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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

Zena

Eu me lembro direitinho do dia em que te conheci. Você era tão pequeno e frágil. Eu estava tão bêbada, era quase como uma iniciação. Para mim e para você. Nós dois estávamos entrando para aquela família muito louca. Me lembro vagamente que havia morcegos e eu tinha medo, mas estava me divertindo muito. Tinha amigos, muitos amigos e a sensação de que algo muito incrível começara. Acho que já mencionei que eu estava muito, muito bêbada. Todo mundo se arrastava para chegar até os quartos e aí eu vi você. Tão pequeno, tão frágil e tão sorridente, tão brincalhão. De alguma forma, que eu jamais saberei explicar (não sem uma bebedeira) eu soube que, naquele momento, você era meu. Minha responsabilidade. Eu não sentia meus braços ou minhas pernas. Certamente tentei falar. Chamar sua mãe. Pedir alguma ajuda. Mas é claro que minha língua também não funcionava como devia. E eu tomei a decisão que hoje me faz chorar como criança. Peguei você no colo, mesmo sendo de humanas, fiz contas quase físicas – para evitar nossa fatal queda na piscina sem resgate provável, considerando o nível etílico das outras pessoas presentes – mirei e fui. Fomos. A memória é meio embaçada, sabe? Então às vezes nos vejo correndo pelo pequeno caminho de pedras entre o que parecia ser a mata e o mar e às vezes nos vejo caminhando, tranquilos e focados.
Só o que sei é que você estava acordado. E feliz. E babando. Sim, você babava muito. E quando chegamos, sãos e salvos, ao nosso destino, me lembro que você dormiu e que eu passei boa parte da noite observando seu respirar alto. Sem medo de ser feliz. Tão pequenininho. E você foi crescendo e ficando lindão e, sorte a minha, nessa época eu frequentava muito a sua casa. E te comprei presentes e roupinhas e passeei muito com você no parque. E fui acordada muitas manhãs por sua vontade de brincar e brincar e comer e ser ainda mais feliz. Meu Deus, você foi muito feliz. E tinha muita gente, acredite em mim, que visitava sua mãe só para poder te ver. Você foi muito lindo e simpático e amoroso. Mesmo quando estava doente. E eu sabia que esse dia chegaria. E eu sabia que eu choraria e que sua mãe choraria muito mais do que aquele dia em que o Corinthians perdeu, lembra? e que a gente teve que ficar consolando a garota sem saber muito bem o que falar. Mas hoje eu sei o que falar. Você teve a melhor família que esse mundo poderia te dar e a sua família teve o mais maravilhoso, caótico e fantástico cão que qualquer família poderia ter. Esse foi um encontro divino, daqueles que ficam guardados para sempre na história. Daqueles que fazem a vida valer a pena. Até o fim.
Zena2
Maizena, foi um prazer ser sua madrinha. Sua felicidade vai ficar para sempre guardada no meu coração. Vá brincar, garoto, vá brincar!
Zena1

Ler é o melhor remédio

Lá fui eu para o primeiro e muito esperado dia de treinamento. É claro que eu sentia medo. No curso, demorado por demais e necessário por demais, sabiamente nos alertaram sobre tudo que poderia acontecer. Desde sorrisos que serão lembrados pelos restos de nossas vidas, passando pelo bem provável chilique de pais desesperados, chegando na morte – assunto delicado demais, principalmente para quem está dando o primeiro passo de muitos dentro de um hospital infantil.

Eu cheguei meio sem saber o que fazer, tentando ser simpática, mas não muito, mostrando que sei bem onde é meu lugar. Imaginei que quem lê histórias para crianças em hospital não tem como ser uma pessoa ruim. Então não tive muito receio quanto a conhecer minha treinadora. E eu tinha razão. Malu é uma senhora incrível. Para quem entende a referência, ela é a cópia cuspida e escarrada da Frankie, aquela mesmo, que é amiga da Grace, da Netflix. Para quem não vive nesse mundo, explico: Malu tem belos cabelos grisalhos, chegou na terceira idade com louvor e muita beleza, é meio hippie, não tem papas na língua, meio louca, meio secona e uma pessoa muito maravilhosa. Sua dupla, Vera, que trabalha a seu lado há 18 anos, é o exato oposto: a mulher mais doce que já conheci nessa vida. Queria ficar abraçada nela o tempo todo. Mas seria demasiado esquisito para um primeiro dia.

Como me foi informado, aquela experiência serviria apenas para observar. Sacar o estilo, entender como as coisas funcionam. Então lá estava eu, fazendo com perfeição o meu papel de sombra. Mas se você já teve qualquer contato com crianças, mesmo que de longe, mesmo que sem querer, sabe muito bem que elas são muito mais astutas do que todos nós, adultos, juntos. Assim sendo, é claro que mesmo contando com uma Malu doidona e descolada cheia de livros em ambas as mãos, era eu a peça daquele teatro todo que chamaria a atenção desde os bebês até os mais grandinhos e mais cruéis – um menino que estava para ter alta, portanto felizmente sem dor nenhuma e já muito entediado, perguntou se eu era muda. Eu observei um pouco, sim, mas aprendi muito mais e na marra. Minha voz engasgou, minhas mãos tremeram um pouco, derrubei alguns livros no chão e provavelmente quebrei alguma regra ao debruçar em um berço muito alto e dar conselhos para uma mãe que não estava desesperada não, mas que carregava muitas angústias em sua serenidade.

Foram só duas horas, entre chegar, colocar o avental, ouvir algumas instruções, escolher os livros, esperar os pacientes tomarem banho, tomarem café e serem examinados pelos médicos do turno da manhã e, finalmente, fazer o nosso trabalho. Poderia ter sido vinte. Vinte horas não dariam conta daquele mundo de histórias e crianças e muitos obstáculos a superar.

Mas em duas, apenas duas horas, eu aprendi a ser mais confiante, vi uma menina de seis anos melhorar a leitura em questão de três livros pequenos e cheios de gravuras, senti o amor incondicional de um pai que deixa sua vida toda de lado para morar ali, entre tubos e seringas, agulhas e lençóis que jamais serão os seus por quanto tempo for necessário, mesmo que esse tempo seja para sempre. E, em menos de duas horas, eu fui tocada, mudada, mexida. Eu conheci, na pele, o poder da história.

Quando estava ali, lendo, sendo útil, tendo um pequeno sucesso, nada mal, com meu público, Vera pegou um livro para ler. Bem ao lado da criança, onde já estava posicionada, debrucei para ouvir. Minha intenção era levar a pequena menina a fazer o mesmo, mostrar que aquilo era uma coisa legal. Minutos depois fui transportada para o mundo mágico de um menino chamado Guilherme Augusto Araújo Fernandes, e ele nem era tão velho assim. A cada página que os leves dedos viravam, quase como brisa, novas imagens e letras e novidades apareciam. E quanto mais suave a voz de Vera saía, quase como veludo, mais debruçada eu me derretia. Nem lutei contra meu ímpeto. Nem percebi o papelão. Virei a cabeça pro lado e prestei toda a minha atenção. Era como se eu estivesse em casa, no conforto da minha cama, protegida, feliz e quentinha, sendo acolhida pelos braços do universo. Quando a fatídica contra-capa chegou, precisei de uns segundos para entender onde estava, que horas eram, que eu precisava levantar dali, que tava vergonhoso e se dava tempo de mais um livro, pequenino que fosse. Eu fiquei um pouco vermelha, um pouco sem graça e muito feliz. Entendi a beleza, grandeza e importância desse tão delicado trabalho. Gelei, meu deus, que responsabilidade, mas saí de lá flutuando, distribuindo sorrisos, ansiosa pra semana que vem.

Caro mesmo é sofrer

Tem gente que me pergunta por que eu não volto a escrever textos de cortar os pulsos, de sangrar a alma, de fazer revirar estômago e chorar o peito cansado de respirar sem aparelhos. Não escrevo mais sobre dor de amor que atinge a gente como facada no meio das costas numa tarde de terça-feira despretensiosa porque não sei escrever sem sentir. Aquele ardor que queima a garganta na tentativa de liberar aquelas palavras que ecoam lá dentro faz tempo, sem coragem de sair, esse ardor… eu já não sinto. Eu eu não sei escrever sem sentir. Para despejar todo vômito de comida estragada por todo aquele tempo esquecido ali no ego murcho, desprovido de amor próprio, preciso puxar no baú de memória, cujo rangido chega a doer os ouvidos de tão errado e passado e infinito em sua finitude que fora. E preciso cortar-me os pulsos e sangrar-me a alma, com muito omeprazol na veia, que é para preservar o estômago de revirar-se enquanto os pulmões lutam para sobreviver. Uma sobrevida ligada a aparelhos não me interessa mais. Hoje sou inteira e meu inteiro, embora iminentemente dramático, é insanamente mais feliz, ainda que trágico. Hoje sou escritora de mim e a perda de tantos leitores é um preço ínfimo a se pagar, mesmo que doloroso.

Copiloto

Tem gente que parece que entra na vida da gente só para fazer bem. Parece que aparece só para nos fazer acreditar que podemos fazer mais e melhor e ser mais e melhor. É para esse tipo de gente que a gente arruma tempo na rotina atribulada, empesteada de nadas que a gente faz para tentar se sentir mais e melhor. Sem sucesso algum. E a gente ri e a gente chora e a gente se dá as mãos, gratos por esse tipo de contato verdadeiro. De carne e osso e sem importar maquiagens e sapatos de salto alto que a gente usa, mesmo com dor nos pés, mesmo com alergia nos olhos, para tentar parecer com aqueles que achamos ser mais e melhores do que nós, mas que nem sempre o são. E a gente ri e chora e chora de rir das desgraças da vida. Que doem, mas fazem parte. E a gente se apoia sem julgar pensamentos nefastos ou ideias ruins que, quando trabalhadas, podem sim se tornar melhores e mais plausíveis. Porque nenhuma árvore começa sua jornada lambendo o céu. É comendo terra que a semente germina. E a gente sai de uma conversa dessa regada a vinho que nem precisa ser bom, porque a companhia compensa. E a gente sorri, sozinho mesmo. Sabendo que com esse tipo de gente na vida, sozinhos mesmo nunca estaremos. E a gente vai dormir sabendo que amanhã vai ser um dia bom, que a gente já é um pouquinho mais e um pouquinho melhor do que era cinco horas atrás. Esse tipo de gente devia ter nome. Esse tipo de gente se chama amigo. Quem tem amigo nem precisa fazer muito, não. Só de estar ali já faz de si muito mais e muito, muito melhor.

Raiva

Realmente me deu vontade de chorar. Não fosse meu orgulho, todo o lamento preso com aperto no meio do peito rolaria, salgado, bochechas abaixo. Acho que seria daquele tipo de choro de criança cansada, que faz bico e barulho e perde até o fôlego, tamanha insatisfação.
Queria ser criança, talvez. Deixar o mar desaguar sem medo de julgamentos. Esperar a mamãe acalmar, acalentar, ninar. Queria dormir. Na mesa de trabalho mesmo. Arrumar um casulo, montar uma cabana.
Queria que a vida desse um tempo. Que desse umas férias. Coisa pouca. Que pudesse trazer apenas alegrias. Por alguns dias apenas, que fosse. Que encantasse ao fazer-me enxergar o mundo como pequenina que fui e ainda sou e sempre serei.
Talvez o problema, enfim, seja eu. Talvez seja mimada demais, talvez esteja cansada demais.
E para segurar, como é que faz?

Destilado do papel

Gosto de sofrer um pouco. Tristeza que destila, destila, fermenta e vira inspiração.
Se transforma em palavras que abraçam, afagam o coração. Frases e pontos e vírgulas que se alinham sem o cérebro conseguir acompanhar. Sento no escuro, no macio do colchão. No colo, o peso da máquina de fazer expor, sair, distrair e desabafar.
Dedos que correm e percorrem o teclado cheio de erros, érres por ésses, sem concordar verbo com sujeito.
Roupa amassada, cabelo despenteado. Cada canto do quarto vira um personagem encantado, iluminado, cheio de história para contar.
Quem sabe o que se passa na cabeça e na conversa dos cachecóis que vivem na prateleira, que moram no armário cansado de ter seus braços abertos e fechados e abertos e fechados até o rangir da dobradiça, até machucar.
Quanto conhecimento tem a luminária, em cada virar de página de livro, de rasura no caderno, de filmes e série e silêncio. Observando-me cochilar.
Neste piso que passo sem nem perceber, quantos tênis, botas, chinelos, quantos caminhos a percorrer. Cada pisada com pressa ou certeira, silenciosa, medrosa, festeira. O que pensa das meias que escorregam e o cabelo que rega a madeira quando saído do banho no mesmo horário, de segunda a sexta-feira?
Três pedaços de janela, que se revezam no frio e no calor. Têm visão interna e externa. Mas o que será que ela prefere? Será que às vezes queria não ver, não saber, não conhecer? Quando chove e a vista fica tão bela, quando escurece e dá medo de nunca mais o sol nascer. Mas a escuridão também pode ser poética, quando o vizinho da frente suas velas resolve acender.
O espelho que tudo mostra e nada esconde, onde será que mantém sua alegria de viver? Quando exibe uma roupa nova, reconhece o furo no pijama velho ou revela uma ruga sem nem perceber.
São sete quadros na parede. Mais dez pendurados enfeites que ninguém perguntou se ali queriam permanecer. Pode ser que não suportem seus vizinhos de gancho e que com outros pequenos pregos sonhem a cada amanhecer.
A vida fica mais bonita quando imaginada, quando sonhada com os olhos vidrados neste clarão em que escrevo sem correria, mas sem demora. Fica aqui um pouco de mim, um pouco da minha história e quem sabe esse impulso de letras que me devora, um dia me carregue, dicionário afora, para um mundo bem melhor que esse, de agora.

Eu Android, você iPhone

Te conheci numa dessas festas em que eu não deveria estar.
Conversando com gente desinteressante e bebendo um drink cujo nome jamais saberei pronunciar, mas que tinha um sabor meio assim, de amora, que me fez repensar todo álcool de pouca ou nenhuma qualidade que passara por meu sistema digestivo nos últimos 24 anos.
Fingi gostar de bandas que não conhecia, mas que não eram, de todo, desagradáveis aos ouvidos.
Lembrei dos amigos que gostaria que estivessem ali e até pensei em me juntar a eles depois das 12 iminentes badaladas do relógio. Porém, me apetecia mais voltar para o conforto do meu lar e, finalmente, terminar a quarta temporada daquela série chata, mas que me sinto na obrigação de assistir. E repensei minha ideia de vida social.
Quando foi que me tornara aquela pessoa?
Acendia o terceiro cigarro seguido, daquele que eu prometi parar de fumar cinco horas antes, mas recusei o enroladinho de salmão gourmet, mantendo-me fiel à dieta restrita que havia sido quebrada no passear da bandeja de bolinhas de queijo, enquanto resolvia parar de tentar fazer-me atraente de algum modo.
Os cinco dedos de raiz escura de um cabelo que deveria ter cor de cenoura, mas a genética não quis, passavam uma impressão de desleixo que cinta redutora de medidas nenhuma seria capaz de amenizar.
Quando você chegou, de uma das taças de vinho estampadas em minha saia de cetim azul saía uma leve fumaça, resultado do descuido bêbado de drink impronunciável de amora na hora de bater as cinzas do meu vício, agora descontrolado. Eu tentava, sem sucesso, disfarçar o desespero de ter engasgado com o palito irresponsavelmente colocado na terceira mini coxa-creme que degustava quando disse “sim, claro, te empresto o isqueiro” – provavelmente com palavras menos inteligíveis – e nem reparei que seu rosto parecia o céu.
Olhei para as estrelas sem esperança nenhuma de salvar aquela noite e me encantei tanto com o rastro que a lua levava ao seu redor que respondi de qualquer jeito a qualquer pergunta que me fizera sobre o clima e sobre como levamos conversas de elevador para nosso cotidiano sem nos envergonhar disso.
Quase não entendi que era uma piada, mas ri pela força do hábito mesmo assim. Foi aí que vi o teu escancarar de dentes feitos de nuvem e lábios macios como algodão. Pensei na saia pegando fogo, no  cabelo cor de água de salsicha em um fundo preto, estilo Romero Britto. Tentei botar a cinta no lugar me arrependi pelas decisões tomadas resultantes em bafo de cigarro com resquícios das mais variadas frituras consumidas e tive a certeza de ser tarde demais.
Mas você, com seus muitos centímetros a mais que eu, cabelos bagunçados de uma forma misteriosamente ordenada e uma camisa que, despretensiosamente, mostrava braços naturalmente definidos pela mesma genética que me apunhalara pelas costas, parecia não ligar para nada daquilo.
O cheiro mentolado que saía de sua bituca me fizera entender tudo: gay. Mas falou de como a ex gostava dessas festas chatas e como isso tinha sido crucial para o término do relacionamento e aí eu já não entendia mais nada.
Quando revelou sua facilidade com números já me imaginei impressionando meus amigos de humanas com um acompanhante que dividiria as contas do bar sem irritar o garçom, de cujo trabalho também faz parte – infelizmente, para ele – esperar pacientemente enquanto mais de dez jovens com dificuldades numéricas tentam entender quem tem que pagar quanto, para quem, por que, onde, como…
Enquanto divagava em vírgulas e zeros à esquerda, que representavam com exatidão o triste retrato de minha conta bancária, você me chamou para sair. E eu demorei para compreender. “tá quente aqui, né? me cairia bem um ar-condicionado agora” não é bem um convite. Está mais para mais uma daquela conversa de elevador típica de quem segura o riso  de larica da boa enquanto o vizinho carrega, um pouco constrangido, duas cheirosas caixas de papelão que levam em seu interior toda a felicidade do mundo sabor marguerita.
Considerando a irremediável oleosidade de minha pele, até pensei que o comentário sobre um lugar mais fresco pudesse estar se referindo à luminosidade não-intencionada que se assenta bem no meio da minha testa, quase como um foco de luz indiano, remetendo ao chakra frontal, terceiro olho de suma importância se eu praticasse kriya yoga às três da tarde de sol enquanto pego o ônibus lotado para chegar ao trabalho que não amo, mas também não odeio.
Aquele drink meio de amora misturado com Sprite, que me fez questionar meus hábitos alimentares, realmente fazia efeito, porque, quando vi, poucos passos faltavam para chegar à porta de saída daquela festa chata, cheia de gente metida na qual me meti acho que só para conhecer você.
Não sei dizer onde estava, mas o hambúrguer era bom para cacete e, sem me perguntar, você pediu uma porção de fritas com muito cheddar e bacon. Não tive tempo, nem coragem de dizer que eu, na verdade, era um tipo de espécie boêmia esquisita que não liga muito para batata frita, preferindo mil vezes porções de pastel, bolinhos de todos os tipos e até mandioca, se mandioca tiver. Meu petisco favorito, na verdade, é coração de galinha. Mas me dói saber a quantidade de galinhas que tiveram que morrer para eu poder aproveitar uma porção farta – talvez umas 20?
Quando criança, frequentava churrascarias e me emocionava ao ver chegar, quentinho, aquele espeto recheado de pequenos pedaços de felicidade. Quando descobri do que se tratava, fiquei anos sem consumir aquele alimento, mas algo em mim não estava completo. Hoje, com o coração na mão e muita parcimônia, me deixo degustar a iguaria em eventos especiais, sempre com muito respeito aos sentimentos aviários.
Mas o cheddar e o bacon estavam bons para cacete e eu comi batata frita como se fosse coração de galinha, mas sem ter que matar nenhuma galinha sequer para aproveitar uma farta porção.
Lembro-me de rir muito e de acreditar em deus, coisa que há muito não acontecia. É possível que alguém tenha colocado um pingo de substância ilícita em minha bebida quase roxa de amora que devorei com canudinhos verdes na festa chata. Porque a enormidade de respostas que obtive da vida aquela noite não me parece ser normal para um organismo, mesmo que cósmico, sóbrio. Se alguém souber o nome de tal substância, por favor, me diga, porque, só para deixar claro, não estou reclamando dos efeitos.
Em algum momento tive que fazer xixi. O espelho não me mostrava uma imagem agradável e tive a certeza de que conversara com restos alimentícios nos dentes por pelo menos quarenta minutos, sem perceber. Mas nem isso seria capaz de me parar, não àquela altura do campeonato.
Voltei à mesa onde estava você, sorrindo meio sem graça, eu juro que não sei de quê, sem nem ligar para cinta ou saia ou cabelo de Romero Britto desgrenhado. A conta já estava paga – será que falei de meu extrato bancário em voz alta? – e você me estendeu a mão como se eu já soubesse exatamente o que ia acontecer.
Fazia tempo que homem nenhum me abria a porta do carro. Não que eu sinta falta desse tipo de gesto. Acho que fico até meio sem saber o que fazer, se posso aceitar, se é feminista de minha parte, se tudo bem ou tudo mal, se devo me esconder, bater o pé, fazer discurso igualitário ou se posso só agradecer, sorrir e seguir.
Para ser bem sincera, não me lembro ao certo por qual dessas saídas optei, mas foi a correta para aquele momento, porque quando dei por mim já não vestia minhas roupas, mas não de uma maneira constrangedora. Me sentia livre e empolgada por livrar-me de tanto pano em um dia tão quente e de tanta novidade maravilhosamente regada a bebida roxa e cheddar e bacon e bolinha de queijo e um moço bonito de dentes de nuvem e lábios macios como algodão.
A fusão de meus cabelos desgrenhados com sua barba proposital e perfeitamente por fazer resultou em horas de montanha-russa norte-americana, daquelas aproveitadas por crianças e pré-adolescentes de classe média alta que não têm ainda noção do privilégio que têm em relação a mais de três quartos da população que jamais terá a oportunidade de se divertir de tal maneira.
Não que as brincadeiras de rua, pipa, bola, pega-pega, esconde-esconde não tenham sua graça. Mas só quem já sentiu o cheiro gringo do aeroporto de Orlando e esperou por horas na fila cheia de distrações de uma atração da Disneylândia sabe o frio na barriga que dá quando o funcionário que não fala seu idioma dá dicas de segurança e você não sabe muito bem se a trava da sua cadeira está suficientemente presa e se você corre o risco de cair de lá de cima como um saco de batatas pesado, sem cheddar nem bacon, para acabar sua vida como fumaça de uma cinza mal batida de um cigarro fumado por pura falta de força de vontade, mas aproveita o passeio mesmo assim, porque o desespero agoniante da adrenalina que corre nas veias vale a pena, como nunca antes.
E eu fiquei com medo de engravidar. Não me lembro se tinha camisinha. Mas imaginei o rosto daquele fruto que nasceria de meu ventre com suas covinhas sutis e nome chique. Chamaria Theodoro, talvez, se menino. Se menina, Antonella ou Antonieta. Antonieta Bertram, esses nomes de gente que já nasce fadada ao sucesso, à fama, à riqueza. Que Antonella nenhuma se vê jogada às traças, vestindo roupas sem marca ou preocupada com a cinta modeladora, com a raiz escura do cabelo ou  com o fato de comer mais bolinho de queijo do que o recomendado pela nutricionista holística.
Deitei ao seu lado e o teto que, graças ao bom deus, não tinha espelho, transformou-se em miragem de conto de fadas. A cor creme meio bege, meio cor de burro quando foge, meio abajur cor de carne, meio sem graça, era pradaria verde-limão em que lindos veados, raposas e búfalos corriam sem se preocupar com extinção ou predadores ou alimento. Um mundo novo feito do zero em que todas as espécies eram amigas e todos os amigos eram leais, diferentemente daquela vaca, que traiu minha confiança quando eu menos esperava. E por conta dela fui parar naquela festa chata de drink de amora cheio de substância ilícita e onde conheci o amor da minha vida. No caso, você.
Vestir-se, depois de despir-se, não é, exatamente, a situação mais confortável que quem não ama em absoluto seu próprio corpo pode passar. Aqueles três pulinhos que tem que dar para fazer a meia-calça entrar não devem ser bonitos nem quando reproduzidos pela modelo mais linda do mundo das modelos. Mas sair pelada me pareceu um pouco mais estranho, então me joguei na ideia de fingir que não ligava e agi com a naturalidade que tenho, a mesma de quando disfarcei, sem sucesso, não estar engasgada com o palito da coxa-creme.
Quando você me pediu para anotar meu número em seu celular, não contive a alegria, mas também não pude deixar de notar que usava um sistema iOS do qual eu, em minha ignorância Android, não sabia muito bem manejar.
Já tive iPhone, quando começou a ser moda. E confesso que não tinha problemas ou sugestões a acrescentar, mas a bateria que passou a durar pouco, a memória pior que a minha, que não me deixava nada registrar, começou a me tirar do sério. Na hora de comprar outro aparelho, o dinheiro para uma nova obra de Jobs poderia servir para pagar muitas parcelas do meu cartão de crédito estourado de luxos como sobreviver, então parti para outro mundo, um universo sofredor de muito preconceito, mas que aceita cartão de memória e que fica ligado o dia inteiro.
Minha vida mudou. Comecei um movimento militante de esquerda, defensor dos direitos dos oprimidos. É claro que as minhas fotos ficam tão boas quanto às suas, vítima do consumismo desenfreado. Olha só quantas curtidas tive no Instagram!
Meu touch é tão bom quanto o seu e… ai, deus, como faz para mexer nisso mesmo? Será que o sistema iOS é tipo a roupa do rei? Só os escolhidos por Steve conseguem lidar. Entrei na sua agenda de contatos ou isso é sua conta corrente? Quanto número, meu deus.
Não sei se foi o drink roxo ou as voltas na montanha-russa, mas acho que me deu um leve enjoo. Apertei mil botões como quem está preso no elevador com vizinhos que não gostam de falar sobre amenidades, como o tempo. Acho que modifiquei o contato da sua mãe. Os primeiros quatro números são meus, os últimos cinco são dela. No complexo de édipo, é sempre o progenitor que ganha mesmo.
Me embananei toda e o frágil aparelho escorregou da minha mão. Enquanto a tela rodopiava com a palavra “mamy” estampada de brilho intenso, meus desengonçados dedos tentavam, em vão, salvar o dia. Berrei por dentro, rasguei a saia, vomitei bolinhas de queijo com gosto de amora, baguncei o cabelo e perdi, janela abaixo, os poucos cigarros que me restavam. Enrolei a cinta bege, enfiei o resto da dignidade na bolsa e, saída de minha bolha de ilusão e fantasia, encarei o ponto de ônibus lotado de gente desinteressante que toma bebidas de má qualidade e conversa sobre amenidades fora do elevador.
Terminei a quarta e a quinta temporada da série chata, sobre a qual não serei capaz de comentar em minha vida social inexistente, busquei na internet do meu Android receitas roxas de bebidas ilícitas, mas ainda não consegui atingir a perfeição daquela combinação de ingredientes eximiamente selecionados pelas pessoas metidas daquela festa chata na qual te conheci e te ganhei.
Passei por diversas vezes na frente do ponto de ônibus lotado de gente desinteressante e busquei desesperadamente por um pedaço de iPhone no meio da rua, onde passavam carros, dirigidos por homens que já não abrem portas a moça nenhuma, mesmo quando de cinta modeladora e cabelo moldado pela genética e não pintado de quadro brega, como o meu estava naquele dia em que te perdi.
A vida seguiu correndo como uma gazela em pradarias verde-limão, enquanto eu lamentava minha falta de sorte, mesmo na sorte, no caminho para o trabalho que não amo, mas também não odeio.
Steve Jobs morreu, mas o produto de design incrível e tecnologia revolucionária seguiu atraindo malucos vítimas do consumismo desenfreado que lotam fachadas de lojas brancas, enfeitadas com uma maçã mordida às cinco horas da manhã de uma segunda-feira gelada para serem os primeiros a ter acesso às novidades de lançamentos que em pouquíssimo tempo se tornarão obsoletos.
Pensei em você e em como, por uma bobagem, jamais voltarei a ver dentes tão de nuvem e lábios tão de algodão. Procurei-te em muitas barbas não tão perfeitamente por fazer, mas me contentei com uma nova dieta, que não exclui bolinhas de queijo quando em fumódromos de festas que eu não deveria frequentar, juntando moedas para engordar o triste retrato de minha conta bancária. Assim, quem sabe, um dia, de novo, terei a oportunidade de sentir o frio na barriga enquanto espero minha vez no brinquedo da Disney e aí sim compreendo o privilégio que tenho em relação a mais de três quartos da população que brinca de bater bola no quintal e nunca sentirá a adrenalina de rodopiar com um cinto do qual não se tem certeza da segurança em outro idioma, mas que valerá a pena como nunca antes.

Madrigal

É novo, é diferente, é azul.
Clarão no meio da nuvem preta. Espessa, horrenda.
Mas é claro que não é simples. E precisa entender sinal de fumaça.
Desvenda, descobre, confunde-se.
Funde-se. Inunde-se. Nude-se.
Meça-se. Interessa-se. Prega-se.
Convença-se. Pensa-se. Unge-te.
Questiona-se. Apaixona-se. Esqueça-se.
Finja-se. Deixe-se. Beije-se.
Fecha-se. Abra-se. Voe-se.
Ecoe-se. Sorria-se. Imagina-te.
Realiza-se. Acredita-se. Age-se.
Mexa-se. Declare-se.
Case-se. Seja. Feliz.

Embriaguez

Maria começou a sentir tudo aquilo novamente. O tremelique que dá nas pernas, a vontade de berrar e chorar ao mesmo tempo que ri. E comer ao mesmo tempo que não sente fome e dormir quando o sonho atinge a gente com os olhos bem abertos.
Quando Maria pensou em parar, o sistema nervoso já não respondia à razão, que já não comandava o cérebro, que não tinha controle nenhum sobre os pés. E correu. Dançou pelada na chuva. Caminhou lentamente até o precipício e se atirou, sabendo que do chão não passaria.
Maria perdeu o medo. Do escuro, de nadar, de altura. Maria perdeu o medo de temer, temendo ter a certeza de que aquela sensação, que a acometia fervorosamente sem margem para acordos ou um diálogo sequer, resultaria em uma grande ressaca. Catuaba misturada com jurupinga, mistura com vodka, misturada com saquê. A dor de cabeça que não passa com remédio, que não melhora com fritura, que não aceita nem água, nem limão, nem nada. Estômago seco que contrai sem relaxar, que vomita tudo que já não tem. Que derruba, quase mata.
Mas catuaba, quando misturada com jurupinga, vodka e saquê dá um barato que Maria já conhecia. E Maria aproveitou. Maria o copo inteiro virou. Ah, Maria não se preocupou com pudor. Maria se embebedou.
Piruetas, risos fácies, humor matinal. Nenhuma notícia trágica era capaz de lhe fazer mal.
Quando Maria a sobriedade retomou, foi aí que o pesadelo, de novo, começou.
Nocaute como uma remada na cabeça.
Maria um banho tomou. O rímel pelo box escorreu e Maria, sofrida, nem percebeu. Alguém perguntou se Maria se arrependeu e com a resposta esse alguém se surpreendeu. Maria não se lamentou. Maria amou, Maria viveu.

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