caloroso e uma gargalhada sincera. A melhor energia que senti na vida.
O tempo foi passando. Mais crianças chegaram à família e a pequena casa com um imenso jardim sempre tinha espaço para mais um e mais um e mais um…
Todo mundo passou por essa casa, que agora é de vocês.
Tanta coisa aconteceu nessa varanda. Foi atrás da casa, espiando pelos tijolos vazados, que fumei meu primeiro cigarro escondida. Era sentada na mureta que eu ouvia as melhores músicas observando o ir e vir da rede que abrigava o sono de alguma tia no fim da tarde.
No jardim, sempre verde e bem aparado, aconteceram as mais horrendas peladas de homens de meia-idade contra garotos gordinhos que sempre acabava em um pé quebrado ou joelho torcido.
Foi nas ruelas de terra que aprendi a dirigir. Foi, bem ali, do lado esquerdo da cerca, que tive a primeira conversa sobre amor com a minha avó, enquanto coletávamos mamonas para fazer de munição da guerrinha de mais tarde.
Minha avó também foi a primeira pessoa que vi matar uma cobra e acho que foi ali que entendi o que era girl power. Aprendi o nome das flores, comi muita coisa do pé e observei o movimentar das nuvens, deitada na grama ainda úmida do orvalho da manhã.
Em dias de sol, regávamos as árvores com guerra de bexiga e a horta, sempre farta do fundo do terreno, me deixou com um problema sério: não consigo mais comer verduras em nenhum outro lugar. O verdadeiro gosto da alface nada tem a ver com essa que a gente encontra no mercado.
Foi na casa de árvore construída pelo vovô que meu irmão pegou berne na cabeça. Uma vez meu avô foi colher bananas do alto da mais alta bananeira, posicionou a escada, subiu e… caiu como vara verde. Esse assunto era proibido nos almoços de domingo.
Meu avô amava esse lugar. Tudo aqui, tudo mesmo, foi construído por suas mãos.
Cada árvore foi plantada em um lugar preciso, pensado para crescer com saúde. Cada flor foi escolhida a dedo para atrair os passarinhos mais lindos. Não tem um centímetro nessas terras que não tenha sido tocado por suas pesadas botas ou acariciados por suas mãos calejadas, delicadas e ásperas.
Esse era o seu paraíso. Foi onde ele despejou mais amor. E é possível ainda enxergar uns traços dele por aqui. Uma aura, uma alegria, essa beleza. E se tem uma única coisa que ele certamente pediria seria nunca deixar essa casa vazia, a mata crescendo e as frutas apodrecendo no chão.
Isso aqui precisa de gente. Precisa de criança correndo, carne assando, moda de viola na vitrola e as árvores sempre servindo de apoio para redes que servirão de abrigo do sono do fim da tarde.
Isso aqui precisa de vida. E precisa de alguém que fique empolgado no caminho, no fim de semana, ouvindo o barulho do vento, ansioso pelos reencontros, sabendo que a felicidade está logo ali, no virar da curva de barro.
Essa chácara precisa de amor, precisa de vocês.
E é por isso que é sem amarras que entrego essa chave.
Esse mundo é muito grande e a gente mora mesmo é dentro da gente.
Mas tem certos lugares que são nosso lar, mesmo sem ser a nossa casa.

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