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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

gente

Tem gente que aparece na nossa vida como um sopro de ar fresco. O dia a dia pode estar corrido, os compromissos que são muitos. A que rotina consome.
Todo mundo sabe, tem amigo que tá lá só pras horas boas. Pra dar aquela risada, pra contar aquela fofoca ou beber até cair em alguma balada boa cheia de bafos pra contar no dia seguinte. E é mara. Mas é só isso.
E tem outro tipo de gente. Ahhh, essa gente… que não importa a hora, não importa a situação, não importa o tamanho do problema. De celular sempre ligado, mensagem sempre respondida, open bar de ombro amigo, rodízio de conselhos faça chuva ou faça sol.
Tem gente que faz o possível e o impossível pra ajudar, que deixa suas próprias coisas de lado só pra ver se consegue amenizar algum dano, que sai do trabalho mais cedo, desmarca aquele rolê bacana pra cumprir com a função de amigo. E não é por obrigação, não. É por amor, por carinho.
Sem esperar nada em troca, é preocupação. É se desdobrar pra fazer a vida do outro ser um pouquinho mais fácil.
Esse tipo de gente, não se engane, também quer participar das festas, das comemorações. Também quer saber quando tudo tá indo muito bem, quando tá tudo muito bom.
Porque esse tipo de gente ama sorrir com você. Mas não se importa se precisar chorar também.
Esse tipo de gente faz os corres que precisar, estando longe, estando perto. E ainda manda aquele alô no meio do dia, só pra checar como estão as coisas.
Esse tipo de gente merece lugar cativo no altar, do nosso lado, quando for casar. Esse tipo de gente merece todo o amor que se puder oferecer.
O mesmo open bar de ombro amigo, o mesmo rodízio caprichado de conselhos, a mesma dedicação que só funciona quando é assim, natural, de coração.
Essa gente também merece que a gente sorria junto e que chore junto. Que apareça de madrugada, no meio da semana, de pijama, com uma garrafa de vinho, um pote de sorvete, um teste de gravidez. Ou um simples abraço que acalme e melhore o que precisar melhorar. Que a gente esteja presente só pra saber se tá tudo muito bem, se tá tudo muito bom.
Essa gente tem morada certa na vida da gente. É o tipo de gente que a gente quer envelhecer junto. Dividindo quarto em uma casa de repouso do tipo modernosa, sabe? Com drinks e festa na piscina, hidroterapia, fisioterapia, massagem sempre à disposição. Pra sentar na varanda no finalzinho de tarde, relembrando os momentos hilários, anos e anos de história, morrendo de rir, nostálgicos, e falando mal dos vizinhos, aqueles véio rabugento que a gente vai fazer questão de amar e odiar.
Essa gente dá todo um novo e incrível sentido pra vida da gente.
Essa gente a gente tem que guardar num potinho e, que nem planta, regar todo dia um pouquinho.
Essa gente me faltam palavras pra agradecer.
Essa gente é tão foda que nem sei.
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A Cura

– Eu nunca achei que você fosse ser assim
– Assim como?
– Assim… Melosa, grudenta, cheia de mimimi
Eu também não. Nunca achei. Nunca fui. Jamais pensei que fosse sentir saudades de alguém antes mesmo da ausência.
Não sabia que eu tinha a capacidade de amar assim.
De querer estar junto o tempo todo.
De me apaixonar todo dia pela mesma pessoa. Cada vez mais.
De ver beleza na briga. Gostar de discutir relacionamento.
Ter vontade de fazer parte. De tudo. Dos momentos bons. Dos momentos ruins.
Ser parceira mesmo. Na doença, na saúde, nos problemas. De querer muito encontrar a solução. Para qualquer situação.
Tirar assunto não sei da onde. Só pra se falar. O dia todo. Todo dia.
Sabe aqueles casais que não se largam e que dão aquela raivinha na gente?
Eu sou esse casal. Rs.
Eu amo ser esse casal. Sem ligar nem um pouquinho para o que as outras pessoas pensam.
Sem me incomodar com olhares de julgamento. Aprendi eu também a não julgar.
A ter paciência. Deixar rolar. Aprendi a passar por cima de muita coisa. A falar mais. Ouvir mais. Fazer menos drama. Mesmo ainda fazendo muito.
Passei a dividir a cama. Os compromissos. As angústias. Hoje eu compartilho tristezas e alegrias. Eu faço planos.
Eu quero muito. Quero tudo. Que seja junto. Que seja perto.
Muita letra de música passou a fazer sentido. Muita frase cliché virou parte do meu vocabulário.
Me descobri brega pra caralho.
Feliz pra caralho.
Melhor.
Me transformei numa pessoa muito melhor.
Voltei a ter uma fé que há muito não aparecia por aqui.
Passei a acreditar em muita coisa de novo.
No amor.
O amor. Veio como mágica.
Me transformou. Me ensinou. Me deu medo. Me deu paz. Iluminou o meu caminho. Mudou o meu destino. Desconstruiu minha vida inteira. Me fez viver de novo.
Abriu portas. Inclusive a do armário.
Se amar é errado, não quero mais estar certa.
Com doses cavalares, de amor quero morrer.
E se isso é tão difícil de aceitar ou entender. Se te incomoda tanto ver o amor florescer, que fique claro – o doente é você.

Paraquedas

O vento bate forte nesse óculos gigante sem grau. Tão forte que não enxergo nada. Nada.
As roupas, que não são minhas, pesam demais. Carregam uma história um tamanho maior que o meu. Doem os ombros e seguram as pernas, que não sabem muito bem se conseguem dar um passo para frente.
É alto demais. Perigoso demais. Arriscado demais. Loucura, talvez. Tanta gente avisou. Pediu para ter cuidado. Mas mesmo assim eu tô aqui.
Agarrada na porta. Meus dedos doem. Paralisados, seguram as bordas como se disso dependesse a vida. E depende mesmo.
Atrás de mim uma voz ecoa “três, dois, um”. Eu berro. O grito esvazia o pulmão. Tá difícil respirar.
Tenho medo. Muito medo. Cair de cara no chão. Ah não, não depois de me proteger tanto.
Tenho medo. Muito medo. Mas não foi pra isso que vim até aqui?
Sinto duas mãos nas minhas costas. Empurram. Grosseiras. Incentivam. Elas têm razão.
Mas eu berro ainda mais. E choro. Desespero.
Mais uma rajada de vento. Fecho os olhos. Medo. Abro os olhos. Medo. Vejo uma luz. Vejo o céu. Vejo o sol. Quentinho.
Parece que agora pesa menos. Ensaio meio passo pro lado. Pra frente ainda não dá.
Vejo as nuvens. Vejo pássaros. Vejo vida lá fora. Consigo puxar o ar. Respiro meio trêmula.
Solto uma das mãos. Os dedos ainda estão doloridos. Não se movem. O pé direito consegue se soltar das amarras.
Não vejo o chão.
Abro os braços. Vai, me aconselham.
E eu vou.
Eu pulo.
Queda livre.
Se a cordinha não funcionar, se essa merda não abrir… o tombo será mortal.
Mas o caminho é tão lindo.
Liberdade.
Sinto o vento bater no rosto. Óculos, roupas, uma história que não é minha. Não pesam mais.
Sorrio. Embasbacada.
Vejo a vida acontecer ali. Em mim.
Me jogo mais.
Me liberto mais.
Eu quero mais.
Te espero no chão. Me encontra?

eu remo, tu remas

Errei o caminho três vezes
Cheguei e já não tinha vaga
Rodei e rodei e rodei
Parei
Cabeça apoiada no volante
As pernas já não tinham forças para sair
Saí assim mesmo
Cambaleei
Não entendi uma palavra proferida a mim pelo caixa
20 30 40 129 reais
Posso ter sido roubada
Só queria sair dali
Entrei e sentei
Bebi uma cerveja quase sozinha
Não deixei esquentar. Não dessa vez
Esperei e esperei e esperei
Cada um que passava achava que era você
Um cara careca
Uma mina de dread
Um grupo de amigos nigerianos
Um brother muito doidão
O barulho me incomodava
Segurei bem forte os ouvidos. Feito concha
Acho que fui cantada. Ignorei a investida
Não sei mais se gosto de homem
Sai daqui, disse. Grossa como nunca
Como sempre
O mundo começou a girar
Não tô acostumada com cerveja gelada descendo assim, de uma vez
Quando tava a ponto de sair correndo, me recolhendo
Despontou você
Respirei
As águas rolaram tanto e muito
De alívio
De estar finalmente em casa
Às vezes só o que eu preciso é te dar um abraço
E basta.

nothing. at all.

Parecia milagre. Agora vai. Tanta emoção. Tanta sintonia. Tanta verdade. Tanta vontade. Achei que a gente tinha encontrado aquele sentimento que destrói qualquer muro, pula qualquer cerca, ilumina qualquer escuridão.
E lutei com todas as minhas forças por uma batalha na qual nunca por inteiro acreditei.
Com o coração na mão.
Tentei de novo. Me joguei de novo. Em uma piscina rasa demais. De novo.
Sobrevivi. Morrendo por dentro.
Amando por dentro.
Sofrendo demais.
Mas valeu demais.
Cada segundo.

posologia

dá um tremelique. começa bem no centro do corpo, meio que na espinha, meio que no estômago.
aí desce pras pernas, fazendo cair. fazendo tombar. perdendo o equilíbrio como quando criança que vivia engessada. que vivia ralada, vivia.
o tremor sobe pra cabeça, balança os ombros, faz chacoalhar o pulmão.
dá uma agonia dentro da gente.
deita. levanta. deita. levanta. deita de novo.
tenta dormir. não dá. não rola. não descansa.
parece que tem um duende aqui dentro. pisoteia tudo. remexe tudo. como roupa recém-lavada, que, encharcada, precisa torcer.
e bate um martelo. enfia facas. machuca.
pega o celular. conversa. amigos.
mais amigos. outros amigos. mais uma opinião.
não adianta nada não.
é só meu. é só seu. é tão nosso que não cabe num caminhão.
só eu entendo.
clamo pelo universo. céu. lua. astros.
tento homeopatia. muito lerdo.
maconha. muito pouco.
maracugina. de um a dois comprimidos revestidos, três vezes ao dia, depois de cada principal refeição.
sistema nervoso não responde. o tremelique só caminha pelo corpo. pode ser grave, vai saber.
não tem bula. meu remédio é você.

Labirinto

não precisa nem tocar. nem relar. nem precisa chegar perto. é só aparecer. em sonho. em texto. em pensamento.
é só lembrar. é imaginar. mesmo no ambiente menos propício. mesmo quando o assunto é tenso. mesmo quando dá sono. dá tédio. tem graça. porque tá dentro. porque tá junto. e não precisa de muito mais.
o desejo é físico. a conexão, de alma.
o toque inevitável. a íris que se encontra. e não larga nunca mais.
a memória é fotográfica. o cheiro tá guardado nas narinas. texturas. peles. cores.
as palavras não machucam mais. abrem o peito. vomitam o que é bom, o que é ruim.
aliviam.
resolvem.
confundem.
há paz. onde há entendimento. e a gente se ajuda. só nós por nós.
erramos. arrependemos até. mas nos rendemos. a tudo isso que explode. vulcão.
apertem os cintos. primeira fila da montanha russa. agarra com força. se perde no looping.
descida. subida. eternas. deliciosamente maluca. frio. na barriga. na espinha.
vontades.
medos.
dedos que não disfarçam.
e duas mãos sempre juntas. tentando achar a saída.

fênix

Todo mundo dorme lá dentro. Um amontoado de corpos etílicos, cansados de extravasar.
Aqui fora sou eu. Como só eu conheço. Peço licença pra lua, que gentilmente ilumina um pedaço de papel amassado de quem não consegue despejar o desespero em pequenas teclas de mensagens rápidas. Precisa do borrar da caneta.
Não me importo com a legibilidade das letras intrincadas, também um pouco bêbadas. Esse é o tipo de carta que não se entrega. Escreve-se pro outro, que existe em si mesmo. Confessa-se exagerado, desnecessário tão necessária e urgentemente que soa até piegas. Brega, talvez.
É pouco o sinal que chega. Mas suficiente pra cumprir com a única missão de fazer rodar o mais triste disco do chico. Dramático. Poético. Real.
A canção que faz mais sentido é tocada inúmeras vezes, tentativa frustrada de derramar mais um pouco de água do mar.
A sofrência vem lá de dentro. Âmago. Como ondas bravas. Ressacas. Contorcendo as entranhas até fazer um nó escoteiro no fundo da garganta. Solta! – Eu peço.
Mas os olhos, já secos, se recusam. Eu respeito. Vai assim mesmo.
O ponto final é libertador. Alívio.
Não há certeza, porém. Tudo ainda continua lá. Lá dentro, aqui fora.
Que não adianta correr pra longe. Não dá pra fugir do que se carrega no peito. Na alma.
Mas agora respiro.
E sorrio. Sincero.
Sofrer é viver.
Viver é bom demais.

tá nublando a nuvem dos olhos.
o cinza é clarinho e o sol ainda se vê ao longe.
o mundo é muito grande. e tem tanto problema maior do que o meu.
injusto é deixar a inocência deitada na cama, vítima de um vírus qualquer. raro.
injusto é ver a cria murchinha, tristonha, sem poder brincar.
injusto é poder uma história contar. e achar que tudo é capaz de mudar.
mas poder sair pro cotidiano enquanto com muita doença o paciente ainda tem que lidar.
injusto é conseguir todas as contas pagar e ainda assim só saber reclamar.
a vida é tão linda. mas muda num segundo e o melhor mesmo era se o meteoro contra a terra resolvesse se chocar.
assim, não tinha mais o que chorar.
e enquanto eu me ponho aqui, a trabalhar.
uma família lá fora acaba de desabar.
dá vontade de desistir, é muito difícil continuar.
mas é exatamente agora que não dá pra arregar.
se você tem a sorte de sua saúde desfrutar.
vai pra casa, não precisa duas vezes pensar.
corre pros seus queridos, agarra mesmo, sem explicar.
enquanto o coração ainda tá bantendo, por favor, bora aproveitar.
deixa de besteira, faça tudo valer a pena.
não deixe nunca de abraçar.

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